Sermos imitadores de Cristo: serviço e amor no dia a dia
Redação Bíblia Online Publicado em
O que significa ser imitador de Cristo
Ser imitador de Cristo é tomar o jeito de Jesus como o padrão da própria vida — não a aparência dele, mas a disposição: ele serviu em vez de ser servido e amou até entregar a vida. A Bíblia chama isso de imitação porque é algo que se aprende olhando para alguém e fazendo igual, como uma criança aprende com o pai. E resume o conteúdo dessa imitação em duas palavras que andam juntas: serviço e amor.
A frase mais conhecida sobre isso é de Paulo, escrevendo para a igreja de Corinto:
Sejam meus imitadores, como também sou imitador de Cristo.
Repare na ordem. Paulo não diz "me copiem" e para por aí. Ele diz: me imitem na medida em que eu imito a Cristo. O exemplo dele vale porque aponta para outro. É assim que a Bíblia trata a imitação do começo ao fim — nunca como admiração por uma figura, sempre como uma vida que se parece com a de Jesus no que ele fez pelos outros.
O resto desta página mostra de onde vem essa ideia, o que Paulo tinha em mente quando a usou, por que o amor é a marca que não pode faltar, qual a diferença entre imitar e copiar, e como isso toca o dia de quem lê.
Este artigo faz parte de Vida Cristã Vida Cristã Prática
Por que Paulo diz "sejam meus imitadores"
A frase de 1 Coríntios 11:1 fecha um argumento que começa três capítulos antes. Em 1 Coríntios 8 a 10, Paulo discute um problema bem concreto daquela igreja: podia ou não comer carne que tinha sido oferecida a ídolos nos templos pagãos? Alguns cristãos achavam que sim — ídolo não é nada, carne é carne. Outros ficavam com a consciência ferida.
A resposta de Paulo é curiosa. Ele concorda que a carne em si não é problema. E depois diz que, se comer vai fazer um irmão tropeçar, ele prefere nunca mais comer carne na vida (1 Coríntios 8:13). Em 1 Coríntios 9 ele conta que abriu mão de direitos que tinha como apóstolo — inclusive de receber sustento — para não atrapalhar o evangelho. E no fim de 1 Coríntios 10 ele resume: não procura o próprio proveito, mas o de muitos, para que sejam salvos (1 Coríntios 10:31-33).
É logo depois disso que vem o "sejam meus imitadores". Então o que Paulo pede que imitem já está definido: a disposição de renunciar ao que se tem direito para o bem de outra pessoa. Não é um convite para admirar o apóstolo. É um convite para abrir mão, como ele abriu, porque Cristo abriu antes.
Vale notar a palavra grega. "Imitador" é mimētēs, da mesma raiz que dá "mímica" em português. Mas o sentido ali não é teatral. No mundo antigo, mimētēs era o aprendiz que reproduzia o ofício do mestre até fazer igual — o jeito de trabalhar passava de um para o outro por convivência, não por cópia de gestos. Paulo usa esse quadro: a igreja aprende a servir vendo alguém servir.
Imitar a Deus como filhos amados
Em Efésios, Paulo dá um passo além. Não pede mais que imitem a ele; pede que imitem o próprio Deus:
Portanto, sejam imitadores de Deus, como filhos amados,(Efésios 5:1, nvi)
A frase assusta um pouco — imitar Deus? Mas o contexto esclarece o que ele tem em mente. O versículo anterior, Efésios 4:32, diz para perdoarem uns aos outros "como também Deus os perdoou em Cristo". E o versículo seguinte, Efésios 5:2, explica: andem em amor, como Cristo nos amou e se entregou por nós.
Então a imitação de Deus tem conteúdo bem definido, e não é onisciência nem poder. É perdoar como fomos perdoados e amar como fomos amados. O "como" é a chave: o padrão do perdão não é o que a outra pessoa merece, mas o que Deus fez conosco.
A expressão "como filhos amados" também não é enfeite. Filho imita o pai sem esforço consciente — pega o jeito de falar, a maneira de reagir. Paulo está dizendo que a imitação de Deus nasce de uma relação, não de uma disciplina fria. Quem foi amado primeiro aprende a amar olhando para quem o amou. A ordem importa: primeiro "amados", depois "imitadores".
O modelo que a Bíblia manda imitar: Filipenses 2:5-8
Se alguém perguntar "imitar Cristo em quê, exatamente?", a resposta mais completa do Novo Testamento está aqui:
Seja o modo de pensar de vocês o mesmo de Cristo Jesus,
que, apesar de ser Deus,
não considerou que a sua igualdade com Deus era algo que deveria ser usado como vantagem;
antes, esvaziou a si mesmo,
assumindo a forma de servo,
tornando-se semelhante aos homens.
Sendo encontrado em figura humana,
humilhou-se
e foi obediente até a morte,
e morte de cruz!(Filipenses 2:5-8, nvi)
Esse trecho é um dos textos mais densos de toda a Bíblia sobre quem Jesus é. Mas olha o motivo pelo qual Paulo o escreveu: ele não estava dando aula de doutrina. A igreja de Filipos tinha gente brigando — duas mulheres, Evódia e Síntique, são citadas pelo nome em Filipenses 4:2. E logo antes do nosso trecho, em Filipenses 2:3-4, Paulo pede que não façam nada por vaidade e que cada um cuide do interesse dos outros.
Ou seja: a descrição mais alta de Cristo que Paulo escreveu foi para resolver uma briga de igreja. Isso diz muito sobre o que é imitação para ele.
O movimento do texto é todo para baixo. Jesus era igual a Deus e não tratou isso como vantagem a ser explorada. Esvaziou-se — o verbo grego é ekenōsen, de onde vem o termo teológico "quenose". Assumiu forma de servo. Humilhou-se. Obedeceu até a morte, e a pior das mortes.
Cada degrau é uma escolha de descer. E o versículo 5 diz que esse deve ser "o modo de pensar" de quem segue a Cristo. A palavra ali é phroneō, que tem a ver com a direção da mente, o jeito de avaliar as coisas. Imitar a Cristo começa aí: numa cabeça que não calcula o que pode ganhar, mas o que pode dar.
Isso é o que a Bíblia chama de serviço. Não é um cargo nem uma atividade aos domingos. É a direção da vida inteira apontada para o bem do outro, mesmo quando custa.
Amor: a marca que não pode faltar
Serviço sem amor vira obrigação. E a Bíblia não separa os dois quando fala de imitar a Cristo.
Na última noite antes da cruz, Jesus lavou os pés dos discípulos — trabalho de escravo, que nenhum deles quis fazer. Depois disse que tinha dado um exemplo para que fizessem o mesmo (João 13:14-15). E na mesma conversa deu o que chamou de novo mandamento: amar uns aos outros como ele os amou, e disse que seria por isso que o mundo reconheceria seus discípulos (João 13:34-35).
O "como" de novo. Não é amar de qualquer jeito; é amar do jeito que ele amou. E o jeito dele está logo ali, na bacia de água e na cruz que viria horas depois.
João volta a isso em sua carta. Em 1 João 3:16, ele diz que conhecemos o que é amor porque Cristo deu a vida por nós — e que, por isso, devemos dar a vida pelos irmãos. É a lógica da imitação em uma frase: o que ele fez por mim define o que eu faço pelo outro.
Jesus mesmo resumiu sua missão assim: o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida (Marcos 10:45). Servir e dar a vida são a mesma coisa dita duas vezes. Esse é o amor que a imitação reproduz — e por isso o título desta página junta as duas palavras: não existe serviço cristão que não seja amor em ação, nem amor cristão que não se mostre servindo.
Imitar não é copiar
Aqui é importante parar e desfazer uma confusão. Imitar a Cristo não é reproduzir a vida de Jesus em detalhes externos. Ele andava de sandália, não se casou, falava aramaico, viveu na Galileia do século I. Nada disso é o alvo.
A diferença fica clara na própria frase de Paulo. Ele diz "sejam meus imitadores" — e no mesmo fôlego acrescenta "como também sou imitador de Cristo". O exemplo dele é condicional. Vale enquanto aponta para Jesus; onde ele falhasse, deixaria de valer. Nenhum líder humano é modelo em si mesmo.
Hebreus 13:7 diz o mesmo de outro jeito: lembrem dos seus líderes e imitem a fé deles (Hebreus 13:7). A fé, não a personalidade, o estilo ou as decisões pessoais. O que se imita é a direção para a qual a pessoa olha.
A igreja de Tessalônica é um bom exemplo disso. Paulo ficou pouco tempo com eles — Atos 17 conta que uma revolta na cidade o obrigou a sair às pressas. Mesmo assim, ele escreve:
E vocês se tornaram nossos imitadores e do Senhor, recebendo a palavra com a alegria que vem do Espírito Santo, apesar dos muitos sofrimentos.(1 Tessalonicenses 1:6, NAA)
Imitadores "nossos e do Senhor". Os tessalonicenses não tiveram tempo de copiar costumes de Paulo. O que eles reproduziram foi uma postura: receber a palavra com alegria mesmo sob sofrimento. É exatamente o que Paulo e Silas tinham feito na cidade deles, e exatamente o que Jesus fez. A imitação passou de Cristo para Paulo, de Paulo para a igreja — e o que passou não foi uma forma, foi um caráter.
Pedro usa uma imagem que ajuda a entender. Em 1 Pedro 2:21, ele diz que Cristo sofreu por nós deixando "exemplo" para que sigamos seus passos. A palavra grega para exemplo ali, hypogrammos, era o modelo de letras que o professor escrevia para a criança copiar por cima. A criança não reproduzia o professor; reproduzia a forma das letras. É isso: imitar a Cristo é escrever a própria vida por cima do traço dele.
Por que o ser humano pode imitar Deus
Pode parecer pretensão demais falar em imitar Deus. Mas a Bíblia dá uma razão para isso ser possível, e ela está na primeira página:
…
Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.…(Gênesis 1:26, NAA)
O ser humano foi feito à imagem e semelhança de Deus. Isso significa, entre outras coisas, que fomos criados para refletir o caráter dele no mundo — para que quem olhasse para a humanidade visse algo de Deus. Essa é a vocação original.
O pecado não apagou a imagem, mas a distorceu. E o Novo Testamento descreve a obra de Cristo também nesses termos. Jesus é chamado "a imagem do Deus invisível" em Colossenses 1:15 — a imagem perfeita, sem distorção. E Romanos 8:29 diz que Deus predestinou os seus para serem conformados à imagem do Filho (Romanos 8:29).
Então imitar a Cristo não é uma exigência externa colada por fora na vida cristã. É a restauração daquilo para que fomos feitos. Quando alguém serve e ama do jeito que Jesus serviu e amou, a imagem está voltando ao lugar. Paulo diz em 2 Coríntios 3:18 que somos transformados "de glória em glória" na mesma imagem, pelo Espírito — e esse detalhe é importante: a transformação é obra de Deus em nós, não um projeto de autoaperfeiçoamento.
Essa é uma leitura da tradição evangélica histórica, compartilhada em grande parte com a teologia cristã antiga: a imagem de Deus permanece em todo ser humano, foi corrompida pela queda e é renovada em Cristo. Outras tradições cristãs dão ênfases diferentes sobre quanto da imagem se perdeu e como ela se recupera, mas a conexão entre criação e imitação de Cristo aparece em todas.
Imitação de dentro para fora
Existe um jeito de "imitar Jesus" que ele mesmo condenou. É o que os fariseus faziam: reproduziam a forma externa da piedade — oração, jejum, pureza ritual — com o interior intocado. Jesus os comparou a túmulos caiados, bonitos por fora e cheios de morte por dentro (Mateus 23:27-28).
Isso ajuda a entender por que a conversa de Jesus com a mulher samaritana importa para este assunto:
Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.(João 4:24, nvi)
A mulher queria saber o lugar certo de adorar — o monte dos samaritanos ou Jerusalém. Jesus respondeu que a questão não era o lugar. Deus é Espírito; a adoração que ele busca é em espírito e em verdade. O que vale não é a geografia nem o ritual, mas a realidade interior que o ritual deveria expressar.
A mesma lógica vale para a imitação. Um Deus que é Espírito não se imita com gestos; imita-se com o coração. Por isso Filipenses 2:5 fala de "modo de pensar" antes de qualquer ação, e por isso Paulo diz que o fruto do Espírito — amor, alegria, paz, paciência, bondade — nasce de dentro, como fruto de árvore, não é pregado por fora (Gálatas 5:22-23).
Isso não quer dizer que os atos não importam. Quer dizer que os atos verdadeiros vêm de um interior transformado. O imitador de Cristo não é quem parece com Jesus por fora, mas quem foi mudado por dentro e, por causa disso, começa a agir como ele.
Como imitar a Cristo na prática
Tudo isso desce para o chão de um dia comum, ou não serve. Olha alguns lugares onde a Bíblia mesma aponta:
Abrir mão de um direito pelo bem de alguém. É o caso de Paulo com a carne em 1 Coríntios 8-10. Pode ser deixar de insistir numa opinião correta para não ferir alguém mais frágil, ou abrir mão da última palavra numa discussão em casa.
Perdoar na medida em que fomos perdoados. Efésios 4:32 não dá o perdão como opção para quando a outra pessoa pedir desculpa. O modelo é Deus, que perdoou primeiro. Jesus fez isso da cruz, pedindo pelos que o pregavam (Lucas 23:34).
Fazer o trabalho que ninguém quer. A bacia de João 13 estava ali para qualquer um. Jesus pegou. Em casa, na igreja, no trabalho, sempre há a tarefa invisível que não rende reconhecimento.
Carregar o peso dos outros. Gálatas 6:2 chama isso de cumprir a lei de Cristo (Gálatas 6:2). Pode ser financeiro, pode ser tempo, pode ser só sentar e ouvir.
Não buscar o melhor lugar. Filipenses 2:3 fala em considerar os outros superiores a si mesmo. Na prática, é deixar que outro seja elogiado, servido, escolhido — e não se ressentir.
Manter a alegria quando custa. Os tessalonicenses receberam a palavra com alegria em meio ao sofrimento. Imitar Cristo inclui não azedar quando a fidelidade traz prejuízo.
Nenhum desses pontos é novidade teológica. O que muda é entender que cada um deles é imitação — não uma regra solta, mas Jesus sendo reproduzido numa situação concreta.
Versículos sobre imitar a Cristo
Além das passagens já comentadas, estas são as que mais aparecem quando o assunto é imitação:
1 Coríntios 4:16 — Paulo pede que os coríntios sejam seus imitadores já no começo da carta.
1 Tessalonicenses 2:14 — os tessalonicenses imitaram as igrejas da Judeia, que sofriam perseguição.
Hebreus 6:12 — imitar os que pela fé e paciência herdam as promessas.
3 João 1:11 — não imitar o mal, mas o bem.
Mateus 11:29 — Jesus convida a aprender dele, que é manso e humilde de coração.
Colossenses 3:12-13 — perdoar como o Senhor perdoou.
Onde a imitação começa
Paulo fecha o trecho sobre a carne e os direitos com uma frase curta: "sejam meus imitadores, como também sou imitador de Cristo". Ele não estava se apresentando como modelo final — estava dizendo que já tinha alguém à frente dele, e que os coríntios podiam olhar para o mesmo lugar.
Esse lugar está descrito em Filipenses 2. Quem quiser ver inteiro o movimento que a Bíblia manda imitar — a descida, o serviço, a obediência e o que Deus fez depois — leia Filipenses 2 completo, do versículo 1 ao 11.
Qual é a diferença entre imitar a Cristo e seguir a Cristo?
Na Bíblia os dois andam juntos, mas "seguir" fala da direção da vida — ir atrás de Jesus como discípulo — e "imitar" fala do caráter que se forma nesse caminho. Jesus chamou pessoas para segui-lo (Marcos 1:17); Paulo pediu que a igreja imitasse a ele como ele imitava a Cristo (1 Coríntios 11:1). Quem segue, com o tempo, passa a imitar.
É certo imitar um pastor ou líder cristão?
Sim, dentro de um limite claro. Hebreus 13:7 manda imitar a fé dos líderes, e Paulo pediu que o imitassem — mas só "como também sou imitador de Cristo" (1 Coríntios 11:1). O exemplo humano vale enquanto aponta para Jesus. Onde o líder se afasta do caráter de Cristo, deixa de ser modelo.
O que significa que Jesus "esvaziou a si mesmo" em Filipenses 2?
A expressão vem do verbo grego ekenōsen. A leitura evangélica histórica, compartilhada com a maior parte da tradição cristã, é que Jesus não deixou de ser Deus, mas abriu mão de usar sua posição e glória em benefício próprio, assumindo a condição de servo. O texto descreve uma escolha de não se agarrar ao que lhe pertencia — e é exatamente isso que o versículo 5 pede que o cristão imite.
Imitar a Cristo significa buscar sofrimento?
Não. A Bíblia nunca manda procurar sofrimento; manda permanecer fiel quando ele vem. Os tessalonicenses foram chamados imitadores do Senhor porque receberam a palavra com alegria em meio à aflição (1 Tessalonicenses 1:6), não porque foram atrás dela. O que se imita é a disposição de Jesus de obedecer e servir mesmo quando custa.
Preciso ser perfeito para ser imitador de Cristo?
A própria palavra "imitador" supõe alguém que ainda está aprendendo. Paulo, que pediu para ser imitado, disse na mesma época que ainda não tinha alcançado a perfeição e seguia em frente (Filipenses 3:12). A imitação é um processo pelo qual o Espírito transforma a pessoa na imagem de Cristo (2 Coríntios 3:18), não uma prova que se passa de uma vez.
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