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Jesus e o perdão: o que significa perdoar setenta vezes sete

Mulher de suéter laranja e jeans rasgado, com as mãos juntas, em pé sobre trilhos de trem.

Setenta vezes sete: o perdão que não tem cota

Quando Pedro perguntou a Jesus quantas vezes devia perdoar o irmão, e sugeriu sete, Jesus respondeu com um número que ninguém consegue acompanhar: setenta vezes sete. Não é uma conta nova no lugar da antiga. É o fim da conta. No ensino de Jesus, perdoar não é algo que se mede — e quem ainda está contando ainda não perdoou.

Vale ver o que vinha antes. Logo acima, em Mateus 18:15-17, Jesus explica o que fazer quando um irmão peca contra alguém: ir falar com ele a sós; se não resolver, levar testemunhas; se ainda não resolver, apresentar o caso à comunidade. Pedro ouve isso e faz a pergunta de quem vive no mundo real: tudo bem, mas até quando? Quantas vezes esse ciclo se repete antes de eu poder desistir da pessoa?

A oferta de Pedro era generosa para a época. Costuma-se apontar que o ensino rabínico, apoiado em Amós 1:3 ("por três transgressões... e por quatro"), fixava em três o número de vezes que se devia perdoar a mesma pessoa pela mesma ofensa — na quarta, a obrigação acabava. Pedro dobra isso e ainda acrescenta um. Sete, além do mais, era o número da completude. Ele achava que estava sendo largo.

Jesus responde com uma expressão que em grego é ambígua: hebdomēkontakis hepta. Dá para ler como "setenta vezes sete" (490), que é como traduzem a Almeida Revista e Corrigida e a Almeida Revista e Atualizada, ou como "setenta e sete vezes", opção da Nova Versão Internacional. A diferença entre 77 e 490 não muda o ponto. Nos dois casos o número é absurdo para quem quer saber onde parar — e é exatamente isso que Jesus quer que fique claro.

A conta de Lameque, virada do avesso

A escolha das palavras não é por acaso. Em Gênesis 4:24, Lameque, descendente de Caim, se gaba: se Caim seria vingado sete vezes, ele seria vingado "setenta vezes sete". É a mesma expressão, e a tradução grega do Antigo Testamento que circulava no tempo de Jesus usa as mesmas palavras.

Lameque fala de vingança sem teto: quem mexer comigo paga muito mais do que fez. Jesus pega a frase de Lameque e inverte o sinal. O que não tem teto agora é o perdão. Onde a humanidade de Gênesis 4 escalava a violência, o discípulo de Jesus escala a graça.

Pedro queria saber o limite para poder parar. Jesus mostra que a pergunta certa nunca foi "quantas vezes" — e explica por quê contando uma história.

A parábola do servo que não perdoou

A resposta a Pedro continua em Mateus 18:23-35. Um rei resolve acertar as contas com seus servos. Trazem um que deve dez mil talentos e não tem como pagar. O rei manda vender o homem, a mulher e os filhos. O servo se joga no chão e pede prazo. O rei, movido de compaixão, faz muito mais do que dar prazo: perdoa a dívida inteira.

Esse mesmo servo sai do palácio e encontra um companheiro que lhe deve cem denários. Agarra o homem pelo pescoço e exige o dinheiro. O outro cai de joelhos e usa quase as mesmas palavras que ele acabou de usar diante do rei. Não adianta: ele o manda para a prisão até pagar.

Homem de túnica azul agarra a roupa de outro, ajoelhado de mãos abertas, diante de um portão.

Os outros servos veem a cena e contam ao rei. O rei chama o homem de volta e pergunta a única coisa que importa: eu te perdoei tudo aquilo, e você não conseguiu perdoar isto? E o entrega aos carrascos.

O tamanho das duas dívidas

Olha os números, porque Jesus os escolheu com cuidado. Um denário era a diária de um trabalhador braçal. Cem denários eram uns três meses de salário — uma dívida real, que incomoda, mas que se paga. Um talento valia cerca de seis mil denários. Dez mil talentos dão sessenta milhões de denários: sessenta milhões de dias de trabalho, algo como duzentos mil anos de salário. Para dar uma noção, o historiador judeu Flávio Josefo registra o tributo anual de regiões inteiras na casa das centenas de talentos, não dos milhares.

Ou seja: a primeira dívida é impagável por definição. Ninguém na plateia de Jesus imaginava um servo devendo isso — era um número para fazer rir pelo exagero, e para fazer pensar. A segunda é uma dívida de gente comum. A proporção entre as duas é de um para seiscentos mil.

É esse contraste que carrega a parábola. O homem que foi perdoado de uma dívida que valia um reino não conseguiu soltar uma dívida que valia um trimestre. O problema dele não é falta de generosidade. É que ele saiu do palácio sem entender o que havia acontecido ali.

O que a parábola está dizendo sobre o perdão de Deus

A Bíblia coloca o perdão entre as pessoas dentro de uma moldura maior: antes de qualquer um de nós ter alguém para perdoar, nós mesmos fomos perdoados de algo que não tínhamos como pagar. É esse o lugar do leitor na história — não o do rei, não o do segundo servo, mas o do primeiro, saindo do palácio com a dívida zerada.

Por isso Jesus não responde a Pedro com um número maior. Quem entende o tamanho do que recebeu perde o interesse em contar o que oferece. E quem continua contando, segundo a parábola, está mostrando que ainda não entendeu o que recebeu. Jesus volta a essa lógica em Lucas 7:47: a quem muito se perdoa, muito ama; a quem pouco se perdoa, pouco ama.

O que acontece com quem não perdoa

Jesus fecha a parábola com uma frase dura, e não suaviza:

"De coração" é a chave. O rei não cobra do servo um gesto público nem um papel assinado; cobra o que ele faz com a dívida do outro quando ninguém está olhando. Perdão, aqui, não é discurso. É soltar a cobrança por dentro.

E essa não é a única vez que Jesus liga o perdão que damos ao perdão que recebemos. No Sermão do Monte, logo depois de ensinar o Pai Nosso — onde a única petição que vem com uma comparação é "perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores" —, ele acrescenta:

Em Marcos 11:25 a ideia aparece de novo, ligada à oração: quando a pessoa for orar, se tiver algo contra alguém, que perdoe, para que o Pai a perdoe. E em Lucas 6:37: não julgueis, não condeneis, perdoai — e sereis perdoados.

Isso quer dizer que o perdão de Deus se compra perdoando?

Essa é a objeção óbvia, e ela merece resposta direta. Se Deus só perdoa quem perdoa, então o perdão de Deus seria um pagamento pelo meu esforço — o que contradiz tudo o que o Novo Testamento diz sobre a graça.

A tradição evangélica histórica lê esses textos de outro jeito, e a própria parábola mostra o caminho: o rei perdoou primeiro. O servo não foi perdoado porque perdoou; ele foi perdoado antes de fazer qualquer coisa, e o que se cobrou dele depois foi coerência com o que recebeu. Nessa leitura, o perdão ao próximo não é a causa do perdão de Deus — é a evidência dele. Quem recusa perdoar está dizendo, com a vida, que nunca se viu como alguém perdoado.

Vale ser honesto: há cristãos que leem Mateus 6:15 e 18:35 de forma mais literal, como uma advertência de que o perdão de Deus pode ser efetivamente retirado de quem endurece o coração — uma ênfase mais comum em tradições arminianas e de santidade. E há quem leia, na linha reformada, que o texto descreve o que o perdoado verdadeiro inevitavelmente faz. As duas leituras concordam no essencial: Jesus não deixou espaço para um cristão que recebe o perdão de Deus e guarda rancor como se fosse direito adquirido.

Há ainda uma consequência que não precisa de teologia para ser vista. Marcos 11:25 coloca o perdão como condição de uma oração desimpedida. Quem reza com uma dívida alheia nas mãos reza com as mãos ocupadas. É a imagem da parábola de novo: o servo preso é o que não soltou o outro.

É preciso que a pessoa peça perdão primeiro?

Essa é a pergunta que mais aparece na prática, e Jesus toca nela de dois lados. Em Lucas, ele fala de alguém que ofende e volta pedindo perdão:

Amulilingule nibeni!

"Naakuti munyoko wakubisizya, mululamike; alimwi naakuti wasanduka, kumulekelela. Alimwi kuti wakubisizya tulimusanu atubili mubuzuba bumwi, mpawo waboola kulinduwe tuli musanu atubili, akwaamba kuti, ‘Ndasanduka,’ weelede kumulekelela."(Lukku 17:3,4)

Dois detalhes aqui. Primeiro, "repreende-o": perdoar não é fingir que nada aconteceu. Jesus manda nomear o erro antes de soltá-lo. Segundo, "se ele se arrepender": a cena descreve a reconciliação completa — o ofensor reconhece, o ofendido perdoa, a relação se refaz. E essa reconciliação não tem cota: sete vezes no mesmo dia, se preciso.

Mas a Bíblia também fala do perdão num cenário em que o outro não pediu nada. Em Marcos 11:25, a condição para perdoar é apenas "se tendes alguma coisa contra alguém" — não "se ele veio se desculpar". E na cruz, como veremos adiante, Jesus pede perdão para homens que ainda estavam no meio do ato.

Perdoar, reconciliar e confiar não são a mesma coisa

A forma mais comum de o ensino evangélico juntar esses textos é distinguir três coisas que o português costuma embolar numa palavra só.

Perdoar é soltar a dívida. A palavra que Lucas 6:37 usa, apolyō, significa literalmente "soltar", "deixar ir". É uma decisão de quem foi ofendido, e depende só dele. É isso que Jesus pede na oração: que se perdoe, mesmo que o outro nunca saiba.

Reconciliar é refazer a relação. Isso pede duas pessoas. Jesus trata disso em Mateus 5:23-24: quem está oferecendo o sacrifício e lembra que há um irmão com algo contra ele deve deixar a oferta no altar e ir se reconciliar primeiro. Repara que ali o foco é quem ofendeu indo até quem foi ofendido — e Jesus coloca isso antes do culto.

Confiar é outra coisa ainda. A Bíblia não manda entregar de novo a chave da casa para quem a usou para roubar. Lucas 17:3 começa com "repreende-o" justamente porque o pecado tem que ser tratado, não absorvido em silêncio.

Nem todos leem assim. Há quem entenda Lucas 17:3 como condição estrita — sem arrependimento não haveria obrigação de perdoar, ainda que haja a de não se vingar. Mas a leitura mais difundida na tradição evangélica, e a que melhor sustenta Marcos 11:25 e Lucas 23:34 lado a lado, é esta: o perdão de coração não espera o pedido; a reconciliação, sim.

O perdão na cruz: "Pai, perdoa-lhes"

Jesus não só ensinou isso. Ele fez, no pior momento possível.

Mpawo Jesu wakati, "Taata, balekelele; nkaambo tabachizi pe nchibachita."

Mpawo bakawuma chisolo kuti baabane zisamo zyakwe.(Lukku 23:34)

Ninguém ao pé da cruz havia pedido perdão. Os soldados ainda estavam sorteando as roupas dele. Os líderes religiosos estavam zombando. A oração de Jesus vem antes de qualquer arrependimento — e não é uma oração de quem foi vencido, mas de quem está, naquele exato instante, pagando a dívida de dez mil talentos.

Isso fecha a parábola de um jeito que Pedro não podia ver quando perguntou. O rei da história perdoou a dívida; o Rei de verdade pagou a dívida com a própria vida. Quando Jesus perdoa pecados ao longo dos Evangelhos — ao paralítico em Marcos 2:5-7, à mulher em Lucas 7 —, os escribas se escandalizam, porque só Deus pode perdoar pecados. Eles estavam certos sobre a regra e errados sobre quem estava na frente deles.

O ensino de Jesus sobre o perdão não é uma técnica de convivência. É um convite para fazer com os outros aquilo que ele fez conosco. Os primeiros cristãos entenderam assim: Estêvão, ao ser apedrejado, repete quase palavra por palavra a oração da cruz (Atos 7:60); Paulo resume tudo em Efésios 4:32 — perdoai uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.

A pergunta de Pedro era "até quando?". A resposta de Jesus foi um número impossível, uma história sobre uma dívida impossível e, no fim, uma cruz. Setenta vezes sete não é o tamanho da nossa paciência. É o tamanho do que foi perdoado a nós. Leia Mateus 18 inteiro — a conversa começa no versículo 15 e só faz sentido lida até o 35.

Existe algum pecado que Jesus disse que não seria perdoado?

Sim, um. Em Mateus 12:31-32 Jesus diz que todo pecado e blasfêmia serão perdoados, exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo. No contexto, ele acabara de expulsar um demônio e os fariseus atribuíram a obra ao diabo — ou seja, chamaram de satânica a ação evidente do Espírito. A leitura evangélica mais comum entende isso como uma rejeição deliberada e persistente da obra de Deus diante dos olhos, não um deslize que alguém comete sem perceber. Quem se preocupa em ter cometido esse pecado dá, com a própria preocupação, sinal de que não o cometeu.

Perdoar significa esquecer o que aconteceu ou voltar a confiar na pessoa?

Não necessariamente. Jesus manda repreender o irmão que peca (Lucas 17:3), o que pressupõe lembrar e nomear o erro. Perdoar é soltar a cobrança — deixar de exigir pagamento, de desejar o mal, de alimentar o rancor. Confiança se reconstrói com tempo e com mudança de conduta, e a Bíblia não obriga ninguém a se expor de novo a quem continua fazendo mal. Perdão é obrigação do cristão; confiança restaurada é fruto da reconciliação, quando ela acontece.

O que fazer quando a pessoa continua me ofendendo depois de perdoada?

Mateus 18:15-17 dá um caminho em etapas: conversa a sós, depois com uma ou duas testemunhas, depois diante da comunidade. Lucas 17:4 mostra que o perdão se renova a cada arrependimento, mesmo várias vezes no mesmo dia. Mas perdoar não anula o processo de confrontar — Jesus coloca os dois lado a lado no mesmo capítulo. É possível perdoar de coração e, ao mesmo tempo, estabelecer limites claros para que a ofensa não se repita.

O que Jesus quis dizer em João 20, quando falou que os discípulos perdoariam pecados?

Em João 20:23, Jesus diz aos discípulos que a quem perdoarem os pecados, serão perdoados, e a quem os retiverem, serão retidos. A Igreja Católica lê o texto como base do sacramento da confissão, em que o sacerdote absolve em nome de Cristo. A tradição evangélica histórica lê como a autoridade de anunciar o evangelho: quem crê na mensagem dos apóstolos recebe o perdão que ela proclama, quem a rejeita permanece sem ele. Nas duas leituras, o perdão continua vindo de Deus; o que muda é como se entende o papel humano em declará-lo.

Jesus mandou perdoar até inimigos?

Sim. Em Mateus 5:44 ele manda amar os inimigos e orar pelos que perseguem, e em Lucas 23:34 ele faz exatamente isso pelos homens que o crucificavam. O amor ao inimigo é a forma mais radical do perdão: não espera arrependimento nem reciprocidade. Jesus justifica o mandamento pelo caráter de Deus, que faz o sol nascer sobre bons e maus — e o discípulo deve se parecer com o Pai.

Karen Milena
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