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Dia das crianças: o que Jesus ensina sobre acolher

Por Bíblia Online

Jesus parou tudo e colocou as crianças no centro

Jesus ensina que criança não é interrupção nem degrau para se chegar à conversa dos adultos: é dona do Reino. Quando os discípulos tentaram afastar as que vinham até ele, Jesus os corrigiu na frente de todo mundo, chamou as crianças para perto, pôs as mãos sobre elas e as abençoou. A frase que resume o episódio é esta:

Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos tais é o Reino dos céus.

Repare em três coisas no versículo. Primeiro, a ordem é dupla: "deixai" e "não os impeçais". O verbo grego para impedir (kōlyō) é o de barrar a passagem — o mesmo que o etíope usa em Atos 8:36 quando pergunta "o que impede que eu seja batizado?". Os discípulos estavam, literalmente, de braço estendido na frente das crianças.

Segundo, Jesus não diz que o Reino é "das crianças", mas "dos tais" — toioutōn, "dos que são assim como elas". Isso vai importar logo adiante, porque é daí que vem o "como uma criança".

Terceiro, o que Mateus não conta e Marcos conta. Em Marcos 10, Jesus "indignou-se" com os discípulos — é a única vez que os Evangelhos usam esse verbo para ele. E o relato termina com Jesus "tomando-as nos braços" e abençoando uma por uma. Não foi um gesto de longe. Para um Dia das Crianças, é essa a cena que vale ler devagar.

Homem sentado abençoa criança, enquanto pais lhe oferecem um bebê numa vila antiga.

Por que os discípulos barravam as crianças

Marcos 10:13 diz que "traziam-lhe crianças para que as tocasse". Quem trazia eram os pais, e o que queriam era uma bênção — era costume em Israel levar os filhos a alguém reconhecido como homem de Deus para que impusesse as mãos sobre eles. Os discípulos "repreenderam" quem trazia. O verbo é forte: é o mesmo que Marcos usa quando Jesus silencia o vento (Marcos 4:39) e expulsa demônios (Marcos 1:25).

O texto não explica o motivo dos discípulos; o que ele registra é a reação de Jesus. Mas o contexto ajuda a entender a cabeça deles. No mundo greco-romano, a criança valia pelo que ia ser, não pelo que era: não tinha voz pública, não servia de testemunha, não decidia nada. Em Israel os filhos eram mais estimados, como veremos, mas o tempo de um mestre era para ensinar a Lei a adultos.

E olha o que vinha acontecendo naquele dia. Em Marcos 10:1-12, Jesus tinha acabado de debater com fariseus sobre divórcio — assunto sério, de gente grande. Um capítulo antes, em Marcos 9:33-34, os próprios discípulos haviam discutido no caminho quem deles era o maior. Para quem está medindo grandeza, criança é ruído. Foi exatamente essa medida que Jesus virou de cabeça para baixo.

"Como uma criança": do que Jesus está falando

Mateus 18 conta a conversa que explica o "dos tais". Os discípulos perguntaram quem seria o maior no Reino, e Jesus respondeu colocando uma criança de verdade no meio deles:

Naquela mesma hora, chegaram os discípulos ao pé de Jesus, dizendo: Quem é o maior no Reino dos céus? E Jesus, chamando uma criança, a pôs no meio deles e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus. Portanto, aquele que se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus.(Mateus 18:1-4)

Vale notar o que Jesus pede e o que não pede. Ele não diz "sejam inocentes como esta criança" nem "sejam puros como ela". A Bíblia, aliás, não idealiza a infância — Provérbios 22 diz que "a estultícia está ligada ao coração da criança". O que Jesus pede é "converter-se" (straphēte, dar meia-volta) e "humilhar-se" (tapeinōsei, descer de posição).

A chave está em Marcos 10:15: quem não "receber" o Reino como uma criança não entra nele. O verbo é receber. Criança não negocia o almoço, não paga a roupa, não garante o teto: recebe tudo, porque não tem como fazer de outro jeito. É essa a posição que Jesus aponta — não uma virtude que a criança tem, mas um lugar que ela ocupa. Na escala de grandeza dos discípulos, ela estava no último degrau, e Jesus disse que é desse degrau que se entra.

Essa é a leitura mais comum tanto na exegese evangélica quanto na católica: "como criança" fala de dependência e baixeza de status, não de inocência moral. Leituras mais devocionais destacam a confiança e a simplicidade, e isso não está errado — desde que não se transforme a criança em modelo de mérito, porque o ponto do texto é justamente que ela não tem mérito a oferecer.

Receber uma criança é receber o próprio Jesus

Marcos conta a mesma cena de Mateus 18 e acrescenta um detalhe de gesto e uma frase:

E, lançando mão de uma criança, pô-la no meio deles e, tomando-a nos seus braços, disse-lhes: Qualquer que receber uma destas crianças em meu nome a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber recebe não a mim, mas ao que me enviou.(Marcos 9:36,37)

A frase monta uma escada: quem recebe a criança recebe Jesus; quem recebe Jesus recebe o Pai. "Em meu nome" quer dizer "por minha causa", como quem me representa. Numa cultura em que se recebia bem quem trazia prestígio — o patrono, o mestre, o parente influente —, Jesus põe no topo da escada a pessoa que não trazia prestígio nenhum. Não há jeito mais alto de dizer que a criança importa.

Logo depois, em Mateus 18, Jesus dá o aviso do outro lado, para quem a trata com desprezo:

Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus.(Mateus 18:10)

"Desprezar" (kataphronēsēte) é olhar de cima. Sobre "os seus anjos" há duas leituras antigas: a tradição judaica e boa parte da cristã viu aí anjos guardiões; outros entendem anjos que representam os pequeninos diante do trono. O texto não decide entre as duas, e as duas dizem a mesma coisa: o céu está atento ao que se faz com eles. Dois versículos antes, em Mateus 18, Jesus foi ainda mais duro — melhor uma pedra de moinho no pescoço do que fazer tropeçar um deles.

Uma observação honesta: em Mateus 18 Jesus passa da criança no meio da roda para "estes pequeninos que creem em mim", o que inclui discípulos humildes em geral. Mas a ilustração começou com uma criança de carne e osso, e é dela que a comparação tira força.

De onde Jesus tirou isso: as crianças nas Escrituras de Israel

Jesus não inventou um jeito novo de olhar para a infância. Ele estava fazendo o que as Escrituras do seu povo já diziam que Deus faz.

Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre, o seu galardão.(Salmos 127:3)

A palavra que o salmo usa para "herança" (nachalah) é a mesma da terra que Deus repartiu entre as tribos — algo que ninguém conquistou, que foi recebido e que continuava pertencendo a Deus. Chamar os filhos de herança é dizer que eles são de Deus e foram confiados aos pais. O paralelo com "recompensa" (sakar) reforça: presente, não produção.

Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele.(Provérbios 22:6)

O verbo traduzido por "ensina" ou "instrui" (chanokh) é "dedicar, iniciar" — a mesma raiz da festa de Hanukkah, a dedicação do Templo. Criar um filho, no provérbio, é dedicá-lo. E "no caminho em que deve andar" é, ao pé da letra, "conforme o seu caminho": há quem leia como o caminho certo, e há quem leia como "segundo o jeito e a fase da criança". As duas leituras têm defensores sérios. Vale lembrar também que isto é um provérbio, não uma garantia — sabedoria descreve como as coisas costumam ir, não assina contrato.

E todos os teus filhos serão discípulos do Senhor; e a paz de teus filhos será abundante.(Isaías 54:13)

Aqui está a raiz mais funda do gesto de Jesus. Na Jerusalém restaurada que Isaías anuncia, quem ensina os filhos é o Senhor em pessoa. Jesus retoma essa frase em João 6 — "todos serão ensinados por Deus". Quando ele chama as crianças para perto, o Mestre que Isaías prometeu está cumprindo a promessa.

A bênção que Jesus colocou sobre elas

Marcos 10:16 diz que Jesus "abençoou" as crianças, com um verbo intensivo — abençoou de verdade, demoradamente. O texto não registra as palavras. Mas a bênção que todo israelita conhecia, a que os sacerdotes pronunciavam sobre o povo, era esta:

O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz.(Números 6:24-26)

Três linhas, e o nome do Senhor em cada uma. O versículo seguinte, em Números 6, explica o que a bênção faz: "porão o meu nome sobre os filhos de Israel". Abençoar é pôr o nome de Deus sobre alguém. E a imposição de mãos sobre crianças é tão antiga quanto Gênesis 48, quando Jacó estende as mãos sobre Efraim e Manassés.

Isso muda a leitura da cena. Os pais que levavam os filhos a Jesus não estavam atrapalhando com superstição: estavam fazendo o que Israel sempre fez. Quem estava fora do costume eram os discípulos.

Como a igreja levou o ensino para dentro de casa

Trinta anos depois, Paulo escreve a uma igreja e fala assim:

Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra.

E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor.(Efésios 6:1-4)

Olha o que isso significa. A carta era lida em voz alta na reunião da igreja, e Paulo se dirige diretamente às crianças — "filhos, obedecei". Para fazer sentido, elas tinham que estar ali, ouvindo, como membros da comunidade. Os códigos de família da época falavam só com o chefe da casa; Paulo fala com os filhos e, logo depois, limita o pai.

"Não provoqueis à ira" (parorgizete) é dirigido aos patéres, os pais, que na lei romana tinham poder quase ilimitado sobre os filhos. O "não os impeçais" de Jesus virou um "não os exaspereis" dentro de casa. Acolher, no vocabulário de Paulo, inclui não esmagar — criar "na disciplina e na admoestação do Senhor", isto é, ensinar do jeito que o Senhor ensina.

O que a cena diz num Dia das Crianças

Dia das Crianças, no Brasil, é dia de presente. O que Jesus deu às crianças de Marcos 10 foi outra coisa: parou a agenda, chamou pelo gesto, tomou nos braços, pôs as mãos, abençoou. E corrigiu, em público, os adultos que estavam no caminho. Vale ler Marcos 10:13-16 completo, com Mateus 19:13-15 e Lucas 18:15-17 ao lado — são quatro versículos, e cada evangelista guardou um detalhe que os outros não guardaram.

Jesus disse que as crianças são inocentes?

Não. Jesus disse que o Reino é "dos tais" como elas e que é preciso "humilhar-se como esta criança" (Mateus 18:4). O ponto é a posição da criança — ela recebe tudo, não conquista nada — e não uma pureza moral. A própria Bíblia reconhece que a criança precisa de correção (Provérbios 22:15).

Marcos 10 fala sobre batismo infantil?

Depende da tradição. Igrejas que batizam bebês (católica, luterana, reformada, anglicana) costumam citar o "não os impeçais" como apoio ao acolhimento das crianças na aliança. Igrejas batistas, pentecostais e outras entendem que o texto trata de bênção e imposição de mãos, não de batismo, e que a passagem nada diz sobre o rito. O texto em si descreve Jesus abençoando; a aplicação ao batismo é uma conclusão teológica posterior, e cristãos sérios divergem nela.

Qual é a diferença entre os relatos de Mateus, Marcos e Lucas?

Mateus 19:13-15 traz a cena de forma resumida. Marcos 10:13-16 acrescenta que Jesus se indignou, tomou as crianças nos braços e as abençoou. Lucas 18:15-17 usa a palavra "bebês" (brephē), mostrando que entre as crianças havia recém-nascidos de colo. Lidos juntos, os três dão a cena completa.

Em Mateus 18, "pequeninos" são crianças ou discípulos?

Os dois. Jesus começa com uma criança real no meio da roda (Mateus 18:2) e passa a falar de "estes pequeninos que creem em mim" (Mateus 18:6), o que inclui qualquer discípulo sem prestígio. A criança é a ilustração concreta; o princípio alcança todos os que ocupam o lugar dela.

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