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O perigo de reprimir emoções: cristão não precisa fingir

Por Bíblia Online  - 
Mulher de suéter azul segura um terço junto ao rosto, sentada num banco de igreja.

O que a Bíblia diz sobre esconder o que se sente

A Bíblia não pede que o cristão finja. Ela pede outra coisa, mais difícil e mais honesta: que ele leve o que sente para diante de Deus, em vez de engolir. Davi fez isso escondido numa caverna, Jó fez isso sentado nas cinzas, e Jesus fez isso de joelhos no Getsêmani. Em nenhum desses casos a emoção foi tratada como falha de fé — foi tratada como matéria de oração.

Derramei a minha queixa perante a sua face; expus-lhe a minha angústia.

O cabeçalho do Salmo 142 diz que Davi o compôs "quando estava na caverna". Não era um homem em paz: era um fugitivo com preço na cabeça, provavelmente em Adulão ou En-Gedi, nos anos em que Saul o perseguia (1 Samuel 22). E o que ele faz nesse esconderijo é "derramar" a queixa.

Vale olhar essa palavra de perto. O verbo hebraico é shafakh, e ele é o verbo de líquidos: é o que se usa para água jogada no chão, para sangue derramado. É um verbo de esvaziar, não de dosar. E o que Davi derrama é o seu siach — uma palavra que no hebraico cobre tanto "meditação" quanto "queixa", ou seja, aquilo que fica rodando por dentro. Davi pega o que estava girando na cabeça e despeja na frente de Deus.

Dá para conferir isso sem saber hebraico. Outro salmo usa exatamente o mesmo verbo, agora como um convite:

Confiai nele, ó povo, em todos os tempos; derramai perante ele o vosso coração; Deus é o nosso refúgio. (Selá)(Salmos 62:8)

"Derramai perante ele o vosso coração." É a mesma imagem de Ana no templo, quando diz ao sacerdote que estava "derramando a alma" diante do Senhor (1 Samuel 1:15), e a mesma de Jerusalém em ruínas, chamada a derramar o coração "como água" (Lamentações 2:19). A Bíblia tem um vocabulário próprio para isso, e ele não é o vocabulário de quem segura.

Jesus teve emoções — e não as escondeu

Isso aqui é importante, porque resolve metade da dúvida de uma vez. Se sentir tristeza ou angústia fosse sinal de fé fraca, Jesus seria o homem mais fraco da Bíblia.

Diante do túmulo de Lázaro, sabendo que ia ressuscitá-lo dali a minutos, Jesus chorou:

Dois versículos antes, o texto diz que ele se comoveu e se perturbou (João 11:33); a palavra grega ali é forte, descreve uma agitação profunda, quase um gemido. Ele não chorou escondido. Chorou na frente de todo mundo, a ponto de os presentes comentarem.

No Getsêmani, horas antes da cruz, ele disse em voz alta o que estava sentindo:

Então, lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e vigiai comigo.(Mateus 26:38)

Marcos conta a mesma cena dizendo que Jesus "começou a ter pavor e a angustiar-se" (Marcos 14:33-34), e Lucas descreve o suor caindo como gotas de sangue (Lucas 22:44). Ele também sentiu raiva: diante da dureza dos fariseus, olhou em volta "com indignação" (Marcos 3:5).

Hebreus junta tudo isso numa conclusão: Jesus orou "com grande clamor e lágrimas" e por isso sabe se compadecer das nossas fraquezas (Hebreus 5:7; Hebreus 4:15). O homem sem pecado teve tristeza, medo, angústia e indignação. Logo, nenhuma dessas coisas é pecado em si.

Sentir tristeza ou raiva é pecado?

Tristeza, nunca. A Bíblia manda chorar com os que choram (Romanos 12:15), diz que há "tempo de chorar" (Eclesiastes 3:4) e fala de uma tristeza que vem de Deus e produz arrependimento (2 Coríntios 7:10). Chorar não aparece em nenhuma lista de pecados.

A raiva é o caso mais discutido, e Paulo responde com uma frase que vale ler com atenção:

Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.(Efésios 4:26)

Na ARC o versículo começa com "Irai-vos e não pequeis" — e isso reflete o grego, que traz dois imperativos seguidos, citando o Salmo 4:4. Paulo não diz "não se irem". Ele diz: a ira vai acontecer; o que você não pode é pecar com ela, nem deixá-la passar a noite. Traduções como a NVI preferem "quando ficarem irados, não pequem", o que suaviza a forma mas mantém o sentido: a raiva é reconhecida, e o problema está no que se faz com ela e em quanto tempo ela fica ali guardada.

Olha a diferença: o versículo não trata a raiva como pecado — trata como algo que, se não for resolvido logo, vira pecado. Tiago diz o mesmo de outro ângulo: ser "tardio em irar-se", porque a ira do homem não produz a justiça de Deus (Tiago 1:19-20). Nos dois casos, o alvo é o que a raiva faz quando mandada para dentro ou despejada em cima dos outros, não o fato de ela existir.

Reprimir não é domínio próprio

Aqui mora uma confusão comum. O Novo Testamento lista o domínio próprio entre os frutos do Espírito (Gálatas 5:22-23; na ARC, "temperança"), e Provérbios diz que o tolo derrama toda a sua ira enquanto o sábio a contém (Provérbios 29:11). Alguém pode concluir que o cristão maduro é aquele que não deixa transparecer nada.

Mas repare para onde cada texto aponta. Provérbios fala do que sai da boca em direção às outras pessoas. Os salmos de lamento falam do que se diz a Deus. Domínio próprio é governar a expressão: não gritar com o filho, não descarregar no colega, não escrever a mensagem que destrói. Repressão é outra coisa — é negar para si mesmo e para Deus que o sentimento existe.

Jó é o exemplo mais claro de alguém que recusou a segunda coisa:

Por isso, não reprimirei a minha boca; falarei na angústia do meu espírito; queixar-me-ei na amargura da minha alma.(Jó 7:11)

Na ARC ele diz "não reprimirei a minha boca"; na NVI, "não me calarei". Jó não blasfema, não abandona Deus, mas também não finge. E o detalhe que costuma passar despercebido: no fim do livro, Deus repreende os três amigos — justamente os que tinham respostas prontas — dizendo que eles não falaram o que era reto "como o meu servo Jó" (Jó 42:7). A fala crua de Jó foi considerada mais correta que a piedade arrumada dos amigos.

O que acontece quando a emoção é engolida

A Bíblia não é um manual de psicologia, mas ela conhece o efeito do silêncio. No Salmo 32, Davi descreve o tempo em que "se calou": os ossos envelheceram, a mão de Deus pesava dia e noite (Salmo 32:3-4). O contexto ali é um pecado não confessado, não uma tristeza qualquer — vale dizer isso para não forçar o texto. Mas a imagem é exata: o que não é dito não desaparece; ele desce para o corpo.

Há também um risco espiritual. Quem aprende a apresentar uma versão editada de si em oração está, na prática, orando para alguém que não conhece a verdade — e Deus não é esse alguém. Jesus citou Isaías para descrever religião que se aproxima com a boca enquanto o coração está longe (Isaías 29:13; Marcos 7:6). Fingir força diante de Deus é uma forma pequena disso.

Uma observação honesta: a Bíblia trata a emoção na presença de Deus, mas não substitui ajuda. Se a tristeza já virou algo que não deixa dormir nem funcionar há semanas, procurar um profissional não é falta de fé — é o mesmo cuidado que se tem com uma perna quebrada.

O que fazer com a emoção depois de reconhecê-la

Reconhecer é o primeiro passo, não o último. O Salmo 142 inteiro mostra o caminho que Davi percorre dentro da caverna, e ele tem quatro movimentos que dá para seguir (Salmo 142):

  1. Nomear. Nos versículos 1 a 4 Davi diz o que sente e o que está acontecendo: o espírito angustiado, a armadilha no caminho, ninguém que o conheça. Não é um relatório geral; é concreto.

  2. Lembrar quem Deus é. No versículo 5 ele muda de assunto: "tu és o meu refúgio". A emoção não desaparece, mas ganha um interlocutor.

  3. Pedir. No versículo 6 vem o pedido direto — livra-me dos que me perseguem, porque são mais fortes que eu.

  4. Esperar com os outros. No versículo 7 ele olha para frente: os justos se ajuntarão em volta dele. O salmo que começou sozinho termina em comunidade.

Pedro resume esse movimento numa frase:

lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.(1 Pedro 5:7)

"Lançar" é jogar o peso para o lado de lá. Paulo descreve a mesma coisa em Filipenses: apresentar a Deus o que aflige, com pedido e com gratidão, e deixar que a paz guarde o coração (Filipenses 4:6-7). E a Bíblia também dá tarefa ao corpo de Cristo: levar as cargas uns dos outros (Gálatas 6:2). Dizer para Deus e dizer para alguém de confiança não são caminhos concorrentes.

Por fim, o prazo de Efésios 4:26 serve para qualquer emoção, não só para a raiva: não deixe passar a noite sem levar aquilo para onde ele deve ir.

Volte à caverna

O Salmo 142 tem sete versículos e cabe numa tela de celular. Lido de uma vez, ele mostra um homem em perigo real que não finge, não arruma a frase, não espera melhorar para orar — e que, no último versículo, já consegue falar do bem que Deus ainda vai fazer. Leia o Salmo 142 completo e repare no caminho entre o versículo 2 e o 7.

Chorar é falta de fé?

Não. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro (João 11:35) e orou "com grande clamor e lágrimas" (Hebreus 5:7). Paulo manda chorar com os que choram (Romanos 12:15). A Bíblia nunca lista o choro entre os pecados; ela o trata como resposta humana normal à perda e à dor.

Posso reclamar com Deus na oração?

Os salmos de lamento são exatamente isso: queixas dirigidas a Deus. O Salmo 142:2 usa a palavra "queixa" sem nenhuma censura, e Jó, que se queixou por capítulos inteiros, foi considerado por Deus mais correto que os amigos que o repreenderam (Jó 42:7). O que a Bíblia condena é outra coisa: a murmuração.

Qual a diferença entre lamento e murmuração?

A direção. Israel no deserto murmurava sobre Deus, falando dele pelas costas e duvidando dele diante dos outros (Números 14:2). O lamento fala com Deus de frente, como Davi no Salmo 142: a queixa é entregue a ele, não espalhada contra ele. O conteúdo pode ser parecido; o destinatário muda tudo.

Fingir estar bem para não desanimar os outros é errado?

Há uma diferença entre discrição e mentira. Ninguém é obrigado a expor tudo a todos, e Provérbios 29:11 elogia quem não despeja a raiva em qualquer lugar. Mas negar o que se sente para Deus, ou para quem poderia ajudar, contradiz o convite de "derramar o coração" (Salmo 62:8) e a ordem de levar as cargas uns dos outros (Gálatas 6:2).

Que livros da Bíblia ajudam quem está passando por isso?

Os Salmos, especialmente os de lamento (3, 13, 22, 42, 77, 88, 142). O livro de Jó, para quem sente que a dor não tem explicação. E Lamentações, escrito sobre a destruição de Jerusalém, que mostra como a fé e a devastação podem aparecer na mesma página (Lamentações 3:19-26).

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