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Livro de Rute: contexto histórico, autoria e resgatador

Redação Bíblia Online Publicado em

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A pergunta que o livro de Rute responde

Mulher de manto colhe espigas num trigal enquanto dois homens conversam ao fundo.

Onde está Deus quando nenhum milagre acontece? Em Rute, Deus não fala, não aparece, não envia profeta. E no fim de quatro capítulos uma viúva estrangeira, sem filho e sem terra, é bisavó do rei Davi. O livro responde à pergunta assim: a fidelidade de Deus chega pelas mãos de gente comum que escolhe ser fiel quando ninguém obriga.

Este artigo faz parte de Estudos Bíblicos Estudo de Livros

Quem, quando, para quem

A história começa "nos dias em que os juízes julgavam" (Rute 1:1). É a mesma época de Juízes, livro que termina dizendo que cada um fazia o que parecia certo aos seus olhos (Juízes 21:25). Rute é o contraponto: em Belém, no meio desse caos, há pessoas cumprindo a lei — e indo além dela.

Sobre a autoria, o texto é anônimo. A tradição judaica (Talmude, Baba Batra 14b) atribui o livro a Samuel. O que o próprio texto diz é que foi escrito já conhecendo Davi (Rute 4:17-22), portanto na monarquia ou depois; parte dos estudiosos o data no pós-exílio por traços da linguagem. Isso é debate, não consenso. O consenso é a finalidade: contar a Israel de onde veio o seu maior rei — e de quem.

O gênero muda a leitura. Rute é narrativa curta, 85 versículos, com enredo. Nada ali é regra solta: nomes, repetições e detalhes aparentemente decorativos são pistas que o narrador plantou.

A ideia central em uma frase

Deus cuida do seu povo por meio do chesed — amor leal — de pessoas que fazem mais do que a lei exige, e por isso a bênção alcança até uma moabita.

Os quatro atos, capítulo por capítulo

Uma forma natural de dividir Rute segue os capítulos: cada um é um ato. Há quem divida de outro jeito (separando 1:1-5 como prólogo, por exemplo), mas esta tem a vantagem de caber na cabeça.

Capítulo 1 — a casa esvaziada. Fome em Belém, migração para Moabe, morte de Elimeleque e dos dois filhos. Noemi volta com a nora Rute e pede para ser chamada Mara, "amarga" (Rute 1:20). A função do capítulo é cavar o buraco: quanto maior a perda aqui, mais claro o resgate adiante. Leia Rute 1.

Capítulo 2 — o campo de Boaz. Rute vai colher espigas, direito que a lei dava ao pobre e ao estrangeiro (Levítico 19:9-10). Boaz faz mais: manda deixar feixes cair de propósito, oferece água, protege. Ao ouvir o nome, Noemi reconhece: Boaz é parente, um dos que podem resgatar (Rute 2:20). Este capítulo mostra o chesed em ação. Leia Rute 2.

Capítulo 3 — a eira. Rute pede a Boaz que "estenda a capa" sobre ela (Rute 3:9) — a mesma palavra que ele usou para as "asas" de Deus em 2:12. É um pedido de casamento e proteção. Boaz aceita, mas avisa: existe um parente mais próximo. A função é a decisão — e o obstáculo. Leia Rute 3.

Capítulo 4 — o portão. Boaz resolve o caso diante dos anciãos: a terra de Elimeleque e a viúva vêm juntas, o outro parente recua, a sandália passa de mão. Casamento, nascimento de Obede, e a genealogia que termina em Davi. A casa vazia está cheia. Leia Rute 4.

Mulher de manto recolhe espigas no chão, enquanto homens ceifam trigo num campo.

Temas e padrões a observar

Deus age quase em silêncio. Só duas vezes o narrador diz que o Senhor fez algo diretamente: visitou o povo com pão (Rute 1:6) e concedeu a Rute conceber (Rute 4:13). Todo o resto Deus faz através de bênçãos que as pessoas pedem — e que as próprias pessoas cumprem. Boaz pede que o Senhor recompense Rute (Rute 2:12); é Boaz quem recompensa.

O resgatador (go'el). A raiz hebraica aparece mais de vinte vezes nos capítulos 3 e 4. A lei dava ao parente próximo o dever de recomprar a terra da família (Levítico 25:25) e de resgatar o parente caído em pobreza (Levítico 25:47-49). Outra lei, o levirato, mandava o irmão do falecido casar com a viúva para dar-lhe descendente (Deuteronômio 25:5-10). Boaz não era irmão de nenhum dos mortos: o livro combina os dois princípios e mostra alguém assumindo, por lealdade, uma obrigação que a letra da lei talvez não lhe impusesse. Compare com Levítico 25 e Deuteronômio 25.

A palavra chesed. Aparece em 1:8, 2:20 e 3:10 — e descreve, nessa ordem, Deus, Boaz e Rute. O narrador quer que você veja o mesmo amor leal nos três.

Vazia e cheia. Noemi diz que saiu cheia e voltou vazia (Rute 1:21); Boaz manda Rute não voltar "vazia" (Rute 3:17); as mulheres de Belém celebram o menino no colo de Noemi (Rute 4:14-17).

A estrangeira. Deuteronômio 23:3 barrava o moabita da assembleia de Israel. Rute entra — não pelo sangue, mas pela fé que declara em 1:16. É uma das razões pelas quais a genealogia final importa: o rei de Israel tem avó moabita. Mateus 1:5 recolhe esse fio e põe Rute na linhagem de Jesus. Ler Boaz como figura de Cristo é uma leitura cristã tradicional, não algo que o texto diz; o que o texto sustenta é a conexão da genealogia.

Como começar a ler

Leia os quatro capítulos de uma vez — leva uns quinze minutos. Marque cada vez que alguém pede uma bênção de Deus para outra pessoa e repare quem acaba cumprindo o pedido. Depois coloque Rute 1:21 ao lado de Rute 4:15 e veja a distância que o livro percorreu.

Onde está Deus quando nenhum milagre acontece? Rute responde: num campo de cevada em Belém, nas mãos de quem decide ser fiel. Comece por Rute 1.

Quem era o parente mais próximo que recusou resgatar Rute?

O texto não dá o nome dele. Em Rute 4:1, Boaz o chama por uma expressão hebraica que soa como "fulano de tal". A omissão parece proposital: quem se recusou a preservar o nome da família perdeu o próprio nome na história.

Por que tiraram a sandália no portão de Belém?

Rute 4:7 explica que era o costume antigo para confirmar a transferência de um direito. É parecido, mas não idêntico, ao rito de Deuteronômio 25:9, em que a viúva tira a sandália do cunhado que se recusa a cumprir o levirato. Aqui o gesto fecha um negócio, não humilha ninguém.

Rute e Boaz tiveram relação na eira?

O texto não diz isso. Rute se deita aos pés de Boaz e pede proteção com a linguagem do casamento (Rute 3:9); Boaz a elogia pela lealdade e manda que ela fique até o amanhecer por segurança (Rute 3:10-14). O narrador insiste na honra dos dois.

Quando o livro de Rute é lido no judaísmo?

Na festa de Shavuot (Pentecostes), que coincide com a colheita do trigo — a estação em que a história acontece. A tradição também o associa à entrega da Lei, porque Rute é a estrangeira que abraça a aliança de Israel.

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