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Pai: significado bíblico e a paternidade de Deus

Homem de barba grisalha e túnica bege olha para o alto sob céu azul.

O que significa chamar Deus de Pai

Chamar Deus de Pai, na Bíblia, é dizer três coisas de uma vez: que ele deu origem a você, que ele se responsabiliza por você como quem cuida de um filho, e que você pode falar com ele de perto — sem a cerimônia de quem se dirige a um rei distante. O nome não é figura bonita de linguagem. Ele descreve uma relação com direitos e deveres dos dois lados.

E vale notar logo no começo: a Bíblia não parte do pai humano para explicar Deus. Ela faz o contrário. Deus é o Pai por excelência, e o pai de carne e osso é que é medido por ele. Isso muda tudo para quem não teve um bom pai e lê "Pai" com um nó na garganta.

O versículo que concentra a ideia está em Romanos 8:

Ni har inte fått slaveriets ande så att ni på nytt måste leva i fruktan. Nej, ni har fått barnaskapets Ande, och i honom ropar vi: "Abba! Far!"(Romarbrevet 8:15)

Paulo diz que quem crê recebeu "o Espírito de adoção" e, por causa dele, chama Deus de "Aba, Pai". Duas palavras resumem o assunto inteiro: adoção — ninguém nasce nessa família, é recebido nela — e Aba, a palavra que o filho usava dentro de casa. Tudo o que a Bíblia diz sobre a paternidade de Deus cabe entre essas duas.

No Antigo Testamento, Pai é o Deus que fez e escolheu Israel

Olha, isto costuma surpreender: no Antigo Testamento, Deus é chamado de Pai pouquíssimas vezes — umas quinze, num conjunto de trinta e nove livros. E quase sempre o "filho" não é uma pessoa, é o povo. Quando Deus manda Moisés falar com Faraó, ele diz: "Israel é meu filho, meu primogênito" (Êxodo 4:22). Oseias lembra que Deus "chamou do Egito o seu filho" (Oseias 11:1).

No cântico de Moisés, perto do fim da vida dele, o nome aparece com peso de cobrança:

Är det så du lönar Herren,

du dåraktiga och ovisa folk?

Är han inte din Far

som skapade dig,

han som danade och formade dig?(Femte Moseboken 32:6)

Repare nos três verbos: adquiriu, fez, estabeleceu. Pai, aqui, é quem comprou a liberdade de um povo escravo, deu forma a ele como nação e colocou-o de pé numa terra. A pergunta é retórica, e dói: como é que um filho assim trata o pai desse jeito? A paternidade de Deus no Antigo Testamento vem junto com a aliança — e aliança tem dois lados.

Isaías usa a mesma palavra num tom bem diferente, quando o povo está arrasado e implora:

Men Herre, du är vår Far.

Vi är leran,

och du är den som format oss,

vi är alla verk av din hand.(Jesaja 64:8)

Pai e oleiro na mesma frase. O barro não tem argumento, não tem mérito, não tem como se refazer sozinho. Só pode pedir que o oleiro não desista do vaso. É a oração de quem sabe que a única coisa a seu favor é o fato de ter sido feito por ele. Um capítulo antes, o profeta já havia juntado as duas ideias: "tu, Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome" (Isaías 63:16). Pai é o que resgata.

Oleiro modela um vaso de barro no torno, em uma oficina.

Deus é Pai de todo mundo?

Sim e não — e a Bíblia usa a palavra nos dois sentidos, por isso a confusão é compreensível.

No sentido de origem, sim. Malaquias pergunta: "Não temos nós todos um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo Deus?" (Malaquias 2:10). Paulo, falando a filósofos em Atenas que nunca tinham aberto a Escritura, cita um poeta grego e concorda: "somos também geração dele" (Atos 17:28-29). Todo ser humano existe porque Deus o fez, e nisso ele é Pai de todos.

Mas a Bíblia reserva a palavra "filho de Deus", no sentido de relação, para quem entra nela. João abre o Evangelho dizendo exatamente como:

Men åt alla som tog emot honom gav han rätten att bli Guds barn, åt dem som tror på hans namn.(Johannesevangeliet 1:12)

"Serem feitos." Se fosse automático, não precisava ser feito. João está dizendo que existe um ponto de entrada — receber a Cristo, crer no nome dele — e que, antes dele, a pessoa é criatura de Deus, mas não é filha no sentido pleno. Jesus foi ainda mais direto numa discussão com adversários religiosos que se gabavam da própria linhagem: "Vós tendes por pai o diabo" (João 8:44). Duro — mas mostra que, para Jesus, "pai" era quem você obedece e com quem você se parece, não só quem te deu a existência.

Aqui cabe dizer de onde essa leitura vem. A teologia evangélica histórica, que é a deste texto, entende a filiação como dom recebido pela fé, nos termos de João 1:12. Tradições católica e ortodoxa associam esse mesmo dom ao batismo. Há ainda correntes mais liberais que preferem falar de uma paternidade universal sem distinção. O que o texto bíblico sustenta com clareza é a diferença entre criatura e filho — a discussão entre cristãos é sobre o momento em que a passagem acontece, não sobre se ela existe.

O que Jesus mudou

Se o Antigo Testamento chama Deus de Pai umas quinze vezes, Jesus faz isso o tempo todo. Só no Evangelho de João, passa de cem. Ele diz "meu Pai" como quem fala de alguém que conhece de dentro — e ensina os discípulos a fazer o mesmo:

Vale ver o que está e o que não está aqui. A palavra, no grego de Mateus, é patér, "Pai" mesmo. A ideia nova não é o vocabulário; é o endereço. Um judeu do século I orava a Deus como Rei, Senhor dos Exércitos, Santo de Israel. Jesus manda abrir a oração com "Pai" — e, junto, "que estás nos céus", para ninguém achar que proximidade dispensa reverência. Pai e céu na mesma frase: perto e acima ao mesmo tempo.

A palavra aramaica aba, aquela de Romanos 8:15, Jesus usou numa hora específica: no Getsêmani, suando de angústia, horas antes de ser preso. "Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice" (Marcos 14:36). Marcos conservou a palavra original porque ela marcou quem ouviu. Não era o jeito normal de um judeu se dirigir a Deus. Era o jeito de um filho falar com o pai em casa.

Isso aqui é importante: aba não é "papai" no sentido infantil. Durante um tempo se ensinou isso, mas o estudo dos textos da época mostrou que filhos adultos chamavam o pai de aba também. É a palavra da família — íntima, sim, mas de gente grande. Quando Paulo diz que os cristãos clamam "Aba", ele não está dizendo que viramos criancinhas; está dizendo que entramos na casa.

E repare numa coisa que Jesus nunca faz: ele não diz "nosso Pai" colocando a si mesmo no mesmo saco dos discípulos. Ensina a oração para eles, mas quando fala por si diz "meu Pai" — e, ressuscitado, resume: "meu Pai e vosso Pai" (João 20:17). Ele é Filho por natureza. Nós, por outro caminho — que é o próximo ponto.

A parábola que melhor retrata o Pai de quem Jesus falava é a do filho perdido, em Lucas 15:11-32: o pai que vê o filho de longe, corre, abraça antes do pedido de desculpa terminar, e manda vestir nele as roupas de filho — não de empregado. Quem quiser saber como Deus recebe, lê esse capítulo.

Adoção: como alguém passa a ser filho

Paulo escolheu a palavra "adoção" com cuidado, e ela falava alto para quem lia a carta em Roma. No direito romano, o filho adotado ganhava exatamente os mesmos direitos do filho de sangue: o nome, a herança, a proteção da casa. As dívidas antigas dele deixavam de existir, porque a pessoa anterior, juridicamente, deixava de existir. Não havia "meio filho".

É isso que o versículo-âncora está dizendo. O Espírito que a pessoa recebe não é "de escravidão, para outra vez estar em temor" — não é o Espírito que faz a gente se encolher. É o Espírito que faz a gente chamar Deus de Aba. E Paulo continua, no versículo seguinte, dizendo que esse mesmo Espírito testifica que somos filhos; e, se filhos, herdeiros (Romanos 8:16-17). A sequência é essa: adoção, intimidade, herança.

Em Gálatas ele conta como isso foi feito: Deus enviou o Filho "para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos" (Gálatas 4:4-7). O Filho natural é quem abre a porta para os filhos adotados. Por isso Jesus pode dizer "meu Pai e vosso Pai": o dele por direito, o nosso por causa dele.

Para quem está lendo: a adoção quer dizer que a sua posição na família de Deus não depende de você ter nascido no lugar certo nem de ter um histórico limpo. Depende de ter sido recebido. E quem recebe é ele.

O Pai que provê

Jesus fala do cuidado do Pai sobretudo no Sermão do Monte, para gente que tinha medo real de faltar comida e roupa — não era preocupação abstrata:

Olha o argumento. Jesus não diz "não se preocupe porque nada vai faltar". Ele diz: o Pai sabe do que você precisa. A âncora da tranquilidade não é uma garantia de resultado; é o caráter de quem cuida. E a lista do que ele "sabe" é concreta e curta — o que comer, o que beber, o que vestir. "Todas estas coisas" são necessidades, não desejos. Quem usa esse texto para prometer prosperidade está trocando o que Jesus disse pelo que gostaria que ele tivesse dito.

Um capítulo adiante Jesus completa o raciocínio pelo lado humano: se um pai qualquer, "sendo mau", não dá pedra ao filho que pede pão, "quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem" (Mateus 7:9-11). O argumento vai do menor para o maior: o pior pai humano ainda alimenta o filho; imagine o Pai perfeito.

O salmista já tinha dito a mesma coisa com outra imagem: "Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem" (Salmos 103:13). Compadecer é sentir junto. O Pai da Bíblia não é um administrador que despacha recursos; é alguém que se comove com o filho.

A disciplina é parte do amor

Isto aqui costuma ser o lado da paternidade de Deus que menos gente quer ouvir, e o que a Bíblia menos esconde. O autor de Hebreus escreve a cristãos cansados, sofrendo pressão por causa da fé, e lembra a eles um provérbio antigo:

A citação vem de Provérbios 3:11-12, e o raciocínio de Hebreus continua no versículo seguinte: "se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque que filho há a quem o pai não corrija?" (Hebreus 12:7-11). A lógica é invertida em relação ao que a gente sente: a correção não é sinal de que Deus desistiu; é sinal de que ele está criando você. Quem não corrige é quem não se importa.

A palavra grega para "correção" aqui é paideia — o termo que se usava para a educação de uma criança. Não é a pena que um juiz aplica a um réu; é o treino que um pai aplica a um filho para que ele cresça. Hebreus diz o alvo: "para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade". Disciplina de pai mira o que o filho vai se tornar.

Mas é preciso ler com cuidado, porque esse texto já foi usado para machucar. Hebreus não diz que todo sofrimento é castigo por um pecado específico. Jesus negou isso explicitamente quando perguntaram sobre pessoas mortas numa tragédia (Lucas 13:1-5), e o livro de Jó inteiro existe para corrigir os amigos que pensavam assim. O que Hebreus afirma é outra coisa: que o Pai usa até a dificuldade que ele não causou para formar o filho, e que o filho não é abandonado nela.

Filhos parecem com o Pai

Na Bíblia, "filho de" quer dizer, antes de tudo, "parecido com". Por isso ser filho de Deus vem com uma expectativa, que Paulo coloca de forma direta:

A ordem das palavras importa. Não é "imitem a Deus para serem amados"; é "imitem a Deus como filhos amados" — o amor vem antes, a imitação vem como consequência. É assim que funciona em casa: a criança copia o pai que a ama, sem nem perceber que está copiando.

Jesus deu o exemplo mais exigente disso no Sermão do Monte: amar os inimigos e orar pelos que perseguem, "para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons" (Mateus 5:44-45). O Pai não escolhe para quem o sol nasce. O filho que se parece com ele também não escolhe a quem fazer bem.

Quando o pai da terra atrapalha a leitura

Muita gente lê "Deus Pai" e sente frio, não acolhimento, porque a referência que tem é de ausência, dureza ou violência. A Bíblia sabe disso — e, como foi dito no começo, ela não pede que você projete seu pai em Deus. Ela pede o oposto: que você meça seu pai por Deus.

Hebreus faz exatamente essa comparação: os pais humanos nos corrigiam "como bem lhes parecia", com acerto e erro; Deus corrige "para nosso proveito" (Hebreus 12:9-10). O pai da terra é a cópia, às vezes muito ruim. Deus é o original. E o salmista, num dos versículos mais francos da Escritura, admite a possibilidade que ninguém gosta de admitir: "Quando meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me recolherá" (Salmos 27:10).

Isso não apaga a ferida. Mas tira dela o direito de definir quem Deus é. Quem chega à Bíblia sem uma boa imagem de pai não precisa consertar essa imagem antes de orar "Pai nosso" — vai aprendendo o que a palavra quer dizer no caminho, olhando para o Pai que Jesus mostrou.

Vale a pena, por fim, voltar a Romanos 8:15 e ler a frase inteira de novo, agora sabendo o que cada palavra carrega. Não é espírito de escravidão: a relação não se sustenta no medo. É Espírito de adoção: ninguém está ali por direito próprio, mas está ali por completo. E o que sai da boca é "Aba, Pai": a palavra de dentro da casa. Leia Romanos 8 completo — Paulo leva essa frase até o fim do capítulo, e termina dizendo que nada consegue separar o filho desse Pai.

"Aba" significa "papai"?

Não exatamente. Aba é a palavra aramaica que o filho usava para o pai dentro de casa — mas filhos adultos usavam também, então não é um termo infantil como "papai". A ideia que ela carrega é de intimidade familiar, não de infantilidade. Aparece três vezes no Novo Testamento: Marcos 14:36, Romanos 8:15 e Gálatas 4:6.

Por que Jesus dizia "meu Pai" e não "nosso Pai"?

Porque a relação dele com o Pai é diferente da nossa. Jesus é Filho por natureza, desde sempre; os cristãos são filhos por adoção, por meio dele. Ele ensina os discípulos a orar "Pai nosso", mas quando fala por si diz "meu Pai" e, em João 20:17, "meu Pai e vosso Pai" — nunca junta os dois num só "nosso".

Deus é chamado de Pai no Antigo Testamento?

Sim, mas poucas vezes — por volta de quinze — e quase sempre em relação ao povo de Israel como um todo, não a indivíduos. Deuteronômio 32:6, Isaías 63:16 e 64:8 e Malaquias 2:10 são exemplos. A novidade de Jesus foi tornar esse endereço pessoal e cotidiano.

A Bíblia também fala de Deus como mãe?

A Bíblia usa imagens maternas para descrever o cuidado de Deus — Isaías 49:15 e 66:13 comparam o consolo dele ao de uma mãe. Mas o nome com que Deus é chamado e com que Jesus ensina a orar é Pai. As imagens maternas iluminam o caráter dele; o nome "Pai" é o que a Escritura usa como forma de se dirigir a ele.

Quem não crê em Deus também é filho dele?

No sentido de origem, toda pessoa é criatura de Deus e, nesse sentido, Malaquias 2:10 e Atos 17:28 falam de um Pai de todos. Mas a Bíblia reserva "filho de Deus", no sentido de relação, para quem recebe a Cristo (João 1:12). A leitura evangélica histórica entende que essa passagem acontece pela fé; outras tradições cristãs a ligam ao batismo. Todas concordam que é dom, não direito de nascimento.

Alessandra de Araújo paisAdemir Rocha de Oliveira
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