Pular para o conteúdo
Publicidade

O que Jesus ensinou sobre as mulheres? Estudo Bíblico

Cinco mulheres e uma criança conversam numa sala, com Bíblias abertas e cadernos sobre a mesa.

Jesus ensinou sobre as mulheres mais pelo que fez do que pelo que disse

Jesus não deixou um sermão sobre mulheres. O que ele ensinou está no modo como as tratou — e, num tempo em que isso era raro, cada gesto dizia muito: ele aceitou uma mulher como aluna sentada aos seus pés (Lucas 10:39), conversou em público com uma estrangeira que todo rabino evitaria (João 4:27), impediu o apedrejamento de uma acusada sem perdoar quem a acusava (João 8:7-9) e confiou a uma mulher a primeira notícia da ressurreição (João 20:16-18).

Olha o que esses quatro episódios têm em comum. Em cada um deles, Jesus dá a uma mulher algo que a cultura da época lhe negava: o direito de aprender, o direito de ser ouvida, o direito à mesma justiça que valia para os homens e o direito de anunciar. Não é uma teoria sobre gênero. É um padrão de conduta, repetido o bastante para que os evangelistas o registrassem.

Para entender o tamanho disso, é preciso ver primeiro contra o que Jesus estava se movendo.

Como viviam as mulheres na Judeia do primeiro século

A mulher judia do tempo de Jesus vivia sob a autoridade do pai e, depois, do marido. Ela não podia iniciar um divórcio — só o homem podia (é isso que está por trás da pergunta dos fariseus em Mateus 19:3). Seu testemunho não valia em tribunal: o historiador judeu Flávio Josefo, escrevendo no fim daquele século, diz com todas as letras que não se aceitava testemunho de mulheres "por causa da leviandade e da ousadia do seu sexo" (Antiguidades Judaicas 4.219).

No templo, ela não passava do pátio que levava o nome dela, o "pátio das mulheres". E na vida religiosa comum, estudar a Lei não era para ela. A Mishná — a coleção de ensinos rabínicos escrita por volta do ano 200, mas preservando tradições bem mais antigas — registra o debate. De um lado, o rabino Eliezer: "quem ensina a Torá à filha, ensina-lhe frivolidade" (Mishná, Sotá 3:4). O Talmude de Jerusalém, no mesmo tratado, guarda uma versão ainda mais dura atribuída a ele: melhor que as palavras da Lei fossem queimadas do que entregues a mulheres.

Vale notar que isso não era unanimidade. Na mesma página da Mishná, Ben Azzai defende o oposto: o pai tem obrigação de ensinar a Torá à filha. Mas a posição de Eliezer foi a que prevaleceu, e é importante não caricaturar: não se tratava de desprezo declarado, e sim de uma ordem social em que o lugar da mulher era a casa e o lugar da Palavra era a sala de estudo dos homens.

É nesse mundo que Jesus entra numa casa em Betânia e encontra uma mulher sentada no lugar errado.

Maria aos pés de Jesus: uma mulher na posição de discípula

A cena está em Lucas 10:38-42. Jesus é recebido na casa de Marta, e Marta faz o que a anfitriã fazia: corre para servir. A irmã dela, Maria, faz outra coisa.

Maria, a sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo o que ele dizia.(Lukku 10:39, NVI)

"Sentada aos pés" não é só uma descrição de postura. É a expressão técnica para a relação entre aluno e mestre. É a mesma imagem que Paulo usa em Atos 22:3 para dizer que foi formado "aos pés de Gamaliel", o grande rabino da sua geração. Quem se sentava aos pés de um rabi era discípulo dele.

Marta reclama, e a reclamação dela é a voz da cultura: Maria estava fora do lugar. O esperado era que Jesus concordasse e mandasse Maria para a cozinha. Ele faz o contrário. Diz que Maria escolheu "a boa parte", e que isso não lhe seria tirado (Lucas 10:42).

Isso aqui é importante. Jesus não apenas tolera uma mulher ouvindo. Ele declara que o lugar dela ali é o lugar certo — e defende esse lugar diante de outra mulher que o questionava. No contexto da Judeia do primeiro século, isso equivale a dizer que a formação na Palavra de Deus não tem gênero.

E Maria não foi um caso isolado. Lucas registra que um grupo de mulheres acompanhava Jesus pelas cidades e aldeias junto com os Doze — Maria Madalena, Joana, Susana "e muitas outras" — e que elas sustentavam o ministério com os próprios recursos (leia Lucas 8). Um rabino itinerante com mulheres entre os seguidores, viajando com ele e financiando-o, era algo que não existia. Nem os fariseus nem os essênios tinham algo parecido.

A passagem completa de Marta e Maria está em Lucas 10.

A samaritana no poço: três barreiras derrubadas numa conversa

João 4:1-42 conta o episódio. Jesus atravessa Samaria, para junto ao poço de Jacó ao meio-dia e pede água a uma mulher que veio sozinha buscar água — num horário em que ninguém ia ao poço, o que já diz algo sobre a posição dela na própria cidade.

Homem sentado em poço de pedra conversa com mulher que segura um jarro; ao fundo, homens com cestos.

Para medir o que Jesus faz ali, é preciso contar as barreiras. A primeira é étnica: judeus e samaritanos não se misturavam, e o próprio texto lembra isso em João 4:9. A segunda é religiosa e de pureza: uma tradição rabínica ensinava que as mulheres samaritanas eram ritualmente impuras desde o berço (Mishná, Nidá 4:1) — beber do cântaro de uma delas era se contaminar. A terceira é de gênero: um homem religioso não conversava em público com uma mulher desconhecida, muito menos sobre teologia.

Jesus ignora as três. Pede água, puxa conversa, aceita as perguntas dela sobre o lugar certo de adorar e dá a ela uma das revelações mais diretas de todo o Evangelho de João sobre quem ele é (João 4:26). O versículo que mostra o tamanho do escândalo é a reação dos discípulos quando voltam.

Naquele momento, os seus discípulos voltaram e ficaram surpresos ao encontrá-lo conversando com uma mulher. Ninguém, porém, perguntou: "O que pretendes?" ou: "Por que estás conversando com ela?".(João 4:27, NVI)

Repare no detalhe: eles não se surpreendem por ele estar falando com uma samaritana. Se surpreendem por ele estar falando com uma mulher. E ninguém tem coragem de perguntar por quê.

O que vem depois completa o quadro. A mulher volta para a cidade e conta o que viu, e João diz que muitos de Sicar creram em Jesus "por causa da palavra da mulher" (João 4:39). Uma mulher cujo testemunho não valeria num tribunal judeu se torna a primeira pessoa, em todo o Evangelho de João, a levar uma cidade inteira até Jesus. Leia a conversa inteira em João 4.

A mulher surpreendida em adultério: justiça para ela, não só misericórdia

A cena está em João 8:1-11. Se a sua Bíblia traz esse trecho entre colchetes ou com uma nota, é porque ele não aparece nos manuscritos mais antigos de João — mas a igreja o leu como Escritura desde muito cedo, e ele é coerente com todo o resto do que os Evangelhos mostram de Jesus.

Os escribas e fariseus trazem uma mulher ao pátio do templo e a colocam no meio da multidão. Dizem que ela foi pega em adultério "no ato" e perguntam a Jesus se deve ser apedrejada, como a Lei manda.

Aqui está o detalhe que a pergunta deles esconde. A Lei de Moisés, em Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22, manda que os dois sejam condenados, o homem e a mulher. Se ela foi pega no ato, o homem também estava ali. Onde está ele? Ninguém o trouxe. A acusação era seletiva desde o início: a mulher era culpada, mas estava sendo usada como isca, e o alvo era Jesus.

Ele não discute a Lei nem nega a culpa dela. Faz outra coisa.

Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e disse:

— Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela.(João 8:7, NVI)

Jesus devolve a acusação para quem acusava. Ele não diz que o adultério não importa; diz que ninguém ali tinha autoridade moral para executar uma sentença que eles mesmos aplicavam só a um dos culpados.

Mas eles, ouvindo essa resposta, foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos até os últimos, ficando só Jesus e a mulher em pé diante dele.(João 8:9, NAA)

Quando sobram só os dois, Jesus pergunta onde estão os acusadores, e então diz: "Nem eu a condeno. Vá e não peque mais" (João 8:11). As duas frases andam juntas, e vale não separar: ele a protege da morte e, no mesmo fôlego, a chama a mudar de vida. Não é indulgência. É alguém que trata a mulher como pessoa responsável — nem objeto de execução pública, nem vítima sem vontade própria.

O que Jesus ensina nesse episódio é que o padrão de Deus para o pecado é um só, e que um sistema que mede a mulher com uma régua e o homem com outra não está aplicando a Lei: está usando a Lei. Leia o episódio completo em João 8.

Maria Madalena no jardim: a primeira testemunha da ressurreição

Os quatro Evangelhos concordam num ponto: as primeiras pessoas a encontrar o túmulo vazio foram mulheres, e Maria Madalena está em todas as listas. João 20:11-18 conta a cena mais detalhada.

Maria fica chorando junto ao sepulcro, vê alguém que toma por jardineiro e só o reconhece quando ele diz o nome dela.

— Maria! — disse Jesus.

Então, voltando-se para ele, Maria exclamou em hebraico:

— Raboni! — que significa "Mestre!".(João 20:16, NVI)

Ela responde "Raboni", meu mestre — a palavra de uma discípula para o seu rabi. É a mesma relação que Maria de Betânia tinha, sentada aos pés dele. E então Jesus faz algo que, lido com os olhos daquele século, é quase impensável: ele a envia como mensageira aos próprios apóstolos (João 20:17).

Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos:

— Eu vi o Senhor!

Então, contou-lhes o que ele lhe dissera.…(João 20:18a, NVI)

Lembre do que Josefo escreveu: o testemunho de uma mulher não servia. Pois a notícia mais importante da história da fé cristã — "eu vi o Senhor" — foi entregue primeiro a uma mulher, por escolha de Jesus, para que ela a levasse aos homens. Lucas acrescenta que os apóstolos não acreditaram nela nem nas outras (Lucas 24:10-11). Ou seja, os próprios discípulos ainda pensavam como a cultura; Jesus, não.

Vale notar um argumento que historiadores usam aqui. Se alguém inventasse a história da ressurreição para convencer o mundo antigo, jamais escolheria mulheres como primeiras testemunhas — isso enfraqueceria o relato aos olhos de qualquer leitor da época. Os evangelistas registraram assim porque foi assim que aconteceu. E aconteceu assim porque Jesus quis.

Mulher de manto na cabeça corre assustada de um túmulo aberto, e um homem a segue.

A passagem completa está em João 20.

O que Jesus disse diretamente sobre as mulheres

Além dos encontros, há alguns ensinos de Jesus em que a situação da mulher está no centro — e todos puxam na mesma direção.

Sobre o divórcio, quando os fariseus perguntam se um homem pode mandar a esposa embora por qualquer motivo, Jesus volta a Gênesis e diz que o casamento foi feito para não ser desfeito (Mateus 19:3-9). Marcos registra que ele aplica a mesma regra aos dois lados: o homem que se divorcia e casa com outra também comete adultério (Marcos 10:11-12). Numa cultura em que só o homem podia se divorciar e só a mulher era chamada de adúltera, isso era proteger a parte mais fraca.

Sobre o desejo, no Sermão do Monte, Jesus diz que quem olha para uma mulher com intenção de possuí-la já cometeu adultério no coração (Mateus 5:27-28). Note para quem o peso cai: não sobre a mulher que foi olhada, mas sobre o homem que olhou. A responsabilidade pela pureza fica com quem tem o desejo, não com quem o provoca.

E há um título. Quando Jesus cura uma mulher encurvada havia dezoito anos, num sábado, e os religiosos reclamam, ele a chama de "filha de Abraão" (Lucas 13:16). A expressão "filho de Abraão" era comum; "filha de Abraão" não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia. Jesus a coloca, pelo nome, dentro da aliança de Israel — como herdeira plena, não como dependente de um homem que fosse herdeiro.

Isso resolve o debate sobre mulheres no ministério?

Não inteiramente, e é honesto dizer isso. Jesus escolheu doze homens como apóstolos, e os cristãos há séculos leem esse fato de modos diferentes.

Uma leitura — chamada complementarista, comum em muitas igrejas evangélicas — entende que Jesus deu às mulheres dignidade, formação e voz plenas, mas reservou a função de liderança pastoral aos homens, e vê nos Doze o sinal disso. Outra leitura — a igualitária, também presente dentro da teologia evangélica — entende que a escolha dos Doze reflete o contexto de Israel (doze tribos, doze patriarcas) e que o padrão de Jesus de formar, enviar e confiar o testemunho a mulheres aponta para um ministério sem restrição de gênero.

Este artigo vem de uma tradição evangélica histórica, e dentro dela as duas leituras existem e discutem com a Bíblia aberta. O que nenhuma das duas pode negar é o que está nos textos acima: Jesus tratou mulheres como discípulas, conversou com elas sobre teologia, defendeu-as contra acusação injusta e as enviou como mensageiras. Onde exatamente isso desemboca na organização da igreja é uma pergunta que os cristãos respondem de maneiras diferentes — mas de onde ela parte, não há dúvida.

Por onde começar a ler

Se for ler uma passagem só, leia Lucas 10:38-42. Está tudo ali em cinco versículos: a mulher no lugar que a cultura dizia não ser dela, a reclamação de quem via o fora de lugar, e Jesus declarando que aquele lugar — aos pés dele, ouvindo — era a boa parte, e que ninguém ia tirá-la de Maria.

Jesus teve mulheres como discípulas?

Sim. Lucas 8:1-3 diz que Maria Madalena, Joana, Susana e "muitas outras" acompanhavam Jesus com os Doze e sustentavam o ministério com seus bens. Maria de Betânia aparece sentada aos pés dele na posição de aluna (Lucas 10:39), e Maria Madalena o chama de "Raboni", meu mestre (João 20:16). O que elas não foram é parte dos Doze.

Por que Jesus escolheu só homens entre os doze apóstolos?

A Bíblia não explica o motivo. Alguns cristãos entendem que os Doze espelham as doze tribos de Israel e que a escolha reflete esse simbolismo e o contexto da época; outros entendem que Jesus estava estabelecendo um padrão para a liderança da igreja. É um tema em que cristãos sinceros discordam, e o texto bíblico em si não resolve a questão.

Maria Madalena era prostituta?

Não há nada na Bíblia que diga isso. Os Evangelhos dizem que Jesus a libertou de sete demônios (Lucas 8:2) e que ela estava entre as mulheres que o acompanhavam e sustentavam. A ideia de que ela era prostituta vem de uma confusão posterior com a mulher pecadora de Lucas 7:36-50, popularizada por um sermão do papa Gregório Magno no ano 591 — não do texto bíblico.

Por que Jesus chamou a própria mãe de "mulher" nas bodas de Caná?

Em João 2:4 e João 19:26, Jesus chama Maria de "mulher". Em português soa frio, mas em grego o vocativo gynai era uma forma respeitosa de se dirigir a uma mulher, parecida com "senhora". Jesus usa a mesma palavra com a samaritana (João 4:21) e com Maria Madalena (João 20:15), sempre com cuidado, nunca com desprezo.

Jesus foi casado?

Nenhum dos quatro Evangelhos, nenhuma carta do Novo Testamento e nenhum escrito cristão dos primeiros séculos menciona uma esposa de Jesus. As afirmações nesse sentido vêm de textos muito posteriores ou de ficção moderna. O que a Bíblia mostra é um Jesus que tratou as mulheres ao seu redor com respeito incomum para a época — e nada além disso.

Silvia Forti
1 pessoa deu Amém

Este artigo te tocou? Faça uma oração!

+581 estão orando agora.

Junte-se à corrente de oração.