50 dias depois da Páscoa: o significado do Pentecostes
O que significa Pentecostes
Pentecostes é o nome grego de uma festa judaica, a Festa das Semanas (Shavuot, em hebraico), que caía cinquenta dias depois da Páscoa e fechava a colheita do trigo em Israel. Para os cristãos, a palavra passou a significar outra coisa: o dia em que, nessa mesma festa, cinquenta dias depois de Jesus ter morrido na Páscoa, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos reunidos em Jerusalém.
Os dois sentidos não competem. O segundo foi plantado dentro do primeiro de propósito: Deus escolheu o dia da colheita para começar a sua.
Lucas abre o relato assim, com uma data do calendário judaico, como quem diz "era feriado". Quem lia a frase no primeiro século sabia na hora o que aquele feriado celebrava. É isso que o resto desta página recupera.
De onde vem o nome e por que são 50 dias
A palavra vem do grego pentēkostē, que quer dizer simplesmente "quinquagésimo". Os judeus que falavam grego chamavam a festa de "o quinquagésimo dia", e o nome pegou. Em hebraico ela se chama Shavuot, "semanas", e a Bíblia a chama também de festa da sega, ou da colheita, e dia das primícias (Êxodo 23:16; Números 28:26).
Os dois nomes, "semanas" e "quinquagésimo", vêm da mesma conta, que está em Levítico 23:
Olha o que está acontecendo aqui. Durante a semana da Páscoa, o israelita levava ao sacerdote o primeiro feixe da colheita de cevada, que amadurece primeiro. A partir daí ele contava sete semanas inteiras, quarenta e nove dias. No dia seguinte, o quinquagésimo, vinha a nova festa.
Então Pentecostes não é uma festa com data própria. É uma festa que depende da Páscoa: ela nasce de uma contagem que começa ali. Vale guardar isso, porque é exatamente o que Lucas aproveita em Atos.
Como a festa era celebrada no Antigo Testamento
Shavuot era, antes de tudo, uma festa de lavrador. A Páscoa abria a colheita com a cevada; sete semanas depois, o trigo estava maduro e sendo recolhido. Pentecostes marcava o fim desse trabalho.
O ponto central da celebração era levar a Deus as primícias, a primeira parte do que se colheu, antes de usar o resto. Levítico 23:17 manda oferecer dois pães feitos da farinha nova, e repara no detalhe: pães levedados, com fermento, diferente da Páscoa. Era pão de festa, pão comum de casa, feito do trigo daquele ano (Levítico 23).
Shavuot era também uma das três festas de peregrinação. Deuteronômio 16:16 manda que todo homem israelita subisse ao santuário três vezes por ano: Páscoa, Semanas e Tabernáculos. Por isso Jerusalém estava cheia em Atos 2. Ninguém precisou convocar aquela multidão; ela já estava lá, por obrigação religiosa, vinda de toda parte.
E tinha um lado social que costuma passar despercebido. Em Deuteronômio 16:11-12, a ordem é alegrar-se diante de Deus junto com o filho, a filha, o servo, o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva. E o motivo vem logo em seguida: "lembrar-te-ás de que foste servo no Egito". A festa da colheita era também a festa de quem não tem colheita. Quem foi escravo e agora é dono de trigo não pode esquecer de quem ainda está de fora da mesa (Deuteronômio 16).
Pentecostes e a entrega da Lei no Sinai
Aqui é preciso separar bem o que a Bíblia diz do que a tradição acrescentou.
A tradição judaica, já bem formada nos séculos depois de Cristo, celebra Shavuot como o dia em que Deus entregou a Lei a Moisés no Sinai. Isso é tradição: a Lei de Moisés nunca liga a festa das Semanas ao Sinai. Em Levítico e Deuteronômio, Shavuot é colheita e primícias, e só.
Mas a tradição não saiu do nada. Êxodo 19:1 diz que Israel chegou ao deserto do Sinai "ao terceiro mês" da saída do Egito. A Páscoa foi no primeiro mês; sete semanas depois cai justamente no terceiro. A conta fecha de perto, e foi por isso que a leitura se firmou (Êxodo 19).
Por que isso importa para quem lê Atos 2? Porque no Sinai, Deus desce com fogo, estrondo e uma voz que o povo inteiro escuta (Êxodo 19:16-18). Em Atos 2, há um som como de vento forte, fogo e vozes que cada um entende. Muitos intérpretes, judeus e cristãos, veem aí um eco deliberado: no Sinai, Deus escreveu a Lei em pedra; em Pentecostes, começou a escrevê-la em gente. Paulo diz quase isso em 2 Coríntios 3:3.
É uma leitura bonita e tem bases, mas é bom ser honesto: Lucas não faz essa ligação por escrito. Ele dá a data e deixa que o leitor que conhece a festa junte as pontas.
Da Páscoa ao Pentecostes: a linha que liga as duas datas
Agora a parte que o título desta página pede: por que "50 dias depois da Páscoa" não é um detalhe de agenda.
Jesus morreu na semana da Páscoa. Paulo diz sem rodeio que ele é "nossa Páscoa", sacrificado por nós (1 Coríntios 5:7). E, ressuscitado no domingo em que se oferecia o primeiro feixe da colheita, ele é chamado de "primícias dos que dormem" (1 Coríntios 15:20). As imagens da festa estão todas ali.
Depois da ressurreição, Jesus apareceu aos discípulos durante quarenta dias (Atos 1:3). Antes de subir ao céu, mandou que ficassem em Jerusalém e esperassem a promessa: seriam batizados com o Espírito Santo "não muito depois destes dias" (Atos 1:4-5). Eles esperaram dez dias. Quarenta mais dez: cinquenta. O Espírito veio no dia exato em que o calendário de Israel celebrava a colheita e as primícias.
Vale notar que o próprio Jesus já tinha explicado a ordem dos fatos. O Espírito não viria antes de ele ser glorificado (João 7:39); era preciso ele ir para que o Consolador viesse (João 16:7). Páscoa, ressurreição, ascensão, Espírito. A sequência de Atos não é acidente histórico. É a mesma sequência que a festa já ensaiava há mais de mil anos: primeiro o cordeiro e o primeiro feixe, depois a colheita inteira.
O que aconteceu no dia de Pentecostes em Atos 2
Lucas conta em poucos versículos. Os discípulos, uns cento e vinte segundo Atos 1:15, estavam reunidos em Jerusalém de manhã (Pedro vai dizer que era a terceira hora, nove horas). De repente veio um som do céu, como de um vento forte, e encheu a casa. Apareceram línguas como de fogo, que se dividiram e pousaram sobre cada um deles. E então:
Repara em dois detalhes do texto. Primeiro, é sobre "cada um", não sobre o grupo em bloco: o fogo se reparte. Segundo, o que eles falam são "outras línguas", e os versículos seguintes esclarecem quais: idiomas humanos, de verdade, que os peregrinos reconheciam como a língua em que nasceram.
Porque era Pentecostes, Jerusalém estava cheia de judeus e convertidos vindos de fora. Lucas lista quinze lugares de onde eles tinham vindo, da Pártia à Roma, passando pelo Egito e pela Arábia, e todos ouvem "as grandezas de Deus" na própria língua (Atos 2). A reação é a esperada: espanto em alguns, zombaria em outros. "Estão cheios de vinho", dizem (Atos 2:13).
O que Pedro explicou à multidão
Pedro se levanta com os outros onze e faz o primeiro sermão cristão. A estrutura dele é simples, e vale a pena acompanhar, porque é assim que o próprio Novo Testamento interpreta o Pentecostes.
Primeiro, ele diz o que aquilo é: o cumprimento de Joel 2:28-32, a promessa de que Deus derramaria o seu Espírito "sobre toda a carne", filhos e filhas, velhos e jovens, servos e servas (Atos 2:16-21). O Espírito, que no Antigo Testamento vinha sobre profetas, reis e juízes escolhidos, agora vem sobre o povo inteiro. É a profecia de Joel que explica por que o fogo pousou sobre cada um.
Depois, ele fala de Jesus: um homem que fez sinais entre eles, que eles entregaram para ser crucificado, e a quem Deus ressuscitou, como Davi já tinha anunciado no Salmo 16 (Atos 2:22-32). E então ele junta as duas coisas, a ressurreição e o que a multidão está vendo:
Isso aqui é importante. Para Pedro, o Pentecostes é prova da ascensão. O Espírito derramado é o sinal visível de que Jesus está vivo e à direita de Deus. Dali ele conclui com o Salmo 110: Deus fez de Jesus "Senhor e Cristo" (Atos 2:36). Jesus é o Messias, e a evidência está no que a multidão acabou de ouvir.
A multidão pergunta o que fazer. Pedro responde: arrependei-vos, sejam batizados em nome de Jesus para o perdão dos pecados, e vocês também receberão o Espírito Santo (Atos 2:38). O resultado é a primeira colheita:
No dia em que Israel levava ao templo os pães das primícias, três mil pessoas se tornam as primícias de um povo novo. Lucas não escreve "vejam a coincidência". Ele só conta, e deixa a data falar.
Por que o Espírito veio justamente no Pentecostes
Dá para juntar o que a festa celebrava com o que aconteceu nela, e ver por que o dia foi esse e não outro.
Era o dia da colheita e das primícias. Jesus ressuscitou como primícias; em Pentecostes, veio o primeiro ajuntamento da colheita que ele plantou. As três mil pessoas são o primeiro feixe de uma lavoura que ainda está sendo recolhida. É por isso que Atos 2 é lido, na teologia evangélica histórica e em quase toda a tradição cristã, como o nascimento da Igreja: não como instituição nova, mas como o povo de Deus agora habitado por Deus.
Era a festa de todo o povo, de qualquer lugar. A festa trazia judeus de toda parte do império; Joel prometia Espírito "sobre toda a carne". Muitos intérpretes veem em Atos 2 também o contrário de Babel (Gênesis 11): lá, a língua se confunde e a humanidade se espalha; aqui, cada um entende, e a mensagem alcança todos. Isso é interpretação, e Lucas não escreve a palavra Babel, mas o paralelo é antigo e é difícil não vê-lo.
Era, para a tradição, o dia da Lei. Se Shavuot lembrava o Sinai, então Pentecostes é o dia em que Deus passa a fazer por dentro o que a Lei exigia por fora. Isso o Antigo Testamento tinha prometido, e aqui já não é tradição, é texto:
Jeremias 31:33 diz o mesmo de outro jeito: a Lei escrita no coração. Pentecostes é o dia em que essa promessa deixa de ser futuro.
Uma observação honesta para fechar esta parte. Os cristãos concordam que Atos 2 é o dom do Espírito à Igreja. Onde há diferença legítima é sobre o que o relato ensina para hoje: as igrejas pentecostais leem Atos 2 como um padrão a ser repetido na experiência de cada cristão, com o falar em línguas como sinal; a maior parte da tradição evangélica histórica lê o episódio como um acontecimento único e fundador, cujos efeitos (o Espírito em todo crente) continuam, sem que os sinais precisem se repetir. As duas leituras existem dentro da fé cristã e as duas tomam o texto a sério.
Leia Atos 2 completo
Lucas começou o relato com uma data, e é por ela que tudo se encaixa: "ao cumprir-se o dia de Pentecostes". Não um dia qualquer, mas o quinquagésimo depois da Páscoa, o dia da colheita e das primícias, com a cidade cheia de gente de todo lugar. Com isso em mente, leia Atos 2 completo, do som do vento até os três mil, e repare como cada parte do capítulo conversa com a festa que estava sendo celebrada naquela manhã.
Pentecostes é o aniversário da Igreja?
É assim que a maior parte da tradição cristã entende Atos 2, e com razão: foi o dia em que o Espírito Santo passou a habitar o povo de Jesus e em que as primeiras três mil pessoas creram e foram batizadas. Mas vale a precisão: a Bíblia não usa a expressão "nascimento da Igreja". É uma forma de resumir o que o texto mostra, não uma frase do texto.
Quando o Pentecostes é celebrado hoje?
Nas igrejas cristãs, o Domingo de Pentecostes cai sete semanas depois do Domingo de Páscoa, o quinquagésimo dia contando a Páscoa como primeiro. Na tradição judaica, Shavuot cai no dia 6 do mês de Sivã, no fim da primavera do hemisfério norte. Como os dois calendários são diferentes, as datas nem sempre coincidem.
As línguas de Atos 2 eram idiomas ou línguas estranhas?
Em Atos 2, eram idiomas humanos: Lucas diz que cada peregrino ouvia "na própria língua em que nasceu" e lista as regiões de onde eles vinham (Atos 2:6-11). Se isso é o mesmo fenômeno que Paulo discute em 1 Coríntios 12-14 é uma questão em que os cristãos divergem; o que Atos 2 descreve, porém, são línguas reconhecíveis.
Shavuot e Pentecostes são a mesma festa?
Sim. Shavuot é o nome hebraico ("semanas") e Pentecostes é o nome grego ("quinquagésimo") da mesma festa de Levítico 23:15-21. Para os judeus ela continua sendo a festa da colheita e, na tradição, da entrega da Lei. Para os cristãos, o nome ficou ligado ao que aconteceu nessa festa em Atos 2.
Qual é a diferença entre Pentecostes e pentecostal?
Pentecostes é o dia bíblico, a festa e o acontecimento de Atos 2. "Pentecostal" é o nome dado, a partir do início do século XX, às igrejas que enfatizam a experiência do Espírito Santo com os sinais de Atos 2, especialmente o falar em línguas. Todas as igrejas cristãs celebram ou reconhecem o Pentecostes; nem todas são pentecostais.
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