Mal: como se afastar e reagir segundo a Bíblia
Redação Bíblia Online Publicado em
O que a Bíblia ensina sobre o mal: sair do caminho dele e responder com o bem
A Bíblia trata a relação de uma pessoa com o mal em dois movimentos que não se separam: afastar-se dele e responder a ele com o bem. Afastar-se não é só evitar o pecado óbvio — é não participar do que destrói, não ficar perto achando que controla. E reagir não é revidar na mesma moeda: é devolver o bem onde se recebeu o mal, e confiar que Deus conduz o que foi feito contra alguém para um fim que não era o planejado por quem fez. O versículo que junta tudo isso numa linha só está no Salmo 34:
Aparta-te do mal,
e faze o bem;
procura a paz,
e segue-a.
Olha a ordem. Primeiro "afaste-se do mal", depois "faça o bem", depois "busque a paz". Três verbos, um movimento. Quem só se afasta fica parado; quem tenta fazer o bem sem sair do mal mistura as duas coisas. O restante deste texto é abrir esse versículo e as passagens que, ao longo da Bíblia, desdobram cada uma dessas três ordens.
Este artigo faz parte de Vida Cristã Vida Cristã Prática
"Afastar-se do mal" é mudar de rua, não de humor
O Salmo 34 traz no título a situação em que foi escrito: Davi fugindo de Saul, refugiado em Gate — cidade filisteia, dos inimigos de Israel —, onde precisou fingir-se de louco para sair vivo, como conta 1 Samuel 21:10-15. Quem escreve "afaste-se do mal" não está em paz numa sala; está sendo perseguido por um rei injusto e tem todo motivo para devolver.
O verbo hebraico traduzido por "aparta-te" ou "afaste-se" (sur) é concreto: sair do caminho, desviar a rota. Não descreve um sentimento de desaprovação, descreve um pé que muda de direção. Dá para desaprovar o mal e continuar andando ao lado dele; a ordem do salmo é outra.
Vale notar também o último verbo. "Segue-a", na ACF, ou "busque a paz com perseverança", na NVI, traduz radaph — o mesmo verbo que o Antigo Testamento usa quando um exército persegue o inimigo em fuga. Davi pega a palavra da caçada e aplica à paz. A paz, para ele, não é o que sobra quando a briga acaba; é o que se corre atrás com a energia de quem caça.
Esse trecho não ficou parado no Antigo Testamento. Pedro cita exatamente estes versículos em 1 Pedro 3:10-12, escrevendo a cristãos que sofriam maus-tratos sem ter feito nada para merecer. O conselho ao perseguido continua o mesmo mil anos depois.
O mal engana quem acha que sabe lidar com ele
Provérbios coloca o afastamento do mal dentro de um pacote maior, que começa alguns versículos antes: "confie no Senhor de todo o coração e não se apoie em seu próprio entendimento" (Provérbios 3:5-6). Aí vem o par de versículos que interessa aqui:
Não sejas sábio
a teus próprios olhos;
teme ao Senhor e aparta-te do mal.
Isto será saúde
para o teu âmago,
e medula para os teus ossos.(Provérbios 3:7,8)
A ligação entre as duas metades do versículo 7 é o ponto. "Não seja sábio aos seus próprios olhos" e "afaste-se do mal" aparecem na mesma frase porque, na experiência do sábio de Israel, é a confiança no próprio julgamento que mantém a pessoa perto do que vai destruí-la. "Eu sei até onde posso ir." "Comigo é diferente." Quem pensa assim não sai do caminho, porque acha que não precisa.
O que tira a pessoa dali é "temer ao Senhor" — em Provérbios, a raiz de toda sabedoria (Provérbios 1:7). Temer, aqui, não é ter pavor; é levar Deus a sério o bastante para que a opinião dele sobre o mal pese mais que a minha.
E o versículo 8? "Saúde para o corpo, vigor para os ossos." Isso aqui é importante ler direito. Provérbios descreve o padrão geral da vida sob Deus: quem se afasta do que destrói tende a viver melhor, inclusive fisicamente — menos vício, menos violência, menos consequência colhida. Não é uma garantia individual de saúde, e o próprio Antigo Testamento sabe disso: Jó era íntegro e adoeceu. Ler o versículo 8 como promessa de cura é pedir ao texto o que ele não oferece.
Reagir ao mal: revidar é já ter perdido
Quando o assunto passa de evitar o mal para responder ao mal que alguém fez contra nós, o texto central é o fim de Romanos 12. Paulo vem numa sequência: "não retribuam a ninguém mal por mal", "no que depender de vocês, vivam em paz com todos", "não se vinguem — a vingança pertence a Deus", e até "se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer", tudo em Romanos 12:17-20. Então fecha com uma frase que resume o capítulo:
Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.(Romanos 12:21)
O verbo grego traduzido por "vencer" (nikaō) é vocabulário de batalha e de competição: derrotar, ganhar, sair por cima. Paulo trata a reação ao mal como um combate em que só há dois desfechos — ou o mal vence você, ou você vence o mal. E a surpresa está em como se perde: quem revida acha que está vencendo. Para Paulo, essa pessoa já foi derrotada. O mal queria uma segunda pessoa agindo como o agressor, e conseguiu.
Repare que "vencer o mal com o bem" não é ficar parado. Nos versículos anteriores, o "bem" tem forma: comida, água, paz buscada. É ação na direção contrária à da agressão. A passividade não vence nada; o bem ativo é que desmonta o ciclo.
Paulo não inventou isso. Está ecoando o que Jesus ensinou em Mateus 5:38-48 — amar os inimigos, orar por quem persegue, não devolver golpe por golpe.
Não revidar é tarefa da comunidade, não só do ofendido
Em 1 Tessalonicenses, Paulo escreve para uma igreja jovem que já sofria perseguição desde o começo (1 Tessalonicenses 2:14). O capítulo 5 é a sequência final de instruções curtas, quase telegráficas. Uma delas:
Vede que ninguém dê a outros mal por mal, mas segui sempre o bem, tanto uns para com os outros, como para com todos.(1 Tessalonicenses 5:15)
Dois detalhes do texto. Primeiro, o verbo está no plural e a ordem é "tenham cuidado para que ninguém". Paulo não diz apenas "não revide"; diz "cuidem para que ninguém entre vocês revide". Isso parte de uma observação realista: a pessoa ofendida, no calor da raiva, não enxerga direito. Quem está do lado enxerga. Não pagar o mal com o mal é responsabilidade de quem sofreu — e de quem está perto dele.
Segundo, "para com todos". Não é só entre irmãos da igreja. Inclui quem está fora, inclui quem persegue. Paulo escolhe o mesmo par de palavras do Salmo 34 e de Romanos 12: em vez de retribuir mal, seguir o bem.
Então o cristão tem que aceitar tudo calado?
Essa é a objeção que aparece em quem lê os textos acima, e ela é legítima. A resposta é não — e a própria Bíblia mostra a diferença entre vingança e justiça.
O que está proibido é a retribuição pessoal: eu devolvo o dano porque fui ferido. O que não está proibido é repudiar o mal, sair de perto dele, denunciá-lo e buscar justiça pelo caminho certo. No mesmo Romanos 12 em que manda não vingar, Paulo manda "detestar o mal" (Romanos 12:9). E logo depois, em Romanos 13:1-4, explica que a autoridade pública existe justamente para punir o mal — a justiça tem lugar; só não é a mão do ofendido que a executa.
Os exemplos confirmam. Paulo, preso e espancado ilegalmente, invocou seus direitos de cidadão romano e exigiu que as autoridades respondessem por isso (Atos 16:37). Jesus confrontou publicamente os líderes religiosos e orientou os discípulos a sair de uma cidade que os rejeitasse (Mateus 10:14). Afastar-se do mal, na prática, inclui romper uma relação que destrói, denunciar um crime, proteger quem está em risco.
Vale dizer que há cristãos — a tradição anabatista, por exemplo — que leem Mateus 5 de forma mais estrita e entendem que o seguidor de Jesus renuncia a toda forma de força, inclusive em defesa própria. A leitura apresentada aqui é a da teologia evangélica histórica, que distingue retribuição pessoal (proibida) de justiça e proteção (legítimas). As duas tradições concordam no essencial: a vingança não é do crente.
Pedir livramento faz parte da oração diária
Jesus colocou o combate ao mal dentro da oração que ensinou aos discípulos — logo depois do pedido pelo pão de cada dia:
E não nos conduzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.(Mateus 6:13)
Aqui as traduções da casa divergem, e a divergência vale uma explicação. A ACF e a NAA trazem "livra-nos do mal"; a NVI, "livra-nos do Maligno". As duas estão certas: a expressão grega (tou ponērou) pode ser lida como neutra ("o mal", a coisa) ou masculina ("o Maligno", a pessoa). O contexto de Mateus inclina muitos intérpretes para a leitura pessoal — Jesus acabou de enfrentar o diabo no deserto, em Mateus 4, e usa a mesma palavra para "o Maligno" na parábola do semeador, em Mateus 13:19. Mas a oração funciona nos dois sentidos: pede livramento tanto do que é mau quanto de quem o promove.
O que esse pedido ensina é que afastar-se do mal não é só esforço — é também súplica. A pessoa que ora o Pai Nosso reconhece, todo dia, que não tem forças sobrando para escapar sozinha. "Não nos deixes cair em tentação" cuida da entrada; "livra-nos do mal" cuida da saída. A oração cobre os dois lados.
Protegido de todo mal — mesmo quando o mal acontece?
O Salmo 121 é um cântico de peregrinos, do grupo dos Salmos 120 a 134, cantado por quem subia a Jerusalém para as festas. A viagem tinha perigo real: pé que escorrega, sol do dia, frio da noite — o salmo nomeia cada um. E repete o verbo "guardar" seis vezes em oito versículos. O fecho é este:
O Senhor te guardará
de todo o mal;
guardará a tua alma.
O Senhor guardará a tua entrada
e a tua saída,
desde agora e para sempre.(Salmos 121:7,8)
"A tua saída e a tua entrada" é um jeito hebraico de dizer "tudo o que você faz" — o sair de casa e o voltar, o começo e o fim de qualquer caminho. "Desde agora e para sempre" estende isso ao tempo inteiro.
Mas o que é "guardar de todo o mal"? O próprio salmo impede a leitura de que nada ruim acontece: ele parte do princípio de que há perigos na estrada. O que ele promete é que o Senhor não dorme no caminho (versículos 3 e 4) — e que o que está sob guarda é "a tua alma", a pessoa em si. O peregrino pode se machucar; não pode ser perdido. Os cristãos leram isso, depois, à luz de Romanos 8:35-39: a lista de coisas ruins que Paulo faz ali é longa, e nenhuma delas separa do amor de Deus.
Quando o mal já foi feito: a história de José
Até aqui, o assunto foi evitar o mal e não devolvê-lo. Mas e o mal que já aconteceu, feito por alguém contra você, e que não tem como ser desfeito? A Bíblia responde com uma história inteira.
José tinha dezessete anos quando os próprios irmãos o venderam como escravo (Gênesis 37). No Egito, foi acusado falsamente e preso. Passou perto de treze anos entre a escravidão e a cadeia antes de se tornar o segundo homem do reino. Anos depois, com o pai já morto, os irmãos tremem achando que agora vem a vingança. José responde:
Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida.(Gênesis 50:20)
Olha o que o texto diz e o que ele não diz. Ele diz que houve duas intenções no mesmo acontecimento: os irmãos planejaram o mal, Deus planejou o bem. Não diz que Deus fez o mal, nem que a venda de José deixou de ser maldade. A mesma cena foi crime de um lado e providência do outro.
E repare na frase anterior, no versículo 19: "estou eu no lugar de Deus?". José recusa a vingança exatamente pelo motivo que Paulo dará em Romanos 12: o acerto de contas pertence a Deus. Em vez de retribuir, ele alimenta a família — o bem vencendo o mal, séculos antes da carta aos Romanos. A cena completa está em Gênesis 50:15-21.
Uma precaução honesta: nem toda história tem o final de José visível nesta vida. Hebreus 11 lista homens e mulheres de fé que morreram sem ver a promessa cumprida (Hebreus 11:39). O que Gênesis 50:20 garante não é que você vai enxergar o "para que"; é que ele existe, e está nas mãos de quem planeja o bem. O caso maior disso na Bíblia é a cruz: homens fizeram o pior, e Deus realizou ali a salvação (Atos 2:23).
A última palavra não é das trevas
O que sustenta tudo o que foi dito — afastar-se, não revidar, pedir livramento, confiar no desfecho — é uma convicção sobre o resultado final do confronto entre o bem e o mal. João a coloca no começo do seu Evangelho:
E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.(João 1:5)
De novo, as traduções divergem, e de novo a diferença ensina. A ACF diz que as trevas "não a compreenderam"; a NVI, que "não a derrotaram"; a NAA, que "não prevaleceram contra ela". O verbo grego (katalambanō) significa "apanhar, agarrar" — e serve tanto para agarrar com a mente (compreender) quanto para agarrar com a força (dominar). João provavelmente joga com os dois sentidos: as trevas nem entenderam a luz nem conseguiram apagá-la.
No Evangelho de João, "trevas" é o mundo que rejeita Cristo. A noite em que ele foi preso e a tarde em que foi crucificado pareceram a vitória da escuridão. O versículo 5 afirma, antes de contar a história, que ela não venceu. Por isso dá para afastar-se do mal sem ficar obcecado por ele, e dá para não revidar sem se sentir derrotado: a guerra já está decidida, e não foi a escuridão que ganhou.
Voltando ao Salmo 34
Davi escreveu "aparta-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a" escondido em cidade inimiga, com um rei injusto no seu rastro. Não era teoria. Era o que ele tinha decidido fazer com a própria raiva. O salmo inteiro é um homem perseguido ensinando aos que o ouvem o que aprendeu: o Senhor está perto dos quebrantados, livra o justo de todas as angústias, e o mal, no fim, consome a si mesmo. Leia o Salmo 34 completo — os versículos 11 a 19 são a lição de Davi na forma em que ele quis dar.
Afastar-se do mal quer dizer cortar relações com quem faz o mal?
Depende de quem é a pessoa. Paulo explica em 1 Coríntios 5:9-11 que o cristão não deve se isolar do mundo — Jesus mesmo comia com pecadores. O que ele orienta é não manter convivência íntima com quem se diz irmão e vive deliberadamente no mal, e não deixar que más companhias moldem o caráter (1 Coríntios 15:33). Afastar-se é sair da influência destrutiva, não deixar de amar a pessoa.
Deus causa o mal para depois tirar algum bem dele?
Gênesis 50:20 não diz isso. O texto distingue duas intenções no mesmo acontecimento: os irmãos planejaram o mal; Deus conduziu o resultado para o bem. Tiago afirma que Deus não tenta ninguém para o mal (Tiago 1:13). A leitura evangélica histórica é que Deus governa até as más ações dos homens sem ser autor delas — um mistério que a Bíblia afirma dos dois lados sem resolver em fórmula.
Vencer o mal com o bem significa não denunciar uma injustiça?
Não. Romanos 12 proíbe a vingança pessoal, não a busca de justiça. No capítulo seguinte, Paulo diz que a autoridade existe para punir o mal, e ele mesmo exigiu seus direitos quando foi espancado ilegalmente (Atos 16:37). Denunciar um crime, proteger uma vítima ou romper uma relação abusiva são formas de afastar-se do mal — o que o texto proíbe é devolver o dano com as próprias mãos.
O Salmo 121 promete que nada de ruim vai acontecer comigo?
O próprio salmo supõe que a estrada tem perigos reais: pé que escorrega, sol, noite. O que ele promete é que o Senhor não dorme e que a pessoa em si — "a tua alma" — está sob guarda. Cristãos leem isso junto com Romanos 8:35-39: tribulação, perigo e morte podem acontecer; nenhum deles separa do amor de Deus.
Qual é a diferença entre "livra-nos do mal" e "livra-nos do Maligno" no Pai Nosso?
A expressão grega pode ser lida como "o mal" (a coisa) ou "o Maligno" (a pessoa). A ACF e a NAA preferem a primeira; a NVI, a segunda. O contexto de Mateus, que acabou de narrar a tentação pelo diabo e usa a mesma palavra para "o Maligno" em Mateus 13:19, inclina muitos intérpretes para a leitura pessoal. Nenhuma das duas está errada, e a oração pede livramento nos dois sentidos.
Este artigo te tocou? Faça uma oração!
+581 estão orando agora.
Junte-se à corrente de oração.