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Estudo sobre Neemias 1: a notícia, o choro e a oração

Por Bíblia Online  - 
Homem barbado com túnica antiga segura um pergaminho diante de operários construindo uma muralha

Quem foi Neemias

Neemias era copeiro do rei da Pérsia — o homem que provava o vinho antes de o rei beber, e por isso alguém a quem o rei confiava a própria vida. Em 445 a.C., ele deixou esse posto em Susã para reconstruir o muro de Jerusalém, que estava no chão havia quase um século e meio, e terminou a obra em 52 dias. O livro que leva o nome dele conta essa história em primeira pessoa, quase como um diário, e é dali que saem as "lições de Neemias" que tanta gente procura: oração antes da ação, planejamento, trabalho dividido, vigilância, foco e honestidade.

Vale situar a data. Jerusalém tinha sido destruída pelos babilônios em 586 a.C. Décadas depois, grupos de judeus voltaram do exílio — Zorobabel reergueu o templo, Esdras ensinou a Lei. Mas a cidade continuava sem muro, e cidade sem muro, naquele mundo, era cidade indefesa.

Neemias 1: a notícia e a oração

O capítulo começa com data e lugar: mês de Quisleu, vigésimo ano de Artaxerxes, fortaleza de Susã (Neemias 1:1). Hanani, irmão de Neemias, chega da Judeia, e Neemias pergunta pelos judeus e pela cidade. A resposta:

Eles me informaram: "Aqueles que sobreviveram ao cativeiro e estão vivendo lá na província passam por grande tribulação, privação e humilhação!"(Neemias 1:3)

Gente em "grande miséria e desprezo", muro "fendido", portas "queimadas a fogo". A notícia não era nova — o muro estava assim há gerações. O que atinge Neemias é ouvir aquilo de quem acabou de ver com os próprios olhos. A reação dele é o versículo-chave:

Tendo ouvido este relato, assentei-me e chorei amargamente, lamentei por alguns dias; e coloquei-me em jejum e oração diante do Deus dos céus.

Antes de qualquer plano, há um homem sentado chorando por uma cidade onde ele nunca morou.

A oração que vem em seguida (Neemias 1:5-11) é uma das mais longas do Antigo Testamento, e vale notar como está montada. Começa reconhecendo quem Deus é (1:5). Passa à confissão — e não é o pecado "deles": "eu e a casa de meu pai pecamos" (1:6). Lembra a Deus da própria palavra a Moisés (1:8-9), uma referência direta a Deuteronômio 30. Só no fim vem o pedido, e é curto: êxito "hoje" diante de "este homem" (1:11).

E o capítulo fecha com a frase que explica tudo: "Eu era copeiro do rei." Homem assim não deixa a corte sem autorização, e "este homem" da oração é Artaxerxes. A ordem — dor, oração, confissão, só depois projeto — está no texto, não na leitura.

7 lições de Neemias

1. A oração veio antes do pedido — e durou quatro meses

Neemias 1 acontece em Quisleu; Neemias 2:1 abre em Nisã, ainda no vigésimo ano do rei. São quatro meses entre o choro e a conversa com Artaxerxes, e o texto não explica a demora. Quando a conversa acontece, é o rei que puxa o assunto, ao notar o rosto triste do copeiro (2:2). Neemias conta que teve medo, explica o motivo, e quando o rei pergunta o que ele quer:

Então, o rei me perguntou: "O que estás desejando me pedir?" E, neste instante fiz uma rápida oração ao Deus dos céus,(Neemias 2:4)

Uma oração entre a pergunta do rei e a resposta do copeiro, sem tempo nem para fechar os olhos. Quatro meses de oração longa prepararam um segundo de oração curta.

2. Ele pediu com lista na mão

Neemias não pediu "ajuda". Pediu prazo de ausência, cartas de passagem para os governadores além do Eufrates e uma carta a Asafe, guarda do bosque do rei, liberando madeira para as portas da fortaleza do templo, para o muro e para a casa onde ia morar (Neemias 2:6-8). Sabia quanto precisava e de onde viria. E atribui o sim do rei à "boa mão do meu Deus sobre mim" (2:8). Oração e planilha não brigam no livro de Neemias — a planilha é parte da resposta à oração. A conversa inteira está em Neemias 2.

3. Ele olhou antes de falar

Em Jerusalém, Neemias ficou três dias sem anunciar nada. Depois saiu de noite, com poucos homens, e percorreu o muro caído sem que sacerdotes ou nobres soubessem (Neemias 2:11-16). Só então reuniu os líderes: "Vinde, e reedifiquemos o muro de Jerusalém" (2:17). O texto não explica o segredo. Comentaristas da tradição evangélica costumam ler aí prudência: diagnóstico antes de discurso, e nenhum tempo para a oposição se organizar. É uma leitura razoável, mas é leitura.

4. Cada um construiu diante da própria casa

Neemias 3 é um capítulo que muita gente pula, porque é uma lista de nomes e trechos de muro. Mas a lista é a lição. Ali estão o sumo sacerdote Eliasibe (3:1), ourives e perfumistas (3:8), Salum e as filhas dele (3:12), comerciantes (3:32). E uma expressão se repete: fulano reparou o trecho "defronte da sua casa" (3:23, 3:28-29). Cada família cuidou do pedaço que protegeria a própria porta — o que ajuda a entender os 52 dias. Vale correr os olhos por Neemias 3 só para ver a variedade de gente.

5. Uma mão na obra, a outra na arma

Com o muro na metade da altura, a oposição passou da zombaria — Tobias disse que uma raposa derrubaria aquele muro (Neemias 4:3) — à ameaça de ataque (4:7-8). A resposta de Neemias vem em dois tempos: "oramos ao nosso Deus e pusemos guarda" (4:9). Depois ele reorganizou o trabalho: metade construía, metade vigiava, e os que carregavam material faziam as duas coisas ao mesmo tempo, uma mão na obra e a outra na arma (4:17). Um trombeteiro ficava ao seu lado para reunir o povo onde fosse preciso (4:18-20), e ninguém tirava a roupa para dormir (4:23). A cena inteira está em Neemias 4.

Um pedreiro assenta pedras num muro enquanto um guarda armado de lança vigia ao lado.

A lição — oração e precaução não se excluem — está bem apoiada, porque o próprio Neemias as coloca na mesma frase.

6. Ele enfrentou a injustiça dentro de casa

No meio da construção, o livro para. Havia fome, e famílias pobres tinham hipotecado campos e vinhas, e até entregado filhos como escravos, para pagar dívidas com juros aos próprios irmãos judeus (Neemias 5:1-5). Neemias ficou "muito irado" (5:6), reuniu os nobres em assembleia e exigiu que devolvessem terras, casas e juros naquele mesmo dia (5:11). Eles concordaram. Ele mesmo, nos doze anos como governador, não comeu "o pão do governador" — a verba do cargo —, embora alimentasse mais de 150 pessoas à sua mesa (5:14-18). O motivo:

Entretanto, os governadores anteriores, aqueles que me precederam, haviam colocado uma carga pesada de tributos e impostos sobre a população, tomando do povo, todos os dias, quatrocentos e oitenta gramas de prata, além de comida e vinho. Até os seus servos passaram a oprimir e espoliar o povo. Contudo, por amor e honra a Deus não agi desta mesma maneira para com a população.(Neemias 5:15)

Repare onde o episódio está: entre a ameaça externa do capítulo 4 e as armadilhas do capítulo 6. Muro nenhum vale se, do lado de dentro, irmão explora irmão.

7. "Não posso descer"

Com o muro quase fechado, Sambalate e Gesém convidaram Neemias para uma reunião na planície de Ono — e ele registra que "intentavam fazer-me mal" (Neemias 6:2). A resposta ficou famosa:

por essa razão enviei-lhes mensageiros com esta explicação: "Estou executando um grande projeto e não posso descer agora. Afinal, por que eu deveria parar minhas obrigações e deixar a obra para encontrar-me convosco?"(Neemias 6:3)

Foram quatro convites com a mesma resposta (6:4), uma carta aberta acusando-o de querer se fazer rei (6:5-7) e um certo Semaías pago para convencê-lo a se esconder no templo (6:10-13). Neemias percebeu cada um. O muro ficou pronto no dia 25 de Elul, em 52 dias, e até os inimigos reconheceram que aquela obra "fora feita pelo nosso Deus" (6:15-16).

Aqui é preciso cuidado com a aplicação. O texto não ensina que toda reunião é armadilha. Mostra um homem que conhecia seus adversários e não interrompeu uma obra concreta por convites sem motivo claro. Daí para "blindar o foco contra distrações" vai um passo que é nosso, não do texto.

O que o livro conta depois do muro

Os capítulos 7 a 13 são menos citados, mas são metade do livro. Neemias organiza um censo (7), Esdras lê a Lei em público e o povo chora ao ouvi-la (8) — é dali que vem "a alegria do Senhor é a vossa força", em Neemias 8:10. Depois vêm uma confissão nacional (9), um compromisso assinado de guardar a Lei (10), a dedicação do muro (12) e, no fim, Neemias voltando de viagem e encontrando o povo já quebrando o que tinha prometido (13). O muro ficou de pé; o povo, nem tanto. O livro termina com "Lembra-te de mim, meu Deus, para bem" (13:31) — o mesmo tom da oração do capítulo 1.

Tudo — as cartas, a madeira, as famílias no muro, a lança na mão, o "não posso descer" — começou com um homem sentado chorando em Susã por uma cidade que nunca tinha visto. Antes de tirar as lições, leia Neemias 1 completo: é onde o resto do livro já está contido.

Neemias e Esdras viveram na mesma época?

Sim. Esdras chegou a Jerusalém em 458 a.C., no sétimo ano de Artaxerxes (Esdras 7:7-8), e Neemias em 445 a.C., no vigésimo ano (Neemias 2:1). Os dois aparecem juntos em Neemias 8. Na Bíblia hebraica, Esdras e Neemias formavam um único livro.

Quantos dias levou a reconstrução do muro de Jerusalém?

Cinquenta e dois dias, segundo Neemias 6:15. Não foi construção do zero: os judeus repararam brechas e refizeram portas de um muro cujas fundações já existiam (Neemias 2:13; 4:7).

Quem escreveu o livro de Neemias?

Boa parte está em primeira pessoa e se apresenta como "as palavras de Neemias, filho de Hacalias" (Neemias 1:1). A tradição judaica atribui a edição final a Esdras; muitos estudiosos falam de um compilador posterior. A autoria exata não é afirmada no texto.

Neemias era profeta ou sacerdote?

Nem um nem outro. Era um funcionário civil, copeiro do rei da Pérsia (Neemias 1:11), e depois governador de Judá (Neemias 5:14) — um leigo liderando uma obra que sacerdotes e profetas não tinham conseguido mover.

O que significa "a alegria do Senhor é a vossa força"?

A frase está em Neemias 8:10, dita ao povo que chorava ao ouvir a Lei. No contexto, é um chamado a parar de chorar e celebrar, porque o dia era santo. "Alegria do Senhor" pode ser lida como a alegria que vem de Deus ou a alegria que se tem no Senhor; as duas leituras são defensáveis, e nenhuma transforma o versículo em promessa de que o crente nunca vai se sentir fraco.

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