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João Batista: quem foi, história e o nascimento anunciado

Pessoas de costas dançam ao redor de uma fogueira numa praça com bandeirinhas coloridas.

Quem foi João Batista

João Batista foi o homem que Deus enviou para preparar o povo de Israel para a chegada de Jesus. Ele pregou arrependimento no deserto da Judeia, batizou multidões no rio Jordão, batizou o próprio Jesus — e acabou preso e decapitado por denunciar o casamento do rei Herodes. Tudo isso em pouco mais de um ano de atividade pública.

Ele é uma figura de transição: o último profeta no estilo do Antigo Testamento e o primeiro a apontar, com o dedo, quem era o Messias. Jesus disse que não houve ninguém maior entre os nascidos de mulher (Mateus 11).

Antes de João nascer, um anjo já tinha dito ao pai dele para que servia aquele menino. É a melhor definição que existe da vida de João, porque veio de Deus e não de um historiador:

Fará retornar muitos do povo de Israel ao Senhor, o Deus deles. Ele irá adiante do Senhor, no espírito e no poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais aos filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos e, assim, deixar um povo preparado para o Senhor.(Lukku 1:16,17, NVI)

Olha o que esse anúncio contém: converter Israel de volta ao Senhor, agir no espírito de Elias, reconciliar famílias, trazer os rebeldes à razão — e tudo isso com um único fim, "deixar um povo preparado para o Senhor". João não era o destino. Era a estrada.

O nascimento anunciado a um casal idoso

A história começa no templo de Jerusalém, com um sacerdote chamado Zacarias e sua mulher, Isabel. Lucas abre o relato dando o ano, o cargo e a família, do jeito que um historiador faz:

No tempo de Herodes, rei da Judeia, havia um sacerdote chamado Zacarias, que pertencia ao grupo sacerdotal de Abias; Isabel, a mulher dele, também era descendente de Arão.(Lukku 1:5, NVI)

"Herodes, rei da Judeia" é Herodes o Grande, o mesmo que depois vai mandar matar as crianças de Belém. Zacarias pertencia a um dos 24 turnos de sacerdotes que se revezavam no serviço do templo; Isabel descendia de Arão, o primeiro sumo sacerdote. Ou seja: João nasceu em uma família sacerdotal dos dois lados. Pelo caminho natural, ele seria sacerdote como o pai. Deus tinha outro plano.

O problema do casal era antigo e doía: não tinham filhos, e já eram velhos. Lucas diz que os dois eram justos diante de Deus (Lucas 1:6) — vale notar isso, porque na cultura da época muita gente associava esterilidade a castigo. O texto desfaz essa conta antes mesmo de contar o milagre.

Um dia, caiu a Zacarias a sorte de entrar no santuário para queimar o incenso. Enquanto o povo orava do lado de fora, o anjo Gabriel apareceu ao lado do altar e anunciou: Isabel teria um filho, o nome seria João, ele traria alegria a muitos, não beberia vinho e seria cheio do Espírito Santo desde o ventre (Lucas 1). Zacarias duvidou — "como vou saber que isso é verdade?" — e ficou mudo até o menino nascer.

Seis meses antes de Jesus

Quando Isabel estava no sexto mês de gravidez, o mesmo Gabriel foi a Nazaré anunciar a Maria o nascimento de Jesus. E usou a gravidez de Isabel como sinal:

Também Isabel, a sua parenta, terá um filho na velhice; aquela que diziam ser estéril está no sexto mês de gravidez.(Lukku 1:36, NVI)

Esse versículo fixa duas coisas. Primeiro, o parentesco: Isabel era parente de Maria (as traduções mais antigas dizem "prima", mas o grego diz apenas "parenta"; o grau exato a Bíblia não informa). Segundo, a distância de idade: João nasceu cerca de seis meses antes de Jesus. Foi daí que a Igreja, séculos depois, tirou o dia 24 de junho para celebrar o nascimento de João — seis meses antes do Natal. A data é cálculo da tradição, não informação bíblica.

Maria foi visitar Isabel, e Lucas registra uma cena curiosa: quando Maria entrou e cumprimentou, a criança saltou no ventre de Isabel (Lucas 1:41). Antes de nascer, João já estava reagindo à presença de Jesus. Lucas conta isso de propósito: a vida inteira de João vai ser essa reação.

O nome João e a volta da voz de Zacarias

Idoso escreve numa tábua enquanto uma multidão o cerca, e uma mulher segura um bebê.

No oitavo dia depois do nascimento, como mandava a lei, a família se reuniu para circuncidar o menino e dar o nome. Todo mundo achou óbvio: seria Zacarias, como o pai. Isabel disse não — seria João. Os parentes protestaram que ninguém na família tinha esse nome. Fizeram sinais para o pai mudo, e ele pediu uma tabuinha e escreveu: "O nome dele é João." Na hora, a voz dele voltou, e Zacarias começou a louvar a Deus. A cena inteira está em Lucas 1.

Por que tanta briga por um nome? Porque nome, ali, era declaração de identidade e de pertencimento. Dar o nome do pai dizia: este menino continua a linhagem sacerdotal da casa. Dar o nome que o anjo mandou dizia: este menino pertence a outro chamado. João, em hebraico Yochanan, significa "o Senhor é gracioso". Para um casal que esperou uma vida inteira, o nome era também um testemunho.

O cântico de Zacarias, logo em seguida, repete a missão anunciada pelo anjo com palavras de pai: "tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo" e irás "adiante do Senhor, preparando os seus caminhos" (Lucas 1). Depois disso, Lucas resume a infância e a juventude em uma frase: o menino cresceu, fortaleceu-se em espírito e viveu no deserto até o dia de aparecer em público (Lucas 1:80). Entre o berço e o Jordão, a Bíblia não conta mais nada.

A voz que clamava no deserto

Uns trinta anos depois, João apareceu pregando às margens do Jordão. Lucas data o momento com precisão: o décimo quinto ano do imperador Tibério, Pôncio Pilatos governando a Judeia, Herodes Antipas como tetrarca da Galileia, Anás e Caifás no sacerdócio (Lucas 3). Isso dá por volta do ano 27 ou 28 da nossa era.

A aparência dele dizia tanto quanto o sermão. Mateus descreve roupa de pelos de camelo, cinto de couro, e uma dieta de gafanhotos e mel silvestre (Mateus 3:4). Para um judeu que conhecia as Escrituras, aquela roupa era uma citação. Séculos antes, quando o rei Acazias perguntou quem era o homem que tinha confrontado seus mensageiros, a descrição foi esta:

Responderam:

— Ele vestia roupas de pelos e usava um cinto de couro.

O rei disse:

— Era Elias, o tesbita.(2 Reis 1:8, NVI)

João se vestia como Elias. E não era fantasia: o último profeta do Antigo Testamento, Malaquias, tinha prometido que Deus enviaria "o profeta Elias" antes do grande dia do Senhor, para fazer voltar o coração dos pais aos filhos (Malaquias 4) — exatamente as palavras que Gabriel usou com Zacarias. Israel tinha ficado quatrocentos anos sem profeta. Quando um homem apareceu no deserto vestido como Elias, a mensagem era clara: a espera estava acabando.

O que João pregava

A mensagem de João cabe em uma palavra: arrependam-se. "Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus" (Mateus 3:2). O verbo grego, metanoeō, é mais do que sentir remorso: é mudar de mente e de direção. E João exigia prova de que a mudança era real — "produzam fruto que mostre o arrependimento" (Mateus 3:8).

O sinal visível desse arrependimento era o batismo:

Quando confessavam os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão.(Mateus 3:6, NVI)

Dois detalhes aqui. O batismo vinha acompanhado de confissão: a pessoa nomeava o que estava errado antes de entrar na água. E o lugar era o Jordão, o rio que Israel atravessou para entrar na terra prometida sob Josué. Uma interpretação comum entre estudiosos evangélicos é que João estava chamando o povo a atravessar o rio de novo — a recomeçar como nação diante de Deus. Daí o apelido: Baptistēs, "o que batiza", porque ninguém antes dele tinha feito aquilo em massa.

João não poupava ninguém. Chamou fariseus e saduceus de "raça de víboras" e avisou que ser descendente de Abraão não salvava ninguém: Deus podia levantar filhos de Abraão das pedras (Mateus 3:7-9). Mas quando o povo comum perguntou "o que devemos fazer?", as respostas foram concretas e quase domésticas: quem tem duas túnicas reparta com quem não tem; cobradores de impostos não cobrem além do devido; soldados não extorquem nem acusem falsamente (Lucas 3). Arrependimento, para João, era coisa que aparecia no bolso e no trabalho.

E ele deixava claro o próprio lugar: "eu batizo com água, mas vem alguém mais poderoso do que eu, e não sou digno nem de desamarrar as sandálias dele" (Lucas 3:16). Multidões vinham de Jerusalém e de toda a Judeia; João usava a popularidade para apontar para outro.

O batismo de Jesus

Homem de túnica rústica batiza outro no rio, observados por pessoas na margem.

Um dia, Jesus apareceu na fila para ser batizado. João reconheceu quem ele era e resistiu: "eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?" Jesus respondeu que era preciso, para "cumprir toda a justiça", e João cedeu (Mateus 3). Quando Jesus saiu da água, os céus se abriram, o Espírito descei sobre ele em forma de pomba, e uma voz do céu disse: "Este é o meu Filho amado, em quem me agrado."

Isso levanta uma pergunta óbvia: se o batismo de João era para arrependimento de pecados, por que Jesus — que não tinha pecado — foi batizado? A Bíblia não explica em uma frase, e a teologia evangélica histórica costuma responder de duas maneiras que se completam. Primeira: Jesus se identificou com o povo pecador que veio salvar, colocando-se no lugar deles desde o início. Segunda: foi o momento de apresentação pública, em que o Pai e o Espírito confirmaram quem ele era. O próprio João disse que foi ali que recebeu a confirmação: viu o Espírito descer e permanecer sobre Jesus, e por isso pôde testemunhar (João 1:32-34).

No dia seguinte, João fez a declaração mais famosa dele. Vendo Jesus passar, disse: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1). Para um judeu, "cordeiro" lembrava a Páscoa e os sacrifícios do templo. João estava dizendo que aquele homem era o sacrifício definitivo — antes de qualquer discípulo entender isso.

"É necessário que ele cresça e que eu diminua"

Depois do batismo, começou a transição. Dois discípulos de João, ouvindo o mestre apontar para Jesus, foram atrás dele — um deles era André, que depois trouxe o irmão, Simão Pedro (João 1:35-42). O primeiro grupo de seguidores de Jesus saiu de dentro do movimento de João.

Isso poderia ter virado rivalidade. Os discípulos de João reclamaram que todo mundo estava indo para Jesus, e a resposta dele é a frase que resume o homem: "É necessário que ele cresça e que eu diminua" (João 3). Ele se comparou ao amigo do noivo, que se alegra ao ouvir a voz do noivo e sabe que a festa não é dele.

Jesus, por sua vez, falou de João com uma honra que não deu a mais ninguém. Disse que João era mais do que profeta; era o mensageiro prometido por Malaquias, o "Elias que havia de vir" (Mateus 11:9-14). E acrescentou algo que confunde à primeira leitura: entre os nascidos de mulher não houve ninguém maior do que João — "mas o menor no reino dos céus é maior do que ele" (Mateus 11:11).

Como ler isso? A interpretação mais aceita na tradição evangélica é que Jesus não está rebaixando João, mas marcando uma fronteira na história. João foi o maior da era que apontava para o Messias; quem vive depois da cruz e da ressurreição, por menor que seja, conhece o que João só anunciou. João ficou na porta e apontou para dentro. É a maior honra possível para quem está do lado de fora.

Prisão e morte

A coragem que João tinha diante dos fariseus ele também tinha diante do rei. Herodes Antipas, governante da Galileia, tinha tomado para si Herodias, a mulher do próprio irmão Filipe. João disse na cara dele: "não te é lícito ter a mulher do teu irmão." Herodes o prendeu (Marcos 6).

Marcos registra um detalhe humano: Herodes temia João, sabia que ele era justo, gostava de ouvi-lo — mas Herodias queria a morte dele. O rei ficou dividido entre a consciência e a cama.

Foi na prisão que João viveu seu momento mais difícil, e a Bíblia não esconde. Ele mandou discípulos perguntarem a Jesus: "És tu aquele que havia de vir, ou devemos esperar outro?" (Mateus 11). O homem que gritou "eis o Cordeiro de Deus" estava, numa cela, pedindo confirmação. Jesus não o repreendeu. Mandou de volta uma lista do que estava acontecendo — cegos vendo, coxos andando, pobres ouvindo boas-novas — e acrescentou: "bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim." Isso aqui é importante: a dúvida de João não desfez a honra que Jesus lhe deu. Foi respondida com evidência, não com censura.

O fim veio numa festa. No aniversário de Herodes, a filha de Herodias dançou diante dos convidados, e o rei, embriagado de vaidade, prometeu dar o que ela pedisse. Instruída pela mãe, ela pediu a cabeça de João numa bandeja. Herodes, com medo de passar vergonha diante dos convidados, mandou executá-lo ali mesmo (Marcos 6). Os discípulos de João recolheram o corpo e o sepultaram. Quando Jesus soube, retirou-se de barco para um lugar deserto, sozinho (Mateus 14:13).

Vale notar que a morte de João é um dos poucos episódios do Novo Testamento confirmados por uma fonte de fora da Bíblia. O historiador judeu Flávio Josefo, escrevendo no fim do primeiro século, menciona João "chamado o Batista", diz que ele batizava e pregava justiça, e que Herodes Antipas o executou na fortaleza de Maqueronte, a leste do mar Morto. A Bíblia não dá o nome do lugar; isso é informação histórica, não escriturística — mas confirma que João foi um homem real, lembrado também fora do círculo cristão.

O que aconteceu com o movimento de João

João morreu antes da cruz, mas a influência dele atravessou décadas. Nos Atos dos Apóstolos, Pedro e Paulo citam João como o ponto de partida da história de Jesus (Atos 1:22; Atos 13:24-25). Em Éfeso, quase trinta anos depois, Paulo encontrou um grupo que só conhecia o batismo de João e nunca tinha ouvido falar do Espírito Santo; ele os ensinou e os batizou em nome de Jesus (Atos 19).

Esse episódio mostra a diferença que a própria Bíblia faz entre o batismo de João e o batismo cristão. O de João preparava: era arrependimento à espera de alguém. O cristão responde a quem já veio. Como exatamente essas duas coisas se relacionam é assunto em que denominações evangélicas divergem — batistas, presbiterianos e pentecostais leem os detalhes de maneiras diferentes —, mas todas concordam no essencial: João apontou, e Jesus é aquele para quem ele apontou.

Essa é a vida inteira de João Batista, do berço à sepultura, resumida pela frase que Gabriel disse a Zacarias antes de o menino existir: ele viria para "deixar um povo preparado para o Senhor". Para ver como Lucas conta o começo dessa história, com o templo, o anjo, o silêncio de Zacarias e o nome escrito na tabuinha, leia Lucas 1 completo.

João Batista era primo de Jesus?

A Bíblia diz que Isabel, mãe de João, era "parenta" de Maria (Lucas 1:36). Traduções antigas usaram "prima", mas o grego não especifica o grau. Eles eram parentes, com cerca de seis meses de diferença de idade; o parentesco exato não é informado.

Por que o dia de São João é 24 de junho?

A Bíblia não dá a data do nascimento de João. A Igreja antiga calculou o 24 de junho a partir de Lucas 1:36, que diz que Isabel estava no sexto mês quando Maria soube que estava grávida: seis meses antes do 25 de dezembro. A data é tradição eclesiástica; as fogueiras e demais costumes juninos não aparecem na Bíblia.

João Batista era Elias reencarnado?

Não. Quando lhe perguntaram se era Elias, João respondeu que não (João 1:21). Jesus o chamou de "Elias que havia de vir" (Mateus 11:14) no sentido que o anjo explicou a Zacarias: João veio "no espírito e no poder de Elias" (Lucas 1:17), com a mesma missão e coragem, não como a mesma pessoa. A Bíblia não ensina reencarnação.

João Batista é o mesmo João que escreveu o Evangelho?

Não. São duas pessoas. João Batista é o filho de Zacarias, o pregador do deserto, morto por Herodes Antipas antes da crucificação. João, o apóstolo, era filho de Zebedeu, pescador, discípulo de Jesus, e a tradição cristã lhe atribui o Evangelho de João, as três cartas e o Apocalipse.

João Batista fez milagres?

A Bíblia não registra nenhum milagre feito por João. O próprio Evangelho de João diz que ele "não fez nenhum sinal" (João 10:41). Sua grandeza, segundo Jesus, estava em ser o mensageiro que preparou o caminho — não em feitos extraordinários.

Yone DantasMaurício Cordeiro
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