Como orar pelos governantes e autoridades segundo a Bíblia
Orar pelas autoridades: o que é e como começar hoje
Orar pelas autoridades é levar a Deus, pelo nome, as pessoas que decidem sobre a vida de todo mundo — presidente, governador, prefeito, juiz, vereador — e pedir que governem com justiça, para que a cidade tenha paz e a igreja possa viver sua fé em sossego. Quem pede isso é Paulo, em 1 Timóteo 2:1-2, e ele pede sem perguntar antes se o cristão gosta de quem está no cargo.
Recomendo-te, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, petições, acções de graças por todos os homens,
pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que levemos uma vida sossegada e tranquila, em toda a piedade e dignidade.(1 Timóteo 2:1,2)
Para começar agora, não precisa de método: pegue o nome de uma autoridade (o prefeito da sua cidade serve), agradeça a Deus por uma coisa que funciona onde você vive e peça que essa pessoa governe com justiça e sabedoria. Pronto, você já orou pelas autoridades. O resto deste guia explica por que fazer isso, o que pedir, e como transformar esse gesto numa prática que sobrevive à notícia ruim da semana.
O que Paulo pediu — e o que ele não pediu
Vale olhar as palavras com calma, porque elas corrigem dois erros comuns. Paulo usa quatro termos: súplicas, orações, intercessões e ações de graças. "Súplica" é pedido por uma necessidade concreta. "Intercessão" é falar com alguém em favor de outro — a palavra que se usava para quem pedia audiência com um rei por causa de um terceiro. E "ações de graças" significa agradecer. Agradecer por governantes.
Olha o contexto disso. Quando Paulo escreveu essa carta, por volta do ano 62 a 64, o imperador em Roma era muito provavelmente Nero. Não era um governante que um cristão de Éfeso escolheria. Mesmo assim, o apóstolo não manda Timóteo pedir que Deus derrube o imperador, nem autoriza a igreja a se calar e esperar. Manda orar, e manda colocar isso "antes de tudo".
O que Paulo não pede também importa. Ele não pede que o cristão concorde com o governo, não pede que o defenda, não pede que fique quieto diante da injustiça. O alvo da oração está no versículo 2: uma vida "tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade" — e, nos versículos 3 e 4, que todas as pessoas sejam salvas, governantes incluídos. A oração pelas autoridades, no texto, é a favor da paz da cidade e da liberdade de viver a fé. Não é a favor de um partido.
Por que orar por quem você não escolheu
A objeção óbvia é esta: "mas eu não votei nessa pessoa, eu discordo dela em quase tudo". A Bíblia conhece essa situação, e numa versão bem mais dura que a nossa. Jeremias 29 é uma carta enviada aos judeus que haviam sido levados à força para a Babilônia, em 597 a.C., pelo rei Nabucodonosor. Eles não escolheram aquele governo; foram arrastados para debaixo dele. E a ordem de Deus para eles foi esta:
Procurai o bem da cidade, para a qual vos fiz deportar, e orai por ela ao Senhor, porque o seu bem será o vosso.(Jeremias 29:7)
Repare na lógica do versículo: "porque na sua paz vocês terão paz". A prosperidade da cidade — segurança nas ruas, comércio funcionando, água chegando — era a prosperidade dos exilados também. Não dá para a família cristã ir bem numa cidade que vai mal. Quem ora pela cidade está orando pela própria casa, pela escola dos filhos, pelo hospital onde os pais vão ser atendidos.
A segunda razão é mais funda: o governante não é o dono da história.
O coração do rei está na mão do Senhor como a água corrente; ele o inclinará para qualquer parte que quiser.(Provérbios 21:1)
A imagem é de irrigação. O agricultor do antigo Oriente abria canais na terra e a água ia para onde ele decidisse — não discutia, não escolhia o caminho. O provérbio diz que o coração do rei está assim na mão do Senhor. Isso não significa que todo governante faz a vontade de Deus; significa que nenhum deles foge ao controle de Deus. Quem ora com esse versículo em mente ora com menos desespero, porque não está tentando segurar o país sozinho.
Paulo e Pedro dizem o mesmo por outro ângulo: as autoridades existem por permissão de Deus (Romanos 13:1), e o cristão deve honrá-las (1 Pedro 2:17), prestar a elas o que lhes cabe (Mateus 22:21) e estar pronto para o bem na sociedade (Tito 3:1). A oração é o primeiro desses deveres, e o que torna os outros possíveis sem amargura.
Antes de começar: o que ter à mão
Você só precisa de três coisas, e nenhuma delas é um horário fixo.
Os nomes. Escreva numa folha ou no bloco de notas do celular: o presidente, o governador do seu estado, o prefeito da sua cidade. Se quiser ampliar, acrescente o juiz da comarca, o comandante da polícia local, o diretor da escola dos filhos, o chefe no trabalho — "autoridade", no uso de Paulo, é quem tem poder de decidir sobre a vida de outros, não só quem foi eleito. Não precisa saber a opinião política de ninguém da lista. Precisa saber o nome.
Uma passagem aberta. Leia antes de orar, para a oração sair do texto e não do noticiário. Três leituras curtas servem de base, e você pode alternar entre elas:
1 Timóteo 2, versículos 1 a 4 — o pedido de Paulo e o alvo dele.
Jeremias 29, versículos 4 a 7 — a carta aos exilados.
Salmo 72 — uma oração inteira pedindo que o rei governe com justiça e defenda o pobre.
Um momento que já existe. Não crie um horário novo; encaixe a oração em algo que você já faz. Muita gente usa o próprio noticiário: viu a manchete sobre o governo, orou. Outros usam a oração antes da refeição com a família, ou o trajeto para o trabalho. Cinco minutos bastam. Quem ora dez não é mais fiel do que quem ora dois; a Bíblia nunca mediu oração em minutos.
Passo a passo: o que pedir
Os passos seguem a ordem das palavras de Paulo e das outras passagens. Cada um tem uma finalidade; se você entender a finalidade, pode mudar as palavras.
1. Comece agradecendo. Antes de qualquer pedido, nomeie uma coisa concreta que funciona: a escola pública que abriu hoje, o ônibus que passou, o posto de saúde que atendeu sua mãe, a eleição que aconteceu sem violência. Por que começar aqui: a gratidão está na lista de Paulo, e ela tira o ressentimento do centro da oração. É difícil pedir sinceramente por alguém de quem você só fala mal.
2. Diga os nomes. "Senhor, oro por [nome], prefeito desta cidade." Por que: oração genérica ("abençoa os governantes") não lembra de ninguém e não compromete quem ora. O nome transforma a autoridade numa pessoa — alguém que decide cansado, pressionado e, como você, precisa de misericórdia.
3. Peça o que Paulo pede: paz e espaço para a fé. Peça que as decisões dessa pessoa resultem em segurança para quem anda na rua, justiça nos tribunais, liberdade para a igreja se reunir e anunciar o evangelho. Por que: esse é o alvo declarado em 1 Timóteo 2:2. A oração não é para que o governo seja da sua cor; é para que a cidade tenha paz e o evangelho tenha caminho.
4. Peça sabedoria e justiça para decidir. Salomão, ao assumir o trono, pediu "um coração compreensivo para julgar o teu povo" (1 Reis 3:9), e esse continua sendo o melhor pedido para quem governa. Peça que a autoridade distinga o certo do errado, não se venda, proteja o fraco. Provérbios 14:34 lembra que a justiça é o que eleva uma nação — não o PIB, não o tamanho do exército.
5. Peça pela cidade, não só pelo cargo. Aqui entra Jeremias 29:7. Nomeie o que a sua cidade precisa: emprego, hospital, escola, menos violência num bairro específico. Por que: o versículo liga a paz da cidade à paz da sua casa. É nessa parte que a oração encosta no dia a dia da família — o filho que vai estudar, o pai que vai trabalhar, a avó que depende do remédio da farmácia popular.
6. Peça a salvação de quem governa. Paulo diz que Deus "deseja que todos os homens sejam salvos" (1 Timóteo 2:4), e escreve isso logo depois de falar de reis. Por que: isso impede a oração de virar lista de reclamações. Um governante é uma alma, e a igreja ora por almas.
7. Entregue o que você não controla. Termine com Provérbios 21:1: "Senhor, o coração deste governante está na tua mão. Dirige-o como achares melhor, e dá-me paz com o que eu não posso mudar." Por que: esse passo é o que diferencia oração de ansiedade. Você fez a sua parte; o resto é de Deus.
Se ajuda ter um texto pronto para começar, este reúne os sete passos em poucas linhas — leia uma vez e depois diga com as suas palavras:
Pai, obrigado porque hoje [algo concreto] funcionou nesta cidade. Oro por [nome], que governa [cidade/estado/país]. Dá a ele sabedoria para decidir, coragem para ser justo e um coração que não se venda. Que as decisões dele tragam paz para as ruas e liberdade para a tua igreja. Cuida desta cidade: [uma necessidade real]. Alcança essa pessoa com o evangelho, como alcançaste a mim. E eu te entrego o que não posso mudar, porque o coração dos que governam está na tua mão. Em nome de Jesus, amém.
Quando você discorda — ou acha o governo injusto
Esse é o caso difícil, e a Bíblia não o esconde. Pedro escreve a cristãos espalhados pelo Império:
Tratem todos com honra, amem os irmãos na fé, temam a Deus e honrem o rei.(1 Pedro 2:17, NAA)
"Honrar o rei" foi escrito quando o rei era Nero — o mesmo imperador sob o qual, segundo a tradição cristã, Pedro foi morto. Então "honrar" não pode significar aprovar. Significa reconhecer o cargo, tratar a pessoa com o respeito devido a qualquer ser humano, e não transformar a crítica em maldição. Eclesiastes 10:20 vai no mesmo sentido: nem no quarto, em segredo, o sábio amaldiçoa quem governa.
Isso tem limite, e a própria Bíblia o traça. Quando o Sinédrio proibiu os apóstolos de pregar, Pedro respondeu que "importa obedecer a Deus mais do que aos homens" (Atos 5:29). Daniel serviu a Nabucodonosor com lealdade e se recusou a adorar a estátua dele. Honrar a autoridade e obedecer a Deus primeiro não se contradizem — e a oração é justamente o lugar onde o cristão aprende a fazer as duas coisas sem ódio.
Na prática, quando você discorda profundamente de um governante, mude o conteúdo da oração, não a decisão de orar. Peça que a injustiça venha à luz; o Salmo 72 pede exatamente isso, que o rei "faça justiça aos pobres do povo" e "esmague o opressor". Peça que a pessoa se arrependa. Peça proteção para quem sofre com decisões erradas. E peça por você mesmo — que a indignação não vire amargura, porque amargura não muda governo nenhum e estraga quem a carrega.
O que a oração não é: um pedido para que Deus elimine o adversário político. Jesus mandou orar pelos que perseguem (Mateus 5:44), e isso inclui quem persegue com caneta e decreto.
2 Crônicas 7:14 fala do Brasil?
Essa pergunta aparece em quase todo clamor pela nação, então vale responder com honestidade.
se o meu povo, sobre que foi invocado o meu nome, convertendo-se, me rogar e buscar a minha face, e fizer penitência dos seus maus caminhos, eu também o ouvirei do céu, perdoarei os seus pecados e purificarei a sua terra.(2 Crônicas 7:14)
O contexto está no capítulo 7 de 2 Crônicas: Salomão acabou de dedicar o Templo em Jerusalém, e Deus aparece a ele de noite respondendo à oração da dedicação. "Meu povo" é Israel, a nação da aliança. "A sua terra" é a terra prometida a Abraão. "Que se chama pelo meu nome" é o povo que carregava o nome de Deus de um modo que nenhuma outra nação carregava. A promessa foi feita a Israel, dentro de uma aliança específica, com um templo específico.
Isso quer dizer que o versículo não serve para o Brasil? Aqui há duas leituras entre cristãos. Alguns aplicam o texto diretamente a qualquer país que se volte para Deus, como uma promessa nacional. A leitura histórico-gramatical — que é a adotada neste guia — é mais cuidadosa: a promessa, na letra, é a Israel; o que atravessa os séculos é o princípio por trás dela. E o princípio é este: quando o povo de Deus se humilha, ora e abandona o pecado, Deus ouve. No Novo Testamento, o "povo de Deus" é a igreja, não uma nação com fronteiras (1 Pedro 2:9-10). Então o versículo chama a igreja brasileira ao arrependimento antes de chamar o Brasil.
O mesmo cuidado vale para Salmos 33:12: a nação feliz ali é, em primeiro lugar, Israel, "o povo que ele escolheu". Mas o princípio de que uma sociedade que teme a Deus vive melhor não é exclusivo de Israel, e Provérbios 14:34 o afirma para qualquer nação. E Salmos 2:8 dá a razão final da esperança: Deus prometeu as nações como herança ao seu Messias. O Brasil não está fora dessa promessa, porque ela não depende de governo nenhum — depende de Cristo.
Então, se você quer usar 2 Crônicas 7:14 no clamor pelo país, use assim: como convite à igreja para se humilhar e orar, não como garantia de que a economia vai melhorar se bastante gente orar.
Como manter a prática viva
Uma oração pelas autoridades que acontece uma vez, na eleição ou na crise, não é o que Paulo tinha em mente. "Antes de tudo" aponta para algo regular. Algumas formas de adaptar:
Em família. Na oração da refeição, uma vez por semana, alguém escolhe uma autoridade da lista e ora por ela em uma frase. As crianças aprendem, sem sermão, que governante é gente por quem se ora — não só gente de quem se fala mal na mesa.
Em grupo ou célula. Reservem um encontro por mês para orar pela cidade com Jeremias 29:7 aberto. Levem necessidades concretas do bairro, não só manchetes nacionais.
Sozinho. Mantenha a lista de nomes no celular e atualize quando mudar o governo. Quando uma notícia sobre uma dessas pessoas aparecer, ore ali mesmo, em uma frase. Esse hábito transforma o noticiário de fonte de ansiedade em lembrete de oração.
Quando parar. Você vai esquecer por semanas, talvez meses. Isso não diz nada sobre a sua fé; diz que a vida é cheia. Para retomar, volte ao passo 1 — agradeça por uma coisa que funciona — e siga. Não precisa recuperar o tempo perdido; Deus não cobra atraso de oração.
E volte de vez em quando ao texto que começou tudo. Leia 1 Timóteo 2:1-7 inteiro, com calma, e repare em como Paulo passa das autoridades para o próprio Cristo, "o único mediador entre Deus e os homens". A oração pelos que governam, no fim, descansa nisso: há um rei acima de todos os reis, e ele já intercede por nós.
Devo orar por um governante que considero corrupto?
Sim. Paulo e Pedro escreveram seus pedidos sob Nero, um imperador sem nenhuma virtude cristã. O conteúdo da oração muda — você pede que a corrupção venha à luz, que a pessoa se arrependa, que os prejudicados sejam protegidos —, mas a decisão de orar não muda. Oração não é endosso; é intercessão.
Posso orar para que Deus tire alguém do poder?
A Bíblia não proíbe pedir mudança de governo, e os salmos pedem com frequência que Deus derrube opressores. O que ela proíbe é amaldiçoar a pessoa (Eclesiastes 10:20) e desejar o mal dela. Uma forma fiel de pedir: "Senhor, se este governo é injusto, muda-o; se esta pessoa precisa sair, tira-a; e, acima de tudo, faze justiça". E entregue o resultado a Deus (Provérbios 21:1).
Orar pelas autoridades é a mesma coisa que apoiar o governo?
Não. O alvo da oração em 1 Timóteo 2:2 é a paz da sociedade e a liberdade de viver a fé, não o sucesso de um governo. Cristãos de posições políticas opostas podem orar juntos por isso. Quem transforma a oração pelas autoridades em propaganda partidária está usando o texto para o que ele não foi escrito.
"Autoridades" inclui chefe, pastor e pais?
O termo de Paulo aponta primeiro para governantes civis — "reis e todos os que exercem autoridade". Mas o princípio se estende a quem decide sobre a vida de outros: chefes, diretores, juízes, líderes de igreja. A Bíblia pede oração por líderes espirituais em outros lugares (Hebreus 13:17-18), e orar pelo chefe segue a mesma lógica de Jeremias 29:7: a paz do lugar onde você trabalha é a sua paz também.
Existe uma oração pronta pela nação?
A Bíblia não traz uma fórmula, mas traz modelos: o Salmo 72 é uma oração pelo rei; Daniel 9 é uma confissão em nome do povo inteiro; Jeremias 29:7 é uma ordem que vira oração ao ser dita a Deus. O modelo curto deste guia reúne os pedidos de 1 Timóteo 2:1-4 e pode ser adaptado com os nomes e as necessidades da sua cidade.
Este artigo te tocou? Faça uma oração!
+581 estão orando agora.
Junte-se à corrente de oração.