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Crescimento espiritual na Bíblia: o que é amadurecer na fé

Por Bíblia Online  - 
Homem barbudo de camisa bege com as mãos unidas, de olhos fechados, diante de uma Bíblia.

O que a Bíblia chama de crescimento espiritual

Crescimento espiritual, na Bíblia, é amadurecer na fé que você já tem — não ganhar mais salvação, nem subir de nível diante de Deus. É o processo em que a pessoa que creu em Jesus vai, com o tempo, pensando, reagindo e amando de um jeito cada vez mais parecido com ele. A Bíblia chama isso de crescer, usando a mesma palavra que usaria para uma planta ou uma criança.

O versículo que resume a ideia é o último de 2 Pedro, escrito por um apóstolo velho a cristãos que já tinham caminhado um bom tempo:

antes, crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora como no dia da eternidade. Amém!

Vale notar o verbo. Em 2 Pedro 3:18, "crescei" é auxanō no grego, a palavra de semente que vira árvore. Ninguém faz uma semente crescer na força; mas também ninguém cresce sem ser plantado, regado e exposto ao sol. O crescimento espiritual é exatamente assim: Deus é quem dá a vida, e a pessoa é responsável por estar onde a vida é alimentada.

Olha o que Pedro não diz. Ele não manda os leitores crescerem em cargos, em anos de igreja ou em quantidade de atividades religiosas. Manda crescer em duas coisas: graça e conhecimento.

Graça e conhecimento: as duas frentes que não se separam

Crescer na graça é depender cada vez mais do que Deus fez por você em Cristo, e cada vez menos do próprio desempenho. Crescer no conhecimento é conhecer melhor a Jesus — quem ele é, o que ele disse, o que ele fez. Pedro coloca as duas no mesmo versículo porque, separadas, cada uma apodrece.

Conhecimento sem graça produz o cristão que sabe muito e perdoa pouco. Ele acerta a doutrina e erra o tom; conhece a Bíblia e não conhece a própria necessidade dela. Graça sem conhecimento produz o oposto: alguém sincero, afetuoso, mas que acredita em qualquer coisa que soe espiritual, porque não tem com que comparar.

A palavra que Pedro usa para "conhecimento" aqui é gnōsis, mas no começo da carta ele usou uma mais forte, epignōsis — conhecimento pessoal, de relação, não de enciclopédia. O alvo nunca foi saber sobre Jesus. Foi conhecer Jesus. E isso aparece ainda mais claro no segundo texto que define o assunto.

O alvo é parecer com Cristo, não com um cristão exemplar

Paulo diz a mesma coisa que Pedro, com outra imagem. Em Efésios 4 ele está falando da igreja como um corpo, e a pergunta é: para onde esse corpo cresce?

Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo,(Efésios 4:15)

"Crescer em tudo" — ou "em todas as coisas", dependendo da tradução — não deixa área de fora. Não existe cristão maduro na teologia e imaturo no modo de tratar a esposa, o funcionário ou quem o critica. Em Efésios 4:15, a direção do crescimento é uma pessoa: Cristo, a cabeça. O corpo cresce para ficar proporcional à cabeça.

Isso define a medida. A Bíblia não mede maturidade pelo tempo de conversão, pela quantidade de versículos decorados nem pelo tamanho do ministério. Mede pela distância entre o seu caráter e o de Jesus — e se essa distância está diminuindo.

Uma observação sobre a leitura que estou fazendo: na teologia evangélica histórica, esse processo se chama santificação, e ela é distinta da justificação. Justificado você é de uma vez, no momento em que crê; santificado você vai sendo, a vida inteira. Tradições católica e ortodoxa descrevem a relação entre as duas de outro modo, mas todas concordam que o cristão é chamado a crescer e que esse crescimento tem a forma de Cristo.

Leite e alimento sólido: como a Bíblia distingue bebê e adulto na fé

Dois autores do Novo Testamento usam a mesma imagem para falar de maturidade: alimentação. A imagem é simples e, por isso, incômoda.

O autor de Hebreus escreve a cristãos que já deviam ser professores e ainda estão na mamadeira. Em Hebreus 5:12-14, ele diz que eles precisam de leite quando já deviam estar comendo alimento sólido, e então define quem é o adulto:

Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal.(Hebreus 5:14)

Repare no critério. O maduro não é quem sabe mais, é quem tem os sentidos exercitados para discernir o bem e o mal. A palavra grega para "exercitados" é a de ginásio, gymnazō. Maturidade é músculo moral: a capacidade, treinada pela prática, de olhar uma situação e perceber o que agrada a Deus e o que não agrada — sem precisar que alguém diga.

Pedro usa a mesma imagem pelo outro lado. Para ele, o leite não é o problema; o problema é não ter fome:

desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que, por ele, vades crescendo,(1 Pedro 2:2)

Juntando os dois textos: o bebê na fé não é condenado por ser bebê — todo cristão começa assim. O que a Bíblia chama de imaturidade é ficar bebê, ou pior, perder o apetite. Paulo faz a mesma crítica em 1 Coríntios 3:1-3, e o sinal de infância espiritual que ele aponta não é falta de dons nem de conhecimento. É ciúme e briga.

Sinais de que alguém está amadurecendo

Se maturidade é parecer com Cristo, os sinais dela são as características de Cristo aparecendo em quem não as tinha. Paulo faz essa lista em Gálatas, e chama de fruto — de novo a imagem de planta:

Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra essas coisas não há lei.(Gálatas 5:22,23)

Dois detalhes importam aqui. Primeiro, "fruto" está no singular no grego: não são nove frutas para escolher, é um fruto com nove faces, que cresce junto. Segundo, é fruto do Espírito, não da pessoa. Ninguém produz paciência por decisão; mas quem anda com o Espírito vai percebendo que ficou mais paciente do que era.

Na prática, o crescimento aparece em coisas assim: a pessoa demora mais a explodir; reage à crítica sem se defender de imediato; perdoa sem precisar de plateia; consegue discordar sem desprezar; lida com dinheiro, sexo e poder com mais domínio próprio do que antes. Efésios 4 dá outro sinal, logo antes do versículo 15: o maduro deixa de ser "jogado de um lado para o outro" por toda doutrina nova que aparece (Efésios 4:14). Ele tem raiz, e raiz não some com o vento.

Vale dizer o que não é sinal: emoção forte no culto, muita atividade na igreja, conhecimento de detalhes bíblicos, anos de conversão. Tudo isso pode acompanhar a maturidade. Nenhum deles é a maturidade.

Como crescer na fé, na prática

A Bíblia não dá uma fórmula, mas descreve os meios pelos quais Deus costuma fazer as pessoas crescerem. São os mesmos há dois mil anos.

A Palavra. Pedro liga diretamente o leite da Palavra ao crescimento (1 Pedro 2:2). Não é leitura por obrigação nem acúmulo de informação; é expor a mente ao que Deus disse, com regularidade, para que aquilo vá moldando o jeito de pensar.

A oração. Paulo orava para que os cristãos crescessem — em Colossenses ele pede que eles sejam "cheios do conhecimento da vontade de Deus" e deem fruto em toda boa obra (Colossenses 1:9-10). Quem não pede para crescer raramente percebe quando cresce.

A comunhão. O texto de Efésios 4 é sobre o corpo, não sobre indivíduos. O crescimento acontece "em amor", no convívio com gente que você não escolheria. É ali que paciência e perdão deixam de ser conceito.

A obediência. Hebreus 5:14 fala de sentidos exercitados "pelo uso". Discernimento vem de praticar o que já se sabe. Quem espera entender tudo para obedecer alguma coisa não cresce — porque é na obediência pequena que o entendimento maior chega.

A provação. Esse ninguém escolhe, e a Bíblia é franca sobre isso. Paulo diz que a tribulação produz perseverança, e a perseverança, caráter aprovado (Romanos 5:3-4). Tiago diz que a prova da fé produz paciência, e a paciência leva à maturidade (Tiago 1:2-4). Muita gente percebe que cresceu olhando para trás, para o período mais difícil que viveu.

O que impede o crescimento

Se crescer é natural para quem está vivo, a pergunta séria é por que tanta gente estaciona. Os textos bíblicos apontam alguns motivos recorrentes.

O primeiro aparece em Hebreus 5:11, logo antes do trecho do leite: os leitores tinham ficado "tardios em ouvir" — preguiçosos para escutar. Não era falta de ensino disponível; era falta de disposição para receber. Hoje isso tem a cara de quem ouve pregação como quem assiste televisão: entra, passa, não muda nada.

O segundo é o que Paulo chama em Coríntios de carnalidade: ciúme, divisão, disputa por nomes. Gente que briga por preferências não cresce, porque a energia que deveria ir para Cristo vai para a comparação.

O terceiro Jesus descreveu na parábola do semeador, em Marcos 4:3-20. A semente é a mesma em todos os terrenos. O que muda é o solo: a Palavra que cai entre espinhos é sufocada pelas "preocupações deste mundo, a fascinação da riqueza e os desejos de outras coisas". Não é pecado escandaloso que mata o crescimento na maioria das vezes. É ocupação. É a vida cheia demais para que a Palavra tenha onde enraizar.

E há um quarto, mais sutil: a ideia de que crescimento é sentir mais. Quem mede a própria fé pela intensidade da emoção acha que estacionou toda vez que a emoção baixa — e às vezes é justamente nesses períodos secos que a raiz desce.

Quem faz a planta crescer

Toda essa lista de meios pode dar a impressão de que crescimento é esforço, e que quem não cresceu não se esforçou o bastante. A Bíblia corrige isso de um jeito direto.

Tendo por certo isto mesmo: que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo.(Filipenses 1:6)

Quem começou a obra é Deus, e quem a termina é Deus. Paulo diz o mesmo em 1 Coríntios 3: ele plantou, Apolo regou, mas "o crescimento veio de Deus" (1 Coríntios 3:6-7). E em 2 Coríntios ele descreve o processo todo como alguém sendo "transformado de glória em glória" enquanto contempla o Senhor — pelo Espírito, não pela força de vontade (2 Coríntios 3:18).

Isso não anula o que veio antes. Ler, orar, conviver, obedecer, suportar a prova: tudo isso é colocar a planta no sol e regar. Mas o que acontece dentro da semente, ninguém controla. É por isso que o cristão maduro é, curiosamente, o que menos se acha maduro — ele sabe quanto do que mudou nele não foi mérito dele.

E é por isso que 2 Pedro 3:18 termina como termina. Depois de "crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo", a frase não acaba com uma exortação ao leitor. Acaba com "a ele seja a glória". O crescimento é ordem para nós e glória para ele. Leia 2 Pedro 3 inteiro para ver o que vem antes dessa frase: um capítulo sobre o fim de todas as coisas, que desemboca em "por isso, cresçam".

Crescimento espiritual e salvação são a mesma coisa?

Não. Na leitura evangélica histórica, a salvação (justificação) é recebida de uma vez pela fé em Cristo; o crescimento (santificação) é o processo que vem depois e dura a vida inteira. Quem cresce pouco não é "menos salvo" — mas Hebreus 5:12 e 1 Coríntios 3:1 mostram que a Bíblia trata a estagnação como um problema a corrigir, não como algo normal.

Dá para medir o próprio crescimento espiritual?

Não com números, mas dá para observar. Gálatas 5:22-23 é a melhor régua: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. A pergunta útil é "como eu reagia a isso cinco anos atrás?", não "o que eu senti no culto de domingo". Quem convive com você costuma enxergar o crescimento antes de você.

Por que sinto que estou parado na fé?

A Bíblia aponta algumas causas: preguiça para ouvir (Hebreus 5:11), brigas e comparação (1 Coríntios 3:3), uma vida tão cheia que a Palavra não tem onde enraizar (Marcos 4:19). Mas às vezes a sensação de estar parado vem de medir fé por emoção. Períodos secos não são necessariamente estagnação; muitas vezes é neles que a raiz desce.

Crescer espiritualmente é obrigação minha ou obra de Deus?

As duas coisas, e a Bíblia não vê contradição. Filipenses 1:6 diz que Deus começou e vai terminar a obra; 2 Pedro 3:18 manda você crescer. A imagem bíblica resolve: você é responsável por plantar, regar e ficar no sol; o crescimento em si, que acontece dentro da semente, vem de Deus (1 Coríntios 3:7).

Quanto tempo leva para amadurecer na fé?

A vida inteira. Paulo, já velho e perto da morte, dizia que ainda não tinha alcançado o alvo e prosseguia (Filipenses 3:12-14). Não existe cristão "formado". Existe cristão crescendo e cristão parado — e a Bíblia considera que o primeiro é o normal.

Adilson Bueno De Lima Lima
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