O que é a Quaresma? Origem e sentido bíblico
A Quaresma é o período de cerca de quarenta dias que antecede a Páscoa, dedicado por diversas tradições cristãs à oração, ao jejum e ao arrependimento em preparação para a celebração da ressurreição de Jesus. A palavra não aparece na Bíblia, e o Novo Testamento não ordena a observância desse calendário: trata-se de uma prática litúrgica desenvolvida nos primeiros séculos da igreja.
O período começa na Quarta-feira de Cinzas e se estende até a Semana Santa. Embora a data fixa não seja uma prescrição apostólica, os temas que definem a Quaresma — autoexame, mortificação da carne e vigilância espiritual — têm raízes profundas no texto bíblico.
O número quarenta nas Escrituras
A duração de quarenta dias não foi escolhida por acaso. Nas Escrituras, o número quarenta aparece repetidamente ligado a momentos de provação, juízo e preparação espiritual:
Os quarenta dias de chuva durante o dilúvio em Gênesis 7
Os quarenta anos da peregrinação de Israel pelo deserto em Êxodo 16
Os quarenta dias de Moisés em jejum no monte Sinai ao receber a Lei em Êxodo 24
O jejum de quarenta dias de Jesus no deserto antes de iniciar seu ministério, enfrentando a tentação, relatado em Mateus 4
A Quaresma se apoia principalmente no exemplo de Jesus no deserto: um tempo delimitado de renúncia física e fortalecimento espiritual diante de um chamado decisivo.
Jejum e arrependimento sem ritualismo
Práticas comuns na Quaresma, como abrir mão de certos alimentos ou hábitos, só encontram sentido bíblico quando expressam uma postura real do coração.
No Antigo Testamento, o jejum era sinal público e pessoal de humilhação, quebrantamento e busca por socorro divino. No Novo Testamento, Jesus manteve o jejum como disciplina válida, mas reprovou a exibição religiosa. Em Mateus 6, Ele orienta que o jejum seja discreto, diante de Deus e não dos homens. A abstinência de comida perde o valor se não vier acompanhada de abandono do pecado e compaixão pelo próximo.
Da mesma forma, o arrependimento bíblico (metanoia, no grego) significa mudança de rumo e de mentalidade, nunca apenas um remorso passageiro que termina quando o calendário litúrgico acaba.
A Páscoa como foco central
Toda a caminhada quaresmal existe em função do que acontece no final: a Páscoa. Instituída originalmente no relato de Êxodo 12 como memorial da libertação do Egito pelo sangue do cordeiro, a Páscoa encontra seu cumprimento definitivo na morte e ressurreição de Cristo, o Cordeiro de Deus.
Qualquer reflexão, penitência ou exercício de devoção só tem coerência se apontar para a obra completa de Cristo na cruz, onde a salvação foi alcançada pela graça, e não pelo esforço humano.
O cristão deve guardar a Quaresma?
Como a Bíblia não institui a Quaresma nem a proíbe, a observância desse período entra no princípio da liberdade cristã explicado pelo apóstolo Paulo em Romanos 14:5-6:
Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do…(Romeinen 14:5,6a, ACF)
A aplicação prática desse princípio estabelece limites claros:
Não é exigência bíblica: guardar ou não a Quaresma não afeta a salvação nem torna alguém espiritualmente superior.
Pode ser proveitosa: reservar semanas para intensificar a oração, a leitura bíblica e a generosidade é saudável, contanto que Cristo permaneça no centro.
O risco do ritualismo: trocar a piedade interior por mera abstinência formal contradiz o ensino de Jesus.
Para quem guarda o período e para quem não o guarda, o chamado bíblico permanece o mesmo o ano inteiro: vigilância pessoal, arrependimento sincero e vida centrada na cruz e na ressurreição.
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