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Filho do Homem: o significado do título que Jesus usou

Redação Bíblia Online Publicado em

O que Jesus queria dizer com "Filho do Homem"

Homem de barba lê um pergaminho para cinco homens sentados em uma sala de pedra.

"Filho do Homem" é o jeito como Jesus mais se referiu a si mesmo — cerca de oitenta vezes nos Evangelhos — e o título junta duas coisas que parecem não caber na mesma pessoa: um ser humano de verdade, que cansa, tem fome e vai morrer; e a figura celestial de Daniel 7, que chega diante do trono de Deus sobre as nuvens e recebe um reino que não acaba. Jesus escolheu essa expressão justamente porque ela dizia as duas coisas de uma vez.

Quem procura o significado do título costuma esperar uma de duas respostas: "quer dizer que Jesus era humano" ou "quer dizer que Jesus era o Messias". As duas estão certas e as duas estão incompletas. A expressão, por si, é humilde — em hebraico e aramaico, "filho de homem" é só um modo de dizer "um ser humano". Mas Jesus a usou com um artigo que não aparecia no uso comum (o Filho do Homem), e o único lugar do Antigo Testamento em que essa figura aparece recebendo poder é a visão de Daniel. É ali que o título ganha peso.

O resultado é um nome que servia a Jesus como nenhum outro: humilde o bastante para não soar como grito de guerra contra Roma, e carregado o bastante para que, quando ele dissesse "vereis o Filho do Homem vindo com as nuvens", o sumo sacerdote rasgasse as vestes.

Este artigo faz parte de Dúvidas e Explicações Significado de Palavras

Quantas vezes o título aparece, e quem o usa

Vale notar: nos Evangelhos, só Jesus chama Jesus de "Filho do Homem". Os discípulos o chamam de Mestre, Senhor, Cristo, Filho de Deus. Os adversários o chamam de galileu, filho de José, blasfemador. Ninguém, nem amigo nem inimigo, diz "o Filho do Homem" — a não ser ele.

A expressão aparece por volta de trinta vezes em Mateus, catorze em Marcos, vinte e cinco em Lucas e treze em João. Em todas, está na boca de Jesus, com uma exceção curiosa: em João 12 a multidão pergunta "quem é esse Filho do Homem?" — repetindo as palavras dele, sem entender.

Isso diz algo importante sobre a origem do título. Se "Filho do Homem" fosse um rótulo que a igreja primitiva inventou depois para honrar Jesus, esperaríamos vê-lo nas cartas de Paulo, nas confissões de fé, nas orações. Não está. Paulo nunca o usa. Fora dos Evangelhos, ele aparece só três vezes: na boca de Estêvão, em Atos 7, e em duas visões do Apocalipse. É um título que Jesus escolheu para si e que a igreja, respeitosamente, quase não tocou.

A visão de Daniel 7: de onde o título vem

Para entender o que Jesus estava dizendo, é preciso ir ao capítulo que ele tinha em mente. Daniel 7 é um sonho noturno, e o profeta conta o que viu em sequência.

Primeiro, quatro feras sobem de um mar agitado: um leão com asas de águia, um urso, um leopardo com quatro asas e quatro cabeças, e uma quarta fera, terrível, com dentes de ferro e dez chifres. O próprio capítulo explica depois que são quatro reinos que se levantam sobre a terra. Depois, a cena muda para uma sala de tribunal: tronos são postos, um "Ancião de Dias" se assenta, com vestes brancas, e livros são abertos. A quarta fera é julgada e destruída.

E aí entra a figura que nos interessa.

— Na minha visão durante a noite, vi alguém semelhante a um filho de homem vindo com as nuvens dos céus. Ele se aproximou do Ancião de Dias e foi conduzido à sua presença. Ele recebeu autoridade, glória e o reino; todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoraram. O seu domínio é um domínio eterno, que não acabará, e o seu reino jamais será destruído.

Olha o contraste que o texto constrói. As feras saem do mar, de baixo; este vem com as nuvens, de cima. As feras têm garras, asas, dentes; este é "como um filho de homem" — tem forma humana. As feras recebem poder por um tempo e perdem; este recebe "domínio eterno, que não acabará". E o que ele recebe não é pouco: povos, nações e línguas o servem — no aramaico, o verbo é o mesmo que o livro usa para o culto prestado a Deus.

Vem com as nuvens é outro detalhe que o leitor da época não deixaria passar. No Antigo Testamento, quem cavalga as nuvens é Deus — Salmos 104 fala do Senhor que "anda sobre as asas do vento", e Isaías 19 o mostra "cavalgando numa nuvem ligeira". Um ser com aparência humana fazendo o que só Deus faz: é essa a imagem que Daniel vê.

Leia a visão inteira em Daniel 7, prestando atenção aos versículos 18 e 27, porque eles importam para a discussão a seguir.

Homem idoso de barba grisalha sentado na cama olha para uma figura nas nuvens.

Essa figura é uma pessoa ou é o povo de Deus?

Aqui há uma discussão honesta, e vale conhecê-la.

Quando Daniel pede explicação da visão, a resposta que ele ouve não fala de um indivíduo. O versículo 18 diz que "os santos do Altíssimo receberão o reino", e o 27 repete: o reino e o domínio serão dados "ao povo dos santos do Altíssimo". Por isso muitos estudiosos — inclusive comentaristas evangélicos — entendem que, no contexto original de Daniel, a figura humana representa o Israel fiel, perseguido pelos impérios e finalmente vindicado por Deus. As feras são os impérios; o "filho de homem" é o povo.

Outros leem a figura como um indivíduo: um rei celestial que recebe o reino em nome do povo. Escritos judaicos anteriores a Jesus — como as parábolas de Enoque, que não estão na Bíblia — já lia­m Daniel 7 assim, esperando um "Filho do Homem" pessoal e messiânico.

A leitura evangélica histórica, que é a desta página, não escolhe uma contra a outra: entende que a figura é um representante. Assim como um rei encarna seu povo, aquele que vem com as nuvens recebe o reino que pertence aos santos — e os santos o recebem nele. É exatamente isso que o Novo Testamento faz com Jesus: ele é o Filho do Homem, e os que estão unidos a ele "reinarão com ele". Quando Jesus adotou o título, estava dizendo que aquela visão tinha um rosto, e que o rosto era o dele.

"Filho de homem" no resto do Antigo Testamento

Antes de ser título, "filho de homem" era uma expressão corriqueira em hebraico (ben-adam) e em aramaico (bar enash). Significava simplesmente "ser humano", muitas vezes com ênfase na fragilidade. É bom ver isso, porque a humildade do termo é metade do que Jesus quis dizer.

Em Números 23:19, Balaão declara que "Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa" — aqui, "filho de homem" é o oposto de Deus: alguém que muda de ideia, que falha. O Salmo 146:3 pede que não se confie "nos filhos dos homens, em quem não há salvação".

O Salmo 8 usa a expressão com admiração: diante da lua e das estrelas, o salmista pergunta o que é o homem, "o filho do homem", para que Deus se lembre dele. A carta aos Hebreus cita exatamente esse salmo quando fala de Jesus:

Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites?(Hebreus 2:6, ACF)

Hebreus 2 continua o raciocínio nos versículos seguintes: o salmo fala de um ser humano coroado de glória, com tudo debaixo dos pés, e o autor da carta diz que ainda não vemos isso acontecer com a humanidade em geral — mas vemos em Jesus. O "filho do homem" frágil do Salmo 8 se cumpre naquele que foi feito "um pouco menor que os anjos" e depois coroado. Vale ler Hebreus 2 inteiro para acompanhar o argumento.

E há Ezequiel. Deus chama o profeta de "filho do homem" mais de noventa vezes ao longo do livro — Ezequiel 2 é o primeiro caso. Não é título de honra: é Deus lembrando um homem caído de rosto no chão de que ele é só um homem, diante da glória que acabou de ver. Ezequiel é chamado assim por sua pequenez; Jesus se chama assim e, ao mesmo tempo, perdoa pecados. A expressão é a mesma. O que muda é quem a carrega.

Por que Jesus não dizia simplesmente "Messias"

Essa é a pergunta que mais ajuda a entender a escolha do título. Jesus era o Messias — ele o confirma a Pedro, à samaritana, ao sumo sacerdote. Mas quase nunca usava a palavra sobre si mesmo em público, e os Evangelhos mostram por quê.

No tempo de Jesus, "Messias" (em grego, "Cristo") evocava um rei da linhagem de Davi que expulsaria os romanos e restauraria o trono em Jerusalém. Não é interpretação minha: é o que o próprio texto registra. Depois da multiplicação dos pães, a multidão quis "arrebatá-lo para o fazer rei", e Jesus fugiu para o monte (João 6). Depois da ressurreição, os discípulos ainda perguntam: "é agora que vais restaurar o reino a Israel?" (Atos 1). No caminho de Emaús, dois deles lamentam: "esperávamos que fosse ele quem havia de redimir Israel" (Lucas 24).

O episódio mais revelador está em Marcos 8. Pedro confessa: "Tu és o Cristo." Jesus manda que não digam isso a ninguém e, imediatamente, começa a ensinar que "o Filho do Homem" deve sofrer muito, ser rejeitado e morto. Pedro o repreende. Repreende! Para Pedro, "Cristo" e "ser morto" não cabiam na mesma frase.

É isso que "Filho do Homem" permitia. Como o título não vinha com o pacote político de "Messias", Jesus podia preenchê-lo com o conteúdo certo: a fraqueza de uma vida humana, a necessidade de morrer pelo povo e a volta em glória como juiz. Três coisas que ele disse repetidamente — e sempre com esse nome.

O Filho do Homem que anda pela terra

O primeiro grupo de ditos mostra o Filho do Homem na vida comum, e em geral de baixo para cima. Quando alguém se oferece para seguir Jesus a qualquer lugar, ele responde com uma frase que ninguém esperaria de quem recebeu domínio sobre as nações:

Jesus respondeu:

— As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.(Lucas 9:58, NVI)

A figura de Daniel não tem onde dormir. Esse é o escândalo: o título que carrega o trono é o mesmo que descreve um itinerante sem casa.

Nos mesmos ditos, ele diz para que veio. "O Filho do Homem veio salvar o que estava perdido", afirma em Mateus 18:11 — a frase está na ACF e na NAA; a NVI a deixa em nota de rodapé porque ela falta nos manuscritos mais antigos de Mateus, mas o mesmo dito aparece sem discussão em Lucas 19, logo após a conversa com Zaqueu.

Na parábola do trigo e do joio, ele se identifica como o semeador: "aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem" (Mateus 13) — e, poucos versículos depois, é o mesmo Filho do Homem que enviará os anjos na colheita. O homem que semeia e o juiz da colheita são um só.

Mas mesmo nesses ditos "terrenos" a autoridade aparece. Diante de um paralítico, com os fariseus murmurando que só Deus perdoa pecados, Jesus responde:

Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa.(Lucas 5:24)

Perdoar pecados e, em Marcos 2:28, ser "Senhor até do sábado" — são prerrogativas que o judeu da época reservava a Deus. Jesus as reivindica em nome do Filho do Homem, e o texto não dá a entender que ele estava sendo modesto.

O Filho do Homem que precisa sofrer

O segundo grupo é o que Pedro não conseguia engolir. Jesus anuncia a própria morte ao menos três vezes, de forma cada vez mais detalhada, e sempre com este título — nunca "o Messias será entregue", sempre "o Filho do Homem".

porque estava ensinando os seus discípulos. Ele lhes dizia:

— O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, e, três dias depois, ressuscitará.(Marcos 9:31, NVI)

Mateus registra o mesmo anúncio na Galileia (Mateus 17). E antes disso, quando pediram um sinal, Jesus respondeu com Jonas: assim como o profeta passou três dias no ventre do grande peixe, o Filho do Homem passará três dias "no coração da terra" (Mateus 12:40) — o túmulo, dito de maneira que só faria sentido depois.

Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem ficará três dias e três noites no coração da terra.(Mateus 12:40, NVI)

O dito que explica por quê está em Marcos 10. Dois discípulos acabaram de pedir os melhores lugares no reino, e Jesus responde com o modelo do Filho do Homem:

Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.…(Marcos 10:45a, NVI)

Isso aqui é importante. Em Daniel 7, o filho de homem é servido por todos os povos. Aqui, Jesus diz que o Filho do Homem veio servir. Não é contradição: é o caminho. Ele chega ao trono de Daniel passando pela cruz, e o reino que recebe é comprado com o "resgate" da própria vida. É por isso que a leitura evangélica entende a cruz como parte da exaltação, e não como um acidente antes dela.

O Evangelho de João diz isso com uma palavra só. Jesus fala três vezes que o Filho do Homem será "levantado" — a mesma palavra para erguer na cruz e para exaltar. "Quando levantardes o Filho do Homem, então sabereis que eu sou", diz em João 8. A cruz é o lugar onde se vê quem ele é.

Há ainda uma frase enigmática no começo de João, dita a Natanael: ele veria "o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem".

E disse-lhe: Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem.(João 1:51)

É a escada de Jacó, em Gênesis 28: o patriarca viu anjos subindo e descendo entre céu e terra. Jesus diz que ele mesmo é essa escada. O Filho do Homem é o ponto onde o céu toca a terra — o que já é quase uma definição do título.

O Filho do Homem que volta com as nuvens

O terceiro grupo retoma Daniel abertamente. Jesus fala do "dia do Filho do Homem" como de algo repentino e visível a todos:

Porque, como o relâmpago, que faiscando desde uma parte do céu, resplandece até outra parte do céu, assim será também o Filho do homem no seu dia.(Lucas 17:24)

Em Mateus 24 ele insiste: "estejam preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que vocês não esperam" (Mateus 24; o versículo 30 fala explicitamente de vê-lo "vindo sobre as nuvens do céu"). E no último grande discurso de Mateus, ele se senta no trono:

E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória;(Mateus 25:31)

Aqui o Filho do Homem faz o que o Ancião de Dias fazia em Daniel 7: separa, julga, decide o destino das nações. O detalhe que não pode escapar é que o juiz dessa cena é o mesmo que, dez capítulos antes, não tinha onde reclinar a cabeça. E o critério do julgamento, nos versículos seguintes, é como trataram os famintos, os presos, os estrangeiros — gente da condição em que o próprio Filho do Homem viveu.

A resposta a Caifás: o momento em que o título vira sentença

Se alguém ainda duvida de que "Filho do Homem" carregava uma reivindicação divina, o julgamento de Jesus resolve. Em Marcos 14, o sumo sacerdote pergunta diretamente: "És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?" Jesus, que passou três anos evitando a palavra em público, responde:

E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu.(Marcos 14:62)

"Eu sou." E então ele traduz o que isso significa, juntando dois textos: o Salmo 110:1 ("assenta-te à minha direita") e Daniel 7:13 ("vindo com as nuvens do céu"). O resultado é claro: aquele homem amarrado diante do tribunal diz que é o que Daniel viu, e que o tribunal o verá entronizado.

O versículo seguinte registra a reação: Caifás rasga as vestes e declara blasfêmia, e o conselho o condena à morte. Olha o que isso mostra. Se "Filho do Homem" significasse só "um ser humano", não haveria blasfêmia nenhuma. Caifás entendeu perfeitamente — e foi por entender que condenou.

Filho do Homem e Filho de Deus: qual é a diferença?

A confusão mais comum é achar que "Filho do Homem" aponta para a humanidade de Jesus e "Filho de Deus" para a divindade, como dois lados de uma moeda. É um atalho que não resiste à leitura dos textos.

No Antigo Testamento, "filho de Deus" era antes de tudo um título real: Deus chama o rei davídico de filho em 2 Samuel 7 e no Salmo 2. É por isso que Caifás emenda "o Cristo" e "o Filho do Bendito" numa pergunta só: eram quase sinônimos. E "Filho do Homem", como vimos, é o título que inclui a cena mais exaltada de todas — as nuvens, o trono, o domínio eterno.

Então os dois títulos falam, cada um a seu modo, do Jesus inteiro. "Filho de Deus" diz quem ele é em relação ao Pai: o Filho eterno, enviado, amado. "Filho do Homem" diz quem ele é em relação à humanidade e à história: aquele que assumiu nossa fragilidade, morreu em nosso lugar e vai julgar e reinar como representante do povo de Deus. A fé cristã histórica confessa que ele é plenamente Deus e plenamente homem, e os dois títulos são as duas perguntas que essa confissão responde.

Vale notar que, no diálogo com Caifás, Jesus foi perguntado se era Filho de Deus e respondeu com Filho do Homem. Para ele, não eram alternativas.

Humildade ou exaltação: onde cai o peso?

Entre os estudiosos há um debate sobre qual metade do título Jesus enfatizava, e é justo dar a você as posições.

Alguns, sobretudo em círculos acadêmicos críticos — o historiador judeu Geza Vermes é o nome mais citado —, leem "filho do homem" como um circunlóquio aramaico: um modo indireto de dizer "eu" ou "um homem na minha posição", sem nenhuma referência a Daniel. Nessa leitura, foi a igreja depois que ligou a frase à visão profética.

A leitura evangélica histórica — compartilhada por intérpretes como I. Howard Marshall e N. T. Wright, para nomear uma corrente — entende que a conexão com Daniel vem do próprio Jesus. Os argumentos são textuais: o artigo definido incomum no grego (o Filho do Homem), as citações diretas de Daniel 7 em Marcos 13:26 e 14:62, a reação de Caifás, e o fato de que o uso humilde e o uso glorioso aparecem nos mesmos Evangelhos, muitas vezes no mesmo capítulo. Um circunlóquio para "eu" não explica por que Caifás rasgou as vestes.

Dentro dessa leitura, a resposta à pergunta "humildade ou exaltação?" é: as duas, e de propósito. O ponto do título é que aquele que recebe o reino em Daniel 7 é o mesmo que serve e morre. Tirar uma das metades é perder o que Jesus quis dizer.

Depois dos Evangelhos: Estêvão e o Apocalipse

Fora da boca de Jesus, o título aparece três vezes, e cada uma confirma a visão de Daniel.

A primeira é na morte de Estêvão. Apedrejado em Jerusalém, ele olha para cima e diz:

Então, disse:

— Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus.(Atos 7:56, NVI)

É a mesma cena que Jesus prometeu a Caifás, agora vista por um discípulo: o Filho do Homem à direita de Deus. Um detalhe chama atenção dos comentaristas: Jesus está em pé, não sentado como no Salmo 110. Alguns entendem que ele se levanta como testemunha a favor de Estêvão no tribunal celeste, enquanto o tribunal terreno o condena; outros, que se levanta para receber o primeiro mártir. O texto não explica — mas a imagem é a de Daniel, com um homem no lugar de honra.

No Apocalipse, João vê a mesma figura duas vezes. Na primeira, ela anda entre os candelabros, que o capítulo explica serem as igrejas:

e, entre os candelabros, alguém semelhante a um filho de homem, vestido com uma túnica que chegava aos pés e um cinto de ouro ao redor do peito.(Apocalipse 1:13, NVI)

A roupa até os pés e o cinto de ouro lembram as vestes do sumo sacerdote em Êxodo 28. O Filho do Homem exaltado não está longe: está no meio das igrejas, como sacerdote cuidando das lâmpadas.

Na segunda, ele está sentado sobre uma nuvem — a imagem de Daniel outra vez — com uma coroa de ouro e uma foice na mão (Apocalipse 14); os versículos seguintes descrevem a colheita da terra. Nuvem, coroa, juízo: é Daniel 7 e Mateus 25 numa só imagem.

Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de ouro e na mão uma foice afiada.(Apocalipse 14:14, NAA)

O que isso muda para quem está lendo

Vale terminar vendo por que o título importa fora do dicionário.

O título diz que o juiz final das nações é alguém que sabe o que é não ter onde dormir. Hebreus 4:15 tira a consequência: ele foi tentado em tudo, "mas sem pecado", e por isso pode se compadecer. Quem vai julgar não é um estranho à condição humana.

Diz também que o servo que morreu em resgate é o mesmo que recebeu o reino. A cruz não foi um desvio antes da glória; foi o caminho dela. É por isso que o cristão não precisa escolher entre o Jesus humilde e o Jesus glorioso — são o mesmo Filho do Homem.

E diz, por fim, que a visão de Daniel tem um rosto. Durante séculos, Israel leu aquele capítulo esperando que alguém chegasse ao trono sobre as nuvens. Jesus disse que esse alguém estava sentado à mesa com publicanos.

Volte ao texto que começou tudo. Leia Daniel 7 inteiro — as feras, o tribunal, o Ancião de Dias — e, quando chegar ao versículo 13, lembre que foi essa cena que Jesus escolheu para dizer quem era: "alguém semelhante a um filho de homem vindo com as nuvens dos céus".

Ezequiel também era chamado de "filho do homem"?

Sim, mais de noventa vezes ao longo do livro. Mas ali a expressão não é título: é o modo como Deus se dirige a um ser humano frágil, lembrando-lhe sua pequenez diante da glória divina. Jesus usa a mesma expressão com o artigo definido ("o Filho do Homem") e com o conteúdo de Daniel 7 — um homem que recebe domínio eterno. A frase é a mesma; o que ela afirma é muito diferente.

Alguém além de Jesus foi chamado de Filho do Homem no Novo Testamento?

Não. Nos Evangelhos, só Jesus usa o título, e só para si mesmo. Fora deles, aparece apenas em Atos 7:56, quando Estêvão vê "o Filho do Homem em pé à direita de Deus", e em Apocalipse 1:13 e 14:14, nas visões de João — sempre referindo-se a Jesus exaltado.

"Vir com as nuvens" significa a segunda vinda ou a ascensão?

Os dois sentidos aparecem no Novo Testamento. Em Daniel 7:13, a figura vem com as nuvens em direção ao trono de Deus — um movimento de entronização, que muitos ligam à ascensão e à exaltação de Jesus. Em Mateus 24:30 e 25:31, a vinda com as nuvens é a volta visível a todos para o juízo. A leitura evangélica entende que a exaltação já aconteceu (Jesus está "à direita de Deus") e que a manifestação pública ainda virá.

Por que Jesus mandou os discípulos não dizerem que ele era o Cristo?

Porque, no tempo dele, "Cristo" (Messias) era entendido como rei político que derrotaria Roma — João 6:15 e Atos 1:6 mostram essa expectativa. Se os discípulos anunciassem "o Messias chegou", a multidão ouviria "a revolta começou". Jesus preferia "Filho do Homem", que não vinha com esse pacote, e o preenchia com o sentido certo: servir, morrer e depois reinar.

O Filho do Homem de Daniel 7 é Jesus ou o povo de Israel?

Daniel 7:18 e 27 dizem que o reino é dado aos "santos do Altíssimo", por isso alguns leem a figura como símbolo do Israel fiel. Outros a leem como um rei individual. A leitura cristã histórica entende que ela é um representante: um rei que recebe o reino em nome do povo, de modo que o povo o recebe nele. É assim que o Novo Testamento aplica o texto a Jesus — e aos que estão unidos a ele.

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