Abba Pai: 10 vezes em que Jesus revelou Deus
O que significa Jesus chamar Deus de Abba
Abba é a palavra que uma criança judia usava em casa para chamar o pai — em aramaico, a língua que Jesus falava no dia a dia. Jesus usou essa palavra para falar com Deus. Marcos guardou o som original em uma cena só: no Getsêmani, horas antes da cruz, Jesus caiu no chão e orou "Aba, Pai" (Marcos 14:36).
Esse é o centro de tudo o que vem a seguir. Deus já era chamado de Pai antes de Jesus, mas de longe, como Pai do povo inteiro. Jesus fala com Deus como quem fala com o próprio pai, em qualquer situação — do templo aos doze anos ao último suspiro na cruz. E depois ensina os discípulos a fazerem o mesmo.
Uma nota de grafia, para não confundir: a maioria das Bíblias em português escreve "Aba" (ACF, NVI, NAA). Em livros e sermões você encontra "Abba", mais perto do aramaico. É a mesma palavra; aqui uso "Abba" na explicação e deixo "Aba" como aparece no texto bíblico.
E uma correção que vale fazer logo. Joachim Jeremias, estudioso alemão do século XX, popularizou a ideia de que abba era palavra de bebê, algo como "papai". Pesquisas posteriores — James Barr é o nome mais citado — mostraram que filhos adultos também chamavam o pai de abba. A palavra, então, não é infantil. É familiar: o jeito de falar com o pai dentro de casa, não o título que se usa diante de um juiz.
Como Deus era chamado de Pai antes de Jesus
Olha, o Antigo Testamento conhece Deus como Pai, mas quase sempre de Israel como nação. Moisés pergunta ao povo: "Não é ele teu Pai, que te adquiriu?" (Deuteronômio 32:6). Isaías ora em nome do povo: "Tu és nosso Pai" (Isaías 63:16). Oseias lembra: "Quando Israel era menino, eu o amei; do Egito chamei meu filho" (Oseias 11:1). Em Jeremias 3:19 Deus até deseja ouvir "Meu Pai" da boca de Israel — e o contexto é que o povo não dizia.
O salmista chega mais perto do indivíduo: "Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem" (Salmo 103:13). Mas repare: é uma comparação. Deus é como um pai. Não é alguém abrindo a boca em oração e dizendo "Pai" para Deus.
No judaísmo do tempo de Jesus, orações comunitárias usavam "nosso Pai, nosso Rei". Era real, era bonito, e era coletivo. O que não se vê nos textos que chegaram até nós é um homem sozinho, de madrugada, chamando Deus de abba como quem chama o pai no quarto ao lado.
Isso é o que Jesus faz. Não uma vez: sempre. Ele mesmo diz de onde vem o direito de falar assim: "Ninguém conhece o Pai senão o Filho" (Mateus 11:27). Os dez momentos abaixo mostram essa relação em ação, do começo ao fim dos Evangelhos.
1. No templo, aos doze anos: "os negócios de meu Pai"
A família tinha subido a Jerusalém para a Páscoa e voltava para Nazaré na caravana. Jesus ficou para trás sem avisar. Maria e José levaram um dia para notar e três para encontrá-lo, sentado no templo entre os mestres da lei (Lucas 2:41-47).
Maria fala primeiro, e fala como mãe: "Filho, por que fizeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu, ansiosos, te procurávamos" (Lucas 2:48). "Teu pai" é José. A resposta de Jesus é a primeira frase dele que a Bíblia registra:
E ele lhes disse: Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?(Lukasevangeliet 2:49, ACF)
Maria disse "teu pai"; Jesus responde "meu Pai" — e não está falando de José. Com doze anos, antes de qualquer milagre, ele já sabe de quem é filho.
Vale notar uma diferença entre traduções. A ACF diz "os negócios de meu Pai"; a NAA traduz "a casa de meu Pai". O grego diz literalmente "nas coisas de meu Pai", e cabem as duas leituras: o lugar e a ocupação. Em qualquer uma, o templo é dele por ser do Pai.
2. No Sermão do Monte: o Pai que vê em secreto
Agora Jesus está ensinando uma multidão numa encosta da Galileia. Em Mateus 6:1-18 ele trata de três práticas que todo judeu piedoso conhecia — esmola, oração e jejum — e em cada uma repete a mesma frase: "teu Pai, que vê em secreto".
Mas, quando você orar, vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que está em secreto. Então, o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.(Matteusevangeliet 6:6, NVI)
O detalhe é o endereço da oração. Jesus não diz "ore ao Deus de Israel" nem "ore ao Altíssimo". Diz "ore ao seu Pai", num quarto fechado, sem público. Em seguida ensina o modelo: "Pai nosso, que estás nos céus" (Mateus 6:9).
Essa é a primeira vez que Jesus põe a palavra "Pai" na boca de outras pessoas. O que até ali era o jeito dele de falar com Deus vira o jeito que ele ensina. E fica claro que a intimidade não é só dele: o Pai "sabe o que vocês precisam antes de pedirem" (Mateus 6:8).
3. Em Betesda, diante dos líderes: "Meu Pai trabalha, e eu trabalho"
Em Jerusalém, junto ao tanque de Betesda, Jesus cura um homem paralítico há trinta e oito anos e manda que ele carregue a esteira. Era sábado (João 5:1-9). Os líderes religiosos o confrontam, e a resposta dele muda o rumo da conversa:
Men Jesus sade till dem: "Min Far verkar fortfarande, och därför verkar även jag."(Johannesevangeliet 5:17)
O raciocínio é este: Deus descansou no sétimo dia (Gênesis 2:2), mas os próprios mestres judeus reconheciam que Deus não para de sustentar o mundo — o sol nasce no sábado, crianças nascem no sábado. Jesus reivindica para si a mesma liberdade do Pai.
A reação mostra que eles entenderam exatamente o que ele quis dizer. João 5:18 registra que, por isso, procuravam ainda mais matá-lo, "porque dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus". Para os ouvintes, "meu Pai" na boca de Jesus não era linguagem devocional. Era uma afirmação sobre quem ele era.
4. No túmulo de Lázaro: agradecer antes do milagre
Em Betânia, Lázaro está morto há quatro dias. Marta e Maria estão de luto, e o texto diz, sem rodeio, que "Jesus chorou" (João 11:35). Diante do túmulo, ele manda tirar a pedra. E, antes de dizer qualquer coisa a Lázaro, fala com o Pai:
…
Pai, graças te dou porque me ouviste.(Johannesevangeliet 11:41b, NAA)
Repare no tempo do verbo: "me ouviste", no passado, com o morto ainda lá dentro. No versículo seguinte ele explica: "Eu sabia que sempre me ouves; mas disse isto por causa da multidão" (João 11:42). Jesus não está convencendo o Pai a agir. Está mostrando a quem assiste como é a relação entre os dois: ele pede, o Pai ouve, e isso é certo o suficiente para ser agradecido antes de acontecer.
5. Na oração sacerdotal: "Pai santo", "Pai justo"
Na noite da última ceia, depois de lavar os pés dos discípulos e falar longamente com eles, Jesus ora em voz alta. É a oração mais longa dele que temos, e ela ocupa João 17 inteiro.
A palavra "Pai" aparece seis vezes nessa oração (João 17:1, 5, 11, 21, 24, 25). Em duas delas vem com um adjetivo: "Pai santo" (17:11) e "Pai justo" (17:25). Não é um pai qualquer; é o Pai que é santo, e ainda assim Pai.
O pedido central de João 17:11 é que os discípulos "sejam um, assim como nós". A unidade que Jesus tem com o Pai é a medida da unidade que ele pede para os seus. Isso só faz sentido porque ele está prestes a abrir essa relação para eles — o que acontece de fato no item 9.
6. No Getsêmani: a única vez em que o som aramaico ficou
Depois da oração, Jesus atravessa o vale com os discípulos até um olival chamado Getsêmani. Leva Pedro, Tiago e João um pouco mais adiante, pede que vigiem, e vai sozinho. Marcos diz que ele "começou a ter pavor e a angustiar-se" (Marcos 14:33) e caiu com o rosto no chão.
Han sade: "Abba, Far! Allt är möjligt för dig. Ta den här bägaren ifrån mig. Men inte som jag vill, utan som du vill."(Markusevangeliet 14:36)
Isso aqui é importante. Marcos escreve em grego, para leitores que não falavam aramaico. Mesmo assim, ele mantém a palavra original, Abba, e só então traduz: "Pai". Por que não traduzir direto? A explicação mais aceita é que a igreja primitiva lembrava daquela palavra exata. Paulo faz o mesmo em cartas para igrejas da Galácia e de Roma, onde ninguém falava aramaico (Romanos 8:15; Gálatas 4:6). O som ficou porque importava.
E veja onde ele ficou: não numa cena de glória, mas na oração mais sombria dos Evangelhos. Jesus diz "Abba" e, na mesma frase, pede que o cálice seja afastado — e aceita que não seja. Intimidade com o Pai não significa receber o que se pede. Significa poder dizer o que se quer e ainda assim entregar a decisão. Esse é o modelo de oração que os cristãos vão herdar.
7. Na cruz: "Pai, perdoa-lhes"
Em Lucas, a primeira coisa que Jesus diz depois de ser pregado na cruz é uma oração. Os soldados estão a poucos metros, repartindo as roupas dele entre si.
O detalhe que salta é a palavra inicial. Não é "Deus, vinga-me", que seria a reação natural. É "Pai", dirigido em favor de quem o está matando. A relação com o Pai não muda quando as circunstâncias ficam insuportáveis.
Vale dizer, por honestidade: alguns manuscritos antigos de Lucas não trazem essa frase, e por isso várias Bíblias a marcam com uma nota de rodapé. A maioria das traduções a mantém, e a igreja a leu como palavra de Jesus desde muito cedo — Estêvão, o primeiro mártir, morre fazendo o mesmo pedido pelos que o apedrejavam (Atos 7:60).
8. No último suspiro: "Pai, nas tuas mãos"
Mateus e Marcos registram o grito de abandono: "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" (Marcos 15:34), que é o começo do Salmo 22. Lucas registra a última palavra, e ela é diferente:
Jesus bradou em alta voz:
— Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.
Tendo dito isso, expirou.(Lukasevangeliet 23:46, NVI)
Jesus está citando o Salmo 31:5: "Nas tuas mãos entrego o meu espírito". O salmista não diz "Pai"; Jesus acrescenta. Ele morre com uma oração de Israel na boca e o nome que só ele usava desse jeito na frente dela.
As duas falas não se contradizem: a do abandono mostra o peso real do que ele carregava; a de Lucas mostra em quem ele continuou confiando debaixo desse peso. Jesus morre como viveu — falando com o Pai.
9. Na ressurreição: "meu Pai e vosso Pai"
Domingo de manhã. Maria Madalena está junto ao túmulo vazio, chorando, e toma Jesus pelo jardineiro até ouvir o próprio nome (João 20:11-16). Ela o reconhece, e ele lhe dá um recado para os discípulos:
Jesus sade till henne: "Rör mig inte, för jag har inte stigit upp till Fadern än. Men gå till mina bröder och säg till dem att jag stiger upp till min Far och er Far, till min Gud och er Gud."(Johannesevangeliet 20:17)
Dois detalhes. Primeiro, Jesus chama os discípulos de "meus irmãos" — é a primeira vez no Evangelho de João que ele usa essa palavra para eles. Antes eram "amigos" (João 15:15); agora são irmãos. O que mudou foi a cruz e a ressurreição.
Segundo, ele não diz "nosso Pai". Diz "meu Pai e vosso Pai". O texto preserva uma distinção: a filiação de Jesus é dele por natureza, eterna; a dos discípulos é dada, recebida. Mas é a mesma pessoa que ele chama de Pai. Aquilo que no item 3 soou como blasfêmia aos líderes — Deus como "seu próprio Pai" — agora é estendido a pescadores da Galileia.
10. No cenáculo: o Pai que envia o Espírito
Volto um pouco no tempo, porque a promessa foi feita antes da cruz, mas é com ela que a lista fecha. Na mesma noite da última ceia, no cenáculo, Jesus prepara os discípulos para ficar sem ele. Tomé e Filipe fazem perguntas confusas, e Jesus responde: "Quem me vê a mim vê o Pai" (João 14:9).
Em seguida explica como a presença do Pai vai continuar com eles: "Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre" (João 14:16). O Espírito, diz ele, é enviado pelo Pai em nome do Filho (João 14:26). Leia a conversa inteira em João 14.
O que isso tem a ver com Abba? Tudo. Jesus não deixa a relação com o Pai como uma lembrança do que ele fazia. Deixa alguém — o Espírito — que vai produzir nos discípulos a mesma relação. E Paulo diz exatamente isso: o Espírito que recebemos é o que "clama: Aba, Pai" (Gálatas 4:6).
O que muda para quem crê
Aqui a lista dos dez momentos deixa de ser história e passa a ser identidade. Paulo escreve a cristãos em Roma: "Recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai" (Romanos 8:15). A palavra que Marcos guardou do Getsêmani está agora na boca de pessoas que nunca viram Jesus.
Isso quer dizer que a filiação do cristão não é uma figura de linguagem. João 1:12 diz que, aos que creem, Deus deu "o direito de se tornarem filhos de Deus". Na leitura evangélica histórica — e aqui vale dizer que católicos e ortodoxos leem no mesmo sentido —, essa adoção é real e acontece pela fé em Cristo, não por nascimento nem por mérito.
Três coisas mudam na prática, e as três estão nos dez momentos acima.
A oração muda de endereço. Quem ora como Jesus ensinou (Mateus 6:6-9) não começa convencendo Deus a ouvir; começa falando com alguém que já está ouvindo. Lázaro mostra isso: o agradecimento antes da resposta.
A identidade deixa de depender do que se tem para mostrar. Jesus sabia de quem era filho aos doze anos, sem milagre nenhum. O cristão não é filho porque ora bem, mas ora porque é filho.
E o sofrimento ganha um lugar para ir. O Getsêmani não ensina que filhos de Deus não sofrem. Ensina que filhos podem dizer "afasta de mim este cálice" e, na mesma frase, "não o que eu quero". A cruz confirma: dá para dizer "Pai" com os pulsos pregados.
Jesus chamou Deus de Pai mais de cem vezes só no Evangelho de João. Mas o momento que vale voltar é aquele em que a palavra ficou no som original, no chão de um olival, à noite. Leia a cena completa em Marcos 14.
Abba significa "papai"?
Não exatamente. Abba era a palavra aramaica para "pai" usada em casa, por crianças e também por filhos adultos. A ideia de que seria linguagem de bebê veio do estudioso Joachim Jeremias e foi corrigida por pesquisas posteriores. O melhor equivalente é "pai" dito com intimidade, não um diminutivo.
Por que só Marcos registra a palavra "Aba"?
Marcos é o único Evangelho que preserva o aramaico em Marcos 14:36, mas Mateus 26:39 e Lucas 22:42 registram a mesma oração com "Pai" em grego. A hipótese mais aceita é que Marcos manteve a palavra original porque a igreja primitiva a lembrava assim — Paulo também a usa, sem traduzir, em Romanos 8:15 e Gálatas 4:6.
Jesus também chamou Deus de "Deus", e não só de Pai?
Sim. Na cruz ele clamou "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" (Marcos 15:34), citando o Salmo 22:1. E em João 20:17 ele fala de "meu Deus e vosso Deus" na mesma frase em que diz "meu Pai e vosso Pai". Os dois nomes aparecem juntos; um não cancela o outro.
Por que Jesus diz "meu Pai e vosso Pai" em vez de "nosso Pai"?
Em João 20:17 o texto mantém uma distinção. Jesus é Filho de Deus por natureza, desde a eternidade; os discípulos se tornam filhos por adoção, pela fé nele. É o mesmo Pai, mas o modo de filiação é diferente. A única vez em que Jesus diz "Pai nosso" é ensinando os discípulos a orar (Mateus 6:9), e ali ele está colocando as palavras na boca deles.
Um cristão pode chamar Deus de Abba hoje?
Pode, e o Novo Testamento diz que é o Espírito Santo quem leva a isso: "Recebestes o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai" (Romanos 8:15; ver também Gálatas 4:6). Não é uma técnica de oração nem uma fórmula; é a expressão de uma relação que, segundo Paulo, já existe em quem crê em Cristo.
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