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Mateus era cobrador de impostos? A história dele na Bíblia

Rosto desfocado de uma pessoa de cabelo escuro olhando moedas douradas e prateadas na palma

Sim: Mateus era cobrador de impostos em Cafarnaum

Mateus, o apóstolo e autor do primeiro Evangelho, era cobrador de impostos — "publicano", na palavra das traduções mais antigas — e trabalhava num posto de cobrança em Cafarnaum, cidade de pescadores na margem norte do Mar da Galileia. É ele mesmo quem conta isso, em uma frase só, no capítulo 9 do seu Evangelho: Jesus passou, viu um homem sentado na coletoria, chamou, e o homem levantou e foi.

Ao sair dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e lhe disse:

— Siga-me.

Mateus se levantou e o seguiu.(Mateus 9:9, NVI)

Esse versículo é o único retrato que a Bíblia dá de Mateus antes de Jesus. Não há a profissão do pai, nem a cidade natal, nem como ele chegou àquela mesa. Só a mesa. E, para quem lia no primeiro século, a mesa dizia tudo: um judeu que havia escolhido ganhar a vida cobrando dinheiro do próprio povo para o governo que o povo detestava.

O resto da história — por que isso era tão grave, o que aconteceu no jantar da casa dele, por que Marcos e Lucas o chamam de Levi, e o que esse homem acabou escrevendo — se espalha por Mateus 9, Marcos 2 e Lucas 5. Vale juntar os pedaços.

Por que o cobrador de impostos era tão odiado

No contexto histórico, a Galileia era governada por Herodes Antipas, que mandava ali por concessão de Roma. O imposto que chegava a Cafarnaum servia a esse arranjo: sustentava o rei local e, por cima dele, o império. Para um judeu comum, o cobrador era o rosto visível de um poder estrangeiro ocupando a terra prometida.

Mas o problema não era só política. Era o jeito de cobrar. O direito de recolher tributos numa região costumava ser arrendado: alguém se comprometia a entregar ao governo uma quantia fixa e, em troca, ficava com tudo o que conseguisse arrecadar acima dela. O lucro do cobrador, portanto, estava justamente no excesso. Quanto mais ele apertasse, mais sobrava para ele.

Isso aparece no Novo Testamento sem rodeios. Quando cobradores de impostos vão a João Batista perguntar o que devem fazer, a resposta dele é curta e reveladora: não cobrem mais do que foi estipulado (Lucas 3:12-13). Ninguém diria isso a quem cobrava o justo. E Zaqueu, outro publicano, ao se converter, promete devolver quatro vezes o que havia tomado "de alguém" por extorsão (Lucas 19:8) — ele sabia exatamente o que a profissão permitia.

Cafarnaum tinha um agravante. A cidade ficava perto da fronteira entre o território de Antipas e o do irmão dele, Filipe, numa rota de comércio movimentada. É provável que a coletoria de Mateus fosse um posto de passagem: mercadorias, caravanas, pescado, tudo que cruzava pagava. Quem senta nessa mesa lida o dia inteiro com gente de fora — sírios, gregos, soldados — e com o dinheiro deles.

E aí entra o terceiro peso, o religioso. Para o judaísmo rigoroso da época, contato constante com gentios e trato com dinheiro de origem suspeita deixavam o homem em estado permanente de impureza. A tradição rabínica posterior chegou a colocar o cobrador de impostos na mesma categoria do ladrão: seu testemunho não valia, sua casa contaminava quem entrasse. Os Evangelhos refletem isso quando emparelham as palavras: "publicanos e pecadores" (Mateus 9:10-11), "publicanos e prostitutas" (Mateus 21:31-32). O fariseu que ora no templo agradece por não ser "como este publicano" (Lucas 18:11). Até Jesus, ao descrever quem deve ser tratado como estranho à comunidade, usa a expressão "gentio e publicano" (Mateus 18:17) — porque era assim que todo mundo entendia.

Traidor, explorador, impuro. Era isso que o nome "Mateus" carregava em Cafarnaum antes do capítulo 9.

O chamado: uma ordem e uma mesa deixada para trás

Mateus 9 começa com Jesus voltando "à sua própria cidade" (Mateus 9:1) — Cafarnaum, onde ele havia se estabelecido (Mateus 4:13). Ali ele cura um paralítico e, antes, lhe perdoa os pecados, o que escandaliza os escribas: só Deus perdoa pecados. É saindo dessa cena, com essa discussão no ar, que ele passa pela coletoria.

Vale notar a economia do relato. Jesus "viu" o homem. Disse duas palavras: "Siga-me." O homem "se levantou e o seguiu". Não há diálogo, não há pergunta de Mateus, não há condição. Marcos conta a mesma cena com a mesma brevidade (Marcos 2:14), e Lucas acrescenta um detalhe que pesa: ele se levantou "deixando tudo" (Lucas 5:27-28).

Cobrador de impostos com moedas e pergaminhos numa mesa recebe homem de túnica clara.

"Deixando tudo" tem um peso diferente aqui do que teve com Pedro e André. Pescador que larga a rede pode voltar ao barco — e eles voltaram, depois da ressurreição (João 21:3). Cobrador que larga a coletoria não volta. O posto era arrendado; alguém ocuparia a cadeira no dia seguinte. Mateus não tirou uma folga. Ele queimou a ponte.

O texto não diz o que passava na cabeça dele. Mas o fato de Mateus morar em Cafarnaum, a cidade onde Jesus vivia e pregava, sugere que aquele não era o primeiro encontro. Ele devia ter ouvido falar do mestre que curava e comia com quem não devia. Quando o chamado veio, a resposta estava pronta.

Mateus ou Levi? Por que o nome muda

Quem lê os três relatos nota um detalhe: Mateus chama o homem de Mateus; Marcos e Lucas chamam de Levi — e Marcos ainda acrescenta "filho de Alfeu". Mesma cidade, mesma coletoria, mesma frase de Jesus, mesma reação. Nome diferente.

A leitura tradicional, compartilhada por católicos, ortodoxos e protestantes desde os primeiros séculos, é que se trata da mesma pessoa com dois nomes — coisa comum entre judeus da época, como Simão que é Pedro, ou Saulo que é Paulo. "Levi" seria o nome de família; "Mateus" (do hebraico Mattityahu, "dom do Senhor") o nome pelo qual ficou conhecido entre os discípulos. Um indício a favor: nas quatro listas de apóstolos (Mateus 10, Marcos 3, Lucas 6, Atos 1) aparece sempre "Mateus", nunca "Levi". Se fossem dois homens, Levi teria sido chamado e depois sumido sem deixar rastro.

Alguns estudiosos modernos questionam a identificação, justamente porque Marcos e Lucas não a fazem explícita. Mas o texto dá um sinal que pesa: na sua própria lista dos Doze, Mateus é o único evangelista que acrescenta ao nome a antiga profissão.

Filipe e Bartolomeu;

Tomé e Mateus, o publicano;

Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;(Mateus 10:3, NVI)

Marcos e Lucas listam o mesmo apóstolo sem o rótulo. Só o autor do primeiro Evangelho escreve "Mateus, o publicano". Isso soa como alguém falando de si — quem não deixa esquecer de onde saiu.

O banquete na casa de Mateus

A primeira coisa que Mateus faz como discípulo é dar uma festa. Lucas conta a cena com os nomes todos.

Então, Levi ofereceu a Jesus um grande banquete na sua casa. Uma grande multidão de publicanos e outras pessoas comiam com eles.(Lucas 5:29, NVI)

Repare em quem estava à mesa: "uma grande multidão de publicanos e outras pessoas". Mateus não convidou os vizinhos respeitáveis — ele não tinha vizinhos respeitáveis. Convidou os colegas de profissão e o restante do círculo em que um cobrador de impostos vivia. E sentou Jesus no meio deles.

O próprio Mateus, ao narrar o mesmo jantar, é mais discreto: diz apenas que Jesus estava "à mesa, em casa", sem dizer de quem era a casa (Mateus 9:10). Lucas é quem revela que era a casa de Levi, e que o banquete foi "grande". Olha, isso diz algo sobre o homem: ele conta o próprio chamado numa frase e esconde a própria generosidade. Quem escreve assim não está construindo imagem.

O jantar não passou despercebido. Os fariseus veem a cena e perguntam aos discípulos: por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores? (Mateus 9:11). A pergunta não é curiosidade. Comer junto, naquela cultura, significava aceitar a pessoa. Jesus estava aceitando gente que, pela leitura deles, Deus havia rejeitado.

"Misericórdia quero, e não sacrifício": a resposta de Jesus

Jesus responde à crítica com uma imagem e uma citação. A imagem: médico é para doente, não para quem está bem. A citação vem do profeta Oseias.

Vão e aprendam o que significa isto: "Desejo misericórdia, não sacrifícios". Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores.(Mateus 9:13, NVI)

"Misericórdia quero, e não sacrifício" é Oseias 6:6, um texto que acusava Israel de manter o culto em dia enquanto o coração estava longe de Deus. Ao citá-lo, Jesus devolve a acusação. Os fariseus achavam que a pureza ritual — não se misturar — era o que Deus exigia. Jesus diz que Deus exige outra coisa, e que a Escritura deles já dizia isso.

Vale a pena olhar a frase final com cuidado: "não vim chamar justos, mas pecadores". Na leitura evangélica histórica — que é a desta página — Jesus não está dizendo que existe um grupo de pessoas justas que não precisa dele. Está usando a palavra no sentido que os fariseus davam a si mesmos: os que se consideravam justos. O ponto é irônico e cortante. Quem se acha são não procura médico; por isso o médico foi direto a quem sabia que estava doente. Há quem leia a frase de modo mais literal, como uma afirmação sobre prioridade de missão, mas o restante do Evangelho de Mateus — "bem-aventurados os pobres em espírito", em Mateus 5:3 — aponta para a ironia.

Isso aqui é importante para entender por que a história de Mateus está onde está. O chamado dele não é um episódio solto: Mateus o coloca logo depois de Jesus perdoar pecados a um paralítico e logo antes de duas perguntas sobre quem pode se aproximar de Deus. A profissão de Mateus é o argumento. Se o publicano pôde ser chamado, a porta não tem lista de exclusão.

O que o cobrador de impostos escreveu

A tradição cristã, desde o segundo século, atribui o primeiro Evangelho a esse Mateus — Papias, Irineu e outros o afirmam, e Eusébio registra. O próprio texto não traz assinatura, como nenhum dos quatro Evangelhos traz, mas a atribuição é antiga e nunca houve outro candidato sério.

O que se pode dizer com segurança é sobre o Evangelho em si. É o mais judeu dos quatro. Começa com uma genealogia que liga Jesus a Davi e a Abraão. Repete, mais de dez vezes, a fórmula "para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta". Organiza o ensino de Jesus em grandes blocos, o maior deles o Sermão da Montanha (Mateus 5 a 7), em que Jesus aparece como quem interpreta a Lei com autoridade própria. Fala em "Reino dos céus" onde Marcos e Lucas dizem "Reino de Deus", um cuidado típico de quem escreve para judeus que evitavam pronunciar o nome divino.

Ou seja: o homem que o povo tratava como traidor da nação escreveu o livro que mais se esforça para mostrar que Jesus é o Messias prometido a essa nação. Há quem veja na ênfase do Evangelho em moedas, dívidas e contas — o estáter encontrado no peixe, em Mateus 17:27; a parábola dos talentos, em Mateus 25 — a marca de quem passou anos atrás de uma mesa de cobrança. É uma observação tradicional, sugestiva, não uma prova. Mas o fato principal não depende dela: um publicano virou evangelista, e o Evangelho dele é o que abre o Novo Testamento.

Até todas as nações

O Evangelho de Mateus termina com a ordem que a igreja chama de Grande Comissão.

Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,(Mateus 28:19, NVI)

"Todas as nações" — em grego, ethnē, a mesma palavra que dá "gentios". É o grupo com quem Mateus lidava todo dia na coletoria, e cujo contato o tornava impuro aos olhos dos vizinhos. O Evangelho mais judeu dos quatro fecha abrindo a porta para quem estava fora. Faz sentido que quem registra essa ordem seja justamente o homem que sabia o que era estar fora.

A Bíblia não conta como Mateus morreu nem onde pregou depois disso — as tradições sobre Etiópia ou Pérsia são tardias e não dão para confirmar. O que ela guarda dele cabe numa cena: um homem sentado numa mesa que todo mundo evitava, e alguém que parou, olhou e disse "Siga-me". Leia Mateus 9 inteiro, do paralítico ao jantar: a conversão de Mateus é o miolo do capítulo, e o capítulo é o argumento do livro.

Mateus era rico?

A Bíblia não diz, mas dá sinais. Ele tinha casa própria em Cafarnaum e ofereceu nela "um grande banquete" para "uma grande multidão" (Lucas 5:29), o que exige recursos. Cobradores de impostos, pelo sistema de arrendamento, costumavam enriquecer com o que arrecadavam além do devido. Zaqueu, outro publicano, é descrito explicitamente como rico (Lucas 19:2).

Mateus era levita, da tribo de Levi?

Não há como afirmar. O nome "Levi" (Marcos 2:14; Lucas 5:27) pode indicar origem na tribo sacerdotal, mas também era um nome pessoal comum. Se fosse levita, a profissão de cobrador seria ainda mais chocante para os contemporâneos — um homem da tribo do culto servindo ao dinheiro de Herodes. O texto, porém, não desenvolve isso, e o mais honesto é deixar em aberto.

Qual a diferença entre publicano e cobrador de impostos?

É a mesma função. "Publicano" vem do latim publicanus, nome dado em Roma a quem arrendava a cobrança de tributos; as traduções portuguesas mais antigas (como a Almeida) usam a palavra, e as mais recentes (como a NVI) preferem "cobrador de impostos" em muitos trechos. Nos Evangelhos a palavra grega é telōnēs, que designava os cobradores locais, de nível mais baixo, como Mateus.

Mateus e Zaqueu eram a mesma pessoa?

Não. Mateus trabalhava em Cafarnaum, na Galileia, e foi chamado no início do ministério de Jesus (Mateus 9:9). Zaqueu era "chefe dos publicanos" em Jericó, na Judeia, e encontrou Jesus na última viagem a Jerusalém (Lucas 19:1-10). São os dois cobradores de impostos que os Evangelhos nomeiam, e as histórias deles se parecem justamente porque mostram o mesmo padrão: Jesus procurando quem o povo havia descartado.

Como Mateus morreu?

A Bíblia não registra. Tradições posteriores falam de pregação entre judeus na Palestina e, depois, em regiões como Etiópia ou Pérsia, com relatos divergentes sobre martírio. Nenhuma dessas tradições é confirmável, e os escritores cristãos mais antigos já discordavam entre si. O último dado bíblico seguro sobre ele é a presença entre os Doze depois da ressurreição (Atos 1:13).

Edvaldo Silva
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