O advento: a preparação para celebrar o natal cristão
O que é o Advento
O Advento é o tempo dos quatro domingos antes do Natal em que a igreja se prepara para celebrar o nascimento de Jesus — e, ao mesmo tempo, lembra que ele prometeu voltar. A palavra vem do latim adventus, que quer dizer "chegada", "vinda". Começa no quarto domingo antes do dia 25 (sempre entre 27 de novembro e 3 de dezembro) e termina na véspera do Natal.
Vale dizer logo: o Advento não é uma festa que a Bíblia manda guardar. É uma tradição que a igreja criou nos primeiros séculos para chegar ao Natal com o coração arrumado, e não só a casa. O que a Bíblia tem é a matéria-prima dessa espera: um povo que aguardou séculos por um Salvador prometido, e uma igreja que ainda aguarda o mesmo Salvador voltar.
No centro dessa espera está uma promessa feita uns setecentos anos antes de Belém:
For a Child will be born to us, a Son will be given to us;
And the government will rest on His shoulders;
And His name will be called Wonderful Counselor, Mighty God,
Eternal Father, Prince of Peace.
Quem lê Isaías 9:6 no contexto percebe o peso disso: Isaías fala a um reino cercado por inimigos, à beira da ruína, e anuncia que a luz vai chegar na forma de um menino. O Advento é, basicamente, ficar quatro semanas sentado dentro dessa frase.
Quando começa e quando termina o Advento
A conta é simples: pegue o Natal e volte quatro domingos. O primeiro desses domingos abre o Advento. Por isso a data muda a cada ano, mas sempre cai entre 27 de novembro e 3 de dezembro. O período fecha em 24 de dezembro, à noite, quando a igreja passa da espera para a celebração.
Olha um detalhe que pouca gente sabe: nas igrejas que seguem o calendário litúrgico, o ano cristão não começa em 1º de janeiro, começa no primeiro domingo do Advento. O ano da igreja abre esperando por Cristo — a lógica é essa.
As igrejas ortodoxas fazem diferente: guardam o Jejum da Natividade, quarenta dias a partir de 15 de novembro. Mesma ideia de preparação, com outro formato.
De onde veio o Advento (e por que ele não está na Bíblia)
Procure a palavra "Advento" na sua Bíblia e você não vai achar. Também não vai achar coroa, velas nem a ordem de separar quatro semanas antes do Natal. Isso é importante: o Advento é tradição da igreja, não mandamento de Deus. Confundir as duas coisas é um erro que a própria Bíblia pede para não cometer.
Historicamente, o costume aparece no fim do século IV, na Espanha e na Gália (a atual França), como um tempo de jejum e exame de consciência antes da Epifania, quando muitos adultos eram batizados. Por volta do ano 600, em Roma, o papa Gregório Magno fixou o formato de quatro domingos antes do Natal. Daí ele se espalhou pelo Ocidente.
O que a tradição fez foi dar um nome e um calendário a algo que já está na Escritura: a preparação para a chegada do Senhor. João Batista é a figura que a igreja sempre leu nesse tempo, porque a missão dele era exatamente essa:
as it is written in the book of the words of Isaiah the prophet:
"The voice of one callingout in the wilderness,
‘Prepare the way of the Lord,
Make His paths straight!(Luke 3:4)
"Preparar o caminho" não era enfeitar a estrada — era endireitar a vida: arrependimento, confissão, mudança de rumo. É daí que vem a cor roxa do Advento, a mesma da Quaresma. A tradição quis que as semanas antes do Natal tivessem um tom de sobriedade, não de festa antecipada. A festa fica para o dia 25.
O que significa cada vela da coroa do Advento
A coroa é o símbolo mais conhecido, e é bem mais recente do que parece. Em 1839, o pastor luterano Johann Hinrich Wichern, em Hamburgo, cuidava de um abrigo de crianças pobres que perguntavam todo dia quanto faltava para o Natal. Ele montou uma roda de madeira com uma vela para cada dia e acendia uma por vez. Com o tempo, a roda virou um círculo de ramos verdes com quatro velas, uma por domingo.
Os significados são catequese da igreja, não texto bíblico, e variam de uma tradição para outra. Mas a leitura mais comum é esta:
Círculo e ramos verdes: o círculo não tem começo nem fim, lembrando a eternidade de Deus; o verde no inverno europeu fala de vida que resiste.
Primeira vela — esperança: a dos profetas, que anunciaram o Messias séculos antes, como em Isaías 9.
Segunda vela — paz: a de Belém, a cidade pequena onde o Príncipe da Paz nasceria, conforme Miqueias 5:2.
Terceira vela — alegria: a dos pastores, que ouviram a notícia primeiro. Em muitas igrejas essa vela é rosa, e o domingo chama-se Gaudete, "alegrai-vos", por causa de Filipenses 4:4.
Quarta vela — amor: a dos anjos, que anunciaram que Deus se fez homem por amor ao mundo.
Vela branca no centro (opcional): acesa na noite de Natal, representa o próprio Cristo.
A ideia que sustenta tudo isso é uma só: a cada domingo a luz aumenta, até chegar o Natal. Jesus disse de si mesmo que é a luz do mundo, em João 8:12. A coroa é um jeito de contar isso para quem ainda não sabe ler.
Duas vindas: o Advento olha para trás e para a frente
Isso aqui é o que separa o Advento de uma simples contagem regressiva. Quando os primeiros cristãos usavam a palavra adventus, eles estavam traduzindo o grego parousia — o termo que o Novo Testamento usa para a volta de Cristo. Ou seja: desde a origem, o Advento tem dois alvos.
O primeiro é o que já aconteceu. A promessa de Isaías se cumpriu numa noite comum, anunciada a trabalhadores no turno da madrugada:
for today in the city of David there has been born for you a Savior, who is Christ the Lord.(Luke 2:11)
Note os três títulos em Lucas 2:11: Salvador, Cristo (o Messias esperado) e Senhor. O anjo não anuncia um bebê fofo; anuncia o Rei que Isaías prometeu, e diz que ele nasceu "hoje". A espera de Israel acabou ali.
O segundo alvo ainda não aconteceu. Paulo descreve a vida cristã inteira como uma espera:
looking for the blessed hope and the appearing of the glory of our great God and Savior, Christ Jesus,(Titus 2:13)
É por isso que as leituras tradicionais do primeiro domingo do Advento não falam de Belém, mas da volta de Cristo — textos como Mateus 24 e Lucas 21. A igreja faz de propósito: antes de lembrar que ele veio, lembra que ele vai voltar. A última oração da Bíblia, em Apocalipse 22:20, é exatamente uma oração de Advento:
He who testifies to these things says, "Yes, I am coming quickly." Amen. Come, Lord Jesus.(Revelation 22:20)Evangélicos celebram o Advento?
Depende da igreja, e as duas respostas são legítimas. Luteranos, anglicanos, metodistas e boa parte dos presbiterianos seguem o calendário litúrgico e guardam o Advento com coroa, leituras e hinos próprios. Muitas igrejas batistas, pentecostais e independentes não observam o período de forma organizada — fazem cantatas e cultos de Natal, mas sem o ciclo das quatro semanas.
Vale notar que a desconfiança evangélica tem raiz histórica. Os puritanos ingleses do século XVII rejeitaram não só o Advento, mas o próprio Natal, por considerar que festas sem ordem bíblica explícita eram invenção humana. A maioria das igrejas de tradição reformada hoje não vai tão longe, mas a pergunta deles continua válida: isso é mandamento ou costume?
A resposta bíblica é que é costume, e sobre costumes Paulo deixou uma regra de convivência. Em Romanos 14, discutindo cristãos que guardavam dias especiais e cristãos que não guardavam, ele escreve:
One personvalues one day over another, another values every day the same. Each person must be fully convinced in his own mind.(Romans 14:5)Em Colossenses 2:16-17 ele vai na mesma direção: ninguém deve julgar o outro por causa de dias e festas, porque elas são sombra, e o corpo é Cristo. Quem acende as velas não é mais espiritual; quem não acende não é menos. O que a Bíblia pede é que, se você fizer, faça "para o Senhor" — e não para cumprir tabela.
Como viver o Advento na prática
Se a sua igreja não tem o costume, dá para fazer em casa, com a família ou sozinho. O que importa não é a coroa, é a leitura. Um roteiro simples que segue a tradição das quatro velas:
Primeira semana — a promessa. Leia os profetas que anunciaram o Messias: Isaías 9:1-7 e Isaías 11:1-10. Pergunte: o que Israel estava esperando?
Segunda semana — a preparação. Leia Lucas 3:1-18, a pregação de João Batista, e repare que "preparar o caminho" é sobre arrependimento concreto: repartir roupa, não roubar, não extorquir.
Terceira semana — a alegria. Leia o cântico de Maria em Lucas 1:46-55. É a alegria de quem percebe que Deus cumpriu o que disse.
Quarta semana — a chegada. Leia Mateus 1:18-25 e Lucas 2:1-20, e chegue ao Natal já sabendo quem é o menino.
Junto com a leitura, a tradição sempre uniu duas coisas: oração — um tempo diário de silêncio, difícil justamente em dezembro — e generosidade com quem tem menos, porque o Deus que esperamos veio como pobre e disse que o que fazemos aos pequenos fazemos a ele (Mateus 25:40).
Nada disso exige vela roxa. Exige parar.
O menino que já tem nome
Volte a Isaías 9:6 e repare numa coisa: o profeta fala de um menino que ainda não nasceu, mas já dá a ele quatro nomes — Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Nenhum deles cabe num bebê comum. Isaías sabia disso. Ele estava descrevendo alguém que viria uma vez, em Belém, e virá de novo, em glória.
O Advento é só isso: quatro semanas para olhar para esse menino com os olhos de Isaías. Leia Isaías 9:1-7 inteiro antes de chegar ao Natal.
O Advento é bíblico?
Não como mandamento. A Bíblia não ordena guardar quatro semanas antes do Natal, e o próprio Natal como data também não aparece na Escritura. O que é bíblico é o conteúdo da espera: as profecias sobre o Messias, a preparação pregada por João Batista e a expectativa da volta de Cristo. O Advento é a forma que a igreja deu, a partir do século IV, para meditar nesses textos.
Qual é a diferença entre Advento e Natal?
O Advento é a preparação; o Natal é a festa. O Advento vai do quarto domingo antes do Natal até 24 de dezembro e tem tom de espera e arrependimento. O Natal começa no dia 25 e, no calendário litúrgico, dura doze dias, até a Epifania, em 6 de janeiro.
Advento e Quaresma são a mesma coisa?
Não, mas se parecem. Os dois são tempos de preparação, usam a cor roxa e pedem autoexame. A Quaresma são os quarenta dias antes da Páscoa, voltados para a morte e ressurreição de Jesus. O Advento são as quatro semanas antes do Natal, voltadas para o nascimento e a volta dele.
O que é o calendário do Advento?
É um costume alemão do início do século XX: um quadro com 24 janelinhas, uma por dia de dezembro até o Natal, cada uma com um versículo, uma imagem ou um doce. Nasceu como ferramenta para ensinar crianças a esperar. Hoje é vendido como brinquedo, mas a versão original tinha um texto bíblico por dia.
Dá para fazer o Advento em casa, sem igreja?
Dá. O essencial é a leitura da Bíblia e a oração ao longo das quatro semanas; a coroa e as velas são auxílio, não exigência. Uma família pode acender uma vela a cada domingo à noite, ler a passagem da semana e orar junta. Quem mora sozinho pode fazer o mesmo roteiro de leitura sem vela nenhuma.
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