Filho do Homem: o significado do título que Jesus usou
Redação Bíblia Online Publicado em
O que Jesus queria dizer com "Filho do Homem"
"Filho do Homem" é o jeito como Jesus mais se referiu a si mesmo — cerca de oitenta vezes nos Evangelhos — e o título junta duas coisas que parecem não caber na mesma pessoa: um ser humano de verdade, que cansa, tem fome e vai morrer; e a figura celestial de Daniel 7, que chega diante do trono de Deus sobre as nuvens e recebe um reino que não acaba. Jesus escolheu essa expressão justamente porque ela dizia as duas coisas de uma vez.
Quem procura o significado do título costuma esperar uma de duas respostas: "quer dizer que Jesus era humano" ou "quer dizer que Jesus era o Messias". As duas estão certas e as duas estão incompletas. A expressão, por si, é humilde — em hebraico e aramaico, "filho de homem" é só um modo de dizer "um ser humano". Mas Jesus a usou com um artigo que não aparecia no uso comum (o Filho do Homem), e o único lugar do Antigo Testamento em que essa figura aparece recebendo poder é a visão de Daniel. É ali que o título ganha peso.
O resultado é um nome que servia a Jesus como nenhum outro: humilde o bastante para não soar como grito de guerra contra Roma, e carregado o bastante para que, quando ele dissesse "vereis o Filho do Homem vindo com as nuvens", o sumo sacerdote rasgasse as vestes.
Este artigo faz parte de Dúvidas e Explicações Significado de Palavras
Quantas vezes o título aparece, e quem o usa
Vale notar: nos Evangelhos, só Jesus chama Jesus de "Filho do Homem". Os discípulos o chamam de Mestre, Senhor, Cristo, Filho de Deus. Os adversários o chamam de galileu, filho de José, blasfemador. Ninguém, nem amigo nem inimigo, diz "o Filho do Homem" — a não ser ele.
A expressão aparece por volta de trinta vezes em Mateus, catorze em Marcos, vinte e cinco em Lucas e treze em João. Em todas, está na boca de Jesus, com uma exceção curiosa: em João 12 a multidão pergunta "quem é esse Filho do Homem?" — repetindo as palavras dele, sem entender.
Isso diz algo importante sobre a origem do título. Se "Filho do Homem" fosse um rótulo que a igreja primitiva inventou depois para honrar Jesus, esperaríamos vê-lo nas cartas de Paulo, nas confissões de fé, nas orações. Não está. Paulo nunca o usa. Fora dos Evangelhos, ele aparece só três vezes: na boca de Estêvão, em Atos 7, e em duas visões do Apocalipse. É um título que Jesus escolheu para si e que a igreja, respeitosamente, quase não tocou.
A visão de Daniel 7: de onde o título vem
Para entender o que Jesus estava dizendo, é preciso ir ao capítulo que ele tinha em mente. Daniel 7 é um sonho noturno, e o profeta conta o que viu em sequência.
Primeiro, quatro feras sobem de um mar agitado: um leão com asas de águia, um urso, um leopardo com quatro asas e quatro cabeças, e uma quarta fera, terrível, com dentes de ferro e dez chifres. O próprio capítulo explica depois que são quatro reinos que se levantam sobre a terra. Depois, a cena muda para uma sala de tribunal: tronos são postos, um "Ancião de Dias" se assenta, com vestes brancas, e livros são abertos. A quarta fera é julgada e destruída.
E aí entra a figura que nos interessa.
— Na minha visão durante a noite, vi alguém semelhante a um filho de homem vindo com as nuvens dos céus. Ele se aproximou do Ancião de Dias e foi conduzido à sua presença. Ele recebeu autoridade, glória e o reino; todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoraram. O seu domínio é um domínio eterno, que não acabará, e o seu reino jamais será destruído.
Olha o contraste que o texto constrói. As feras saem do mar, de baixo; este vem com as nuvens, de cima. As feras têm garras, asas, dentes; este é "como um filho de homem" — tem forma humana. As feras recebem poder por um tempo e perdem; este recebe "domínio eterno, que não acabará". E o que ele recebe não é pouco: povos, nações e línguas o servem — no aramaico, o verbo é o mesmo que o livro usa para o culto prestado a Deus.
Vem com as nuvens é outro detalhe que o leitor da época não deixaria passar. No Antigo Testamento, quem cavalga as nuvens é Deus — Salmos 104 fala do Senhor que "anda sobre as asas do vento", e Isaías 19 o mostra "cavalgando numa nuvem ligeira". Um ser com aparência humana fazendo o que só Deus faz: é essa a imagem que Daniel vê.
Leia a visão inteira em Daniel 7, prestando atenção aos versículos 18 e 27, porque eles importam para a discussão a seguir.
Essa figura é uma pessoa ou é o povo de Deus?
Aqui há uma discussão honesta, e vale conhecê-la.
Quando Daniel pede explicação da visão, a resposta que ele ouve não fala de um indivíduo. O versículo 18 diz que "os santos do Altíssimo receberão o reino", e o 27 repete: o reino e o domínio serão dados "ao povo dos santos do Altíssimo". Por isso muitos estudiosos — inclusive comentaristas evangélicos — entendem que, no contexto original de Daniel, a figura humana representa o Israel fiel, perseguido pelos impérios e finalmente vindicado por Deus. As feras são os impérios; o "filho de homem" é o povo.
Outros leem a figura como um indivíduo: um rei celestial que recebe o reino em nome do povo. Escritos judaicos anteriores a Jesus — como as parábolas de Enoque, que não estão na Bíblia — já liam Daniel 7 assim, esperando um "Filho do Homem" pessoal e messiânico.
A leitura evangélica histórica, que é a desta página, não escolhe uma contra a outra: entende que a figura é um representante. Assim como um rei encarna seu povo, aquele que vem com as nuvens recebe o reino que pertence aos santos — e os santos o recebem nele. É exatamente isso que o Novo Testamento faz com Jesus: ele é o Filho do Homem, e os que estão unidos a ele "reinarão com ele". Quando Jesus adotou o título, estava dizendo que aquela visão tinha um rosto, e que o rosto era o dele.
"Filho de homem" no resto do Antigo Testamento
Antes de ser título, "filho de homem" era uma expressão corriqueira em hebraico (ben-adam) e em aramaico (bar enash). Significava simplesmente "ser humano", muitas vezes com ênfase na fragilidade. É bom ver isso, porque a humildade do termo é metade do que Jesus quis dizer.
Em Números 23:19, Balaão declara que "Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa" — aqui, "filho de homem" é o oposto de Deus: alguém que muda de ideia, que falha. O Salmo 146:3 pede que não se confie "nos filhos dos homens, em quem não há salvação".
O Salmo 8 usa a expressão com admiração: diante da lua e das estrelas, o salmista pergunta o que é o homem, "o filho do homem", para que Deus se lembre dele. A carta aos Hebreus cita exatamente esse salmo quando fala de Jesus:
Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites?(इब्रानिया 2:6, ACF)
Hebreus 2 continua o raciocínio nos versículos seguintes: o salmo fala de um ser humano coroado de glória, com tudo debaixo dos pés, e o autor da carta diz que ainda não vemos isso acontecer com a humanidade em geral — mas vemos em Jesus. O "filho do homem" frágil do Salmo 8 se cumpre naquele que foi feito "um pouco menor que os anjos" e depois coroado. Vale ler Hebreus 2 inteiro para acompanhar o argumento.
E há Ezequiel. Deus chama o profeta de "filho do homem" mais de noventa vezes ao longo do livro — Ezequiel 2 é o primeiro caso. Não é título de honra: é Deus lembrando um homem caído de rosto no chão de que ele é só um homem, diante da glória que acabou de ver. Ezequiel é chamado assim por sua pequenez; Jesus se chama assim e, ao mesmo tempo, perdoa pecados. A expressão é a mesma. O que muda é quem a carrega.
Por que Jesus não dizia simplesmente "Messias"
Essa é a pergunta que mais ajuda a entender a escolha do título. Jesus era o Messias — ele o confirma a Pedro, à samaritana, ao sumo sacerdote. Mas quase nunca usava a palavra sobre si mesmo em público, e os Evangelhos mostram por quê.
No tempo de Jesus, "Messias" (em grego, "Cristo") evocava um rei da linhagem de Davi que expulsaria os romanos e restauraria o trono em Jerusalém. Não é interpretação minha: é o que o próprio texto registra. Depois da multiplicação dos pães, a multidão quis "arrebatá-lo para o fazer rei", e Jesus fugiu para o monte (João 6). Depois da ressurreição, os discípulos ainda perguntam: "é agora que vais restaurar o reino a Israel?" (Atos 1). No caminho de Emaús, dois deles lamentam: "esperávamos que fosse ele quem havia de redimir Israel" (Lucas 24).
O episódio mais revelador está em Marcos 8. Pedro confessa: "Tu és o Cristo." Jesus manda que não digam isso a ninguém e, imediatamente, começa a ensinar que "o Filho do Homem" deve sofrer muito, ser rejeitado e morto. Pedro o repreende. Repreende! Para Pedro, "Cristo" e "ser morto" não cabiam na mesma frase.
É isso que "Filho do Homem" permitia. Como o título não vinha com o pacote político de "Messias", Jesus podia preenchê-lo com o conteúdo certo: a fraqueza de uma vida humana, a necessidade de morrer pelo povo e a volta em glória como juiz. Três coisas que ele disse repetidamente — e sempre com esse nome.
O Filho do Homem que anda pela terra
O primeiro grupo de ditos mostra o Filho do Homem na vida comum, e em geral de baixo para cima. Quando alguém se oferece para seguir Jesus a qualquer lugar, ele responde com uma frase que ninguém esperaria de quem recebeu domínio sobre as nações:
Jesus respondeu:
— As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.(लूका 9:58, NVI)
A figura de Daniel não tem onde dormir. Esse é o escândalo: o título que carrega o trono é o mesmo que descreve um itinerante sem casa.
Nos mesmos ditos, ele diz para que veio. "O Filho do Homem veio salvar o que estava perdido", afirma em Mateus 18:11 — a frase está na ACF e na NAA; a NVI a deixa em nota de rodapé porque ela falta nos manuscritos mais antigos de Mateus, mas o mesmo dito aparece sem discussão em Lucas 19, logo após a conversa com Zaqueu.
Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido.(मत्ती 18:11, ACF)
Na parábola do trigo e do joio, ele se identifica como o semeador: "aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem" (Mateus 13) — e, poucos versículos depois, é o mesmo Filho do Homem que enviará os anjos na colheita. O homem que semeia e o juiz da colheita são um só.
Mas mesmo nesses ditos "terrenos" a autoridade aparece. Diante de um paralítico, com os fariseus murmurando que só Deus perdoa pecados, Jesus responde:
पर ऐ इस तांई की तुहांजो पता लग्गे की मिंजो, माणुऐ दे पुत्रे जो धरतिया पर पाप माफ करणे दा हक भी है।" उनी उस धंरगे दे मरिजे जो बोलया, "मैं तिजो ने बोलदा है, उठ कने अपणे मंझे जो चुकी करी अपणे घरे चली जा।"(लूका 5:24)
Perdoar pecados e, em Marcos 2:28, ser "Senhor até do sábado" — são prerrogativas que o judeu da época reservava a Deus. Jesus as reivindica em nome do Filho do Homem, e o texto não dá a entender que ele estava sendo modesto.
O Filho do Homem que precisa sofrer
O segundo grupo é o que Pedro não conseguia engolir. Jesus anuncia a própria morte ao menos três vezes, de forma cada vez mais detalhada, e sempre com este título — nunca "o Messias será entregue", sempre "o Filho do Homem".
porque estava ensinando os seus discípulos. Ele lhes dizia:
— O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, e, três dias depois, ressuscitará.(मरकुस 9:31, NVI)
Mateus registra o mesmo anúncio na Galileia (Mateus 17). E antes disso, quando pediram um sinal, Jesus respondeu com Jonas: assim como o profeta passou três dias no ventre do grande peixe, o Filho do Homem passará três dias "no coração da terra" (Mateus 12:40) — o túmulo, dito de maneira que só faria sentido depois.
Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem ficará três dias e três noites no coração da terra.(मत्ती 12:40, NVI)
O dito que explica por quê está em Marcos 10. Dois discípulos acabaram de pedir os melhores lugares no reino, e Jesus responde com o modelo do Filho do Homem:
Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.…(मरकुस 10:45a, NVI)
Isso aqui é importante. Em Daniel 7, o filho de homem é servido por todos os povos. Aqui, Jesus diz que o Filho do Homem veio servir. Não é contradição: é o caminho. Ele chega ao trono de Daniel passando pela cruz, e o reino que recebe é comprado com o "resgate" da própria vida. É por isso que a leitura evangélica entende a cruz como parte da exaltação, e não como um acidente antes dela.
O Evangelho de João diz isso com uma palavra só. Jesus fala três vezes que o Filho do Homem será "levantado" — a mesma palavra para erguer na cruz e para exaltar. "Quando levantardes o Filho do Homem, então sabereis que eu sou", diz em João 8. A cruz é o lugar onde se vê quem ele é.
Há ainda uma frase enigmática no começo de João, dita a Natanael: ele veria "o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem".
फिरी यीशुऐ उसयो बोलया, "मैं तुसां ने सच्च-सच्च बोलदा है की तुसां स्वर्गे जो खुलया कने परमेश्वरे दे स्वर्गदूते जो उपर जांदे कने मिंजो, माणुऐ दे पुत्रे उपर उतरदे दिखणा।" (यूहन्ना 1:51)
É a escada de Jacó, em Gênesis 28: o patriarca viu anjos subindo e descendo entre céu e terra. Jesus diz que ele mesmo é essa escada. O Filho do Homem é o ponto onde o céu toca a terra — o que já é quase uma definição do título.
O Filho do Homem que volta com as nuvens
O terceiro grupo retoma Daniel abertamente. Jesus fala do "dia do Filho do Homem" como de algo repentino e visível a todos:
क्योंकि जियां बिजली अम्बरे दे इकी छोरे ला दुए छोरे दीकर चमकदी है, तियां ही मैं माणुऐ दे पुत्रे भी अपणे रोजे च सामणे ओणा है।(लूका 17:24)
Em Mateus 24 ele insiste: "estejam preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que vocês não esperam" (Mateus 24; o versículo 30 fala explicitamente de vê-lo "vindo sobre as nuvens do céu"). E no último grande discurso de Mateus, ele se senta no trono:
"जालू मैं, माणुऐ दे पुत्रे अपणिया महिमा च ओंणा है, कने स्वर्गदूते उदे सोगी ओणा, तालू लोकां दा न्याय करणे तांई उनी अपणे महिमा दे सिहांसने पर विराजमान होणा।"(मत्ती 25:31)
Aqui o Filho do Homem faz o que o Ancião de Dias fazia em Daniel 7: separa, julga, decide o destino das nações. O detalhe que não pode escapar é que o juiz dessa cena é o mesmo que, dez capítulos antes, não tinha onde reclinar a cabeça. E o critério do julgamento, nos versículos seguintes, é como trataram os famintos, os presos, os estrangeiros — gente da condição em que o próprio Filho do Homem viveu.
A resposta a Caifás: o momento em que o título vira sentença
Se alguém ainda duvida de que "Filho do Homem" carregava uma reivindicação divina, o julgamento de Jesus resolve. Em Marcos 14, o sumo sacerdote pergunta diretamente: "És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?" Jesus, que passou três anos evitando a palavra em público, responde:
यीशुऐ बोलया, "हां मैं है: कने तुसां मिंजो माणुऐ दे पुत्रे जो सबते शक्तिशाली परमेश्वर दे सजे पासे हके कने बैठयो दिखणा, कने अम्बरे च बदलां सोगी ओंदे दिखणा है।"(मरकुस 14:62)
"Eu sou." E então ele traduz o que isso significa, juntando dois textos: o Salmo 110:1 ("assenta-te à minha direita") e Daniel 7:13 ("vindo com as nuvens do céu"). O resultado é claro: aquele homem amarrado diante do tribunal diz que é o que Daniel viu, e que o tribunal o verá entronizado.
O versículo seguinte registra a reação: Caifás rasga as vestes e declara blasfêmia, e o conselho o condena à morte. Olha o que isso mostra. Se "Filho do Homem" significasse só "um ser humano", não haveria blasfêmia nenhuma. Caifás entendeu perfeitamente — e foi por entender que condenou.
Filho do Homem e Filho de Deus: qual é a diferença?
A confusão mais comum é achar que "Filho do Homem" aponta para a humanidade de Jesus e "Filho de Deus" para a divindade, como dois lados de uma moeda. É um atalho que não resiste à leitura dos textos.
No Antigo Testamento, "filho de Deus" era antes de tudo um título real: Deus chama o rei davídico de filho em 2 Samuel 7 e no Salmo 2. É por isso que Caifás emenda "o Cristo" e "o Filho do Bendito" numa pergunta só: eram quase sinônimos. E "Filho do Homem", como vimos, é o título que inclui a cena mais exaltada de todas — as nuvens, o trono, o domínio eterno.
Então os dois títulos falam, cada um a seu modo, do Jesus inteiro. "Filho de Deus" diz quem ele é em relação ao Pai: o Filho eterno, enviado, amado. "Filho do Homem" diz quem ele é em relação à humanidade e à história: aquele que assumiu nossa fragilidade, morreu em nosso lugar e vai julgar e reinar como representante do povo de Deus. A fé cristã histórica confessa que ele é plenamente Deus e plenamente homem, e os dois títulos são as duas perguntas que essa confissão responde.
Vale notar que, no diálogo com Caifás, Jesus foi perguntado se era Filho de Deus e respondeu com Filho do Homem. Para ele, não eram alternativas.
Humildade ou exaltação: onde cai o peso?
Entre os estudiosos há um debate sobre qual metade do título Jesus enfatizava, e é justo dar a você as posições.
Alguns, sobretudo em círculos acadêmicos críticos — o historiador judeu Geza Vermes é o nome mais citado —, leem "filho do homem" como um circunlóquio aramaico: um modo indireto de dizer "eu" ou "um homem na minha posição", sem nenhuma referência a Daniel. Nessa leitura, foi a igreja depois que ligou a frase à visão profética.
A leitura evangélica histórica — compartilhada por intérpretes como I. Howard Marshall e N. T. Wright, para nomear uma corrente — entende que a conexão com Daniel vem do próprio Jesus. Os argumentos são textuais: o artigo definido incomum no grego (o Filho do Homem), as citações diretas de Daniel 7 em Marcos 13:26 e 14:62, a reação de Caifás, e o fato de que o uso humilde e o uso glorioso aparecem nos mesmos Evangelhos, muitas vezes no mesmo capítulo. Um circunlóquio para "eu" não explica por que Caifás rasgou as vestes.
Dentro dessa leitura, a resposta à pergunta "humildade ou exaltação?" é: as duas, e de propósito. O ponto do título é que aquele que recebe o reino em Daniel 7 é o mesmo que serve e morre. Tirar uma das metades é perder o que Jesus quis dizer.
Depois dos Evangelhos: Estêvão e o Apocalipse
Fora da boca de Jesus, o título aparece três vezes, e cada uma confirma a visão de Daniel.
A primeira é na morte de Estêvão. Apedrejado em Jerusalém, ele olha para cima e diz:
Então, disse:
— Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus.(प्रेरितां दे कम्म 7:56, NVI)
É a mesma cena que Jesus prometeu a Caifás, agora vista por um discípulo: o Filho do Homem à direita de Deus. Um detalhe chama atenção dos comentaristas: Jesus está em pé, não sentado como no Salmo 110. Alguns entendem que ele se levanta como testemunha a favor de Estêvão no tribunal celeste, enquanto o tribunal terreno o condena; outros, que se levanta para receber o primeiro mártir. O texto não explica — mas a imagem é a de Daniel, com um homem no lugar de honra.
No Apocalipse, João vê a mesma figura duas vezes. Na primeira, ela anda entre os candelabros, que o capítulo explica serem as igrejas:
e, entre os candelabros, alguém semelhante a um filho de homem, vestido com uma túnica que chegava aos pés e um cinto de ouro ao redor do peito.(प्रकाशितवाक्य 1:13, NVI)
A roupa até os pés e o cinto de ouro lembram as vestes do sumo sacerdote em Êxodo 28. O Filho do Homem exaltado não está longe: está no meio das igrejas, como sacerdote cuidando das lâmpadas.
Na segunda, ele está sentado sobre uma nuvem — a imagem de Daniel outra vez — com uma coroa de ouro e uma foice na mão (Apocalipse 14); os versículos seguintes descrevem a colheita da terra. Nuvem, coroa, juízo: é Daniel 7 e Mateus 25 numa só imagem.
Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de ouro e na mão uma foice afiada.(प्रकाशितवाक्य 14:14, NAA)
O que isso muda para quem está lendo
Vale terminar vendo por que o título importa fora do dicionário.
O título diz que o juiz final das nações é alguém que sabe o que é não ter onde dormir. Hebreus 4:15 tira a consequência: ele foi tentado em tudo, "mas sem pecado", e por isso pode se compadecer. Quem vai julgar não é um estranho à condição humana.
Diz também que o servo que morreu em resgate é o mesmo que recebeu o reino. A cruz não foi um desvio antes da glória; foi o caminho dela. É por isso que o cristão não precisa escolher entre o Jesus humilde e o Jesus glorioso — são o mesmo Filho do Homem.
E diz, por fim, que a visão de Daniel tem um rosto. Durante séculos, Israel leu aquele capítulo esperando que alguém chegasse ao trono sobre as nuvens. Jesus disse que esse alguém estava sentado à mesa com publicanos.
Volte ao texto que começou tudo. Leia Daniel 7 inteiro — as feras, o tribunal, o Ancião de Dias — e, quando chegar ao versículo 13, lembre que foi essa cena que Jesus escolheu para dizer quem era: "alguém semelhante a um filho de homem vindo com as nuvens dos céus".
Ezequiel também era chamado de "filho do homem"?
Sim, mais de noventa vezes ao longo do livro. Mas ali a expressão não é título: é o modo como Deus se dirige a um ser humano frágil, lembrando-lhe sua pequenez diante da glória divina. Jesus usa a mesma expressão com o artigo definido ("o Filho do Homem") e com o conteúdo de Daniel 7 — um homem que recebe domínio eterno. A frase é a mesma; o que ela afirma é muito diferente.
Alguém além de Jesus foi chamado de Filho do Homem no Novo Testamento?
Não. Nos Evangelhos, só Jesus usa o título, e só para si mesmo. Fora deles, aparece apenas em Atos 7:56, quando Estêvão vê "o Filho do Homem em pé à direita de Deus", e em Apocalipse 1:13 e 14:14, nas visões de João — sempre referindo-se a Jesus exaltado.
"Vir com as nuvens" significa a segunda vinda ou a ascensão?
Os dois sentidos aparecem no Novo Testamento. Em Daniel 7:13, a figura vem com as nuvens em direção ao trono de Deus — um movimento de entronização, que muitos ligam à ascensão e à exaltação de Jesus. Em Mateus 24:30 e 25:31, a vinda com as nuvens é a volta visível a todos para o juízo. A leitura evangélica entende que a exaltação já aconteceu (Jesus está "à direita de Deus") e que a manifestação pública ainda virá.
Por que Jesus mandou os discípulos não dizerem que ele era o Cristo?
Porque, no tempo dele, "Cristo" (Messias) era entendido como rei político que derrotaria Roma — João 6:15 e Atos 1:6 mostram essa expectativa. Se os discípulos anunciassem "o Messias chegou", a multidão ouviria "a revolta começou". Jesus preferia "Filho do Homem", que não vinha com esse pacote, e o preenchia com o sentido certo: servir, morrer e depois reinar.
O Filho do Homem de Daniel 7 é Jesus ou o povo de Israel?
Daniel 7:18 e 27 dizem que o reino é dado aos "santos do Altíssimo", por isso alguns leem a figura como símbolo do Israel fiel. Outros a leem como um rei individual. A leitura cristã histórica entende que ela é um representante: um rei que recebe o reino em nome do povo, de modo que o povo o recebe nele. É assim que o Novo Testamento aplica o texto a Jesus — e aos que estão unidos a ele.
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