Histórias de santos: São Cristóvão e João Paulo II
As histórias — e de onde elas vêm
Cristóvão carregou nos ombros um menino que, no meio do rio, se revelou ser Cristo. João Paulo II perdoou o homem que atirou nele. Maria Goretti morreu aos onze anos perdoando quem a matou. Essas histórias estão contadas abaixo — com uma distinção que faz diferença: elas vêm da tradição da Igreja, não das páginas da Bíblia. E a Bíblia usa a palavra "santo" de um jeito que surpreende: para Paulo, santo era o nome de todo cristão.
à Igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus e convocados para serem santos, juntamente com todos os que, em toda parte, invocam o Nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:
O que a Bíblia chama de santo
Olha quem recebe o título em 1 Coríntios: a igreja de Corinto — a mesma que Paulo vai repreender por brigas, imoralidade e bagunça na Ceia. A palavra grega é hagios: separado para Deus. Não é um grau alcançado depois de uma vida heroica; é o que Deus faz com quem pertence a Cristo.
Com o tempo, a palavra ganhou um segundo uso: já no século II as comunidades guardavam a memória dos mártires, e daí veio o sentido de pessoa de vida exemplar, reconhecida oficialmente pela Igreja Católica ou Ortodoxa. É nesse sentido que os cinco nomes a seguir carregam o título. O de Paulo volta no fim.
São Cristóvão, o homem que carregou Cristo
A lenda: Cristóvão era um gigante que queria servir ao rei mais poderoso do mundo. Um eremita lhe ensinou que esse rei era Cristo e lhe deu a tarefa de ajudar viajantes a atravessar um rio. Numa noite, um menino pediu para passar; no meio da água, o peso ficou insuportável. Do outro lado, o menino disse que ele havia carregado aquele que fez o mundo. Daí o nome Christophoros, "o que carrega Cristo".
De histórico há pouco: um mártir chamado Cristóvão era venerado no Oriente no século V, e a tradição situa sua morte por volta de 250. A cena do rio só aparece na Legenda Áurea, do século XIII; em 1969 a Igreja Católica retirou sua festa do calendário universal pela falta de dados confiáveis. A história sobreviveu porque ilustra algo que Jesus disse de fato:
Então o Rei, esclarecendo-lhes responderá: ‘Com toda a certeza vos asseguro que, sempre que o fizestes para algum destes meus irmãos, mesmo que ao menor deles, a mim o fizestes’.(Mateus 25:40)
A lenda é essa frase virada em cena: quem carregava gente anônima descobre que carregava Cristo. O versículo é que sustenta a lenda, não o contrário.
Santa Maria Goretti e o perdão aos onze anos
Aqui há processo judicial e testemunhas. Maria nasceu em 1890 numa família de camponeses italianos pobres. Em 1902, aos onze anos, foi atacada por Alessandro Serenelli, vizinho de vinte anos; resistiu e foi esfaqueada. No hospital, antes de morrer, disse ao padre que perdoava Alessandro e queria vê-lo no céu.
Alessandro cumpriu trinta anos de prisão. Depois de anos sem arrependimento, contou ter sonhado com Maria e mudou de vida; ao sair, pediu perdão à mãe dela, Assunta — e ela o perdoou. Em 1950, na canonização, ele estava vivo, trabalhando como jardineiro num convento.
No mesmo sermão, Jesus manda orar pelos que nos perseguem — não como conselho para depois, mas como ordem para o meio da dor. O que impressiona em Maria não é que tenha perdoado; é quando. E o perdão não apagou a justiça: Alessandro cumpriu pena.
São João Paulo II: "Não tenhais medo"
Karol Wojtyła nasceu em 1920 na Polônia. Viu o país invadido pelos nazistas, estudou num seminário clandestino e viveu décadas sob o comunismo. Eleito papa em 1978, abriu o pontificado com a frase mais lembrada dele: "Não tenhais medo! Abri as portas a Cristo!" — e quem ouviu do outro lado da Cortina de Ferro entendeu.
Em 1981, Mehmet Ali Ağca atirou nele quatro vezes. Dois anos depois, João Paulo II foi até a cela de Ağca, conversou com ele por vinte minutos e disse que o havia perdoado.
O SENHOR é a minha luz
e a minha salvação:
a quem temerei?
O SENHOR garante
a minha existência;
o que eu haveria de recear?(Salmos 27:1)
O salmo não diz que o perigo é imaginário; diz que, com o Senhor por luz, o medo perde o controle das decisões. Wojtyła não deixou de ser alvo. Deixou de ser governado pela mira.
Santa Teresinha e a santidade das coisas pequenas
Teresa Martin nasceu em 1873 na França, entrou num convento carmelita aos quinze anos e morreu de tuberculose aos vinte e quatro. Não fundou nada, não pregou. Deixou um caderno autobiográfico, História de uma Alma, um dos livros espirituais mais lidos do século XX.
Sua "pequena via": a santidade dos grandes feitos estava fora do alcance de quase todo mundo, então o caminho seria fazer as coisas pequenas e repetidas do dia com todo o amor possível — lavar roupa, suportar uma irmã irritante, recolher um alfinete do chão.
Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito.(Lucas 16:10)
O caráter aparece no pouco, porque ali ninguém está olhando. A Igreja Católica a declarou Doutora da Igreja em 1997 — uma mulher que morreu aos vinte e quatro, sem ter ensinado em público.
Santo Antônio de Pádua, o pregador que a devoção popular esqueceu
Fernando de Bulhões nasceu em Lisboa por volta de 1195. Em 1220, ao ver passar por Coimbra os corpos de cinco franciscanos mortos no Marrocos, entrou na ordem de Francisco e tomou o nome de Antônio. Morreu em 1231, perto de Pádua, com cerca de 35 anos.
Hoje é lembrado como santo dos objetos perdidos e dos casamentos — devoção que cresceu depois. Em vida foi pregador: Francisco de Assis confiou a ele o ensino de teologia aos frades, e suas pregações atacavam a usura, a exploração dos pobres e a vida dupla de quem professava a fé e vivia de outro jeito. Canonizado menos de um ano após a morte, foi declarado "Doutor Evangélico" em 1946.
O Senhor é o meu pastor;
nada me falta.(Salmos 23:1)
O Salmo 23 era um dos textos que ele pregava, e dá para ver por quê: quem confia que nada lhe faltará não precisa esmagar o vizinho para garantir o sustento.
Por que algumas igrejas veneram santos e outras não
Católicos e ortodoxos creem na "comunhão dos santos": os que morreram em Cristo estão vivos com ele, e pode-se pedir que orem por nós, como se pede a um irmão da congregação. Citam a "nuvem de testemunhas" de Hebreus e as orações dos santos em Apocalipse. A canonização, nessa visão, é a Igreja reconhecendo publicamente que alguém está no céu.
Portanto, também nós, considerando que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, desembaracemo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos está proposta,(Hebreus 12:1)
Protestantes leem a nuvem de testemunhas como os heróis de Hebreus 11, exemplos a imitar — não intercessores a invocar. O argumento central: a Bíblia não traz orientação para orar a quem já morreu, e afirma quem é o intercessor:
Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e o ser humano, Cristo Jesus, homem.(1 Timóteo 2:5)
Esta é a leitura da tradição evangélica histórica, que orienta este texto: honrar os santos é lembrar e imitar — como Hebreus manda com os que ensinaram a Palavra — sem pedir a eles o que se pede a Deus. Mas cristãos sinceros discordam disso há séculos, com a Bíblia aberta dos dois lados.
Chamados santos
Volte ao versículo do começo. Paulo não chama os coríntios de santos por serem Cristóvão ou Teresinha, mas porque Deus os separou para si — "com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo". Isso inclui a sala onde você está lendo. As histórias acima mostram o que essa separação pode produzir; mas o título vem antes do feito, não depois.
Leia 1 Coríntios 1 completo e veja a quem Paulo chama de santo.
O que é canonização?
É o processo pelo qual a Igreja Católica declara oficialmente que uma pessoa está no céu e pode ser venerada, após investigar sua vida, seus escritos e, em geral, milagres atribuídos a ela. A Igreja Ortodoxa tem processo semelhante, a glorificação. Igrejas protestantes não canonizam ninguém.
A Bíblia manda rezar para os santos?
Não há na Bíblia instrução para dirigir oração a quem já morreu. Católicos e ortodoxos apoiam a intercessão dos santos em textos como Hebreus 12:1 e Apocalipse 5:8; protestantes entendem que a oração vai só a Deus, por Jesus Cristo, o único mediador (1 Timóteo 2:5).
Por que São Cristóvão é padroeiro dos motoristas?
Por causa da lenda do rio: ele ajudava viajantes a atravessar com segurança, e a devoção passou aos motoristas com o automóvel. A história, porém, só aparece em textos medievais.
Existem santos protestantes?
No sentido de canonização, não. No sentido bíblico, sim: para a tradição protestante, todo cristão é santo (1 Coríntios 1:2; Filipenses 1:1). Figuras como Lutero ou Wesley são lembradas como exemplos de fé, mas não são veneradas nem invocadas em oração.
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