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O que a Bíblia diz sobre política e o papel do cristão

Por Bíblia Online  - 
Mulher de mãos entrelaçadas olha para o céu, com uma Bíblia aberta à frente.

A Bíblia ensina que a autoridade civil é instituída por Deus para promover a justiça e conter o mal, cabendo ao cristão honrar suas obrigações cívicas e buscar o bem comum. Ao mesmo tempo, as Escrituras estabelecem que nenhum governante humano possui poder absoluto: a lealdade suprema pertence a Deus, e a esperança cristã não se apoia em ideologias ou salvadores políticos.

Dupla cidadania: o cristão na sociedade

Em Filipenses 3:20, o apóstolo Paulo afirma: "a nossa pátria está nos céus". No grego, o termo traduzido como pátria é politeuma, que definia a cidadania e os direitos de um povo sob as leis de sua cidade de origem. Paulo escreveu a cristãos que viviam em Filipos, colônia romana cujos habitantes desfrutavam da proteção das leis de Roma, mesmo a centenas de quilômetros da capital imperial. A mensagem era direta: a conduta final do cristão responde à lei de Deus.

Essa identidade celestial não anula o dever com o local onde se vive. Quando o povo de Israel foi levado cativo para um império pagão, o profeta transmitiu em Jeremias 29:7 a ordem de orar pela paz da cidade do exílio:

Dedicai-vos à busca da prosperidade da cidade, para onde vos deportei, e orai a Yahweh em favor dela; porque o progresso dela será a vossa prosperidade.(Jeremias 29:7)

A palavra hebraica para paz aqui é shalom, que envolve integridade moral, ordem jurídica e bem-estar coletivo. Buscar a paz da nação por meio da participação honesta e de escolhas conscientes é parte da fidelidade a Deus.

O papel do governo e os limites da sujeição

O texto bíblico mais amplo sobre a relação entre o cristão e o poder público está em Romanos 13:1-7:

Todos devem sujeitar-se às autoridades superiores; porquanto, não, há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Ele. Portanto, quem se recusa a submeter-se à autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Porque os governantes não podem ser motivo de temor para os que praticam o bem, mas para os que fazem o mal. Não queres sentir-se ameaçado pela autoridade? Faze o bem, e ela o honrará. Pois ela serve a Deus para o teu bem. Mas, se fizerdes o mal, teme, pois não é sem razão que traz a espada. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal. Portanto, é imprescindível que sejamos submissos às autoridades, não apenas devido à possibilidade de uma punição, mas também por causa da consciência.

Por esta razão, igualmente pagais impostos; porque as autoridades estão a serviço de Deus, e seu trabalho é zelar continuamente pela sociedade. Dai a cada um o que lhe é devido: se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra.(Romanos 13:1-7)

Paulo escreveu essa instrução durante o reinado do imperador Nero, advertindo que o governo terreno existe sob permissão divina para conter a anarquia e administrar a justiça. Por isso, pagar impostos, obedecer às leis civis e respeitar a ordem pública são deveres do cidadão cristão.

A submissão ao Estado, porém, não é cega nem irrestrita. Quando a autoridade humana ordena o que Deus proíbe, ou proíbe o que Deus ordena, o princípio aplicável é o proclamado por Pedro em Atos 5:29: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens".

As Escrituras registram exemplos de resistência pacífica fundamentada na obediência a Deus:

  • As parteiras hebreias que desobedeceram à ordem de Faraó para matar os bebês meninos em Êxodo 1:17.

As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram o que o rei do Egito lhes havia mandado. Pelo contrário, deixaram que os meninos vivessem.(Êxodo 1:17)

  • Daniel, que manteve sua rotina de oração mesmo após a proibição formal do rei em Daniel 6:10.

Assim que Daniel soube que esse decreto do rei havia sido proclamado, foi para casa, para o seu quarto, no andar de cima, onde as janelas davam para Jerusalém e ali orou como costumava fazer cotidianamente, três vezes ao dia; ajoelhou-se, rogou e deu graças diante do seu Elah, Deus.(Daniel 6:10)

  • Os três jovens hebreus que recusaram a adoração estatal à estátua de ouro em Daniel 3:18.

Contudo, se ele não nos livrar, fica sabendo, ó rei, que não cultuaremos aos teus deuses, tampouco adoraremos a estátua que ergueste!"(Daniel 3:18)

Nesses casos, a desobediência foi pacífica, assumindo as penalidades terrenas sem negar a fé.

A separação entre o poder de César e o senhorio de Deus

Ao ser provocado sobre a cobrança de tributos pelo Império Romano, Jesus definiu o limite das duas esferas em Mateus 22:21: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus".

O verbo empregado no grego (apodidomi) significa "devolver o que pertence por direito". A moeda trazia a face e a inscrição de César, sinalizando a administração econômica da qual a população participava. No entanto, o ser humano foi criado com a imagem e semelhança de Deus (imago Dei).

O Estado tem direito à arrecadação de tributos legítimos e à manutenção da ordem civil. Contudo, a alma, a consciência e o culto pertencem exclusivamente ao Criador. O Evangelho recusa tanto o Estado que tenta tomar o lugar de Deus quanto o uso da estrutura política para forçar a fé.

Critérios bíblicos para o voto e a cidadania

A Bíblia não descreve democracias modernas nem urnas eletrônicas, mas apresenta princípios para orientar a conduta civil:

  • Oração pelas autoridades: O apóstolo Paulo orienta a intercessão pública em 1 Timóteo 2:1-2:

Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças, em favor de todas as pessoas; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.(1 Timóteo 2:1,2)

  • Avaliação do caráter e da justiça: As leis e os governantes têm impacto direto sobre o povo. Provérbios 29:2 resume essa realidade: "Quando os justos se multiplicam, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo suspira". O critério cristão valoriza integridade moral, defesa da verdade, honestidade administrativa e proteção dos vulneráveis.

  • Preservação do amor e da unidade: Nenhum partido político ou mandatário terreno encarna plenamente o Reino de Deus. Desprezar irmãos na fé ou semear discórdia por disputas eleitorais contraria os mandamentos fundamentais de Cristo.

A participação política do cristão é um exercício de amor ao próximo e responsabilidade social, guiado pelo discernimento das Escrituras e pela certeza de que o governo supremo de todas as coisas permanece nas mãos de Deus. Para compreender a relação entre autoridade e cidadania em seu contexto original, leia a carta inteira de Romanos 13.

carolina shirkFilipe Souza
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