O que Jesus ensina sobre perdoar 70 vezes 7?
O que significa perdoar setenta vezes sete
Jesus ensina que o perdão não tem limite numérico, cota máxima nem prazo de validade. Ao responder a Pedro que se deve perdoar até setenta vezes sete, Cristo elimina qualquer tentativa de manter um cálculo de ofensas e revela que a misericórdia entre os discípulos precisa ser inesgotável.
A pergunta de Pedro em Mateus 18:21 refletia o costume religioso da época. A tradição rabínica ensinava que uma pessoa era obrigada a perdoar o mesmo ofensor até três vezes; a partir da quarta ofensa, a obrigação cessava e a punição era considerada legítima. Ao sugerir perdoar até sete vezes, Pedro julgava estar demonstrando uma generosidade extraordinária, dobrando o padrão rabínico e utilizando o número tradicionalmente ligado à perfeição.
E Jesus lhe respondeu: "Não te direi até sete vezes; mas, sim, até setenta vezes sete".(Mateus 18:22)
A resposta de Jesus quebra a lógica aritmética. O objetivo não é substituir o número três por 490 para autorizar o rancor na ofensa de número 491, mas ensinar que o perdão genuíno não mantém registro de contabilidade.
A inversão da vingança de Lameque
O número empregado por Jesus resgata uma referência do Antigo Testamento. Em Gênesis 4:24, Lameque, descendente de Caim, vangloriou-se diante de suas esposas de que exerceria uma vingança sem limites: se Caim seria vingado sete vezes, ele se vingaria setenta vezes sete.
Jesus toma essa mesma fórmula para transformá-la por completo. Se a natureza humana caída multiplica o ódio, o ressentimento e a retaliação de forma desmedida, os membros do Reino de Deus devem multiplicar a misericórdia na mesma proporção. A vingança sem limites dá lugar à disposição contínua de reconciliação.
A dívida impagável e o credor sem compaixão
Para fundamentar essa postura, Jesus contou a parábola de um rei que decidiu acertar contas com seus servos. Em Mateus 18:24, trouxeram-lhe um homem que lhe devia dez mil talentos.
No mundo antigo, um único talento representava milhares de dias de trabalho — cerca de vinte anos de salário de um trabalhador comum. Dez mil talentos era uma quantia astronômica, humanamente impossível de ser quitada. Diante do desespero do servo, o rei foi movido de íntima compaixão e cancelou inteiramente a dívida.
Contudo, ao sair dali, esse mesmo homem encontrou um companheiro que lhe devia cem denários — quantia equivalente a aproximadamente três meses de serviço — e recusou-se a estender-lhe a mesma graça.
Entretanto, saindo aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe estava devendo cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, esbravejando: ‘Paga-me o que me deves!’ Mas, ele não queria acordo. Ao contrário, foi e mandou lançar seu conservo devedor na prisão, até que toda a dívida fosse saldada.(Mateus 18:28,30)
A comparação entre as duas quantias evidencia o contraste central da passagem:
A dívida vertical com Deus é impagável por esforço próprio, mas foi perdoada pela soberana misericórdia do Senhor.
A dívida horizontal com o próximo diz respeito a erros humanos reais, mas ínfimos em comparação com a dívida cósmica que Deus já perdoou.
Ao tomar conhecimento da crueldade do servo, o senhor entregou-o aos verdugos até que pagasse tudo. Em Mateus 18:35, Jesus adverte que o Pai celestial agirá da mesma forma com quem não perdoar seu irmão de coração. Reter o perdão revela que a pessoa ainda não compreendeu o peso da graça que recebeu.
O perdão bíblico na prática
O mandamento de perdoar sem limites define a postura do cristão diante das ofensas cotidianas:
Abrir mão do direito de retaliação: Perdoar significa cancelar a cobrança da dívida emocional e renunciar à vingança, entregando o julgamento final a Deus.
Destruir o registro de acusações: Quem anota quantas vezes foi ferido para usar o histórico como arma em discussões futuras ainda está preso à lógica dos limites rabínicos.
Distinguir perdão de convivência desprotegida: O perdão bíblico é uma atitude interior do coração exigida de imediato, mas a restauração da confiança em casos de agressão ou abuso depende de arrependimento manifesto, reparação e prudência.
Perdoar setenta vezes sete não nasce da capacidade do ofendido em ignorar a dor, mas do reconhecimento de que todo discípulo vive sob a sombra de uma dívida imensamente maior já cancelada por Deus em Mateus 18.
Este artigo te tocou? Faça uma oração!
+581 estão orando agora.
Junte-se à corrente de oração.