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Amor ao próximo: o que significa e quem é ele?

Um homem de óculos e uma mulher de cabelos longos olham para o lado, diante de árvores.

O que significa amar o próximo

Amar o próximo, na Bíblia, é cuidar do bem de quem está perto de você com o mesmo empenho com que você cuida do seu — e fazer isso em atitude, não só em sentimento. Jesus colocou esse mandamento ao lado do maior de todos, amar a Deus, e disse que o segundo é "semelhante" ao primeiro.

Jesus respondeu:

— "Ame ao Senhor, o seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todo o seu entendimento".Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: "Ame ao seu próximo como a você mesmo".(Mateus 22:37-39, NVI)

A frase que Jesus cita não é dele. Ela vem de Levítico 19:18, no meio de uma lista de leis bem concretas. Nos versículos em volta, Deus manda não roubar, não enganar, não reter até o dia seguinte o pagamento do diarista, não amaldiçoar o surdo, não pôr tropeço diante do cego, não odiar o irmão no coração, não guardar rancor. "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" é o resumo dessa lista. No contexto original, amar o próximo é o que sobra quando você tira da sua vida tudo o que prejudica o outro — e põe no lugar o que o beneficia.

Vale notar a palavra. No hebraico de Levítico o verbo é ahav; no grego dos Evangelhos, agapaō. Nos dois casos é um verbo de ação: algo que se faz, não um estado que acontece com a pessoa. Por isso a Bíblia consegue mandar amar, coisa que seria absurda se amor fosse só uma emoção. Ninguém manda ninguém sentir. Manda-se agir.

Quem é o meu próximo

Em Levítico, "próximo" é primeiro o israelita: o vizinho de aldeia, o membro do mesmo povo. Mas o mesmo capítulo já estica a fronteira. Levítico 19:34 manda amar o estrangeiro que vive no meio de Israel "como a ti mesmo", com a mesma expressão — porque Israel também foi estrangeiro no Egito.

Quem fez a pergunta mais famosa sobre isso foi um especialista na Lei, em Lucas 10:25-37. Ele recita os dois mandamentos corretamente, Jesus aprova, e então ele pergunta: "E quem é o meu próximo?" É pergunta de quem quer saber onde a obrigação termina.

Jesus responde com a parábola do bom samaritano. Um homem descia de Jerusalém a Jericó, foi assaltado, espancado e deixado meio morto na estrada. Um sacerdote passou e desviou. Um levita passou e desviou. Um samaritano — povo que os judeus desprezavam, e que os desprezava de volta — parou, limpou as feridas com óleo e vinho, pôs o homem no próprio animal, levou-o a uma hospedaria e pagou dois denários ao dono, mais ou menos dois dias de salário, prometendo cobrir o que faltasse na volta.

Homem de turbante carrega outro ferido, com ataduras, até um jumento em trilha rochosa.

Olha o que Jesus faz no fim. O doutor da lei perguntou "quem é o meu próximo?", e Jesus devolve outra pergunta: qual dos três se tornou o próximo do homem caído? Ele trocou o sujeito da frase. O próximo não é uma categoria de gente que você precisa identificar antes de amar; próximo é o que você se torna quando para diante de quem precisa. A resposta do doutor é a definição mais honesta da parábola: "o que teve misericórdia dele". E Jesus encerra: "Vá e faça o mesmo".

Isso aqui é importante porque muda a pergunta que fazemos. Ela deixa de ser "esse aí merece?" e passa a ser "o que ele precisa, e o que está na minha mão?".

Por que Jesus juntou amar a Deus e amar o próximo

Os dois mandamentos vêm de livros diferentes. "Ame o Senhor, seu Deus, de todo o coração" está em Deuteronômio 6:5; "ame o seu próximo como a si mesmo" está em Levítico 19:18. Jesus pega os dois e os pendura no mesmo prego, e em Mateus 22:40 diz que toda a Lei e os Profetas dependem deles.

Paulo entendeu isso e foi direto. Em Romanos 13:8-10 ele diz que quem ama o próximo cumpriu a lei, porque todos os "não farás" dos Dez Mandamentos — não adulterar, não matar, não roubar, não cobiçar — cabem dentro desse "amarás". Tiago chama o mesmo mandamento de "lei do Reino" (Tiago 2:8). A lógica é a mesma nos dois: não existe amar a Deus e, ao mesmo tempo, lesar o vizinho dele.

João explica a raiz. Em 1 João 4:7-8 ele escreve que o amor procede de Deus e que quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Se Deus é a fonte, quem está ligado à fonte deixa a água passar. O amor ao próximo não é um segundo projeto, paralelo à vida com Deus; é o que a vida com Deus produz quando chega nas outras pessoas.

A medida: "como a si mesmo" e "como eu amei vocês"

"Como a si mesmo" é a régua do mandamento, e Jesus a traduziu numa frase que qualquer pessoa entende, a chamada regra de ouro:

Façam aos outros o mesmo que vocês querem que eles façam a vocês.(Lukku 6:31, NAA)

Repara no que a frase pressupõe: que você já sabe o que quer para si. Ninguém precisa de aula para saber que quer ser tratado com honestidade, paciência, respeito, uma mão quando cai. O mandamento não pede que você primeiro aprenda a amar a si mesmo; ele pega o cuidado que você já tem consigo e diz: agora aplique isso para fora. Essa régua todo mundo carrega no bolso.

Mas há uma segunda régua, e ela é mais alta. Na véspera de morrer, Jesus deu aos discípulos o que chamou de "meu mandamento":

"Como a si mesmo" é generoso; "como eu amei vocês" é sacrificial. João desdobra isso em 1 João 3:16: Cristo deu a vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos — e no versículo seguinte ele aterrissa a frase em quem tem bens e fecha o coração para o irmão em necessidade. Na maior parte dos dias, dar a vida não vai significar morrer por alguém; vai significar abrir mão de tempo, de razão, de dinheiro, de conforto em favor de outra pessoa. A medida subiu do "o que eu faria por mim" para "o que Cristo fez por mim".

E como isso fica no dia a dia? Paulo deu a descrição mais prática em 1 Coríntios 13:4-7. Vale ler a passagem inteira com uma coisa em mente: quase tudo ali é verbo. O amor é paciente, é bondoso, não inveja, não se vangloria, não maltrata, não procura os próprios interesses, não se ira, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, tudo suporta. Não há uma palavra sobre o que o amor sente. É tudo sobre o que ele faz e o que ele se recusa a fazer.

O resto do Novo Testamento vai preenchendo a lista com situações. Agradar ao próximo para edificá-lo, não a si mesmo (Romanos 15:2). Revestir-se de compaixão, humildade e perdão mútuo, suportando uns aos outros (Colossenses 3:12-15). Hospitalidade com quem chega e lembrança de quem está preso (Hebreus 13:1-3). Um amor que "cobre multidão de pecados", isto é, que não expõe a falha alheia sem necessidade (1 Pedro 4:8). Paulo pede a Deus que o amor dos tessalonicenses cresça e transborde (1 Tessalonicenses 3:12) e resume aos coríntios numa frase só: façam tudo com amor (1 Coríntios 16:14).

É preciso amar até os inimigos?

Sim — e foi Jesus quem disse, no Sermão do Monte:

— Vocês ouviram o que foi dito: "Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo." Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês,(Mateus 5:43,44, NAA)

Olha o detalhe: a frase "e odeie o seu inimigo" não está em Levítico nem em nenhum outro lugar da Lei de Moisés. Era um acréscimo de interpretação, uma dedução popular: se devo amar o próximo, então o inimigo está fora. Jesus corrige exatamente esse limite. O inimigo não é exceção ao mandamento; é o caso mais difícil dele.

E note como ele define esse amor: "orem pelos que perseguem vocês". Em Mateus 5:44-45 e Lucas 6:27-28 as instruções são todas ações — orar, abençoar, fazer o bem. Paulo repete com uma imagem doméstica em Romanos 12:20: se o inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Amar o inimigo não é passar a gostar dele nem fingir que o mal não aconteceu. É recusar-se a devolver o mal e continuar querendo o bem dele — a começar pelo arrependimento dele.

Isso também não é o mesmo que entregar-se ao abuso. A mesma Bíblia que manda amar o inimigo defende a justiça (Romanos 13:4), aconselha afastar-se de quem é violento (Provérbios 22:24-25) e nunca confunde amar com confiar. Davi poupou a vida de Saul duas vezes e chorou a morte dele (1 Samuel 24 e 26; 2 Samuel 1), mas não voltou para o palácio enquanto Saul o perseguia. Amar o inimigo é tirar o ódio do coração e pôr o bem dele nas suas orações; não é desligar o juízo.

O amor ao próximo como teste da fé

O apóstolo João trata o amor ao próximo como o exame mais confiável de uma fé verdadeira. Não o único — ele fala também de crer em Jesus e guardar os mandamentos — mas o mais visível:

Se alguém afirmar: "Eu amo a Deus", mas odiar o seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.(1 Joni 4:20, NVI)

O argumento é quase matemático. Deus não se vê; o irmão se vê. O amor é mais fácil de conferir no visível do que no invisível. Então, se ele não aparece no nível mais fácil de conferir — a pessoa na sua frente —, não há razão para acreditar que exista no nível que ninguém pode verificar. João chama quem afirma o contrário de mentiroso, sem rodeio.

Ele já tinha dito o mesmo de outro jeito em 1 João 3:11-15: a mensagem "desde o princípio" é que amemos uns aos outros, e "quem odeia o seu irmão é assassino". Parece exagero, mas é a lógica que Jesus usou em Mateus 5:21-22, quando pôs a raiva e o insulto na mesma categoria do homicídio. O ódio é o assassinato em forma de semente.

Aqui vale deixar a premissa clara. Na leitura evangélica histórica, que é a desta explicação, o amor ao próximo não é o que salva — a salvação é pela graça, mediante a fé (Efésios 2:8-10). Mas Paulo completa no versículo seguinte que fomos salvos para as boas obras. O amor é fruto, não raiz; evidência, não causa. Uma árvore não vive porque dá fruto, mas uma árvore que nunca dá fruto nenhum levanta a pergunta se está viva. Outras tradições cristãs descrevem a relação entre fé e obras com outra ênfase, mas em nenhuma delas uma fé que odeia o irmão é considerada fé saudável.

Um detalhe sobre a palavra "irmão": nas cartas de João, ela se refere primeiro aos companheiros da comunidade cristã para quem ele escreve. O amor dentro da igreja é o primeiro campo de prova. Mas Jesus já tinha derrubado a cerca com o samaritano, e Paulo pede amor "uns para com os outros e para com todos" (1 Tessalonicenses 3:12). O irmão é onde começa; o próximo é até onde vai.

Para ler a passagem inteira

De volta a Mateus 22:39: Jesus não disse "entenda o seu próximo" nem "tenha bons sentimentos pelo seu próximo". Disse "ame", um verbo. E quando lhe perguntaram quem era esse próximo, não deu uma definição — contou a história de um homem na beira da estrada e de alguém que parou. Leia Lucas 10:25-37 completo com a pergunta do doutor da lei na cabeça, e preste atenção em como Jesus a devolve.

Amar o próximo significa concordar com tudo o que ele faz?

Não. A Bíblia manda amar e, ao mesmo tempo, manda repreender com mansidão (Gálatas 6:1) e dizer a verdade (Efésios 4:15). O próprio Levítico 19:17, no versículo antes de "amarás o teu próximo", manda repreender o irmão em vez de odiá-lo em silêncio. Amar é querer o bem da pessoa; às vezes o bem dela inclui ouvir o que não quer ouvir.

A Bíblia manda amar a si mesmo primeiro?

Não como um passo anterior. "Como a si mesmo", em Levítico 19:18 e Mateus 22:39, é uma medida, não um mandamento: o texto pressupõe que a pessoa já cuida de si e usa esse cuidado como régua para o outro. Isso não nega que alguém possa precisar de ajuda para se enxergar com a dignidade que Deus lhe deu; só observa que o texto bíblico não transforma isso em etapa prévia do amor ao próximo.

Qual é a diferença entre amor ao próximo e amor fraternal?

No Novo Testamento, "amor fraternal" (filadelfia, como em Hebreus 13:1 e Romanos 12:10) é o afeto entre os que pertencem à mesma família da fé. O amor ao próximo (agapē) é mais amplo: alcança o estrangeiro, o desconhecido e até o inimigo (Mateus 5:44). Os dois convivem — Pedro pede que ao amor fraternal se acrescente o amor (2 Pedro 1:7), e Paulo pede amor "uns para com os outros e para com todos" (1 Tessalonicenses 3:12).

Como amar alguém de quem não se gosta?

Começando pelo que a Bíblia chama de amor: ações, não sentimentos. 1 Coríntios 13:4-7 descreve o amor como paciência, bondade, não guardar rancor — tudo isso é possível em relação a alguém de quem não se gosta. Jesus manda orar pelo inimigo (Mateus 5:44), e a oração costuma ser o primeiro passo concreto: é difícil pedir a Deus o bem de alguém e continuar desejando o mal dele. O afeto pode vir depois, ou não vir; o mandamento não depende disso.

Luiz Sergio dos santos SantosCarlos Defante Defante
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