Lei do adultério na Bíblia: o que determinava a Torá
Redação Bíblia Online Publicado em
O que a lei do adultério determinava
A lei do adultério na Bíblia é o sétimo dos Dez Mandamentos — «Não adulterarás» (Êxodo 20:14, ACF) — detalhada em Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22: quem se deitasse com a mulher de outro homem cometia um crime punido com a morte, e a pena recaía sobre os dois, o homem e a mulher. Não havia multa, não havia resgate, e o marido traído não tinha o poder de perdoar e encerrar o caso.
Esse é o núcleo. Tudo o que a Bíblia diz depois sobre adultério — os Provérbios, Jesus, as cartas apostólicas — conversa com essa lei.
"Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados.
Olha a repetição: "com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo". O hebraico diz a mesma coisa duas vezes para não deixar dúvida sobre qual relação está em jogo. O verbo é na'af, e no Antigo Testamento ele é usado para isso: a relação sexual com uma mulher casada (ou comprometida) com outro.
Deuteronômio 22:22 repete a sentença — "ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher, e a mulher" — e acrescenta o motivo: "assim tirarás o mal de Israel". O adultério não era assunto de um casal. Era um mal que contaminava o povo inteiro, e é por isso que Levítico 18:20 usa o verbo "contaminar-se" e, no fim do capítulo, diz que quem praticasse aquelas coisas seria eliminado do meio do povo.
Isso é diferente do que valia nos povos vizinhos. No Código de Hamurabi, por exemplo, o marido podia poupar a esposa flagrada, e aí o rei poupava o amante. A Torá não abre essa porta. Quando Davi, séculos depois, adultera com Bate-Seba, ele mesmo reconhece: "Pequei contra o Senhor" (2 Samuel 12:13). O ofendido maior não era Urias.
Este artigo faz parte de Dúvidas e Explicações Passagens Difíceis
A quem a lei se aplicava
Aqui está um detalhe que muita gente não percebe: a lei do adultério, no sentido estrito, tratava da mulher casada ou prometida em casamento. O noivado em Israel já era vínculo com força de aliança, e Deuteronômio 22:23-27 estende a pena de morte ao homem que se deitasse com uma noiva.
Esse mesmo trecho mostra que a lei distinguia consentimento de violência. Se o caso acontecia na cidade e a moça não gritou por socorro, os dois morriam. Se acontecia no campo, onde ninguém a ouviria, só o homem morria — "porque ele a forçou", e ela "não tem culpa de morte". A lei não tratava a vítima de um estupro como adúltera.
E se a mulher fosse solteira e não comprometida? Aí não era adultério. Deuteronômio 22:28-29 e Êxodo 22:16-17 tratam o caso como ofensa à família: o homem pagava o dote, casava-se com ela se o pai consentisse, e perdia o direito de se divorciar. Era pecado, mas de outra categoria — o que a Bíblia chama de fornicação, não adultério.
Por que esse peso todo sobre o casamento? Porque, na visão bíblica, casamento é aliança feita diante de Deus. Gênesis 2:24 chama os dois de "uma só carne"; Malaquias 2:14 diz que o Senhor foi a testemunha entre o homem e a mulher da sua juventude. Quebrar isso era quebrar um juramento feito com Deus como testemunha. Daí José, ainda jovem, recusar a mulher de Potifar com a pergunta: "como pecaria eu contra Deus?" (Gênesis 39:9).
Como o julgamento funcionava
A pena era dura, mas a prova exigida também era. Nenhum israelita podia ser executado pela palavra de um só acusador: a lei exigia duas ou três testemunhas (Deuteronômio 17:6; Deuteronômio 19:15). Como adultério raramente tem testemunhas, na prática a execução dependia de flagrante — exatamente o que os acusadores alegam em João 8:4, "apanhada no próprio ato".
Vale notar outro detalhe de Deuteronômio 17:7: as testemunhas tinham que ser as primeiras a lançar a pedra. Quem acusava assumia a responsabilidade pela morte. Guarde isso; vai aparecer quando Jesus entrar na história.
Levítico 20:10 manda matar, mas não diz como. O apedrejamento aparece em Deuteronômio 22:24, no caso da noiva, e em Ezequiel 16:40, num texto que descreve Jerusalém como adúltera. É esse o método que os acusadores de João 8:5 têm em mente quando dizem que "Moisés nos mandou apedrejar".
Quando não havia prova: o teste de Números 5
E se o marido suspeitasse, mas não tivesse testemunha nenhuma? A lei previa um caminho, descrito em Números 5:11-31 e chamado de "lei dos ciúmes".
O marido levava a mulher ao sacerdote, com uma oferta de farinha de cevada. O sacerdote misturava água santa com pó do chão do tabernáculo, escrevia uma maldição e a lavava dentro dessa água. A mulher jurava inocência e bebia. Se fosse culpada, o texto diz que o ventre dela incharia e ela ficaria estéril, como sinal público; se fosse inocente, nada acontecia e ela seguia livre — e, diz o texto, teria filhos.
O que esse ritual fazia, na prática, era tirar o caso das mãos do marido. Um homem enciumado não podia acusar a esposa sem prova e conseguir que ela fosse apedrejada; o veredito ficava com Deus, e o resultado esperado para a inocente era a absolvição diante de todos. Olha só: a lei que punia o adultério com a morte era a mesma que protegia a mulher de uma acusação sem provas.
O que acontecia no tempo de Jesus
Nos dias de Jesus, a lei continuava escrita, mas sua aplicação era outra. A Judeia estava sob Roma, e os líderes judeus reconheciam que não tinham liberdade para executar — "não nos é permitido matar ninguém", dizem a Pilatos em João 18:31. O caso de José e Maria mostra qual era a saída comum: ao supor que a noiva o traíra, José, "sendo justo", planejou um divórcio discreto, não um apedrejamento (Mateus 1:19).
Por que a Bíblia trata o adultério com tanta gravidade
Os Provérbios não discutem a pena; discutem o que o adultério faz com quem o comete. O argumento é prático e usa imagens que qualquer pessoa entende.
Pode alguém colocar fogo no peito
sem queimar a sua roupa?
Pode alguém andar sobre brasas
sem queimar os seus pés?
Assim acontece com quem se deita com a mulher do seu próximo;
esteja certo de que não ficará impune.(Provérbios 6:27-29, NVI)
Fogo no peito, brasa sob os pés. A ideia é que a consequência não é um castigo externo e arbitrário: está dentro da própria ação, como queimar-se está dentro de pegar fogo com a mão. O trecho seguinte, Provérbios 6:32-35, lista os efeitos — perda de juízo, ferimentos, vergonha que não se apaga, a fúria do marido — e termina num ponto que ecoa a lei: ele "não aceitará nenhuma compensação" (Provérbios 6:35, NVI). Dinheiro não resolve.
Provérbios 5 descreve a sedução como mel que vira veneno e manda o jovem se afastar da porta daquela casa — não discutir, não negociar, afastar-se. O mesmo capítulo oferece o contrário: alegrar-se com a própria esposa, "a corça amada" de Provérbios 5:19-20. A Bíblia não é contra o desejo; é contra o desejo na porta errada.
Provérbios 2:18-19 diz que a casa da mulher adúltera "se inclina para a morte" e que os que vão até lá não voltam; Provérbios 22:14 chama essa boca de "cova profunda". E Provérbios 7 encena tudo isso: o rapaz que passa pela esquina ao cair da noite, a mulher que o convence com palavras doces, e a comparação final — ele a segue "como o boi que vai ao matadouro".
Isso aqui é importante: para a sabedoria bíblica, o adultério é burrice antes de ser crime. Destrói quem o comete, e destrói devagar.
O que Jesus fez com a lei do adultério
Jesus não revogou o mandamento. Ele disse, no mesmo sermão, que não veio abolir a lei (Mateus 5:17). O que ele fez foi mostrar onde o mandamento começa.
— Vocês ouviram o que foi dito: "Não adultere".Mas eu digo que qualquer que olhar para uma mulher e desejá-la já cometeu adultério com ela no coração.(Mateus 5:27,28, NVI)
A lei de Moisés julgava o ato, porque um tribunal só pode julgar atos. Jesus vai ao lugar que tribunal nenhum alcança: o olhar que deseja e alimenta o desejo. Não é o pensamento que passa; o grego fala de olhar para cobiçar, com intenção — a NAA traduz por "com intenção impura". O adultério, para Jesus, já aconteceu quando a decisão foi tomada dentro, mesmo que a oportunidade nunca apareça.
É o mesmo princípio de Mateus 15:19: do coração saem os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais. A lista coloca lado a lado duas palavras gregas diferentes — moicheia, adultério, e porneia, a imoralidade sexual em geral — e diz que as duas têm a mesma raiz.
Então, se ninguém escapa do mandamento assim lido, para que serve ele? Serve para derrubar a ideia de que basta não ter feito. O fariseu de Lucas 18:11 agradece a Deus por não ser adúltero. Jesus tira o chão desse agradecimento.
A mulher apanhada em adultério: a lei posta à prova
É aqui que a lei e Jesus se encontram frente a frente. A cena está em João 8:3-11: fariseus e mestres da lei trazem uma mulher ao pátio do templo, dizem que ela foi apanhada em flagrante, lembram que Moisés mandou apedrejar e perguntam o que Jesus diz.
O versículo 6 diz com todas as letras que era uma armadilha. E a armadilha tinha duas pontas. Se Jesus dissesse "apedrejem", contradizia tudo o que pregava sobre misericórdia e ainda ordenava uma execução que Roma não permitia. Se dissesse "soltem", contradizia Moisés em público, diante do templo. Era a pergunta sem saída.
Repare também no que falta na cena. Levítico 20:10 manda matar o adúltero e a adúltera. Deuteronômio 22:22 diz "ambos". Trouxeram só ela. Quem invocava a lei de Moisés já a estava descumprindo.
Jesus se abaixa e escreve no chão. O texto não diz o quê, e todo palpite sobre isso é palpite. Quando insistem, ele se levanta:
Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e disse:
— Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela.(João 8:7, NVI)
Lembra de Deuteronômio 17:7, as testemunhas atirando a primeira pedra? Jesus não nega a lei — ele a aplica até o fim. Quem acusa assume a execução; e quem assume a execução precisa estar em condições de julgar. Um por um, começando pelos mais velhos, eles vão embora. Sem testemunhas, não há caso. A lei de Moisés, lida inteira, dissolveu o próprio julgamento.
— Ninguém, Senhor — disse ela.
Jesus declarou:
— Eu também não a condeno. Vá e, de agora em diante, abandone a sua vida de pecado.(João 8:11, NVI)
Duas coisas nessa frase, e as duas importam. "Eu também não a condeno" é perdão, não absolvição por falta de provas — Jesus não diz que ela é inocente. E "não peque mais" é a ordem de quem leva o pecado a sério. A gravidade da lei e a extensão da graça estão na mesma boca, no mesmo fôlego. Quem leu até aqui já sabe por que ele podia dizer isso: era o único ali sem pecado, o único que de fato poderia atirar a pedra. Não atirou.
Vale notar: muitas Bíblias trazem esse trecho entre colchetes, com uma nota de que os manuscritos mais antigos de João não o contêm. A cena circulou desde cedo entre os cristãos, e Agostinho chegou a sugerir que alguns a tiraram de suas cópias com medo de que ela parecesse afrouxar o adultério. A igreja a recebeu como Escritura, e o que ela ensina combina com tudo o mais que Jesus faz nos evangelhos.
Adultério e divórcio nos dois Testamentos
A lei de Moisés permitia o divórcio. Deuteronômio 24:1-4 fala de um marido que encontra "coisa indecente" na esposa, escreve uma carta de divórcio e a manda embora. A expressão hebraica é vaga, e no tempo de Jesus os rabinos discutiam o que ela cobria: a escola de Shammai dizia que só infidelidade; a escola de Hillel, que qualquer desagrado — até uma comida queimada. Quando os fariseus perguntam a Jesus se é lícito o divórcio "por qualquer motivo" (Mateus 19:3-9), é esse debate que está na mesa.
A resposta de Jesus liga divórcio e adultério de um jeito que ninguém esperava:
No entanto, eu digo que todo aquele que se divorciar da sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a divorciada comete adultério.(Mateus 5:32, NVI)
O argumento é este: se o casamento é "uma só carne", a carta de divórcio não desfaz o vínculo diante de Deus. Quem se divorcia sem causa e se casa de novo está, na prática, se deitando com outra pessoa enquanto o primeiro vínculo ainda existe — e isso é a definição de adultério da lei. Marcos e Lucas registram o mesmo ensino, e Marcos 10:11-12 tem um detalhe raro para a época: aplica a regra também à mulher que deixa o marido. Lucas 16:18 repete sem exceção alguma.
A exceção aparece em Mateus: "exceto por imoralidade sexual" — porneia, de novo. E é nela que os cristãos divergem.
A leitura evangélica histórica majoritária, registrada na Confissão de Westminster, entende que o adultério rompe o vínculo e libera a parte traída para o divórcio e para novo casamento — e acrescenta o abandono por um cônjuge descrente, com base em 1 Coríntios 7:15. A tradição católica entende o casamento como indissolúvel: a separação é possível, o recasamento não. E há uma corrente minoritária entre evangélicos que lê a exceção de Mateus como permissão para separar, mas não para casar de novo enquanto o outro vive. As três levam o texto a sério; a primeira é a que eu sigo, e você deve saber que não é a única.
O que nenhuma delas nega: Jesus trata o divórcio como concessão à dureza do coração humano (Mateus 19:8), não como plano original. E Paulo, em 1 Coríntios 7:10-11, aponta a reconciliação como primeiro caminho.
O adúltero pode ser perdoado?
Pode. A Bíblia não só afirma isso — ela mostra.
Davi cometeu adultério com Bate-Seba e mandou matar o marido dela. Pela lei de Levítico 20:10, merecia a morte duas vezes. Quando o profeta Natã o confronta, ele confessa, e a resposta vem no mesmo versículo:
Então, Davi disse a Natã:
— Pequei contra o Senhor!
Natã respondeu:
— O Senhor perdoou o seu pecado. Você não morrerá.(2 Samuel 12:13, NVI)
"Não morrerás." A sentença da lei foi suspensa por Deus, não por um tribunal. O Salmo 51, que a tradição liga a esse momento, é a oração desse homem perdoado: "contra ti, contra ti somente pequei" (Salmos 51:4). Perdão, porém, não é ausência de consequência. Os versículos seguintes de 2 Samuel 12 anunciam a espada que não sairia da casa de Davi, e a história confirma. A Bíblia não finge que o fogo de Provérbios 6 não queimou.
No Novo Testamento, Paulo escreve à igreja de Corinto que adúlteros não herdarão o reino de Deus — e logo depois: "E é o que alguns de vocês foram; mas foram lavados" (1 Coríntios 6:9-11). Havia ex-adúlteros naquela igreja, perdoados e recebidos. É o "não peque mais" de João 8:11 virando biografia.
Isso não anula o que o adultério é. Hebreus 13:4, numa carta dirigida a cristãos, mantém o aviso:
O casamento deve ser honrado por todos, e o leito conjugal, conservado puro, pois Deus julgará os imorais e os adúlteros.(Hebreus 13:4, NVI)
O casamento continua sendo coisa que Deus honra e protege — e a graça não transforma a lei em sugestão.
O que as cartas apostólicas pedem à igreja
Sem tribunal para aplicar pena, a igreja do Novo Testamento trata o adultério como questão de santificação. 1 Tessalonicenses 4:3-5 chama de "vontade de Deus" que cada um se afaste da imoralidade e controle o próprio corpo, "não com paixão desenfreada, como os pagãos". A instrução mais direta é a de Paulo aos coríntios:
Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros pecados que alguém comete são cometidos fora do corpo, mas quem comete imoralidade sexual peca contra o próprio corpo.(1 Coríntios 6:18, NVI)
"Fujam." Não é "resistam" nem "administrem". É o mesmo conselho de Provérbios 5 — afaste-se da porta — e a mesma coisa que José fez ao deixar a capa nas mãos da mulher de Potifar. Para o Novo Testamento, o pecado sexual é diferente dos outros porque envolve o corpo que agora é templo do Espírito.
Gálatas põe o adultério e a imoralidade sexual no topo da lista das "obras da carne" (Gálatas 5:19-21), e dois versículos antes explica a saída: andar pelo Espírito, porque "o que a carne deseja é contrário ao Espírito" (Gálatas 5:16-17). A fidelidade, nessa visão, não é só força de vontade; é fruto de uma vida conduzida por outra força.
Adultério espiritual: quando o povo de Deus trai a aliança
Há um último uso da palavra, e ele explica por que Deus leva o assunto tão a sério. Os profetas chamam de adultério a infidelidade de Israel a Deus — porque a aliança do Sinai é tratada como um casamento.
Oseias viveu isso literalmente. Deus mandou que ele se casasse com Gômer, uma mulher que o traiu, para que o profeta sentisse na pele o que Israel fazia com Deus (Oseias 1:2). E o livro termina não com apedrejamento, mas com um novo noivado: "desposar-te-ei comigo para sempre" (Oseias 2:19-20). Jeremias 3 chega a dizer que Deus deu a Israel uma carta de divórcio — e no mesmo capítulo chama: "voltem, filhos rebeldes, porque eu sou o seu marido". Ezequiel 16:32 descreve Jerusalém como a mulher adúltera que recebe estranhos no lugar do marido.
O Novo Testamento herda a imagem. Tiago, escrevendo a cristãos, usa a palavra mais dura que tinha:
Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Portanto, se alguém quiser ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus.(Tiago 4:4, NVI)
Amizade com o mundo é adultério porque a igreja é noiva de Cristo (Efésios 5:25-32). Em Apocalipse 2:20-22, Jesus repreende a igreja de Tiatira por tolerar uma "Jezabel" que levava os crentes à imoralidade — e os dois sentidos, o literal e o espiritual, se misturam na mesma frase. Ainda assim, repare no que ele diz: deu a ela tempo "para se arrepender". O livro inteiro termina com as bodas do Cordeiro (Apocalipse 19:7) — a noiva finalmente fiel.
Por isso a lei do adultério pesa tanto na Bíblia. Cada casamento humano é uma miniatura da aliança entre Deus e seu povo. Traí-lo é contar a história errada sobre quem Deus é.
Dois versículos encerram o arco. O primeiro é a lei inteira: "Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados" (Levítico 20:10, NVI). O segundo é a mesma lei nas mãos de quem tinha o direito de aplicá-la: "Eu também não a condeno. Vá e, de agora em diante, abandone a sua vida de pecado" (João 8:11, NVI). Leia João 8 completo e veja os dois versículos se encontrarem.
Qual é a diferença entre adultério e fornicação na Bíblia?
Adultério (hebraico na'af, grego moicheia) é a relação sexual em que ao menos um dos envolvidos é casado ou comprometido com outra pessoa. Fornicação ou imoralidade sexual (porneia) é o termo amplo para qualquer relação fora do casamento, incluindo entre solteiros. Na lei de Moisés, só o adultério tinha pena de morte (Levítico 20:10); o caso de dois solteiros era tratado como ofensa à família, com dote e casamento (Deuteronômio 22:28-29). Mateus 15:19 lista as duas palavras lado a lado como pecados que saem do coração.
Pensar em outra pessoa já é adultério, segundo Mateus 5?
Jesus fala de olhar para uma mulher "para a cobiçar" — o grego indica intenção, não um pensamento que atravessa a mente sem ser convidado. O adultério do coração é o desejo alimentado e consentido, a decisão tomada por dentro ainda que nunca se concretize. A tentação em si não é pecado; Jesus foi tentado e não pecou (Hebreus 4:15). O que ele condena é acolher o desejo e cultivá-lo.
Quem foi traído é obrigado a se divorciar?
Não. A exceção de Mateus 5:32 e 19:9 permite o divórcio em caso de infidelidade; não o ordena. O próprio Deus, nos profetas, é retratado como o marido traído que chama a esposa de volta (Oseias 2:19-20; Jeremias 3:14), e Paulo põe a reconciliação como primeiro caminho (1 Coríntios 7:10-11). A decisão de perdoar e reconstruir é legítima e, para a Bíblia, reflete o caráter de Deus; a decisão de se divorciar, nesse caso, também é permitida pela maior parte da tradição evangélica.
Por que João 8 aparece entre colchetes em algumas Bíblias?
Porque os manuscritos mais antigos do Evangelho de João que chegaram até nós não trazem esse trecho, e ele aparece em manuscritos posteriores, às vezes em posições diferentes. Isso levou várias traduções a marcá-lo com colchetes e uma nota. Agostinho, no século IV, já conhecia a passagem e sugeriu que alguns a tiravam de suas cópias por medo de que ela parecesse tolerar o adultério. A igreja a recebeu como Escritura, e o que ela ensina está em harmonia com o restante dos evangelhos.
A lei do adultério ainda vale para os cristãos?
O mandamento continua valendo — Jesus o reafirmou e aprofundou (Mateus 5:27-28), e as cartas apostólicas o repetem (Hebreus 13:4; 1 Tessalonicenses 4:3). O que não passa para a igreja é a pena civil de morte, que pertencia a Israel como nação sob a lei de Moisés. O Novo Testamento trata o adultério como pecado grave que pede arrependimento e disciplina na igreja, e como pecado que Deus perdoa a quem se arrepende (1 Coríntios 6:9-11).
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