O que é o arrebatamento da igreja e como ele vai acontecer?
O que é o arrebatamento da igreja
Arrebatamento é o nome que a tradição cristã deu a um momento específico descrito por Paulo: Cristo desce do céu, os cristãos que já morreram ressuscitam, os que estão vivos são transformados, e os dois grupos são levados para encontrar o Senhor nas nuvens. A palavra vem do próprio texto — "seremos arrebatados" — e descreve exatamente isso: ser tomado dali, de repente e com força, por alguém mais forte.
A passagem que sustenta tudo está em 1 Tessalonicenses 4:16-17. Vale ler devagar, porque quase tudo o que se diz sobre o tema vem desses dois versículos:
Ὅτι αὐτὸς ὁ Κύριος ἐν κελεύσματι, ἐν φωνῇ ἀρχαγγέλου, καὶ ἐν σάλπιγγι Θεοῦ, καταβήσεται ἀπ᾿ οὐρανοῦ, καὶ οἱ νεκροὶ ἐν Χριστῷ ἀναστήσονται πρῶτον· ἔπειτα ἡμεῖς οἱ ζῶντες, οἱ περιλειπόμενοι, ἅμα σὺν αὐτοῖς ἁρπαγησόμεθα ἐν νεφέλαις εἰς ἀπάντησιν τοῦ Κυρίου εἰς ἀέρα· καὶ οὕτω πάντοτε σὺν Κυρίῳ ἐσόμεθα.(Προσ Θεσσαλονικεισ Α 4:16,17)
Olha o que o texto afirma e o que não afirma. Ele afirma uma sequência: Cristo desce, os mortos em Cristo ressuscitam primeiro, os vivos são arrebatados "juntamente com eles", e o destino é "estar para sempre com o Senhor". Ele não afirma uma data, não fala em "sete anos de tribulação" e não diz se esse encontro nas nuvens é um evento separado da volta visível de Cristo ou se é a própria volta, vista do ângulo de quem é recolhido. Essas duas últimas perguntas são o que divide os cristãos — e é preciso dizer isso desde o início, porque muita gente aprende uma leitura como se fosse a única que existe.
A leitura que trata o arrebatamento como um evento distinto da segunda vinda, anterior a ela, é a do dispensacionalismo, uma corrente evangélica que ganhou forma no século XIX. A leitura mais antiga, compartilhada por católicos, ortodoxos, luteranos, reformados e por boa parte dos evangélicos, identifica 1 Tessalonicenses 4 com a volta de Cristo no fim dos tempos: um evento só, público, que inclui a ressurreição e o juízo. Este artigo apresenta as duas sem escolher por quem lê.
De onde vem a palavra "arrebatamento"
A palavra não é invenção de pregador. No grego em que Paulo escreveu, o verbo em 1 Tessalonicenses 4:17 é harpazo, que quer dizer agarrar, arrancar, levar embora à força — o verbo que se usaria para um lobo que abocanha uma ovelha ou para alguém que toma uma coisa das mãos de outro. Quando a Bíblia foi traduzida para o latim, harpazo virou rapiemur, "seremos arrebatados", do verbo rapere. É daí que vem raptura, o termo que o inglês adotou como rapture e que o português traduz por arrebatamento.
Esse verbo aparece em outros lugares do Novo Testamento, e eles ajudam a sentir o peso dele. Em Atos 8:39, o Espírito "arrebata" Filipe depois do batismo do etíope, e ele simplesmente não está mais ali. Em 2 Coríntios 12:2-4, Paulo conta de um homem — ele mesmo, muito provavelmente — "arrebatado até o terceiro céu". E em João 10:28-29, Jesus diz que ninguém "arrebatará" suas ovelhas da mão do Pai. Em todos os casos a ideia é a mesma: alguém é retirado de um lugar por uma força que não pede licença.
Por isso o nome é bom. Ele não descreve um sentimento espiritual nem uma viagem gradual: descreve ser recolhido. Quem lê a palavra "arrebatamento" e imagina o cenário inteiro de filmes e livros está misturando o verbo com um sistema de interpretação. O verbo em si é mais simples — e mais forte.
A ordem dos acontecimentos, segundo Paulo
Paulo descreve o momento em passos, e a ordem importa para ele. O texto de 1 Tessalonicenses 4:16-17 dá quatro.
Primeiro, Cristo desce do céu, e a descida vem com três sons: um brado — a palavra grega indica uma ordem gritada, como a de um comandante —, a voz de um arcanjo e a trombeta de Deus. Nada disso é discreto. Seja o que for esse momento, Paulo não o descreve como silencioso.
Segundo, "os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro". Esse "primeiro" é a peça central da passagem, e a próxima seção explica por quê. Os cristãos que morreram não ficam para trás nem chegam atrasados: eles vão à frente.
Terceiro, os cristãos que estiverem vivos são transformados. Em Tessalonicenses, Paulo só diz que "nós, os que ficarmos vivos", seremos arrebatados com eles; é em 1 Coríntios que ele explica o que acontece com o corpo de quem está vivo nesse instante:
ἐν ἀτόμῳ, ἐν ῥιπῇ ὀφθαλμοῦ, ἐν τῇ ἐσχάτῃ σάλπιγγι· σαλπίσει γάρ, καὶ οἱ νεκροὶ ἐγερθήσονται ἄφθαρτοι, καὶ ἡμεῖς ἀλλαγησόμεθα.(Προσ Κορινθιουσ Α 15:52)
Vale notar a mesma trombeta nos dois textos, e vale notar também o "nós". Paulo se incluía entre os que poderiam estar vivos. Ele não achava que a volta de Cristo era assunto para um futuro remoto; esperava por ela como algo que podia acontecer em sua geração — e nem por isso marcava data, como veremos.
Quarto, os dois grupos — ressuscitados e transformados — são "arrebatados juntamente nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares". A palavra grega para "encontrar" aqui era usada quando os cidadãos de uma cidade saíam pelos portões para receber um governante que chegava em visita e o acompanhavam de volta para dentro. Esse detalhe pesa na discussão sobre se o arrebatamento é um evento à parte: para quem lê 1 Tessalonicenses 4 como a segunda vinda, a igreja sai ao encontro do Rei que está chegando, e não é levada para outro lugar. Para quem lê como evento separado, o encontro é a retirada da igreja antes de um período de tribulação. O texto, sozinho, não fecha a questão.
O que ele fecha é o fim da sequência: "e assim estaremos sempre com o Senhor". Esse é o ponto de chegada de todo o trecho.
Por que Paulo escreveu isso aos tessalonicenses
Paulo não escreveu 1 Tessalonicenses 4 para satisfazer curiosidade sobre o fim do mundo. Ele escreveu para gente de luto.
A igreja de Tessalônica era muito nova. Paulo pregou lá por poucas semanas — Atos 17:1-10 fala em três sábados na sinagoga — e saiu da cidade às pressas, expulso por um tumulto. Ficou para trás um grupo pequeno, perseguido e com pouca formação. Nesse intervalo, alguns cristãos morreram. E a pergunta que apareceu foi dolorosa: eles perderam a volta de Cristo? Vão ficar de fora?
É a essa dúvida que Paulo responde, e ele diz com todas as letras qual é o objetivo:
Οὐ θέλω δὲ ὑμᾶς ἀγνοεῖν, ἀδελφοί, περὶ τῶν κεκοιμημένων, ἵνα μὴ λυπῆσθε, καθὼς καὶ οἱ λοιποὶ οἱ μὴ ἔχοντες ἐλπίδα.(Προσ Θεσσαλονικεισ Α 4:13)
Repare que ele não proíbe a tristeza. Ele distingue a tristeza de quem tem esperança da tristeza de quem não tem. E a resposta concreta à dúvida deles está naquele "primeiro" do versículo 16: os mortos em Cristo não só participam, como vão à frente. É por isso que a passagem termina, no versículo 18, com uma ordem prática — consolem uns aos outros com estas palavras. O arrebatamento, no texto em que ele aparece, é consolo para quem enterrou alguém.
Paulo não tirou isso do nada. Jesus havia prometido algo muito parecido aos discípulos, na última ceia, quando eles também estavam angustiados:
Καὶ ἐὰν πορευθῶ καὶ ἑτοιμάσω ὑμῖν τόπον, πάλιν ἔρχομαι καὶ παραλήψομαι ὑμᾶς πρὸς ἐμαυτόν, ἵνα ὅπου εἰμὶ ἐγώ, καὶ ὑμεῖς ἦτε.(Κατα Ιωαννην 14:3)
A promessa de João 14:1-3 tem a mesma estrutura: Cristo vai, prepara lugar, volta e leva os seus para estar com ele. Paulo diz aos tessalonicenses que fala "pela palavra do Senhor", e é razoável entender que ele está desenvolvendo exatamente esse ensino.
O Antigo Testamento também tem duas cenas de pessoas recolhidas por Deus sem passar pela morte: Enoque, de quem Gênesis 5:24 diz apenas que "Deus o tomou", e Elias, levado ao céu num redemoinho em 2 Reis 2:11. Elas não são o arrebatamento da igreja — são dois homens, em momentos distintos —, mas a tradição cristã sempre as leu como sinais de que Deus pode tomar os seus para si, e de que a morte não é o único caminho até ele.
Quando vai acontecer: o que a Bíblia diz e o que não diz
A resposta curta é que a Bíblia não dá a data, e diz isso de propósito. Jesus foi direto:
Περὶ δὲ τῆς ἡμέρας ἐκείνης καὶ τῆς ὥρας οὐδεὶς οἶδεν, οὐδὲ οἱ ἄγγελοι τῶν οὐρανῶν, εἰ μὴ ὁ πατήρ μου μόνος.(Κατα Ματθαιον 24:36)
E Paulo, no capítulo seguinte ao do arrebatamento, usa uma imagem que Jesus também usou:
Αὐτοὶ γὰρ ἀκριβῶς οἴδατε ὅτι ἡ ἡμέρα Κυρίου ὡς κλέπτης ἐν νυκτὶ οὕτως ἔρχεται·(Προσ Θεσσαλονικεισ Α 5:2)
Um ladrão não avisa. A conclusão que o próprio Paulo tira disso, em 1 Tessalonicenses 5:4-6, não é "calculem melhor", mas "vigiem e sejam sóbrios". Toda vez que alguém marcou data para o arrebatamento ao longo da história — e isso aconteceu muitas vezes —, estava indo contra o texto que dizia defender.
O que a Bíblia não fixa é a data. O que os cristãos discutem é outra coisa: a posição do arrebatamento em relação a um período de grande sofrimento que Jesus descreve em Mateus 24:21 e que a tradição chama de Grande Tribulação. Aqui há três correntes principais, e todas três nascem dentro do dispensacionalismo, isto é, já pressupõem que o arrebatamento e a segunda vinda são eventos separados.
O pré-tribulacionismo entende que a igreja é arrebatada antes da tribulação. É a visão mais conhecida no Brasil, divulgada por livros, filmes e por muitas igrejas pentecostais e batistas. O argumento principal é que a igreja é poupada da ira que vem sobre o mundo, com base em textos como 1 Tessalonicenses 1:10 e Apocalipse 3:10.
O meso-tribulacionismo coloca o arrebatamento no meio desse período, geralmente ligando a "última trombeta" de 1 Coríntios 15:52 à sétima trombeta de Apocalipse 11:15.
O pós-tribulacionismo entende que a igreja passa pela tribulação e é arrebatada no fim dela, no momento da volta visível de Cristo. Quem defende essa posição aponta que Mateus 24:29-31 descreve a trombeta e o ajuntamento dos eleitos depois da tribulação, e que em 2 Tessalonicenses 2:1-3 Paulo diz que a vinda do Senhor e "a nossa reunião com ele" não acontecem antes que venha a apostasia e se revele o "homem do pecado".
Isso aqui é importante: a terceira posição, na prática, se encontra com a leitura histórica da igreja. Para católicos, ortodoxos, luteranos, reformados e muitos evangélicos que não são dispensacionalistas, nem faz sentido perguntar "antes, no meio ou depois", porque o arrebatamento não é um evento à parte. 1 Tessalonicenses 4 descreve a segunda vinda vista pelo ângulo de quem é recolhido; Mateus 24, a mesma vinda vista pelo ângulo do mundo. Um evento, duas descrições.
A ideia de um arrebatamento secreto, separado da volta pública de Cristo por um intervalo de sete anos, foi sistematizada por John Nelson Darby, na Inglaterra e Irlanda, por volta de 1830, e chegou ao grande público pela Bíblia de Referência Scofield, de 1909. Isso não a torna falsa — uma leitura pode ser tardia e verdadeira —, mas quem a sustenta precisa saber que está sustentando uma interpretação, não repetindo um versículo. A tradição evangélica histórica, da qual este artigo parte, abriga pessoas sinceras nos dois lados, e o próprio texto de Paulo não pune ninguém por discordar sobre cronologia; pune, isso sim, quem perde a esperança.
O que essa esperança muda hoje
Se o arrebatamento aparece na Bíblia como consolo para enlutados e como razão para vigilância, é nesses dois lugares que ele toca a vida de quem procurou este texto.
No luto, a passagem diz algo muito concreto: os que morreram em Cristo não estão em desvantagem. Paulo não oferece uma frase bonita sobre a pessoa "estar em paz"; ele oferece uma sequência de eventos em que o morto se levanta primeiro. Quem perdeu alguém que cria em Jesus pode ler 1 Tessalonicenses 4 como foi escrito para ser lido: uma carta a uma igreja pequena que não sabia o que tinha acontecido com os seus, respondida com "eles vão à frente".
Na vigilância, a ordem de Jesus em Mateus 24:42 é "vigiai", e não "calculai". Vigiar, no sentido bíblico, não é ficar olhando o noticiário atrás de sinais; é viver de um jeito que não precisaria ser mudado às pressas se o Senhor chegasse hoje. Em 1 Tessalonicenses 5:6-8, Paulo traduz isso em coisas simples — sobriedade, fé, amor, esperança —, e nada ali depende de acertar em qual lado da tribulação a igreja estará.
Há ainda um terceiro efeito, mais discreto. A certeza de que a história tem fim e de que esse fim é Cristo tira o peso de resolver tudo agora. O cristão trabalha, cuida da família, enfrenta a injustiça — mas não como quem carrega o mundo sozinho. O desfecho já tem nome: "e assim estaremos sempre com o Senhor". É para esse "sempre" que o texto aponta, não para um calendário.
Antes de tomar partido em qualquer debate sobre cronologia, vale ler a passagem inteira, do versículo 13 ao 18, no ritmo em que Paulo a escreveu — começando pela tristeza e terminando no consolo: 1 Tessalonicenses 4.
Arrebatamento e segunda vinda de Cristo são a mesma coisa?
Depende da corrente. Para o dispensacionalismo, são dois eventos: o arrebatamento recolhe a igreja, e a segunda vinda, tempos depois, é a volta visível de Cristo para julgar e reinar. Para a leitura histórica da igreja — católica, ortodoxa, luterana, reformada e de boa parte dos evangélicos —, 1 Tessalonicenses 4 descreve a própria segunda vinda, vista pelo ângulo de quem é recolhido. O texto bíblico não usa a palavra "arrebatamento" como nome de um evento separado.
A palavra "arrebatamento" aparece na Bíblia?
O verbo aparece. Em 1 Tessalonicenses 4:17, Paulo escreve que "seremos arrebatados" (em grego, harpazo; em latim, rapiemur), e as traduções em português trazem essa forma. O que não aparece é o substantivo "arrebatamento" como nome técnico de uma doutrina; esse uso veio da tradição cristã a partir do texto de Paulo.
Quem será arrebatado?
Paulo fala de dois grupos: "os mortos em Cristo", que ressuscitam primeiro, e "nós, os que ficarmos vivos", os cristãos vivos naquele momento, que são transformados. O critério, nas palavras dele, é estar "em Cristo". A passagem não fala de crianças, de pessoas que nunca ouviram o evangelho nem de quem viveu antes de Cristo; para essas perguntas, outros textos entram na discussão, e as respostas variam entre as correntes.
O arrebatamento vai ser secreto?
A ideia de um arrebatamento invisível, em que as pessoas simplesmente desaparecem, é própria do pré-tribulacionismo e foi muito divulgada por livros e filmes. O texto de Paulo, porém, descreve brado, voz de arcanjo e trombeta de Deus — sons, não silêncio. Quem lê 1 Tessalonicenses 4 como a segunda vinda entende que o evento é público, como em Mateus 24:30-31. Quem o lê como evento separado costuma explicar que os sons são ouvidos pela igreja, não pelo mundo.
A Grande Tribulação acontece antes ou depois do arrebatamento?
A Bíblia não responde isso diretamente, e é por isso que existem três correntes: pré-tribulacionismo (a igreja é arrebatada antes), meso-tribulacionismo (no meio) e pós-tribulacionismo (no fim, junto com a volta visível de Cristo). A leitura histórica da igreja, que não separa arrebatamento e segunda vinda, coincide na prática com a terceira. Cristãos sérios defendem cada uma delas com base em passagens diferentes.
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