Desejos: como a Bíblia orienta os impulsos do coração
O que a Bíblia ensina sobre o desejo humano
A Bíblia não trata o desejo como algo mau por definição, mas ensina que a inclinação do coração determina o rumo da vida. O problema surge quando a vontade humana se desliga de Deus e passa a perseguir o que é proibido ou a colocar coisas criadas no lugar do Criador.
O apóstolo Tiago explica a mecânica desse processo: Deus não tenta ninguém, mas cada pessoa é arrastada pelas próprias paixões. Quando o desejo pecaminoso é alimentado, ele gera o pecado, que culmina na morte.
Entretanto, ninguém ao ser tentado deverá dizer: "Estou sendo tentado por Deus". Ora, Deus não pode ser tentado pelo mal, e a nenhuma pessoa tenta.(Tiago 1:13)
Cobiçais e nada tendes. Matais e invejais, porém não conseguis obter o que desejais; viveis a brigar e a promover contendas. Todavia, nada conquistais, porque não pedis.(Tiago 4:2)
A lei mosaica expôs essa realidade interna ao proibir a cobiça. O mandamento mostrou que o pecado não começa na ação externa, mas no impulso interior que anseia pelo que pertence ao outro ou pelo que Deus vedou.
Portanto, que concluiremos? A Lei é pecado? De forma alguma! De fato, eu não teria como saber o que é pecado, a não ser por intermédio da Lei. Porquanto, na realidade, eu não haveria conhecido a cobiça, se primeiro a Lei não tivesse dito: "Não cobiçarás".(Romanos 7:7)
O conflito entre a carne e o Espírito
Nas cartas paulinas, a inclinação pecaminosa é chamada de carne. Não se trata apenas do corpo físico, mas da natureza humana rebelada contra Deus. Há uma oposição frontal entre os impulsos dessa natureza e a direção dada pelo Espírito Santo.
Portanto, vos afirmo: Vivei pelo Espírito, e de forma alguma satisfareis as vontades da carne!(Gálatas 5:16)
A liberdade cristã não é licença para satisfazer impulsos egoístas, mas o poder concedido por Deus para amar e servir ao próximo.
Caros irmãos, fostes chamados para a liberdade. Todavia, não useis da liberdade como desculpa para vos franquear à carne; antes, sede servos uns dos outros mediante o amor.(Gálatas 5:13)
Sendo assim, fazei morrer tudo o que pertence à natureza terrena: imoralidade sexual, impureza, paixão, vontades más e a ganância, que também é idolatria.(Colossenses 3:5)
O apóstolo João reforça essa divisão ao contrastar o amor ao Pai com os atrativos de um sistema corrompido. As ambições desordenadas — o apelo aos apetites físicos, a fascinação dos olhos e o orgulho pelas posses — têm prazo de validade.
Pois tudo o que há no mundo: as paixões da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens não provém do Pai, mas do mundo.(1 João 2:16)
Ora, o mundo passa, assim como sua volúpia; entretanto, aquele que faz a vontade de Deus permanece eternamente.(1 João 2:17)
Vigilância e domínio próprio diante da tentação
O domínio sobre os impulsos exige disciplina mental e escolhas deliberadas. Jó declarou que fez um pacto formal com os próprios olhos para não cobiçar, reconhecendo que o olhar alimenta a imaginação antes que o ato aconteça.
Pode alguém andar sobre brasas
sem queimar os próprios pés?(Provérbios 6:28)
No Getsêmani, Jesus alertou que a disposição do espírito precisa ser sustentada pela oração e pela vigilância prática, pois a fragilidade humana sucumbe facilmente à pressão do momento.
Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito, com certeza, está preparado, mas a carne é fraca".(Mateus 26:41)
E não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do Maligno. Porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém.(Mateus 6:13)
Sede sensatos e vigilantes. O Diabo, vosso inimigo, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem devorar.(1 Pedro 5:8)
O autocontrole também se aplica a apetites legítimos que podem se tornar destrutivos quando perdem a medida. Paulo trata da liberdade cristã afirmando que nem tudo o que é permitido edifica ou convém. No casamento e na vida financeira, a falta de freios gera laços de escravidão.
Todas as coisas me são permitidas, mas nem todas são saudáveis. Tudo me é lícito realizar, mas eu não permitirei que nada me domine.(1 Coríntios 6:12)
Porém, por causa da imoralidade, cada homem tenha sua esposa, e cada mulher, seu marido.(1 Coríntios 7:2)
Digno de honra seja o casamento entre todas as testemunhas, bem como a pureza do leito conjugal; porquanto, Deus julgará os imorais e adúlteros.(Hebreus 13:4)
A ilusão das riquezas é um dos maiores gatilhos para desejos desordenados. Provérbios e as cartas pastorais mostram que a busca febril por bens materiais traz cansaço inútil e sofrimento espiritual, pois a riqueza foge com facilidade e a cobiça desvia a pessoa da fé.
Porquanto, o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e por causa dessa cobiça, alguns se desviaram da fé e se atormentaram em meio a muitos sofrimentos.(1 Timóteo 6:10)
Os bens e o prestígio desaparecem
como num piscar de olhos;
criam asas
e voam pelos céus como a águia.(Provérbios 23:5)
Os dias se passam, e ele "desejando" mais e mais,
enquanto o justo reparte
sem parar o que granjeia.(Provérbios 21:26)
Não vos sobreveio tentação que não fosse comum aos seres humanos. Mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além do que podeis resistir. Pelo contrário, juntamente com a tentação, proverá um livramento para que a possais suportar.(1 Coríntios 10:13)
Quando alguém se desvia por fraqueza em meio a essa luta, a comunidade deve agir com moderação e espírito restaurador, guardando a si mesma contra as mesmas armadilhas.
Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vós que sois espirituais, deveis restaurar essa pessoa com espírito de humildade. Todavia, cuida de ti mesmo, para que não sejas igualmente tentado.(Gálatas 6:1)
O desejo santificado: a alma voltada para Deus
A resposta bíblica para os desejos destrutivos não é a supressão de todo o anseio humano, mas o seu redirecionamento. O coração foi criado para desejar Deus com a mesma intensidade com que um animal sedento procura água corrente no deserto.
Como a corça suspira
pelas águas correntes,
assim, por ti, ó Deus, anseia
a minha alma.(Salmos 42:1)
Andando pelo caminho dos teus juízos e mandamentos esperamos em ti,
ó Eterno.
O teu Nome e a tua lembrança são o desejo
do nosso coração.(Isaías 26:8)
Pelas promessas de Deus em Cristo, o crente é liberto da corrupção das paixões mundanas e passa a participar da natureza divina, recebendo novos afetos que se alinham à vontade do Senhor.
pelas quais nos tem outorgado suas preciosas e grandiosas promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo.(2 Pedro 1:4)
No Sermão do Monte, Jesus sintetizou a relação entre desejo e vida espiritual ao mostrar que as afeições humanas sempre seguem aquilo que é mais valorizado:
Porque, onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração.(Mateus 6:21)
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