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Jesus e o perdão: o que significa perdoar setenta vezes sete

Mulher de suéter laranja e jeans rasgado, com as mãos juntas, em pé sobre trilhos de trem.

Setenta vezes sete: o perdão que não tem cota

Quando Pedro perguntou a Jesus quantas vezes devia perdoar o irmão, e sugeriu sete, Jesus respondeu com um número que ninguém consegue acompanhar: setenta vezes sete. Não é uma conta nova no lugar da antiga. É o fim da conta. No ensino de Jesus, perdoar não é algo que se mede — e quem ainda está contando ainda não perdoou.

Då kom Petrus fram och frågade Jesus: "Herre, hur många gånger ska min broder kunna synda mot mig och få min förlåtelse? Upp till sju gånger?" Jesus sade till honom: "Jag säger dig: Inte sju gånger utan sjuttio gånger sju.(Matteusevangeliet 18:21,22)

Vale ver o que vinha antes. Logo acima, em Mateus 18:15-17, Jesus explica o que fazer quando um irmão peca contra alguém: ir falar com ele a sós; se não resolver, levar testemunhas; se ainda não resolver, apresentar o caso à comunidade. Pedro ouve isso e faz a pergunta de quem vive no mundo real: tudo bem, mas até quando? Quantas vezes esse ciclo se repete antes de eu poder desistir da pessoa?

A oferta de Pedro era generosa para a época. Costuma-se apontar que o ensino rabínico, apoiado em Amós 1:3 ("por três transgressões... e por quatro"), fixava em três o número de vezes que se devia perdoar a mesma pessoa pela mesma ofensa — na quarta, a obrigação acabava. Pedro dobra isso e ainda acrescenta um. Sete, além do mais, era o número da completude. Ele achava que estava sendo largo.

Jesus responde com uma expressão que em grego é ambígua: hebdomēkontakis hepta. Dá para ler como "setenta vezes sete" (490), que é como traduzem a Almeida Revista e Corrigida e a Almeida Revista e Atualizada, ou como "setenta e sete vezes", opção da Nova Versão Internacional. A diferença entre 77 e 490 não muda o ponto. Nos dois casos o número é absurdo para quem quer saber onde parar — e é exatamente isso que Jesus quer que fique claro.

A conta de Lameque, virada do avesso

A escolha das palavras não é por acaso. Em Gênesis 4:24, Lameque, descendente de Caim, se gaba: se Caim seria vingado sete vezes, ele seria vingado "setenta vezes sete". É a mesma expressão, e a tradução grega do Antigo Testamento que circulava no tempo de Jesus usa as mesmas palavras.

Lameque fala de vingança sem teto: quem mexer comigo paga muito mais do que fez. Jesus pega a frase de Lameque e inverte o sinal. O que não tem teto agora é o perdão. Onde a humanidade de Gênesis 4 escalava a violência, o discípulo de Jesus escala a graça.

Pedro queria saber o limite para poder parar. Jesus mostra que a pergunta certa nunca foi "quantas vezes" — e explica por quê contando uma história.

A parábola do servo que não perdoou

A resposta a Pedro continua em Mateus 18:23-35. Um rei resolve acertar as contas com seus servos. Trazem um que deve dez mil talentos e não tem como pagar. O rei manda vender o homem, a mulher e os filhos. O servo se joga no chão e pede prazo. O rei, movido de compaixão, faz muito mais do que dar prazo: perdoa a dívida inteira.

Esse mesmo servo sai do palácio e encontra um companheiro que lhe deve cem denários. Agarra o homem pelo pescoço e exige o dinheiro. O outro cai de joelhos e usa quase as mesmas palavras que ele acabou de usar diante do rei. Não adianta: ele o manda para a prisão até pagar.

Homem de túnica azul agarra a roupa de outro, ajoelhado de mãos abertas, diante de um portão.

Os outros servos veem a cena e contam ao rei. O rei chama o homem de volta e pergunta a única coisa que importa: eu te perdoei tudo aquilo, e você não conseguiu perdoar isto? E o entrega aos carrascos.

O tamanho das duas dívidas

Olha os números, porque Jesus os escolheu com cuidado. Um denário era a diária de um trabalhador braçal. Cem denários eram uns três meses de salário — uma dívida real, que incomoda, mas que se paga. Um talento valia cerca de seis mil denários. Dez mil talentos dão sessenta milhões de denários: sessenta milhões de dias de trabalho, algo como duzentos mil anos de salário. Para dar uma noção, o historiador judeu Flávio Josefo registra o tributo anual de regiões inteiras na casa das centenas de talentos, não dos milhares.

Ou seja: a primeira dívida é impagável por definição. Ninguém na plateia de Jesus imaginava um servo devendo isso — era um número para fazer rir pelo exagero, e para fazer pensar. A segunda é uma dívida de gente comum. A proporção entre as duas é de um para seiscentos mil.

É esse contraste que carrega a parábola. O homem que foi perdoado de uma dívida que valia um reino não conseguiu soltar uma dívida que valia um trimestre. O problema dele não é falta de generosidade. É que ele saiu do palácio sem entender o que havia acontecido ali.

O que a parábola está dizendo sobre o perdão de Deus

A Bíblia coloca o perdão entre as pessoas dentro de uma moldura maior: antes de qualquer um de nós ter alguém para perdoar, nós mesmos fomos perdoados de algo que não tínhamos como pagar. É esse o lugar do leitor na história — não o do rei, não o do segundo servo, mas o do primeiro, saindo do palácio com a dívida zerada.

Por isso Jesus não responde a Pedro com um número maior. Quem entende o tamanho do que recebeu perde o interesse em contar o que oferece. E quem continua contando, segundo a parábola, está mostrando que ainda não entendeu o que recebeu. Jesus volta a essa lógica em Lucas 7:47: a quem muito se perdoa, muito ama; a quem pouco se perdoa, pouco ama.

O que acontece com quem não perdoa

Jesus fecha a parábola com uma frase dura, e não suaviza:

Så ska också min himmelske Far göra med er, om ni inte var och en av hjärtat förlåter er broder."(Matteusevangeliet 18:35)

"De coração" é a chave. O rei não cobra do servo um gesto público nem um papel assinado; cobra o que ele faz com a dívida do outro quando ninguém está olhando. Perdão, aqui, não é discurso. É soltar a cobrança por dentro.

E essa não é a única vez que Jesus liga o perdão que damos ao perdão que recebemos. No Sermão do Monte, logo depois de ensinar o Pai Nosso — onde a única petição que vem com uma comparação é "perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores" —, ele acrescenta:

För om ni förlåter människorna deras överträdelser, ska er himmelske Far också förlåta er. Men om ni inte förlåter människorna, ska inte heller er Far förlåta era överträdelser.(Matteusevangeliet 6:14,15)

Em Marcos 11:25 a ideia aparece de novo, ligada à oração: quando a pessoa for orar, se tiver algo contra alguém, que perdoe, para que o Pai a perdoe. E em Lucas 6:37: não julgueis, não condeneis, perdoai — e sereis perdoados.

Isso quer dizer que o perdão de Deus se compra perdoando?

Essa é a objeção óbvia, e ela merece resposta direta. Se Deus só perdoa quem perdoa, então o perdão de Deus seria um pagamento pelo meu esforço — o que contradiz tudo o que o Novo Testamento diz sobre a graça.

A tradição evangélica histórica lê esses textos de outro jeito, e a própria parábola mostra o caminho: o rei perdoou primeiro. O servo não foi perdoado porque perdoou; ele foi perdoado antes de fazer qualquer coisa, e o que se cobrou dele depois foi coerência com o que recebeu. Nessa leitura, o perdão ao próximo não é a causa do perdão de Deus — é a evidência dele. Quem recusa perdoar está dizendo, com a vida, que nunca se viu como alguém perdoado.

Vale ser honesto: há cristãos que leem Mateus 6:15 e 18:35 de forma mais literal, como uma advertência de que o perdão de Deus pode ser efetivamente retirado de quem endurece o coração — uma ênfase mais comum em tradições arminianas e de santidade. E há quem leia, na linha reformada, que o texto descreve o que o perdoado verdadeiro inevitavelmente faz. As duas leituras concordam no essencial: Jesus não deixou espaço para um cristão que recebe o perdão de Deus e guarda rancor como se fosse direito adquirido.

Há ainda uma consequência que não precisa de teologia para ser vista. Marcos 11:25 coloca o perdão como condição de uma oração desimpedida. Quem reza com uma dívida alheia nas mãos reza com as mãos ocupadas. É a imagem da parábola de novo: o servo preso é o que não soltou o outro.

É preciso que a pessoa peça perdão primeiro?

Essa é a pergunta que mais aparece na prática, e Jesus toca nela de dois lados. Em Lucas, ele fala de alguém que ofende e volta pedindo perdão:

Var på er vakt! Om din broder syndar, så tillrättavisa honom, och om han ångrar sig, så förlåt honom. Även om han syndar mot dig sju gånger om dagen och kommer tillbaka till dig sju gånger och säger: Jag ångrar mig, så ska du förlåta honom."(Lukasevangeliet 17:3,4)

Dois detalhes aqui. Primeiro, "repreende-o": perdoar não é fingir que nada aconteceu. Jesus manda nomear o erro antes de soltá-lo. Segundo, "se ele se arrepender": a cena descreve a reconciliação completa — o ofensor reconhece, o ofendido perdoa, a relação se refaz. E essa reconciliação não tem cota: sete vezes no mesmo dia, se preciso.

Mas a Bíblia também fala do perdão num cenário em que o outro não pediu nada. Em Marcos 11:25, a condição para perdoar é apenas "se tendes alguma coisa contra alguém" — não "se ele veio se desculpar". E na cruz, como veremos adiante, Jesus pede perdão para homens que ainda estavam no meio do ato.

Perdoar, reconciliar e confiar não são a mesma coisa

A forma mais comum de o ensino evangélico juntar esses textos é distinguir três coisas que o português costuma embolar numa palavra só.

Perdoar é soltar a dívida. A palavra que Lucas 6:37 usa, apolyō, significa literalmente "soltar", "deixar ir". É uma decisão de quem foi ofendido, e depende só dele. É isso que Jesus pede na oração: que se perdoe, mesmo que o outro nunca saiba.

Reconciliar é refazer a relação. Isso pede duas pessoas. Jesus trata disso em Mateus 5:23-24: quem está oferecendo o sacrifício e lembra que há um irmão com algo contra ele deve deixar a oferta no altar e ir se reconciliar primeiro. Repara que ali o foco é quem ofendeu indo até quem foi ofendido — e Jesus coloca isso antes do culto.

Confiar é outra coisa ainda. A Bíblia não manda entregar de novo a chave da casa para quem a usou para roubar. Lucas 17:3 começa com "repreende-o" justamente porque o pecado tem que ser tratado, não absorvido em silêncio.

Nem todos leem assim. Há quem entenda Lucas 17:3 como condição estrita — sem arrependimento não haveria obrigação de perdoar, ainda que haja a de não se vingar. Mas a leitura mais difundida na tradição evangélica, e a que melhor sustenta Marcos 11:25 e Lucas 23:34 lado a lado, é esta: o perdão de coração não espera o pedido; a reconciliação, sim.

O perdão na cruz: "Pai, perdoa-lhes"

Jesus não só ensinou isso. Ele fez, no pior momento possível.

Men Jesus sade: "Far, förlåt dem, för de vet inte vad de gör." Och de delade hans kläder mellan sig och kastade lott om dem.(Lukasevangeliet 23:34)

Ninguém ao pé da cruz havia pedido perdão. Os soldados ainda estavam sorteando as roupas dele. Os líderes religiosos estavam zombando. A oração de Jesus vem antes de qualquer arrependimento — e não é uma oração de quem foi vencido, mas de quem está, naquele exato instante, pagando a dívida de dez mil talentos.

Isso fecha a parábola de um jeito que Pedro não podia ver quando perguntou. O rei da história perdoou a dívida; o Rei de verdade pagou a dívida com a própria vida. Quando Jesus perdoa pecados ao longo dos Evangelhos — ao paralítico em Marcos 2:5-7, à mulher em Lucas 7 —, os escribas se escandalizam, porque só Deus pode perdoar pecados. Eles estavam certos sobre a regra e errados sobre quem estava na frente deles.

O ensino de Jesus sobre o perdão não é uma técnica de convivência. É um convite para fazer com os outros aquilo que ele fez conosco. Os primeiros cristãos entenderam assim: Estêvão, ao ser apedrejado, repete quase palavra por palavra a oração da cruz (Atos 7:60); Paulo resume tudo em Efésios 4:32 — perdoai uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.

A pergunta de Pedro era "até quando?". A resposta de Jesus foi um número impossível, uma história sobre uma dívida impossível e, no fim, uma cruz. Setenta vezes sete não é o tamanho da nossa paciência. É o tamanho do que foi perdoado a nós. Leia Mateus 18 inteiro — a conversa começa no versículo 15 e só faz sentido lida até o 35.

Existe algum pecado que Jesus disse que não seria perdoado?

Sim, um. Em Mateus 12:31-32 Jesus diz que todo pecado e blasfêmia serão perdoados, exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo. No contexto, ele acabara de expulsar um demônio e os fariseus atribuíram a obra ao diabo — ou seja, chamaram de satânica a ação evidente do Espírito. A leitura evangélica mais comum entende isso como uma rejeição deliberada e persistente da obra de Deus diante dos olhos, não um deslize que alguém comete sem perceber. Quem se preocupa em ter cometido esse pecado dá, com a própria preocupação, sinal de que não o cometeu.

Perdoar significa esquecer o que aconteceu ou voltar a confiar na pessoa?

Não necessariamente. Jesus manda repreender o irmão que peca (Lucas 17:3), o que pressupõe lembrar e nomear o erro. Perdoar é soltar a cobrança — deixar de exigir pagamento, de desejar o mal, de alimentar o rancor. Confiança se reconstrói com tempo e com mudança de conduta, e a Bíblia não obriga ninguém a se expor de novo a quem continua fazendo mal. Perdão é obrigação do cristão; confiança restaurada é fruto da reconciliação, quando ela acontece.

O que fazer quando a pessoa continua me ofendendo depois de perdoada?

Mateus 18:15-17 dá um caminho em etapas: conversa a sós, depois com uma ou duas testemunhas, depois diante da comunidade. Lucas 17:4 mostra que o perdão se renova a cada arrependimento, mesmo várias vezes no mesmo dia. Mas perdoar não anula o processo de confrontar — Jesus coloca os dois lado a lado no mesmo capítulo. É possível perdoar de coração e, ao mesmo tempo, estabelecer limites claros para que a ofensa não se repita.

O que Jesus quis dizer em João 20, quando falou que os discípulos perdoariam pecados?

Em João 20:23, Jesus diz aos discípulos que a quem perdoarem os pecados, serão perdoados, e a quem os retiverem, serão retidos. A Igreja Católica lê o texto como base do sacramento da confissão, em que o sacerdote absolve em nome de Cristo. A tradição evangélica histórica lê como a autoridade de anunciar o evangelho: quem crê na mensagem dos apóstolos recebe o perdão que ela proclama, quem a rejeita permanece sem ele. Nas duas leituras, o perdão continua vindo de Deus; o que muda é como se entende o papel humano em declará-lo.

Jesus mandou perdoar até inimigos?

Sim. Em Mateus 5:44 ele manda amar os inimigos e orar pelos que perseguem, e em Lucas 23:34 ele faz exatamente isso pelos homens que o crucificavam. O amor ao inimigo é a forma mais radical do perdão: não espera arrependimento nem reciprocidade. Jesus justifica o mandamento pelo caráter de Deus, que faz o sol nascer sobre bons e maus — e o discípulo deve se parecer com o Pai.

Karen Milena
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