Ganância: o amor ao dinheiro e a raiz da idolatria
Redação Bíblia Online Publicado em
O que a Bíblia chama de ganância
A Bíblia não condena ter dinheiro. Ela condena amar dinheiro — e trata esse amor não como um defeito de personalidade, mas como idolatria: uma coisa criada ocupando o lugar que é do Criador. Ganância, no vocabulário bíblico, é querer mais do que se tem a ponto de essa vontade mandar na vida, nas decisões e na confiança da pessoa.
O versículo que organiza tudo o que a Bíblia diz sobre o assunto está numa carta de Paulo a um pastor jovem:
Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores.
Olha o detalhe da frase. Paulo não escreveu "o dinheiro é a raiz de todos os males". Ele escreveu "o amor ao dinheiro". A palavra grega é filarguria, formada por filos (amor, afeição) e arguros (prata). Literalmente: afeição pela prata. O problema não está na moeda — está no coração que se apega a ela.
E vale notar o que Paulo diz que acontece com quem se apega: alguns "se desviaram da fé". Não "ficaram pobres", não "foram castigados". Desviaram-se da fé. A ganância, para a Bíblia, é antes de tudo um problema de direção: a pessoa começa a caminhar na direção do dinheiro e, sem perceber, está de costas para Deus.
Jesus disse a mesma coisa com outras palavras, para uma multidão, quando alguém o interrompeu pedindo que ele arbitrasse uma briga de herança entre irmãos (Lucas 12:13-14). Em vez de decidir quem tinha razão, ele avisou os dois:
Então, ele lhes disse:
— Cuidado! Protejam-se contra todo tipo de ganância, porque a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens.(Lucas 12:15, NVI)
Aqui a palavra grega é outra: pleonexia, de pleon (mais) e echein (ter). É "a vontade de ter mais". E Jesus diz "todo tipo" dela, porque a cobiça não aparece só em quem rouba — aparece em quem compara, em quem acumula, em quem não consegue parar de calcular. O que ele nega é a conta que todo mundo faz em silêncio: a de que a vida de uma pessoa vale o que ela possui.
Este artigo faz parte de Versículos por Tema Sabedoria e Caráter
Ganância não é o mesmo que trabalhar e prosperar
Essa é a primeira pergunta de quem procura o tema, e merece resposta direta: não, a Bíblia não trata riqueza como pecado. Abraão era rico (Gênesis 13:2). Jó era "o homem mais rico do Oriente" antes e depois da sua provação (Jó 1:3). O livro de Provérbios chega a elogiar quem acumula — desde que acumule do jeito certo:
A riqueza obtida com facilidade,
essa diminui,
mas quem a ajunta pelo trabalho,
esse a vê aumentar.(Provérbios 13:11, NAA)
O contraste do provérbio é entre a riqueza "obtida com facilidade" (o hebraico fala de riqueza que vem "do vapor", "do nada", sem lastro) e a que se ajunta "pelo trabalho". Uma diminui, a outra cresce. O texto não tem nada contra o patrimônio crescer; tem contra o atalho.
Então onde está a linha? Não está na quantia. Está no que a pessoa faz para ter o dinheiro e no que o dinheiro faz com a pessoa. O próprio Provérbios, dez capítulos depois, mostra o outro lado:
Não esgote as suas forças tentando ficar rico;
pare de pensar nisso!(Provérbios 23:4, NVI)
Repara que o conselho não é "não trabalhe". É "não esgote as suas forças tentando ficar rico". A diferença está no alvo. Trabalhar para sustentar a casa, servir bem e ter o que repartir é uma coisa; trabalhar com a riqueza como fim é outra — e a segunda, diz o sábio, cansa e não entrega.
Paulo faz a mesma distinção quando, no mesmo capítulo do versículo-âncora, dá instruções aos cristãos que já eram ricos (1 Timóteo 6:17-19). Ele não manda vender tudo. Manda três coisas: não serem arrogantes, não colocarem a esperança na riqueza "incerta" e serem "ricos em boas obras, generosos e prontos a repartir". Ou seja: o problema não é a conta bancária; é onde a esperança está depositada.
Por que a Bíblia chama a ganância de idolatria
Esse é o ponto que mais surpreende quem lê pela primeira vez. A gente costuma pensar em idolatria como adorar estátua. Paulo, porém, coloca a cobiça em duas listas de pecados graves — e nas duas ela aparece ao lado da imoralidade sexual, com um rótulo que não deixa dúvida:
Portanto, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a cobiça, que é idolatria.(Colossenses 3:5, NVI)
"Cobiça, que é idolatria." O raciocínio por trás é simples: ídolo é aquilo em que a pessoa confia para ter segurança, identidade e futuro. Quando é o dinheiro que responde "quem eu sou", "o que me protege" e "o que me espera", ele está fazendo o trabalho de um deus — mesmo que ninguém se ajoelhe diante do extrato.
Aos cristãos de Éfeso, cidade de comércio e de culto a Ártemis, Paulo escreve que isso nem deveria ser assunto entre eles:
Que a imoralidade sexual e toda impureza ou avareza não sejam nem sequer mencionadas entre vocês, como convém a santos.(Efésios 5:3, NAA)
A expressão "não sejam nem sequer mencionadas" não é censura ao tema (a Bíblia fala de dinheiro o tempo todo). É o padrão: entre gente que pertence a Deus, a avareza devia ser tão estranha que nem haveria caso para comentar.
Jesus foi ainda mais longe. Ele deu ao dinheiro o nome de um senhor:
— Ninguém pode servir a dois senhores, pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro.…(Mateus 6:24a, NVI)
A NVI traduz "dinheiro"; a ACF mantém a palavra original, "Mamom". Mamonas é um termo aramaico para riqueza, bens, aquilo em que se confia. Jesus o usa como se fosse um nome próprio — e a frase funciona assim: ninguém trabalha para dois patrões ao mesmo tempo. A questão nunca é se o dinheiro vai estar na sua vida; é quem dá as ordens, ele ou Deus. Pela lógica do versículo, o cristão pode ter dinheiro, mas o dinheiro não pode ter dono.
O que o amor ao dinheiro faz com quem o tem
Paulo descreve o processo passo a passo, no versículo logo antes do âncora. O contexto importa: ele está falando de falsos mestres que viam a fé como "fonte de lucro" (1 Timóteo 6:5), e responde dizendo que o lucro de verdade é "a piedade com contentamento".
No entanto, os que querem ficar ricos caem em tentação, em ciladas e em muitos desejos insensatos e nocivos, que levam os homens a mergulhar na ruína e na destruição,(1 Timóteo 6:9, NVI)
Vale notar a sequência: tentação, cilada, desejos insensatos, ruína. Não é uma queda de uma vez. É uma escada descendo. A pessoa "quer ficar rica" (o desejo), fica exposta a decisões que antes não tomaria (a tentação), entra em compromissos que a prendem (a cilada), e quando percebe está num lugar que não escolheria no começo. A Bíblia tem exemplos com nome: Acã, que escondeu ouro debaixo da tenda e levou a família junto (Josué 7); Judas, que negociou Jesus por trinta moedas (Mateus 26:14-16); Ananias e Safira, que mentiram sobre o valor de uma venda (Atos 5:1-11).
Sobre a expressão "raiz de todos os males": o grego diz pantōn tōn kakōn, e muitos intérpretes (nas tradições evangélica, católica e reformada) entendem que se trata de um modo de falar — "raiz de toda espécie de males", como traduzem algumas Bíblias em inglês. Paulo não está dizendo que toda maldade do mundo vem do dinheiro, mas que não há área da vida em que esse amor não consiga produzir estrago.
Séculos antes, Eclesiastes já tinha descrito o estrago de outro ângulo: o da frustração. A ganância promete e não entrega.
Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente;
quem ama as riquezas nunca ficará satisfeito com o que ganha.
Isso também é inútil!(Eclesiastes 5:10, NVI)
"Jamais terá o suficiente." Essa é a mecânica da cobiça: ela se alimenta do próprio objeto. Quem quer dinheiro por querer dinheiro nunca chega, porque o alvo se move junto. O mesmo capítulo observa que o trabalhador dorme bem, enquanto "a fartura do rico não lhe permite dormir" (Eclesiastes 5:12) — e conta o caso de alguém que perdeu tudo num negócio ruim.
Depois vem a conclusão que ninguém gosta de ouvir, mas que todo mundo sabe:
O homem sai nu do ventre da sua mãe
e, como vem, assim ele vai.
De todo o trabalho em que se esforçou,
nada levará consigo.(Eclesiastes 5:15, NVI)
É a mesma frase de Jó quando perdeu tudo: "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei" (Jó 1:21). O argumento de Eclesiastes não é melancólico por esporte. Ele quer que a pessoa perceba o absurdo: gastar a única vida que tem acumulando o que não pode levar.
Três histórias que Jesus usou para falar disso
Jesus raramente deu palestra sobre ganância. Ele contou histórias e encontrou pessoas. Três delas cobrem o assunto quase inteiro.
O rico insensato. É a parábola que vem logo depois de Lucas 12:15, a resposta de Jesus à briga de herança (Lucas 12:16-21). Um fazendeiro tem uma colheita grande demais para os celeiros. Ele faz a conta, decide derrubar e construir maiores, e já se imagina descansando por anos. Naquela noite, morre. Jesus fecha com a frase que explica o título: assim acontece com quem acumula para si "e não é rico para com Deus". Repara que o homem não roubou ninguém. O pecado dele foi planejar a vida inteira sem Deus na conta.
O jovem rico. Um homem sincero pergunta a Jesus o que falta para herdar a vida eterna (Marcos 10:17-27). Ele guardou os mandamentos desde moço. Marcos registra que Jesus "olhou para ele e o amou" — e aí pediu o que ele não conseguia dar: vender o que tinha, repartir com os pobres e seguir. O homem "foi embora triste, porque tinha muitos bens". É a única pessoa nos Evangelhos que sai triste de perto de Jesus. Nem ladrão, nem adúltero: um homem bom cujo dinheiro era mais dono dele do que ele do dinheiro.
Zaqueu. O oposto exato (Lucas 19:1-10). Chefe dos cobradores de impostos em Jericó, rico, odiado, pequeno demais para enxergar por cima da multidão — sobe numa figueira. Jesus para embaixo da árvore, chama-o pelo nome e se convida para a casa dele. Zaqueu desce, e a conversão aparece no bolso: metade dos bens para os pobres, e quatro vezes mais a quem ele tinha roubado. A lei exigia devolver com acréscimo de um quinto (Levítico 6:5); ele devolve quatro vezes. Ninguém mandou. Foi o coração que mudou de senhor.
As três histórias respondem à pergunta que Jesus fez em outra ocasião, logo depois de falar de perder a vida para salvá-la:
Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?(Marcos 8:36)
O rico insensato ganhou os celeiros e perdeu a noite. O jovem rico guardou os bens e saiu sem o que tinha ido buscar. Zaqueu perdeu metade do patrimônio e ouviu "hoje houve salvação nesta casa". A pergunta de Marcos 8:36 não é retórica — é uma conta que a pessoa faz uma vez, e depois nunca mais consegue ignorar.
Como vencer a cobiça na prática
A Bíblia não combate a ganância com pobreza. Combate com três coisas concretas: contentamento, generosidade e um coração realinhado — e para cada uma dá instrução direta.
Contentamento. É a palavra que Paulo usa em 1 Timóteo 6:6, e Hebreus a amarra ao mesmo termo do versículo-âncora: "conservem-se livres do amor ao dinheiro (afilarguros) e contentem-se com o que vocês têm", e a razão é a promessa de Deus de nunca abandonar (Hebreus 13:5). O contentamento bíblico não é conformismo nem desprezo pelo trabalho; é confiar que quem cuida de você é Deus, não o saldo. Paulo diz que aprendeu isso — passando por fartura e por escassez (Filipenses 4:11-13). É treino, não dom.
Generosidade. Se a cobiça é a vontade de ter mais, o remédio é o movimento contrário: soltar. Provérbios coloca os dois lado a lado:
O cobiçoso "cobiça todo o dia" — a cabeça não desliga. O justo "dá com generosidade" — e a generosidade é o único ato que a ganância não consegue fingir. Dar quebra o encanto, porque prova para a própria pessoa que o dinheiro não é dono dela. É o que Zaqueu fez, e é o que Paulo manda aos ricos de Éfeso. Sobre quanto dar, a Bíblia fala de dízimo no Antigo Testamento e de ofertas voluntárias e alegres no Novo (2 Coríntios 9:6-8); cristãos sinceros discordam sobre a continuidade do dízimo como regra, mas ninguém discorda de que dar com regularidade é parte do remédio.
Jesus deu a essa prática um nome que soa estranho a princípio — investimento:
— Não acumulem tesouros sobre a terra, onde as traças e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntem tesouros no céu, onde as traças e a ferrugem não corroem, e onde ladrões não escavam, nem roubam.(Mateus 6:19,20, NAA)
Repara que ele não diz "não acumulem". Diz "não acumulem sobre a terra" e "ajuntem tesouros no céu". A ordem é mudar de cofre. Traça, ferrugem e ladrão eram as três formas de perder patrimônio no mundo antigo (roupa, metal, casa arrombada — "escavam" porque as paredes eram de barro); hoje a lista é outra, mas a ideia continua: tudo o que você guarda aqui está exposto. O que você entrega a Deus, não. O versículo seguinte explica o porquê: onde está o tesouro, aí vai estar o coração.
Oração. Por fim, a Bíblia é realista: ninguém vence a cobiça só com força de vontade, porque ela mora na inclinação do coração. Por isso o salmista pede que Deus mude a direção:
A palavra hebraica traduzida por "cobiça" ou "ganância" aqui é betsa, que fala de lucro conseguido de qualquer jeito. O salmista reconhece que o coração dele tem uma tendência, e pede que Deus o incline para o outro lado — para a Palavra. É uma oração que cabe num fôlego e que pode ser feita todo dia, antes de abrir o aplicativo do banco.
De volta à raiz
Tudo o que a Bíblia diz sobre ganância volta para a frase de Paulo: o amor ao dinheiro é a raiz, e o que cresce dela é desvio da fé e muita dor. A boa notícia está no mesmo capítulo. Dois versículos antes, Paulo diz que "a piedade com contentamento é grande fonte de lucro"; dois versículos depois, manda Timóteo fugir dessas coisas e correr atrás "da justiça, da piedade, da fé, do amor, da perseverança e da mansidão".
Leia 1 Timóteo 6 inteiro — o capítulo que contém o versículo diz mais do que o versículo sozinho.
Ser rico é pecado segundo a Bíblia?
Não. Abraão, Jó, Davi e José de Arimateia eram ricos, e nenhum é condenado por isso. O que a Bíblia condena é o amor ao dinheiro, a confiança nele e o acúmulo que ignora os pobres e a Deus. Em 1 Timóteo 6:17-19, Paulo instrui os ricos a não serem arrogantes, a não pôr a esperança na riqueza e a serem generosos — não a deixarem de ser ricos.
Qual é a diferença entre ganância, avareza e cobiça?
Na Bíblia em português, as três palavras traduzem quase sempre o mesmo termo grego, pleonexia, "a vontade de ter mais". No uso comum, "avareza" tende a descrever quem não solta o que tem, e "ganância" quem não para de querer mais; "cobiça" às vezes aponta para desejar o que é do outro, como no décimo mandamento (Êxodo 20:17). O texto bíblico não faz essa separação com rigor: trata tudo como a mesma inclinação do coração.
Quem é Mamom em Mateus 6?
Mamom (mamonas) não é um demônio nem um deus pagão com culto próprio — é uma palavra aramaica que significa riqueza, bens, aquilo em que a pessoa confia. Jesus a usa como se fosse um nome, para dizer que o dinheiro pode agir como um senhor que exige lealdade. Por isso a NVI traduz "dinheiro" e a NAA "riquezas".
Como saber se eu amo o dinheiro?
A Bíblia dá sinais, não um teste. Lucas 12:15 pergunta se você mede a sua vida pelo que tem. Mateus 6:21 pergunta onde está o seu coração — o que você mais protege e onde mais pensa. Provérbios 21:26 e 2 Coríntios 9:7 perguntam se você consegue dar com alegria ou se cada doação dói. Eclesiastes 5:10 pergunta se "o suficiente" alguma vez chega. Se as respostas incomodam, a oração do Salmo 119:36 é um bom lugar para começar.
A Bíblia promete prosperidade financeira para quem é fiel?
A Bíblia promete que Deus cuida de quem confia nele (Mateus 6:25-34) e associa trabalho honesto a estabilidade (Provérbios 13:11). Não promete riqueza como recompensa pela fé: Jesus foi pobre, Paulo passou necessidade (Filipenses 4:12) e Hebreus 13:5 manda contentar-se com o que se tem. Há cristãos que entendem certas promessas do Antigo Testamento como garantia de prosperidade material hoje; a leitura evangélica histórica, que é a desta página, vê essas promessas ligadas à aliança com Israel e lê o Novo Testamento como quem redefine riqueza em termos de "tesouro no céu".
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