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Admiração e temor a Deus: como o espanto gera reverência

Redação Bíblia Online Publicado em

O que a Bíblia chama de admiração a Deus

Homem descalço cobre o rosto com o manto diante de um arbusto em chamas, com ovelhas ao fundo.

Na Bíblia, admirar a Deus tem nome: temor do Senhor. Não é o medo de quem foge, é o assombro de quem viu algo grande demais para tratar com descaso — como quem para diante do mar e sente, ao mesmo tempo, encanto e respeito. Provérbios diz que tudo o que vale a pena saber começa aí.

O temor do Senhor é

o princípio da sabedoria;

conhecer o Santo

é ter entendimento.

Olha o que o versículo faz: junta temer e conhecer. "Conhecer o Santo" é o que gera entendimento — e quem conhece de verdade quem Deus é não consegue ficar indiferente. A admiração gera temor porque, quando a pessoa enxerga a grandeza, a santidade e a bondade de Deus, a resposta natural não é familiaridade, é reverência. O resto deste artigo mostra onde o texto diz isso, o que esse temor não é e o que ele muda na vida de quem o tem.

Este artigo faz parte de Versículos por Tema Sabedoria e Caráter

Temor, medo e admiração: a diferença que o texto faz

Em hebraico, a palavra para "temor do Senhor" (yir'ah) é a mesma usada para medo comum. O que distingue um do outro no texto é o objeto e o efeito. Medo comum é de uma ameaça e faz a gente se afastar; o temor do Senhor é de uma pessoa, e uma pessoa boa, e faz a gente se aproximar e obedecer.

Os dois sentidos aparecem na mesma frase em Êxodo 20:20: depois dos trovões do Sinai, Moisés diz ao povo que não tenha medo, porque Deus veio exatamente para que o temor dele ficasse diante deles e eles não pecassem. "Não temam" e "para que temam" no mesmo fôlego — o segundo temor é respeito que mantém a pessoa no caminho.

É isso que o encontro com a grandeza de Deus produz nas pessoas da Bíblia. Isaías vê o Senhor no templo e a primeira frase dele é "ai de mim" (Isaías 6:5). Os discípulos veem Jesus acalmar a tempestade e, em vez de aliviados, ficam com "grande temor" e perguntam quem afinal é aquele homem (Marcos 4:41). A pessoa percebe que está diante de alguém infinitamente maior, e isso a desloca do centro.

A objeção óbvia é 1 João 4:18: "no amor não há temor". Mas o versículo explica de que temor fala — o que "tem consigo a pena", o medo do castigo (1 João 4:17-18). Esse, sim, o amor expulsa. A reverência cresce: Hebreus 12:28-29 pede que sirvamos a Deus "com reverência e temor" na mesma carta que fala de aproximar-se com confiança. E o Salmo 130:4 diz que Deus perdoa para que seja temido (Salmos 130:3-4). Quem é perdoado não perde o temor — ganha um temor novo, cheio de gratidão.

Por que o temor do Senhor é o começo da sabedoria

Provérbios abre o livro inteiro com essa afirmação. Não é um detalhe; é o título do curso.

O temor do Senhor é o princípio do conhecimento,

mas os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução.(Provérbios 1:7, NVI)

A palavra traduzida por "princípio" (reshit) tem dois sentidos em hebraico, e os dois cabem: é o ponto de partida e é a parte principal. Tirou isso, o resto desmonta. E repara no contraste da segunda metade: o oposto de quem teme ao Senhor é o "insensato" que despreza instrução. Em Provérbios, o tolo não é burro; é quem não quer ser ensinado. A admiração a Deus coloca a pessoa no lugar de aluno.

O temor do Senhor é o princípio da sabedoria;

todos os que cumprem os seus preceitos revelam bom senso.

Ele será louvado para sempre!(Salmos 111:10, NVI)

O salmista acrescenta o teste prático: quem teme ao Senhor cumpre os preceitos dele, e isso "revela bom senso". O temor não fica na cabeça nem no sentimento; aparece no que a pessoa faz quando ninguém está olhando.

Temor e humildade na mesma frase, e não é coincidência: admirar alguém de verdade é admitir que ele é maior. Três textos, de dois livros, dizem a mesma coisa. A leitura evangélica histórica toma isso ao pé da letra — não existe sabedoria completa que ignore Deus. Outras tradições cristãs concordam no essencial, embora variem no quanto reconhecem de sabedoria genuína fora da fé.

O que o temor do Senhor muda na conduta

Se a admiração a Deus fosse só emoção, não teria como medir. Mas o texto dá um critério bem concreto.

A Sabedoria personificada define temor do Senhor não por um sentimento, mas por uma aversão: odiar o mal. E o orgulho encabeça a lista do que ela odeia. Faz sentido: é o pecado que mais atrapalha a admiração, porque quem se acha grande não enxerga ninguém maior.

Não seja sábio aos seus próprios olhos;

tema ao Senhor e afaste-se do mal.

Isso dará saúde ao seu corpo

e vigor aos seus ossos.(Provérbios 3:7,8, NVI)

"Não seja sábio aos seus próprios olhos" é o diagnóstico; "tema ao Senhor e afaste-se do mal" é o remédio. O verso 8 fala em saúde e vigor para o corpo — linguagem de Provérbios para dizer que uma vida ordenada por esse temor é uma vida inteira, não dividida. Não é promessa de nunca ficar doente.

Paulo leva a mesma ideia para o Novo Testamento.

Amados, uma vez que temos essas promessas, purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.(2 Coríntios 7:1, NVI)

"Uma vez que temos essas promessas" — as promessas de Deus habitar com o seu povo, do capítulo anterior — então purifiquemo-nos, "no temor de Deus". O temor não é o preço da promessa; é a resposta a ela. Isso é o que a tradição evangélica chama de santificação: não para ganhar a aceitação de Deus, mas por já ter sido aceito.

As promessas de Provérbios: o que o texto está e não está dizendo

Dois versículos sobre o temor do Senhor costumam ser lidos como garantia de prosperidade.

Esse vai na direção contrária: é melhor ter pouco com temor do Senhor do que muito com inquietação. O temor não aparece como caminho para a riqueza, mas como algo que vale mais do que ela. Quem admira a Deus consegue viver com menos, porque não precisa que o dinheiro seja o seu deus.

Aqui, sim, aparecem riquezas, honra e vida. Mas Provérbios é literatura de sabedoria: descreve como a vida costuma funcionar quando as pessoas vivem com humildade e temor, não como ela funciona sem exceção. O próprio Provérbios 15:16 acabou de admitir que dá para temer ao Senhor e ter pouco, e Jó, o homem que mais temia a Deus na sua geração, perdeu tudo. Temer ao Senhor produz, em regra, uma vida mais sólida, com relações mais inteiras e menos autodestruição — e isso tende a gerar honra e estabilidade. O que o texto não promete é um saldo bancário.

O olhar de Deus sobre quem o teme

Os Salmos olham o temor do Senhor pelo outro lado: como Deus responde a quem o tem.

Eis que os olhos do Senhor

estão sobre os que o temem,

sobre os que esperam

na sua misericórdia,(Salmos 33:18, NAA)

"Os olhos do Senhor estão sobre os que o temem" — e a frase seguinte explica quem são eles: "os que esperam na sua misericórdia". Quem teme ao Senhor não vive encolhido; vive esperando. O temor cria a distância certa; a misericórdia cria a confiança.

Aleluia!

Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor

e tem grande prazer nos seus mandamentos!(Salmos 112:1, NVI)

O detalhe é a palavra "prazer". Quem teme ao Senhor tem grande prazer nos mandamentos dele — a gente gosta do que a pessoa admirada gosta. Para o cristão, temor de Deus e alegria em Deus não concorrem; o segundo é o que o primeiro vira quando amadurece.

E o Salmo 128 inteiro descreve essa bem-aventurança em termos de casa: trabalho que rende, mesa cheia, filhos ao redor. O temor do Senhor não promete aventura; ordena o cotidiano.

Dois casos concretos: as parteiras e o restante fiel

A Bíblia também mostra o temor do Senhor em ação, em situações em que ele custou algo.

O primeiro caso está no começo de Êxodo. O faraó manda as parteiras hebreias matar os meninos recém-nascidos, e Êxodo 1:17 diz que elas "temeram a Deus" e não fizeram o que o rei ordenou. Duas mulheres sem nenhum poder diante do homem mais poderoso do mundo — e o que decidiu a questão foi quem elas temiam mais.

E aconteceu que, como as parteiras temeram a Deus, ele estabeleceu-lhes casas.(Êxodo 1:21)

Duas mulheres, uma com um bebê, diante de um faraó num trono em templo egípcio

"Porque as parteiras temeram a Deus", ele lhes deu famílias. Esse temor não paralisa — dá coragem, porque a pessoa já decidiu diante de quem vai responder.

O segundo caso é o fim do Antigo Testamento. Malaquias fala a um povo cansado, que acha que servir a Deus não compensa.

Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria.(Malaquias 4:2)

O capítulo anterior já tinha falado de "um livro de memória" para os que temiam ao Senhor (Malaquias 3:16-18). E aqui o mesmo dia arde como forno para os soberbos, no versículo 1, e nasce como sol com cura para os que temem o nome de Deus. O que separa não é religião externa, é temor. A tradição cristã, desde cedo, leu esse "sol da justiça" como referência a Cristo — leitura que a maioria dos evangélicos mantém, embora o texto em si fale do dia do Senhor.

O que Deus pede: temer, amar, servir, guardar

Se o temor do Senhor fosse só uma emoção passageira, não daria para pedi-lo. Mas Deus pede.

Agora, pois, ó Israel, que é que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que temas o Senhor teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, Que guardes os mandamentos do Senhor, e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?(Deuteronômio 10:12,13)

Temer, andar nos caminhos dele, amar, servir de todo o coração, guardar os mandamentos. Temer e amar estão na mesma frase, sem qualquer tensão. Para Moisés, ninguém ama a Deus de verdade sem temê-lo, e ninguém o teme de verdade sem amá-lo.

Após o Senhor vosso Deus andareis, e a ele temereis, e os seus mandamentos guardareis, e a sua voz ouvireis, e a ele servireis, e a ele vos achegareis.(Deuteronômio 13:4)

Mesma lista, três capítulos depois, no contexto de falsos profetas que tentariam desviar o povo. Temer a Deus é o que mantém a pessoa de pé quando alguém convincente aponta para outro lado. E "apegar-se" a ele é a palavra que Gênesis usa para o homem que se une à mulher: temor e intimidade, de novo juntos.

De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem.(Eclesiastes 12:13)

Depois de doze capítulos examinando riqueza, prazer, trabalho e sabedoria, e achando tudo "vaidade", o Pregador chega ao que sobra. E a frase final, em hebraico, é mais forte do que "o dever de todo homem": literalmente é "isto é todo o homem". Temer a Deus não é uma parte da vida — é o que faz uma vida inteira ser uma vida.

Admirar as pessoas certas pelo motivo certo

O temor do Senhor também organiza as outras admirações.

Enganosa é a beleza

e vã a formosura,

mas a mulher que teme ao Senhor,

essa sim será louvada.(Provérbios 31:30)

Encanto e beleza passam; a mulher que teme ao Senhor é a que merece louvor. Não é que a beleza seja má — é que ela não é critério. E isso vale para homens e mulheres igualmente.

Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra.(Romanos 13:7)

Paulo usa aqui, em grego, a mesma palavra (phobos) que o Novo Testamento usa para o temor de Deus: "a quem temor, temor". Quem teme a Deus consegue dar às autoridades humanas o respeito devido — nem adoração, nem desprezo. Sabe o tamanho de cada um porque sabe o tamanho de Deus.

Ao que está aflito devia o amigo mostrar compaixão,

ainda ao que deixasse o temor do Todo-Poderoso.(Jó 6:14)

Esse versículo é difícil de traduzir, e as versões divergem. Numa leitura, o amigo devia mostrar compaixão ao aflito mesmo que este tivesse abandonado o temor de Deus; noutra, quem nega compaixão ao aflito é que abandonou o temor do Todo-Poderoso. As duas chegam ao mesmo lugar: temor de Deus e bondade com quem sofre andam juntos. Jó está acusando os amigos de serem religiosos sem serem bons.

Como cultivar o temor de Deus

Se o temor nasce do conhecimento, como Provérbios 9:10 disse, então ele se cultiva conhecendo.

Primeiro, pela Palavra. Deuteronômio manda que o rei leia a lei todos os dias "para que aprenda a temer o Senhor" (Deuteronômio 17:19), e manda reunir o povo para ouvir a lei pela mesma razão (Deuteronômio 31:12-13). O temor do Senhor se aprende, ouvindo quem Deus é.

Segundo, pelo ensino. O Salmo 34:11 convida: "eu vos ensinarei o temor do Senhor" (Salmos 34:11-14) — e o que vem em seguida é instrução sobre a língua e sobre fazer o bem.

Terceiro, observando o que Deus faz.

Deus nos abençoará,

e todas as extremidades

da terra o temerão.(Salmos 67:7)

A ordem é: Deus abençoa, e as pessoas temem. Quem para e nota o que Deus já fez — na história, na Escritura, na própria vida — tem mais motivo para reverenciá-lo. O cristão que quer crescer em temor não precisa procurar sustos; precisa procurar lembrança.

E, no fim, pelo evangelho. Na cruz, o cristão vê no mesmo lugar a santidade de Deus que não passou o pecado em branco e o amor de Deus que pagou por ele. Nenhuma outra cena produz tanto temor e tanta confiança ao mesmo tempo.

O começo e o fim

Tudo isso volta ao versículo de onde saímos. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; conhecer o Santo é ter entendimento." Admiração a Deus não é um extra para pessoas religiosas; é o lugar de onde a sabedoria parte e para onde ela volta.

Leia Provérbios 9 completo: o capítulo coloca duas mulheres oferecendo um banquete — a Sabedoria e a Loucura — e o versículo 10 é o que diz como escolher entre as duas.

Temor de Deus é a mesma coisa que ter medo de Deus?

Não, embora o hebraico use a mesma palavra para os dois. O medo comum afasta; o temor do Senhor aproxima e leva à obediência. Êxodo 20:20 usa os dois sentidos na mesma frase: "não temam" e "para que o temor dele esteja diante de vocês".

O cristão ainda precisa temer a Deus, se "o amor lança fora o temor"?

Precisa. 1 João 4:18 fala do temor que "tem consigo a pena", o medo do castigo — esse o amor expulsa. A reverência permanece: Hebreus 12:28 pede que sirvamos a Deus "com reverência e temor", e Atos 9:31 descreve a igreja primitiva andando "no temor do Senhor". O perdão não elimina o temor; o transforma (Salmos 130:4).

Qual é a diferença entre admirar e idolatrar?

Idolatria é dar a uma criatura a admiração que só cabe ao Criador — tratar algo como fonte última de identidade e segurança. Admiração ordenada reconhece o valor de pessoas e coisas no tamanho certo. Romanos 13:7 manda dar honra a quem é devida honra; Provérbios 31:30 diz que o que torna alguém digno de louvor duradouro é o temor do Senhor.

Como ensinar o temor do Senhor aos filhos?

A Bíblia aponta três caminhos: ler a Palavra com eles (Deuteronômio 31:12-13), ensinar o que esse temor significa na prática (Salmos 34:11-14) e lembrar o que Deus fez (Salmos 67:7). Temor se aprende mais pelo que os filhos veem os pais fazer do que pelo que ouvem os pais dizer.

O temor do Senhor garante prosperidade?

Não. Provérbios 22:4 fala em riquezas, honra e vida, mas Provérbios 15:16 admite que dá para temer ao Senhor e ter pouco — e diz que isso é melhor do que ter muito com inquietação. Provérbios descreve como a vida costuma funcionar, não um contrato. Jó temia a Deus e perdeu tudo.

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