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Curiosidades sobre Maria: o que a Bíblia realmente conta

Redação Bíblia Online Publicado em

O que a Bíblia conta sobre Maria

Mulher de manto na porta de uma casa de pedra, com a mão no peito, olhando para o lado.

Maria era uma adolescente noiva, de um povoado que o Antigo Testamento nunca menciona, e a palavra que ela usou para responder ao anjo — "serva" — em grego é a palavra para escrava. É assim que Lucas apresenta a mãe de Jesus: sem nada do que a tradição acrescentou depois, e com detalhes que muita gente que lê a Bíblia há anos nunca reparou.

Ela ficou grávida durante um noivado que a lei judaica tratava quase como casamento, e José pensou em se divorciar. Deitou o filho recém-nascido num cocho de animais. Apresentou no templo a oferta reservada às famílias que não podiam pagar um cordeiro. Ouviu de um velho que uma espada atravessaria a alma dela. Perdeu o filho de doze anos por três dias em Jerusalém. No evangelho de Mateus, não diz uma palavra; no de João, nunca é chamada pelo nome. E na última vez em que aparece, está numa sala orando ao lado dos filhos que antes não acreditavam no irmão.

Tudo começa com uma frase curta, dita a um anjo:

Maria respondeu:

— Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra.

Então, o anjo a deixou.(Lucas 1:38, nvi)

O que vem abaixo é o que está em volta dessa frase — e o que ela custou.

Este artigo faz parte de Histórias da Bíblia Mulheres da Bíblia

"Serva" aqui é a palavra para escrava

Quando Maria se chama de "serva do Senhor", o grego de Lucas usa doulē. Não é "empregada" nem "auxiliar". É o feminino de doulos, escravo: alguém que não tem direito sobre a própria vida.

Vale notar que não foi o anjo quem a chamou assim. Gabriel a tinha saudado como "favorecida", alguém que recebeu graça (Lucas 1:28). Foi ela quem escolheu a palavra mais baixa possível para se descrever — e fez isso depois de ouvir um plano que ia colocar o noivado, a reputação e talvez a vida dela em risco.

É a mesma palavra que Paulo usa para si mesmo quando abre a carta aos Romanos: "Paulo, servo de Jesus Cristo" (Romanos 1:1). Maria chegou nela antes.

Maria fez uma pergunta ao anjo — e não ficou muda como Zacarias

Alguns meses antes, o mesmo Gabriel tinha aparecido a Zacarias, o sacerdote, no templo. Zacarias perguntou: "Como saberei que isso é verdade?" — e saiu de lá sem voz, mudo até o filho nascer (Lucas 1:18-20).

Maria também perguntou. "Como acontecerá isso, se sou virgem?" (Lucas 1:34). E não houve castigo nenhum. Gabriel respondeu, explicou, e ainda deu a ela um sinal para confirmar: a parenta Isabel, velha e estéril, já estava grávida.

Lucas não comenta a diferença, e é bom não exagerar o que ele não disse. Mas repare nas duas perguntas. Zacarias pediu uma prova de que aquilo era verdade. Maria perguntou como ia acontecer — ela não duvidou de que fosse acontecer. Uma interpretação comum, desde os primeiros comentaristas, é essa: perguntar a Deus não é o problema; o problema é exigir que ele se prove. Maria perguntou e, no versículo seguinte, se entregou.

O noivado de Maria e José era um casamento pela metade

Hoje noivado é promessa; na Judeia do primeiro século era contrato. O casamento judaico tinha duas etapas. Na primeira, o kiddushin, a mulher já era legalmente esposa, embora continuasse morando na casa do pai. Na segunda, meses ou um ano depois, o marido a levava para a casa dele e a vida em comum começava. Para desfazer a primeira etapa era preciso um documento de divórcio, como num casamento completo.

É exatamente nessa fresta que Mateus coloca a gravidez:

O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, a sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, ela ficou grávida por meio do Espírito Santo.(Mateus 1:18, nvi)

"Prometida em casamento", "antes que se unissem": Maria estava na primeira etapa. E a lei de Moisés tratava a infidelidade de uma noiva como adultério — Deuteronômio 22:23-24 prevê apedrejamento para a moça comprometida que fosse encontrada com outro homem. Na prática, no primeiro século, a pena de morte quase não era aplicada; a vergonha pública, sim.

Por isso a reação de José faz tanto sentido. Mateus 1:19 diz que ele, "sendo justo" e não querendo expô-la, resolveu deixá-la em segredo. Ou seja: ele ia dar o documento de divórcio sem alarde, sem acusação formal. Era o mais generoso que um homem traído podia fazer dentro da lei. Foi preciso um anjo, em sonho, para mudar a decisão dele.

E repare numa coisa que o texto não diz. Em nenhum lugar Maria aparece explicando a gravidez para José. Lucas conta a anunciação do lado dela; Mateus conta do lado dele. Entre os dois relatos há um silêncio: o que ela disse ao noivo, se disse, a Bíblia não registra.

Nazaré não aparece no Antigo Testamento

Procure "Nazaré" de Gênesis a Malaquias. Não está lá. Também não está em Flávio Josefo, o historiador judeu do primeiro século que lista dezenas de cidades da Galileia, nem na literatura rabínica antiga. A primeira vez que o nome aparece em qualquer texto é em Lucas 1:26, quando Deus envia Gabriel "a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré".

Era um povoado pequeno — os arqueólogos estimam poucas centenas de moradores — encravado nas colinas, longe das rotas principais. E tinha má fama, ou pelo menos nenhuma fama. Quando Filipe conta a Natanael que o Messias é "Jesus de Nazaré, filho de José", a resposta é quase um deboche: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" (João 1:45-46). Natanael era da própria Galileia, de Caná. Nem o vizinho levava Nazaré a sério.

Isso aqui é importante para entender Maria: ela não era de Jerusalém, não era de família sacerdotal conhecida, não era de uma cidade com história. Deus escolheu a moça de um lugar que ninguém tinha se dado o trabalho de anotar.

Isabel era "parenta" — a Bíblia não diz que era prima

Muita gente aprendeu que Isabel era prima de Maria. A versão Almeida Corrigida Fiel traduz assim: "Isabel, tua prima". Mas o grego de Lucas diz syngenís, que quer dizer simplesmente "parenta", sem indicar o grau. A NVI é mais fiel ao original aqui:

Também Isabel, a sua parenta, terá um filho na velhice; aquela que diziam ser estéril está no sexto mês de gravidez.(Lucas 1:36, nvi)

Podia ser prima, tia, prima de segundo grau — o texto não fecha. O que ele fecha é outra coisa, mais interessante: Lucas 1:5 diz que Isabel era "das filhas de Arão", isto é, de família sacerdotal. Se Maria era parenta dela, Maria tinha algum laço com a casa de Arão, mesmo vivendo num povoado da Galileia.

E repare no detalhe da viagem. Maria saiu de Nazaré "às pressas" e foi para "a região montanhosa da Judeia" (Lucas 1:39-40). São mais de cem quilômetros a pé, quatro ou cinco dias de caminho para uma moça recém-grávida. Ela ficou lá cerca de três meses (Lucas 1:56) — ou seja, até perto do nascimento de João Batista. Jesus e João foram parentes, e as mães passaram juntas a gravidez de ambos. O que a Bíblia não diz é que os dois cresceram juntos: Nazaré e a Judeia ficavam a dias de distância, e o texto não registra nenhum encontro na infância.

Foi nessa casa, aliás, que Maria cantou o que a igreja chama de Magnificat (Lucas 1:46-55). Quem conhece o Antigo Testamento ouve ali o eco do cântico de Ana, a mãe de Samuel, em 1 Samuel 2:1-10: o Deus que derruba os poderosos e levanta os humildes, que enche os famintos e manda os ricos embora de mãos vazias. Maria conhecia as Escrituras bem o bastante para rezar com as palavras de outra mãe.

A Bíblia não diz a idade de Maria

Nenhum versículo dá a idade dela. O que se sabe vem do costume: fontes judaicas posteriores indicam que as moças eram prometidas em casamento por volta dos doze ou treze anos, e o casamento se completava cerca de um ano depois. Se Maria seguiu esse padrão — e nada no texto sugere o contrário — era uma adolescente quando Gabriel apareceu.

Olha, isso muda o jeito de ler Lucas 1. A viagem de dias até a Judeia, a resposta ao anjo, o cântico com citações do Antigo Testamento: tudo isso vem de alguém que hoje estaria no fundamental ou no início do ensino médio. Lucas não comenta a idade porque, para ele, não havia nada de incomum. Para quem lê hoje, há.

Também não há nenhuma descrição do parto. A Bíblia pula direto do "chegou o tempo" para o bebê enfaixado. Sem parteira nomeada, sem detalhe, sem milagre no nascimento em si. O que ela registra é onde ele foi deitado.

A manjedoura era um cocho de animais

e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.(Lucas 2:7, nvi)

"Manjedoura" é tradução de phatnē: o cocho onde se colocava a comida do gado. Era normalmente um bloco de pedra escavado ou uma estrutura de barro, baixa, no lugar onde os animais ficavam. Maria enfaixou o filho e o deitou ali.

Mulher e homem ajoelhados ao redor de um bebê enrolado em panos numa manjedoura de pedra

Vale notar o que o versículo chama de "hospedaria". O grego é katályma, e Lucas usa a mesma palavra em Lucas 22:11 para a sala onde Jesus comeu a última ceia. Quando Lucas quer falar de uma pousada de estrada, ele usa outra palavra, pandocheíon, como na parábola do bom samaritano (Lucas 10:34). Por isso muitos estudiosos entendem que não havia lugar no "cômodo de hóspedes" de uma casa, provavelmente de parentes de José em Belém, e a família foi acomodada na parte térrea, onde ficavam os animais à noite. Essa é uma interpretação — o texto diz só que não havia lugar e que o bebê foi para o cocho.

Seja estábulo, seja térreo de casa cheia, o ponto de Lucas é o mesmo: o filho de Maria nasceu onde não havia espaço para ele.

Maria e José levaram a oferta dos pobres

Quarenta dias depois do parto, a lei exigia que a mãe fosse ao templo com uma oferta: um cordeiro e um pombo. Mas Levítico abria uma exceção. "Se a mulher não puder pagar um cordeiro", diz Levítico 12:8, trará "duas rolas ou dois pombinhos".

Lucas registra qual oferta Maria levou: "um par de rolinhas ou dois pombinhos" (Lucas 2:22-24). É a oferta de quem não tinha dinheiro para o cordeiro. Lucas não precisa dizer que a família era pobre. Quem conhecia a lei entendia.

Sacerdote entrega uma pomba a uma mulher com um homem e um bebê, no pátio do templo.

Simeão avisou que uma espada atravessaria a alma dela

Nesse mesmo dia no templo, um homem velho chamado Simeão pegou o bebê no colo, agradeceu a Deus — e então se virou para Maria com uma frase que não é de bênção:

Simeão os abençoou e disse a Maria, mãe de Jesus:

— Este menino está destinado a causar a queda e o levantamento de muitos em Israel, e a ser um sinal de contradição, de modo que os pensamentos do coração de muitos sejam revelados. Quanto a você, uma espada atravessará a sua alma.(Lucas 2:34,35, nvi)

A profecia tem duas partes. A primeira é sobre Jesus: ele vai dividir Israel, uns vão cair e outros se levantar por causa dele. A segunda é só para Maria: "uma espada atravessará a sua alma". Ninguém mais recebe esse aviso. Nem José, que estava ali do lado.

Lucas não explica a espada. A leitura mais comum na história da igreja, e a que o restante dos evangelhos sustenta, é que Simeão estava falando da cruz. Décadas depois, João registra Maria em pé diante do filho crucificado, e Jesus, de cima da cruz, a confiando ao discípulo amado (João 19:25-27). Ela foi avisada quando ele tinha quarenta dias de vida.

Maria perdeu Jesus por três dias — e é ela quem fala, não José

A única cena da infância de Jesus que a Bíblia conta em detalhe é uma cena de pais desesperados. Ele tinha doze anos, a família tinha ido a Jerusalém para a Páscoa, e na volta Maria e José viajaram um dia inteiro sem perceber que o filho não estava na caravana. Voltaram, procuraram, e só o encontraram três dias depois, no templo, conversando com os mestres (Lucas 2:41-51).

Isso não é descuido como parece. As famílias viajavam em grupos grandes, de parentes e vizinhos, e um menino de doze anos tanto podia andar com as mulheres e crianças quanto com os homens. Era fácil cada um achar que ele estava com o outro grupo.

Repare em quem fala quando o encontram. Não é José. É Maria: "Filho, por que fizeste isto conosco?" E a resposta de Jesus — "não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?" — é a primeira frase dele registrada na Bíblia. Lucas acrescenta que eles não entenderam. E termina a cena com um detalhe que ele já tinha usado depois da visita dos pastores: a mãe "guardava todas essas coisas no coração" (Lucas 2:19 e Lucas 2:51).

Esse "guardava" aparece duas vezes, e muitos estudiosos leem nele uma pista de onde Lucas conseguiu os relatos da infância: de alguém que tinha guardado tudo. Isso é dedução, não afirmação do texto. O que o texto afirma é que Maria passou anos sem entender o filho — e não largou o que não entendia.

Jesus chamou a mãe de "mulher" — e isso não era grosseria

Nas bodas de Caná, quando Maria avisa que o vinho acabou, Jesus responde: "Mulher, que tenho eu com isso?" (João 2:1-5). Em português soa duro. Em grego, gynai era um tratamento normal e respeitoso, como "senhora". Jesus usa a mesma palavra, com evidente carinho, quando fala com ela da cruz: "Mulher, aí está o seu filho" (João 19:26).

Vale notar o que Maria faz em seguida, em Caná. Ela não discute. Vira-se para os serventes e diz: "Façam tudo o que ele mandar." São as últimas palavras dela registradas em toda a Bíblia. Depois disso ela aparece — na família que procura Jesus, ao pé da cruz, na sala de Atos —, mas nunca mais fala.

Jesus, por outro lado, falou sobre ela de um jeito que surpreende. Quando uma mulher na multidão gritou "feliz o ventre que te trouxe", ele respondeu: "antes, felizes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam" (Lucas 11:27-28). Não é desprezo pela mãe. É Jesus dizendo que o que fez de Maria quem ela foi não foi o parto — foi a frase de Lucas 1:38.

Em Mateus, Maria não diz uma palavra

Cada evangelho olha Maria de um ângulo diferente, e isso rende algumas curiosidades. Mateus conta o nascimento inteiro do lado de José: o anjo aparece a ele, a decisão é dele, a fuga para o Egito é ordenada a ele (Mateus 2:13-15). Maria aparece, é nomeada, é levada de um lugar para outro — e não diz uma única palavra em todo o evangelho.

Marcos a nomeia uma única vez, pela boca do povo de Nazaré (Marcos 6:3). João nunca a chama de Maria: nas duas cenas em que ela aparece, é sempre "a mãe de Jesus". É Lucas quem dá a ela voz, nome e interioridade — e é por isso que quase tudo que se sabe dela vem dos dois primeiros capítulos dele.

Uma última sobre o nome. "Maria" é a forma grega de Miriam, o nome da irmã de Moisés (Êxodo 15:20), a profetisa que cantou depois da travessia do mar. Era um dos nomes mais comuns entre as judias do primeiro século: só no Novo Testamento há pelo menos cinco outras Marias, entre elas Maria Madalena e Maria de Betânia. O significado do nome é discutido — já se propôs "amada", "amarga", "senhora" — e nenhuma proposta é segura o bastante para construir sobre ela.

E Mateus guarda um dado que Lucas não conta: Maria viveu uns tempos como refugiada. A família fugiu para o Egito para escapar de Herodes e só voltou depois da morte do rei, indo então se estabelecer em Nazaré (Mateus 2:19-23).

Maria teve outros filhos?

Os evangelhos falam várias vezes dos "irmãos" de Jesus, e um deles até dá os nomes. Em Nazaré, o povo pergunta: "A sua mãe não se chama Maria, e os seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? Não estão conosco todas as suas irmãs?" (Mateus 13:55-56). Quatro irmãos nomeados e pelo menos duas irmãs. Em Marcos 3:31-35, a mãe e os irmãos chegam juntos procurando Jesus, e ele aproveita para dizer quem é a verdadeira família dele: quem faz a vontade de Deus. Paulo chama Tiago de "irmão do Senhor" em Gálatas 1:19.

Aqui preciso dizer de onde falo. A leitura evangélica histórica entende esses irmãos como filhos de Maria e José, nascidos depois de Jesus — meio-irmãos dele por parte de mãe. Essa é a leitura mais direta do texto, e é a minha. Mas há outras duas, antigas e sustentadas por cristãos sérios: a tradição católica, desde Jerônimo, lê "irmãos" como primos, já que o hebraico e o aramaico usavam a mesma palavra para parentes próximos; e a tradição ortodoxa entende que eram filhos de José de um casamento anterior. As duas últimas nasceram da convicção de que Maria permaneceu virgem a vida toda — algo que a Bíblia não afirma nem nega de modo explícito.

O que nenhuma das três leituras discute é o dado mais surpreendente sobre esses irmãos: durante o ministério de Jesus, eles não acreditavam nele. João é direto — "nem mesmo os seus irmãos criam nele" (João 7:5). Maria criou um filho em quem os outros filhos não acreditavam.

A última vez que Maria aparece, está orando com eles

Depois da ressurreição e da ascensão, os discípulos se reúnem numa sala em Jerusalém para orar e esperar o Espírito Santo. Lucas lista quem estava lá:

Todos eles se dedicavam unânimes à oração, com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele.(Atos 1:14, nvi)

É a última menção a Maria pelo nome em toda a Bíblia. E olha com quem ela está: "os irmãos dele". Os mesmos que, em João 7, não acreditavam. Alguma coisa aconteceu entre a cruz e essa sala — Paulo conta que o Jesus ressuscitado apareceu a Tiago (1 Coríntios 15:7), e esse Tiago vai se tornar líder da igreja em Jerusalém.

A Bíblia não conta o que Maria sentiu nesse dia, nem o que fez depois. Não registra a morte dela, nem onde viveu, nem com quem. A última imagem é essa: uma mulher que devia ter por volta de cinquenta anos, viúva pelo que tudo indica, orando no meio de cento e vinte pessoas, ao lado dos filhos que finalmente creram no irmão.

Onde ler tudo isso

Quase tudo que está nesta página cabe em dois capítulos: Lucas 1 e Lucas 2, com Mateus 1 para a versão de José. Leia os dois capítulos de Lucas inteiros, de uma vez, sabendo o que agora você sabe sobre o noivado, Nazaré, a oferta e a espada.

E aí volte à frase de Lucas 1:38. "Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra." Dita por uma adolescente de um povoado sem nome, que sabia o que a lei dizia sobre noivas grávidas. A frase não muda. O peso dela, sim.

Maria era virgem quando Jesus nasceu?

Sim, e os dois evangelhos que contam o nascimento afirmam isso de forma explícita. Mateus 1:18 diz que ela ficou grávida "por meio do Espírito Santo" antes que ela e José se unissem, e Mateus 1:25 acrescenta que José não teve relações com ela até o nascimento. Em Lucas 1:34, a própria Maria pergunta ao anjo como isso seria possível, "já que sou virgem". A concepção virginal de Jesus é crença comum a todas as grandes tradições cristãs.

Maria era sem pecado?

A Bíblia não trata disso de modo direto. A tradição católica ensina a imaculada conceição, isto é, que Maria foi preservada do pecado desde o início; essa doutrina vem da reflexão da igreja ao longo dos séculos, não de um versículo específico. A leitura evangélica histórica entende que Maria, como qualquer pessoa, precisava de salvação, e aponta para as palavras dela mesma em Lucas 1:47 — "meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador" — e para a afirmação geral de Romanos 3:23. As duas tradições concordam que ela foi uma mulher de fé exemplar.

Maria estava presente na crucificação de Jesus?

Sim. João 19:25-27 a coloca em pé junto à cruz, ao lado de outras mulheres e do discípulo amado. De lá, Jesus confia a mãe aos cuidados desse discípulo, e o texto diz que ele a levou para a casa dele. Os outros três evangelhos mencionam mulheres observando de longe, mas só João nomeia a mãe de Jesus ali.

O que aconteceu com Maria depois da Bíblia?

A Escritura não registra. A última menção é Atos 1:14, orando com os discípulos em Jerusalém. Tradições antigas dizem que ela viveu com o apóstolo João, e há duas cidades que reivindicam o lugar da morte dela, Jerusalém e Éfeso. A doutrina católica da assunção de Maria ao céu e a crença ortodoxa na "dormição" vêm dessas tradições posteriores, não de um texto bíblico. A leitura evangélica histórica se limita ao que a Bíblia afirma.

Maria era descendente do rei Davi?

A Bíblia não diz isso diretamente de Maria; a genealogia de Mateus 1 traça a linhagem de Davi por José. Alguns intérpretes, inclusive dentro da tradição evangélica, entendem que a genealogia de Lucas 3 segue a linha de Maria, o que a tornaria também descendente de Davi, mas essa é uma interpretação, não uma afirmação do texto. O que Lucas 1:5 sugere é um laço de Maria com a família sacerdotal de Arão, por meio de Isabel.

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