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Mundo: os três sentidos da palavra na Bíblia

Redação Bíblia Online Publicado em

Uma palavra, três coisas diferentes

Jovem sentada em um banco numa praça urbana, com um livro no colo, olhando para cima.

Quando a Bíblia diz "mundo", pode estar falando de três coisas: do planeta que Deus fez, das pessoas que vivem nele, ou de um jeito de viver organizado sem Deus e contra Deus. No Novo Testamento o mesmo termo grego — kosmos — serve para as três. É por isso que João escreve que Deus amou o mundo e, poucas páginas adiante, manda não amá-lo. Não é contradição: é a mesma palavra em dois sentidos.

O versículo mais famoso da Bíblia depende do segundo deles:

— Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.

Olha o que está dito: Deus amou o mundo e deu o Filho para que todo aquele que nele crê não pereça. O objeto desse amor é descrito, na mesma frase, como um conjunto de pessoas que podem crer ou perecer. Planeta não crê. Sistema de valores não perece. Esse "mundo" é gente.

Kosmos quer dizer originalmente "ordem", "arranjo" — é a raiz de "cosmético". Os gregos chamaram o universo assim porque o viam como um todo ordenado. João, que usa o termo quase oitenta vezes, aproveita essa elasticidade. Em João 1:10 os três sentidos aparecem numa frase só: ele estava no mundo (o lugar), o mundo foi feito por ele (a criação), e o mundo não o conheceu (as pessoas, e por trás delas a rebeldia).

Saber qual sentido está em jogo não exige grego. Exige olhar o que a frase diz que o "mundo" faz ou sofre. É isso que as seções abaixo mostram.

Este artigo faz parte de Dúvidas e Explicações Significado de Palavras

Primeiro sentido: a criação

No sentido mais básico, "mundo" é tudo o que existe porque Deus falou — a terra, os mares, o céu. O salmista descreve assim:

Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe,

o mundo e os que nele vivem;

pois foi ele quem a estabeleceu sobre os mares

e a firmou sobre as águas.(Salmos 24:1,2)

O verso 1 diz de quem é; o verso 2 diz por quê: porque ele o fundou. A posse vem da autoria. No hebraico há duas palavras, eretz (terra) e tebel (o globo habitado), empilhadas de propósito: nada fica de fora da propriedade de Deus.

Isso importa porque muita gente ouve o cristão falar mal do "mundo" e conclui que a fé despreza a natureza, o corpo, as coisas materiais. A Bíblia nunca faz isso. Gênesis 1 repete "e viu Deus que era bom" seis vezes, e na sétima diz "muito bom". Jesus come, bebe, dorme, pesca. O mal nunca está na matéria.

Este é o sentido mais fácil de identificar: quando o texto fala em fundar, criar, sustentar, ou coloca a palavra ao lado de "terra" e "céus", é a criação que está em vista.

Segundo sentido: a humanidade

O segundo sentido é o das pessoas, consideradas em conjunto. É o de João 3:16, e é também para onde Jesus manda os discípulos:

Ele lhes disse:

— Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas.(Marcos 16:15)

"Ide por todo o mundo" não é ordem para visitar oceanos e desertos; a frase continua com "pregai o evangelho a toda criatura". Em outras passagens Jesus é chamado de "Salvador do mundo" e "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" — e sistema não tem pecado para ser tirado nem precisa de salvador. Gente tem, gente precisa.

Vale notar uma coisa em João 3:16: o amor de Deus é por pessoas que ainda não creram. O versículo não diz "Deus amou os que crêem"; o amor vem antes da resposta. Essa humanidade inclui quem rejeita Deus, quem nunca ouviu dele, quem está na sua mesa de almoço e acha a fé uma bobagem. A esses Deus ama, e a esses o cristão não pode desprezar.

A pista para reconhecer este sentido: o texto fala de quem crê, peca, ouve, é salvo, é amado. Verbo de gente.

Terceiro sentido: o sistema que jaz no Maligno

Agora o sentido difícil — e o que mais aparece quando a Bíblia trata o mundo como algo a evitar. Aqui não é lugar nem gente: é uma ordem de coisas, um modo de viver, pensar e desejar que funciona como se Deus não existisse. João o descreve com uma imagem forte:

Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo está sob o poder do Maligno.(1 João 5:19, nvi)

Note o contraste: "somos de Deus" de um lado, "o mundo todo está sob o poder do Maligno" do outro (1 João 5:19, NVI). Isso não é a criação — o Salmo 24 acabou de dizer que a terra é do Senhor. E não é simplesmente a humanidade, porque João escreve justamente para pessoas que são "de Deus" e portanto não jazem no Maligno. É uma terceira coisa: a atmosfera moral que domina a vida humana longe de Deus.

João detalha esse sistema na mesma carta, e é aqui que vem a ordem de não amá-lo:

Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo — o desejo da carne, o desejo dos olhos e a arrogância da vida — não provém do Pai, mas do mundo.(1 João 2:15,16)

No verso 16 ele define o que está chamando de mundo: o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida. Não é lista de objetos; é lista de impulsos. O apetite que quer satisfação imediata, o olho que quer ter o que vê, o orgulho que quer ser visto. E o critério está no fim: isso "não procede do Pai". O terceiro sentido é tudo o que organiza a vida a partir desses impulsos em vez de a partir de Deus.

Depois João diz o que acontece com esse sistema:

O mundo e os seus maus desejos passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.(1 João 2:17)

O argumento é de durabilidade: ele "passa", e os seus desejos com ele; quem faz a vontade de Deus "permanece". João não diz que desejar é pecado — diz que construir a vida sobre o que vai acabar é construir sobre o que vai cair.

Para reconhecer este sentido, procure verbos de hostilidade e domínio — odeia, jaz, passa, corrompe, não conhece — e a contraposição com Deus, com o Pai, com a verdade.

Por que a amizade com esse sistema é inimizade com Deus

Se o terceiro sentido é um conjunto de valores, dá para entender por que a Bíblia trata a amizade com ele como traição. Tiago é o mais direto:

Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Portanto, se alguém quiser ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus.(Tiago 4:4)

Repare na palavra que Tiago escolhe para os leitores: adúlteros. É a imagem da aliança — no Antigo Testamento Israel é a esposa de Deus, e correr atrás de outros deuses é adultério espiritual. Querer ser amigo do sistema que vive sem Deus é como a esposa que mantém um amante. E note que o problema não é conviver; é "querer ser amigo", buscar a aprovação, adotar as prioridades.

O mesmo Tiago mostra que isso tem um lado prático:

A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas nas suas aflições e não se deixar corromper pelo mundo.(Tiago 1:27)

Esse versículo junta as duas coisas que a gente costuma separar: cuidar de órfãos e viúvas — mergulhar entre as pessoas, o segundo sentido — e guardar-se incontaminado do mundo — o terceiro. Tiago usa a mesma palavra para as duas direções, e a frase só faz sentido se o que se deve servir e aquilo de que se deve guardar não forem a mesma coisa.

Jesus coloca o custo em perspectiva:

Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? Ou o que pode dar o homem em troca da sua vida?(Mateus 16:26)

"Ganhar o mundo inteiro" é ganhar tudo o que o sistema oferece: dinheiro, poder, reconhecimento, prazer. Jesus não diz que isso não vale nada; diz que não vale a alma. A conta não fecha.

Como saber qual sentido está em jogo

Até aqui ficou um método implícito. Vale deixá-lo explícito, porque é com ele que você vai ler sozinho. Pergunte três coisas ao versículo:

  1. O que o "mundo" faz ou sofre? Criado, fundado, sustentado — criação. Crê, peca, é amado, é salvo — humanidade. Odeia, jaz no mal, passa, corrompe — sistema.

  2. Com o que está sendo contrastado? Quando a frase o opõe a Deus, ao Pai, à verdade, ao Espírito, quase sempre é o terceiro sentido.

  3. Quem está falando com quem? João escrevendo a crentes e dizendo "não amem o mundo" não está proibindo amar pessoas — ele mesmo manda amar o irmão na mesma carta.

Teste com esta passagem:

— Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes odiou a mim. Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. No entanto, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi dentre o mundo; por isso, o mundo os odeia.(João 15:18,19)

"Odeia" — verbo de hostilidade. Contraste com "vocês", os discípulos, escolhidos "dentre o mundo". Terceiro sentido, com uma nuance: os discípulos vieram de lá. As pessoas (segundo sentido) estão imersas no sistema (terceiro), e o evangelho as tira de um para dentro do outro.

Agora um caso que engana:

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que vocês experimentem a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.(Romanos 12:2)

Em português está "mundo", mas no grego Paulo não usou kosmos. Usou aiōn, "era", "século" — o espírito do tempo presente, aquilo que todos ao redor acham normal. "Não se amoldem" é a imagem de uma massa que toma a forma do molde. O remédio é a renovação da mente, de dentro para fora. Paulo não manda sair da época; manda pensar diferente dela.

O mesmo acontece em Tito, e aqui as traduções divergem de um jeito que ensina:

Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens, Ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente,(Tito 2:11,12, ACF)

A ACF diz "neste presente século" porque o grego é aiōn de novo; a NAA traduz a mesma expressão por "neste mundo". As duas estão corretas: o cristão vive "nesta era", no meio dela, e é aí que a graça o ensina a viver de forma sensata, justa e piedosa. As "concupiscências mundanas" que ele renuncia são do terceiro sentido; o "século" em que vive é o lugar e o tempo que ele não abandona.

Há ainda uma terceira palavra grega, oikoumenē, "terra habitada", que aparece em Lucas 2:1, quando César Augusto ordena o censo de "todo o mundo" — ali é o império, a terra conhecida. Isso só confirma que o contexto decide, não o dicionário.

No mundo, mas não do mundo

A frase não aparece assim na Bíblia, mas resume bem uma oração de Jesus na noite antes da cruz:

Não peço que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Como me enviaste ao mundo, assim eu os enviei ao mundo.(João 17:15-18)

Leia os quatro versos como sequência. Jesus pede que o Pai não tire os discípulos do mundo (v. 15) — isso elimina o isolamento. Diz que eles não são do mundo (v. 16) — isso elimina a assimilação. Pede que sejam santificados na verdade (v. 17) — pela Palavra, não pela fuga. E então os envia (v. 18), como o Pai o enviou. A direção final não é para fora, é para dentro.

Note que Jesus usa a palavra em dois sentidos na mesma oração. Aquele do qual não quer tirá-los e ao qual os envia é o das pessoas; aquele do qual eles "não são" é o sistema. Troque um pelo outro e a oração fica absurda: Jesus estaria mandando os discípulos para dentro do mal ou os proibindo de serem humanos.

É a lógica das duas imagens do Sermão do Monte:

— Vocês são o sal da terra. Mas, se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens.

— Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte.(Mateus 5:13,14)

Sal e luz só funcionam em contato. Sal no saleiro não conserva nada; luz debaixo de um balde não ilumina. O lugar do discípulo é na comida e na cidade — no meio das pessoas. E ao mesmo tempo sal que perde o sabor e luz escondida viraram iguais ao ambiente. O risco é duplo: afastar-se demais e não servir para nada, ou misturar-se demais e não fazer diferença. Na prática, o cristão não tem licença bíblica para abandonar a família que não crê, o trabalho, a vizinhança. O que ele não pode é adotar os critérios de valor desse lugar como se fossem os de Deus.

Contra o que o cristão luta de fato

Se o inimigo é o sistema e não as pessoas, isso muda contra quem você briga:

Tenham cuidado para que ninguém os escravize por meio de filosofias inúteis e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, mas não em Cristo.(Colossenses 2:8)

"Rudimentos do mundo" — no grego, stoicheia tou kosmou, as regras primárias de um sistema. Paulo avisa sobre filosofias que pareciam espirituais mas funcionavam com a lógica do mundo, e não com a de Cristo. Repare no verbo: ninguém é derrotado por essas coisas, é levado por elas, carregado como despojo de guerra sem perceber. O sistema raramente ataca de frente; ele convence.

E por trás dele há algo mais:

pois a nossa luta não é contra sangue e carne, mas contra os poderes e as autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas e contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais.(Efésios 6:12)

A luta "não é contra carne e sangue" — não é contra o colega, o parente, o político, o ateu. É contra forças espirituais que organizam esse "século tenebroso". Quem confunde o terceiro sentido com o segundo acaba odiando quem Deus ama e combatendo quem deveria alcançar.

A vitória sobre o mundo

A última coisa a dizer sobre o terceiro sentido é que ele já foi derrotado:

— Eu disse isso para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo, vocês terão aflições; contudo, tenham coragem! Eu venci o mundo.(João 16:33)

Note a ordem. Primeiro a realidade: "no mundo vocês terão aflições" — Jesus não promete que o sistema vai deixar os seus em paz. Depois o fundamento: "eu venci o mundo". O verbo está no passado, dito antes da cruz, porque a vitória já está decidida na obediência que o levará até ela. A coragem do discípulo não vem de o inimigo ser fraco; vem de ele já ter perdido.

João diz como essa vitória chega até você:

Todo aquele que é nascido de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.(1 João 5:4)

O que vence é a fé — não força moral, não isolamento, não vigilância ansiosa. E "todo o que é nascido de Deus vence": não é privilégio de alguns, é consequência de ter nascido de novo.

E, para quem acha o sistema grande demais:

Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo.(1 João 4:4)

João compara tamanhos. "Aquele que está em vocês" é maior do que "aquele que está no mundo". O sistema é real, é hostil, é dominado por alguém — e esse alguém é menor do que Deus.

Olha o percurso que a palavra fez. A criação é de Deus e é boa. A humanidade é amada a ponto de ele dar o Filho. E o sistema que vive sem Deus, esse Jesus venceu. Com isso em mãos, volte a João 3:16 e leia de novo: "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito". Agora você sabe qual — e sabe que é o mesmo em que você senta para comer todo dia.

"Mundo" na Bíblia é sempre algo negativo?

Não. Dos três sentidos, só um é negativo: o sistema de valores que vive sem Deus. A criação é boa (Gênesis 1, Salmo 24) e a humanidade é amada (João 3:16). Quando um versículo soa negativo, olhe o contexto: quase sempre há contraste com Deus e verbos como odiar, jazer, passar, corromper.

Qual é a palavra grega para "mundo" no Novo Testamento?

A mais comum é kosmos, "ordem", que serve para os três sentidos. Em Romanos 12:2 e Tito 2:12 o grego é aiōn, "era" ou "século", o espírito de uma época. Há ainda oikoumenē, "terra habitada", usada no censo de Lucas 2:1.

O que são "a concupiscência da carne, dos olhos e a soberba da vida"?

É a definição que João dá em 1 João 2:16: o apetite que quer satisfação imediata (carne), o desejo de possuir o que se vê (olhos) e o orgulho de ser admirado (soberba da vida). O problema não é desejar, e sim organizar a vida em torno desses impulsos em vez de em torno de Deus.

A Bíblia manda o cristão se afastar da sociedade?

Não. Em João 17:15 Jesus pede que o Pai não tire os discípulos do mundo, e no verso 18 os envia a ele. Tiago 1:27 junta cuidar de órfãos e viúvas com guardar-se do sistema. O que a Bíblia proíbe é a amizade com o sistema, não a convivência com as pessoas.

Deus entregou o mundo ao diabo?

Não. O Salmo 24 diz que a terra pertence ao Senhor porque ele a fundou. Quando 1 João 5:19 diz que "o mundo jaz no Maligno", fala do terceiro sentido: a humanidade organizada em rebeldia está sob influência do diabo. É domínio usurpado e temporário, e Jesus declarou em João 16:33 que já o venceu.

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