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O mês de Maria: a importância da oração em maio

Por Bíblia Online
Pessoa sentada no peitoril de uma janela, abraçando os joelhos, com a mão na boca.

Por que maio é o mês de Maria

Na Igreja Católica, maio é dedicado a Maria, mãe de Jesus, por uma razão mais simples do que parece: na Europa, onde a devoção nasceu, maio é o mês da primavera e das flores, e os fiéis passaram a levar essas flores à imagem de Maria e a rezar o terço todos os dias durante o mês. O costume ganhou forma na Itália do século XVIII e se espalhou pelo mundo católico. No Brasil, virou o mês das novenas, do terço em família e da coroação de Nossa Senhora, em que crianças colocam uma coroa de flores sobre a imagem.

A ligação com a oração está no modo como a Igreja Católica entende Maria: a primeira a dizer sim a Deus e a que mais de perto acompanhou Jesus. O mês existe para que as pessoas orem mais, tomando essa mulher como exemplo de quem ouve a Palavra e responde.

Vale dizer logo o que a Bíblia não faz: ela não dedica mês nenhum a Maria, nem a ninguém. O mês de maio é tradição da Igreja, com história datável, e isso importa para entender por que católicos o observam e evangélicos não. Mas a Maria que a tradição homenageia está na Bíblia, e o que o texto conta sobre ela é mais interessante do que a imagem parada no altar.

De onde veio a tradição

A ideia de ligar Maria ao mês de maio é antiga. Já no século XIII, cantigas da Espanha medieval celebravam Maria junto com a chegada da primavera. Mas o "mês de Maria" como prática organizada — um mês inteiro de oração diária em honra a ela — aparece bem depois.

Costuma-se apontar o jesuíta italiano Annibale Dionisi, que publicou em 1725 um livrinho propondo exercícios de devoção para cada dia de maio. Outro jesuíta, Alfonso Muzzarelli, escreveu em 1785 Il mese di Maria, que foi traduzido e levado pelos jesuítas a toda a Europa. Em 1815, o papa Pio VII concedeu indulgências a quem fizesse a devoção, e a partir daí ela entrou no calendário popular católico.

No século XX, o papa Paulo VI dedicou ao tema uma carta inteira, a Mense Maio (1965), em que chama maio de mês em que "sobe mais fervorosa" a oração dos fiéis. Repare no detalhe: o documento não pede devoção a Maria em si, pede oração — Maria é apresentada como o caminho para orar melhor.

O que acontece em maio: terço, novena e coroação

Três práticas marcam o mês, e muita gente que busca este assunto quer saber o que cada uma é.

O terço. É a oração mais associada ao mês. Quem reza percorre as contas repetindo o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória, enquanto medita em cinco cenas da vida de Jesus e de Maria — os chamados mistérios: a anunciação, o nascimento em Belém, a crucificação, a ressurreição, e assim por diante. O rosário completo são vinte mistérios, divididos em quatro grupos; o terço é um grupo, cinco mistérios, e é o que se reza por dia. A Ave-Maria, aliás, é feita de dois versículos: a saudação do anjo em Lucas 1:28 e as palavras de Isabel em Lucas 1:42, seguidos de um pedido de intercessão que já não é texto bíblico.

A novena. São nove dias seguidos de oração com uma intenção definida, muitas vezes rezados em casa ou na comunidade, com leitura bíblica, cânticos e o terço. O número nove vem dos nove dias entre a ascensão de Jesus e Pentecostes, em que os discípulos ficaram orando juntos em Jerusalém.

A coroação. É o momento mais visível do mês, em geral nas paróquias do Brasil e de Portugal. Crianças vestidas de branco levam flores em procissão até a imagem de Maria e uma delas põe sobre a cabeça da imagem uma coroa de flores, enquanto a assembleia canta. O gesto quer dizer que Maria é reconhecida como "bendita entre as mulheres" — a frase de Isabel em Lucas 1.

Criança de uniforme coroa com flores uma estátua de santa, e colegas esperam com buquês.

O calendário católico fecha o mês com a festa da Visitação, em 31 de maio, que celebra justamente o encontro de Maria com Isabel — o episódio em que ela canta o Magnificat. Ou seja, o mês termina na passagem que vamos ler agora.

A Maria da Bíblia perguntou antes de dizer sim

Olha, aqui é onde a imagem do altar e o texto se afastam um pouco. Costuma-se dizer que Maria aceitou tudo sem questionar. Não foi isso que Lucas registrou.

Quando o anjo anuncia que ela terá um filho, a primeira reação de Maria é uma pergunta:

E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, visto que não conheço varão?(Lucas 1:34)

Ela quer entender. Não está casada, não houve relação com homem nenhum — como isso vai acontecer? E o anjo responde, explicando que o Espírito Santo virá sobre ela e apontando Isabel, a parente idosa que também engravidou, como sinal de que "para Deus nada é impossível".

Vale comparar com Zacarias, no mesmo capítulo. Ele também pergunta ao anjo — e fica mudo até o filho nascer (Lucas 1:18-20). A diferença não está em perguntar ou não perguntar. Zacarias pede uma prova porque não acredita; Maria pergunta como aquilo vai se dar porque está disposta a entrar nisso e quer saber onde está pisando. Só depois da resposta ela diz a frase que a tradição guardou:

Disse, então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela.

"Eis aqui a serva do Senhor" é a frase de alguém que ouviu, entendeu o suficiente e entregou o resto. Isso é oração no sentido mais bíblico: não é fechar os olhos para a dúvida, é levar a dúvida a Deus e, ouvindo a resposta, consentir. Se o mês de maio propõe Maria como modelo de oração, este é o modelo — a pergunta honesta seguida do sim.

O Magnificat: a oração que Maria rezou

Dias depois, na casa de Isabel, Maria canta. O cântico ocupa Lucas 1:46-55 e a igreja o chama de Magnificat, pela primeira palavra em latim ("engrandece"). Começa assim:

Disse, então, Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,(Lucas 1:46,47)

Repare para quem ela fala. A oração de Maria é dirigida a Deus, a quem ela chama de "meu Salvador". Ela se coloca entre os que precisam de salvação, não acima deles. Em seguida diz que Deus "atentou na baixeza da sua serva" e que, por isso, todas as gerações a chamarão bem-aventurada (Lucas 1:48) — a razão da honra está no que Deus fez, não no que ela é.

O resto do cântico quase não fala dela. Fala de Deus derrubando poderosos, exaltando humildes, enchendo famintos e lembrando-se de Abraão. Quem conhece o Antigo Testamento ouve ali o cântico de Ana, mãe de Samuel (1 Samuel 2:1-10), e vários Salmos. Maria orou com as palavras que já tinha decorado da Escritura. Isso diz muito sobre como aprender a orar: a gente ora bem quando tem a Bíblia na memória.

Maria aparece orando com a igreja

Há mais um lugar onde a Bíblia mostra Maria em oração, e ele costuma passar despercebido. Depois da ascensão de Jesus, os discípulos voltam a Jerusalém e ficam reunidos esperando o Espírito Santo:

Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com seus irmãos.(Atos 1:14)

Lucas faz questão de nomear Maria entre os que "perseveravam unânimes em oração". Ela não está à parte, recebendo orações; está no meio do grupo, orando junto com os outros. É a última vez que o Novo Testamento a menciona por nome, e ela está rezando com a igreja — curiosamente, nos nove dias que a novena imita.

O que a Bíblia diz sobre honrar Maria — e onde cristãos divergem

A Bíblia honra Maria, e nenhum cristão discute isso. O anjo a chama de "agraciada" (Lucas 1:28), Isabel a chama de "bendita entre as mulheres" e de "mãe do meu Senhor" (Lucas 1:42-43), e ela mesma prevê que será chamada bem-aventurada por todas as gerações. Quem fala de Maria com desprezo está contra o texto.

A divergência começa no passo seguinte: o que fazer com essa honra. A Igreja Católica entende que Maria, viva junto de Cristo, pode interceder pelos fiéis, e por isso dirige orações a ela pedindo que rogue a Deus — é o que o terço faz. A tradição evangélica, que é a desta casa, lê os mesmos textos e para antes disso: honra Maria como a mulher mais bendita da história, mas dirige a oração só a Deus, por meio de Jesus, apoiando-se em passagens como 1 Timóteo 2:5, que fala de um só mediador entre Deus e os homens. Lutero, vale notar, escreveu um comentário inteiro sobre o Magnificat e tinha Maria em alta estima; o que ele recusava era a oração dirigida a ela.

Um episódio de Lucas ajuda a ver onde Jesus põe o peso. Uma mulher na multidão grita elogiando a mãe dele, e Jesus responde:

E aconteceu que, dizendo ele essas coisas, uma mulher dentre a multidão, levantando a voz, lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste! Mas ele disse: Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.(Lucas 11:27,28)

Ele não nega a bênção da mãe — "antes" aqui é "mais ainda", não "pelo contrário". Mas redireciona a atenção: o que faz alguém bem-aventurado é ouvir a palavra de Deus e guardá-la. E isso foi exatamente o que Maria fez em Lucas 1. A honra que Jesus reconhece nela é a honra de quem obedeceu.

É nesse ponto que católicos e evangélicos conseguem se encontrar, mesmo divergindo sobre a intercessão: a Maria da Bíblia é honrada porque apontou para Deus, não para si. A última instrução que ela dá a alguém no Evangelho é em Caná: "Fazei tudo quanto ele vos disser" (João 2:5).

Como orar em maio na prática

Se a pessoa é católica e vai fazer o mês de Maria, o terço diário já dá a estrutura. Se não é, ou se quer ir além da repetição, o mês ainda pode ser um bom período para uma disciplina que a Bíblia pede o ano inteiro — e Maria serve de guia para o jeito de fazer.

Marque uma hora fixa. O mês de Maria funciona porque é diário. Quem ora "quando dá" ora pouco. Vinte minutos no mesmo horário fazem mais do que uma hora de vez em quando.

Leia Lucas 1 e 2 devagar. São os dois capítulos em que Maria aparece com mais detalhe. Leia um trecho por dia e observe o que ela faz: pergunta, consente, canta, guarda as coisas no coração (Lucas 2:19).

Ore com os Salmos. Maria rezou com palavras que tinha decorado. Um Salmo por dia, lido em voz alta, ensina o vocabulário da oração — louvor, queixa, pedido, confiança.

Diga o sim. O centro da oração de Maria foi "faça-se em mim segundo a tua palavra". Terminar cada tempo de oração com uma frase assim, dita de verdade sobre o que está acontecendo na sua vida, é o que distingue oração de leitura.

Vigie. Jesus pediu aos discípulos que vigiassem e orassem para não cair em tentação (Mateus 26:41). Um mês de oração mais intensa é também um mês de prestar atenção onde a gente costuma escorregar.

Para terminar

O mês de Maria é uma tradição de três séculos; a Maria que ele homenageia é mais antiga e mais viva do que a tradição. Ela perguntou ao anjo o que não entendia, ouviu a resposta e disse: "Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra". Depois cantou um louvor feito de Escritura e, no fim da vida que a Bíblia registra, estava orando com a igreja.

Leia Lucas 1 completo — do anúncio a Zacarias até o Magnificat — e observe quantas vezes a palavra de Deus chega e alguém precisa decidir o que fazer com ela.

A Bíblia manda dedicar o mês de maio a Maria?

Não. A Bíblia não dedica mês nenhum a Maria nem a outra pessoa; o mês de Maria é uma tradição da Igreja Católica que se organizou na Itália do século XVIII, com base na antiga ligação entre Maria e a primavera europeia. O que a Bíblia faz é honrar Maria como "bendita entre as mulheres" (Lucas 1:42) e mostrá-la orando (Lucas 1:46-55; Atos 1:14).

Qual é a diferença entre terço e rosário?

O rosário completo tem vinte mistérios — vinte cenas da vida de Jesus e de Maria para meditar — divididos em quatro grupos de cinco. O terço é um desses grupos, cinco mistérios, e é o que se reza normalmente em um dia. Cada mistério é acompanhado de um Pai-Nosso, dez Ave-Marias e um Glória.

O que é a coroação de Nossa Senhora?

É a celebração em que crianças levam flores em procissão até a imagem de Maria e uma delas coloca uma coroa de flores na cabeça da imagem, enquanto a comunidade canta. Acontece em paróquias católicas durante maio, muitas vezes no último dia do mês. O gesto expressa a frase de Isabel em Lucas 1:42, "bendita és tu entre as mulheres".

Por que evangélicos não fazem o mês de Maria?

Porque a oração dirigida a Maria, que está no centro do terço, não aparece na Bíblia, e a tradição evangélica entende que a oração deve ser dirigida só a Deus, por meio de Jesus (1 Timóteo 2:5). Evangélicos honram Maria como a Bíblia a honra — Lutero escreveu um comentário sobre o Magnificat —, mas não a invocam em oração nem observam o mês dedicado a ela.

Maria aparece orando na Bíblia?

Sim, duas vezes de forma explícita. Em Lucas 1:46-55, ela canta o Magnificat, uma oração de louvor dirigida a Deus, a quem chama de "meu Salvador". Em Atos 1:14, ela está entre os discípulos que "perseveravam unânimes em oração" em Jerusalém, esperando o Espírito Santo — é a última menção a Maria por nome no Novo Testamento.

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