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O que Jesus ensina sobre perdoar 70 vezes 7?

Por Bíblia Online  - 

O perdão é uma das dinâmicas mais desafiadoras das relações humanas. Quando somos feridos, traídos ou injustiçados, o nosso impulso natural é a autoproteção através do ressentimento ou a busca por justiça por meio da vingança. Estabelecer limites para a nossa tolerância parece uma atitude prudente e justa. No entanto, quando olhamos para as exigências do Evangelho, deparamo-nos com uma lógica que confronta diretamente o nosso senso natural de justiça: a matemática do perdão que não tem fim.

Ao ser questionado sobre o limite da paciência humana, Jesus de Nazaré introduziu uma resposta que chocou os Seus ouvintes e continua a desafiar a nossa sociedade até hoje. Ao ordenar que se perdoe "setenta vezes sete", o Messias não estava propondo uma contagem aritmética rigorosa, mas revelando que, no Reino de Deus, a misericórdia deve ser incalculável, contínua e terapêutica. O perdão, nos ensinamentos de Jesus, deixa de ser uma barganha de méritos e passa a ser uma necessidade vital para a saúde da alma.

Neste estudo focado nos ensinamentos de Jesus, vamos analisar o contexto cultural desse diálogo icônico, decifrar o real significado dessa matemática espiritual e compreender como aplicar o perdão em nossa vida prática diária.

O contexto cultural dos limites rabínicos para o perdão

Para entender a magnitude da resposta de Jesus, precisamos olhar para as regras e tradições religiosas que vigoravam na Judeia do primeiro século. Os rabinos da época debatiam intensamente sobre a ética das relações e haviam estabelecido um consenso teológico baseado em livros e interpretações da tradição judaica. A regra geral ensinada nas sinagogas estipulava que um homem era obrigado a perdoar o seu próximo até três vezes pelo mesmo erro.

A partir da quarta ofensa, o ofendido estava legalmente e moralmente desobrigado de estender misericórdia; a partir dali, a retribuição e o julgamento eram considerados justos. Foi com essa mentalidade que o apóstolo Pedro aproximou-se de Jesus. Querendo parecer extremamente generoso, espiritual e avançado em relação aos fariseus, Pedro dobrou a meta rabínica e sugeriu: "Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?" (Mateus 18:21). Sete era considerado o número da perfeição. Pedro achou que estava demonstrando uma misericórdia extraordinária, até ouvir a resposta do Mestre.

Explicação bíblica: A quebra dos limites e a parábola do credor incompassivo

A resposta de Jesus a Pedro desconecta o perdão de qualquer tabela humana e o ancora na imensidão da graça divina, conforme registrado no Evangelho de Mateus.

1. Desfazendo a contagem: "Setenta vezes sete"

Jesuo diris al li: Mi ne diras al vi: Ĝis sep fojoj; sed: Ĝis sepdekoble sep fojoj.

Ao multiplicar 70x7 (o que resulta em 490), Jesus faz uma alusão intencional a um texto do Antigo Testamento (Gênesis 4:24), onde Lameque, um descendente de Caim, profetiza uma vingança sem limites: "Se Caim há de ser vingado sete vezes, com certeza Lameque o será setenta vezes sete".

Jesus inverte a lógica de Lameque. Ele está dizendo que, se a cultura humana é capaz de multiplicar o ódio, a vingança e a amargura de forma geométrica, os cidadãos do Reino de Deus devem multiplicar a misericórdia na mesma proporção. "Setenta vezes sete" significa que o perdão deve ser infinito, concedido tantas vezes quantas forem necessárias, eliminando qualquer possibilidade de mantermos um caderno de contabilidade de mágoas.

2. A parábola da dívida impagável

Para ilustrar a razão teológica dessa exigência, Jesus conta a parábola de um rei que decidiu ajustar contas com os seus servos. Foi trazido à sua presença um homem que lhe devia dez mil talentos (Mateus 18:24).

No primeiro século, um único talento equivalia a cerca de 20 anos de salário de um trabalhador comum. Portanto, dez mil talentos era uma quantia astronômica, uma dívida absolutamente impagável que representava bilhões em valores atuais. O servo, prostrado, implorou por paciência. Movido por íntima compaixão, o rei fez algo revolucionário: não apenas deu mais prazo, mas perdoou inteiramente a dívida.

3. A incoerência da falta de misericórdia

A reviravolta da narrativa ocorre quando esse mesmo servo, saindo da presença do rei, encontra um conservo que lhe devia cem denários, o equivalente a cerca de três meses de trabalho. Uma dívida real, mas perfeitamente pagável.

Sed elirinte, tiu servisto trovis kunserviston, kiu ŝuldis al li cent denarojn; kaj li kaptis kaj eksufokis lin, dirante: Pagu tion, kion vi ŝuldas. Sed li ne volis; sed foriris kaj ĵetis lin en malliberejon, ĝis li pagos tion, kio estas ŝuldata.

Quando o rei soube da atitude cruel daquele homem, chamou-o de "servo mau" e entregou-o aos atormentadores até que pagasse tudo. Jesus conclui a explicação com uma advertência solene: "Assim vos fará também meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas" (Mateus 18:35). O ensinamento é claro: quem experimentou o perdão vertical de uma dívida impagável diante de Deus não tem o direito de reter o perdão horizontal nas ofensas infinitamente menores cometidas por seres humanos.

Conclusão e aplicação para a vida prática

O ensinamento de Jesus sobre perdoar setenta vezes sete nos mostra que o perdão não é um sentimento opcional para o cristão, mas um mandamento vital. O perdão bíblico não significa amnésia psicológica (esquecer o fato) ou a obrigação de manter uma convivência íntima com quem é abusivo ou perigoso. Perdoar é uma decisão jurídica da vontade: significa abrir mão do direito de vingança, cancelar a dívida emocional na sua contabilidade pessoal e entregar o julgamento nas mãos de Deus.

Para aplicar a matemática do perdão na sua rotina diária, pratique estas três ações:

  • Feche o caderno de contabilidade das mágoas: Pare de reviver conversas antigas, de colecionar ressentimentos de anos passados e de usar erros antigos do seu cônjuge, familiares ou colegas de trabalho como armas em discussões atuais. Rasgue a lista. Quem conta quantas vezes perdoou ainda não aprendeu a perdoar como Jesus ensinou.

  • Reconheça a sua própria dívida perdoada: Toda vez que for difícil liberar o perdão para alguém, lembre-se da parábola dos dez mil talentos. Olhe para a cruz do Calvário e reconheça o tamanho da dívida espiritual que Deus já cancelou na sua vida. Nós perdoamos os outros não porque eles merecem, mas porque nós fomos perdoados primeiro por Deus.

  • Perdoe para libertar a sua própria alma: O ressentimento é um veneno que nós bebemos esperando que o outro morra. Quando você retém o perdão, você se torna o servo entregue aos "atormentadores" que, na vida real, manifestam-se como ansiedade, amargura, estresse e dores físicas. Perdoar é abrir a cela da prisão e descobrir que o prisioneiro que estava trancado lá dentro era você mesmo.

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