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Geena: o significado da palavra que Jesus usou

Homem de barba e cabelo grisalho, de jaqueta marrom, estende as mãos diante de um cânion em chamas.

Geena é o nome que Jesus usou para o inferno

Geena é um lugar antes de ser uma doutrina. É o nome de um vale de verdade, encostado na muralha sul de Jerusalém, onde reis de Judá queimaram os próprios filhos em sacrifício. Quando Jesus quer falar do juízo final — da condenação que vem depois da morte — a palavra que ele escolhe é essa: Geena, que é "Vale de Hinom" dito em grego com sotaque hebraico.

Nas Bíblias em português ela aparece traduzida como "inferno". Mas por baixo da palavra portuguesa existe uma geografia. Todo ouvinte de Jesus conhecia aquele vale, sabia a história suja dele, e entendia na hora o que o nome queria dizer.

Isso muda a leitura. Jesus não inventou um conceito abstrato. Ele pegou o lugar mais maldito da memória de Israel e disse: é para lá que leva a vida que recusa a Deus.

E, se a sua mão o induz a pecar, corte-a. É melhor entrar na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ir para o inferno, onde o fogo nunca se apaga.(Makko 9:43, NVI)

Quem mais falou sobre o inferno na Bíblia foi Jesus

A palavra Geena aparece doze vezes no Novo Testamento. Onze estão na boca de Jesus. A décima segunda é de Tiago, que diz que a língua é um fogo aceso pela Geena (Tiago 3:6). No Antigo Testamento ela não aparece como nome do inferno — só como nome do vale.

Então a resposta é direta: ninguém na Bíblia fala tanto de inferno quanto Jesus. Não os profetas, não Paulo, não o Apocalipse. É o mesmo Jesus que pega criança no colo, come na casa de cobrador de impostos e chora na frente do túmulo de Lázaro. Isso incomoda, e é bom que incomode, porque a imagem de um Jesus que só consola não sobrevive à leitura dos evangelhos.

As onze vezes são estas:

E isso é só a contagem da palavra. Jesus fala de juízo muitas outras vezes sem usar o nome — "trevas exteriores", "fogo eterno", "choro e ranger de dentes". Se a conta incluir essas, o número cresce bastante.

Onde ficava o Vale de Hinom e o que acontecia lá

O vale está no mapa desde a conquista da terra. Quando Josué divide o território, a fronteira entre Judá e Benjamim passa exatamente por ele: sobe pelo "vale do filho de Hinom", ao lado da cidade dos jebuseus, que é Jerusalém (Josué 15:8; Josué 18:16). Em hebraico, Gê Ben-Hinnom. Quem foi Hinom ninguém sabe; o nome ficou, o homem se perdeu.

Hoje o vale ainda existe. Contorna a Cidade Velha de Jerusalém pelo lado sul e sudoeste, e os árabes o chamam de Wadi er-Rababi. Dá para caminhar por ele.

O que fez do vale um nome maldito foram dois reis. Acaz, no século VIII a.C., "queimou seus filhos no fogo" ali, no vale de Ben-Hinom, seguindo os costumes das nações que Israel devia ter expulsado (2 Crônicas 28:3). Manassés, seu neto, fez o mesmo (2 Crônicas 33:6). O lugar exato do sacrifício chamava-se Tofete, e o deus que recebia as crianças era Moloque — justamente o culto que a lei de Moisés proibia com as palavras mais duras (Levítico 18:21).

Olha o peso disso. Não é um vale onde aconteceu uma batalha ou morreu um rei. É o lugar onde pais de Israel entregaram filhos ao fogo em nome de um ídolo, a poucos metros do templo do Deus vivo.

Soldados antigos de capacete quebram um bloco de pedra com marretas, diante de uma muralha.

Quem pôs fim a isso foi Josias. Na grande reforma dele, o texto registra o que aconteceu com Tofete:

Também profanou Tofete, que ficava no vale de Ben-Hinom, de modo que ninguém mais pudesse usá-lo para sacrificar no fogo o seu filho ou a sua filha a Moloque.(2 Reis 23:10, NVI)

"Profanar" aqui é tornar o lugar impróprio para culto — provavelmente espalhando ossos e restos, como ele fez com outros altares no mesmo capítulo. O vale deixou de ser um santuário pagão e virou um lugar imundo de propósito.

Do vale ao inferno: como a palavra mudou de sentido

Quem liga o vale ao juízo de Deus é Jeremias. Pregando no templo, ele lembra o que Judá fez em Tofete:

Construíram os santuários locais de Tofete no vale de Ben-Hinom, para queimarem em sacrifício os seus filhos e as suas filhas, coisa que nunca ordenei e que jamais me veio à mente.(Jeremias 7:31, NVI)

E no versículo seguinte anuncia que o nome vai mudar: o lugar não se chamará mais Tofete nem vale de Ben-Hinom, mas "Vale da Matança", porque ali serão enterrados os mortos do juízo que vem (Jeremias 7:32-33). Ele repete a mesma profecia, no mesmo lugar, em Jeremias 19:6.

A partir daí, o Vale de Hinom passa a carregar duas memórias juntas: o pecado mais abominável de Israel e o castigo de Deus sobre ele. Nos séculos entre o Antigo e o Novo Testamento, escritos judaicos começam a usar "Geena" como nome do lugar onde os ímpios recebem o castigo depois do juízo. Quando Jesus nasce, a palavra já estava pronta. Ele não precisou explicar o que era Geena a ninguém — ninguém pergunta, em nenhum evangelho.

Aqui cabe uma correção que você vai encontrar em muita pregação. É comum ouvir que o Vale de Hinom, nos dias de Jesus, era o lixão de Jerusalém, com fogo queimando dia e noite, e que daí veio a imagem do "fogo que nunca se apaga". Pode ter sido; mas a Bíblia não diz isso, nenhum escritor judeu ou romano da época diz isso, e a arqueologia não encontrou o lixão. A primeira menção conhecida aparece num comentário do rabino David Kimhi, por volta do ano 1200 — mais de mil anos depois de Jesus. É uma tradição tardia, não um fato estabelecido. O que sustenta a imagem do fogo na boca de Jesus não é lixo queimando: é Tofete, os sacrifícios, e as profecias de Jeremias e Isaías.

O que Jesus ensinou sobre a Geena

Em cada uma das onze vezes, a Geena aparece como a alternativa oposta à vida. Jesus nunca a descreve por curiosidade; ela entra sempre como o fim de um caminho, para que a pessoa escolha o outro.

O ensino mais direto está na instrução aos discípulos antes de saírem para pregar:

Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.(Mateus 10:28, NVI)

Repare na ordem do argumento. O pior que um perseguidor pode fazer é matar o corpo. Deus pode mais que isso. Então o medo certo não é dos homens, é de Deus — não um medo que afasta, mas o que coloca cada ameaça humana no tamanho dela. Jesus diz isso para encorajar os discípulos, não para aterrorizá-los.

No Sermão do Monte, a Geena aparece ligada ao coração, não a crimes espetaculares. Quem chama o irmão de tolo "estará sujeito ao fogo do inferno" (Mateus 5:22); o olhar que cobiça e a mão que peca levam para o mesmo lugar (Mateus 5:29-30). Isso é importante: para Jesus, a gravidade do inferno não está só em assassinato e adultério. Está na raiz deles.

Em Marcos 9 e Mateus 18, o ensino fica mais radical. Se a mão faz tropeçar, corte-a; se o pé, corte-o; se o olho, arranque-o — melhor entrar na vida sem um membro do que ir inteiro para a Geena (Mateus 18:8-9). A leitura histórica da igreja, e a nossa, é que isso é hipérbole deliberada: Jesus não manda mutilar o corpo, manda tratar o pecado com a mesma urgência com que se trataria uma gangrena. O exagero existe para mostrar o tamanho do que está em jogo.

E as últimas duas vezes são contra gente religiosa. Os escribas e fariseus fazem do convertido "filho do inferno" e eles mesmos não escaparão "da condenação do inferno" (Mateus 23:15, 33). Jesus reservou as advertências mais duras não para os pecadores notórios, mas para quem conhecia a Escritura e usava a religião para se proteger dela.

Fogo, trevas e choro: as imagens que Jesus usou

Quando Jesus descreve a Geena, ele usa imagens, e são imagens fortes. A principal é fogo. Em Marcos 9:43 é "o fogo que nunca se apaga"; em Marcos 9:48 ele acrescenta "onde o verme não morre e o fogo não se apaga", citando o último versículo de Isaías (Isaías 66:24), que fala dos cadáveres dos que se rebelaram contra Deus. Em Mateus 13 o juízo é uma fornalha, onde o joio é lançado (Mateus 13:40-42); em Mateus 25:41, "fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos".

Mas a segunda imagem é o contrário da primeira:

Mas os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes.(Mateus 8:12, NVI)

Trevas. Fogo ilumina; o inferno de Jesus é escuro. Isso já diz algo sobre como ler essas descrições: elas não são uma fotografia, porque fogo e escuridão total não cabem na mesma foto. A tradição evangélica histórica entende que são imagens que apontam para uma realidade — e a realidade é tão séria quanto as imagens, não menos. O fogo diz destruição e dor; as trevas dizem exclusão; o choro e o ranger de dentes dizem desespero e remorso.

A terceira imagem é a mais repetida de todas e talvez a mais grave: ficar de fora. "Lançado nas trevas exteriores", "apartai-vos de mim" (Mateus 7:23; Mateus 25:41). O centro do sofrimento, na descrição de Jesus, não é o fogo em si. É a separação de quem é a fonte de toda vida. Por isso ele contrasta a Geena com "entrar na vida", e não só com "ficar sem dor".

"Castigo eterno": o que a palavra diz e o que a igreja discute

O versículo que mais pesa nessa discussão fecha o grande discurso de Jesus sobre o juízo:

— Então, estes irão para o castigo eterno, mas os justos, para a vida eterna.(Mateus 25:46, NVI)

A palavra grega para "eterno" é a mesma nas duas metades da frase: aiōnios. O castigo e a vida recebem o mesmo adjetivo. Esse paralelismo é o principal argumento da leitura majoritária da igreja ao longo da história — Agostinho, os reformadores, a teologia evangélica em geral — de que o castigo é consciente e sem fim, assim como a vida é.

Existe, porém, uma leitura alternativa dentro do próprio campo evangélico. É o chamado condicionalismo ou aniquilacionismo, que entende "destruir" em Mateus 10:28 e "fogo" de forma mais literal: o castigo é eterno no resultado — a pessoa deixa de existir e isso é irreversível — e não na duração da experiência. Nomes respeitados, como John Stott, admitiram se inclinar para essa posição, sempre com cautela. A posição tradicional responde que o "verme que não morre" e o "fogo que não se apaga" descrevem algo que continua, não algo que termina.

Vale ser honesto: as duas leituras levam o texto a sério e as duas afirmam um juízo real e final. O que nenhuma das duas sustenta, e o que a tradição evangélica histórica não aceita, é a ideia de que a Geena seja vazia ou temporária para todos. Jesus fala dela como destino possível de pessoas, e fala com urgência.

Inferno, Sheol, Hades e Geena não são a mesma palavra

Quem lê a Bíblia em português tropeça num problema de tradução. A palavra "inferno" cobre, dependendo da versão, até três palavras diferentes do original.

Sheol, no hebraico do Antigo Testamento, é o mundo dos mortos — o lugar para onde todos vão ao morrer, sem distinção clara entre justos e ímpios. A Almeida Corrigida Fiel muitas vezes traduz como "inferno" (como no Salmo 16:10); a NVI e a NAA preferem "sepultura" ou mantêm "Sheol".

Hades, no grego do Novo Testamento, é o equivalente de Sheol: a condição dos mortos entre a morte e a ressurreição. A ACF também traduz por "inferno" ("as portas do inferno" em Mateus 16:18); a NVI escreve "Hades".

Geena é outra coisa. É o destino final depois do juízo, depois da ressurreição. As três traduções da casa escrevem "inferno" aqui — e é só aqui que a palavra portuguesa acerta em cheio.

A parábola do rico e de Lázaro ilustra a diferença (Lucas 16:22-26). O rico está em tormento, vê Lázaro de longe, pede alívio e ouve que há um grande abismo entre eles que ninguém atravessa. A palavra ali é Hades, não Geena. Na leitura tradicional, Jesus descreve o estado intermediário, antes do juízo — mas já com separação, já com consciência, já sem volta. O Apocalipse completa o quadro: no fim, a morte e o Hades são lançados no lago de fogo, "a segunda morte" (Apocalipse 20:14-15). O lago de fogo de João é a Geena de Jesus com outro nome.

Por que Jesus falava tanto disso

Fica a pergunta óbvia. Se a Geena é tão terrível, por que o homem mais compassivo que já andou na terra a mencionou mais do que qualquer outro?

O contexto de Marcos 9 ajuda a ver. O versículo anterior ao da mão cortada é sobre quem faz tropeçar "um destes pequeninos" (Marcos 9:42). Jesus está protegendo gente frágil. E logo depois, quando fala da mão, do pé e do olho, está protegendo o próprio ouvinte dele mesmo. Ele fala do inferno como um médico fala de um tumor: não porque gosta do assunto, mas porque quem se cala sobre ele não ama o paciente.

É o mesmo evangelho que diz que Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho único "para que todo o que nele crer não pereça" (João 3:16). O "perecer" ali é a Geena. O amor de Deus não é uma alternativa ao ensino de Jesus sobre o inferno; é a razão dele. Quem mais falou do inferno foi quem veio tirar as pessoas de lá — e que, na cruz, foi para fora da cidade, rejeitado, para que ninguém precisasse ficar de fora.

Por isso o versículo do começo é um convite disfarçado de ameaça. "É melhor entrar na vida." Esse é o lado da frase que Jesus quer que você escolha. Leia Marcos 9 completo e repare: cada vez que ele diz "Geena", está dizendo "vida" na mesma frase.

Geena e Hades são a mesma coisa?

Não. Hades (Sheol, no Antigo Testamento) é o mundo dos mortos, a condição entre a morte e a ressurreição. Geena é o destino final dos ímpios depois do juízo. Algumas traduções, como a Almeida Corrigida Fiel, usam "inferno" para as duas; a NVI e a NAA distinguem, escrevendo "Hades" ou "sepultura" na primeira e "inferno" só na segunda.

Quantas vezes a palavra Geena aparece na Bíblia?

Doze vezes no Novo Testamento: Mateus 5:22, 29, 30; 10:28; 18:9; 23:15, 33; Marcos 9:43, 45, 47; Lucas 12:5 e Tiago 3:6. Onze estão na boca de Jesus. No Antigo Testamento o nome aparece apenas como o Vale de Hinom, lugar geográfico ao sul de Jerusalém.

O Vale de Hinom era um depósito de lixo nos dias de Jesus?

É uma tradição muito repetida, mas sem apoio na Bíblia, nos escritos da época ou na arqueologia. A menção mais antiga conhecida é de um comentário rabínico de cerca do ano 1200. O que ligava o vale ao fogo e ao juízo eram os sacrifícios de crianças a Moloque em Tofete e as profecias de Jeremias sobre o "Vale da Matança".

A Geena aparece no Apocalipse?

A palavra, não. O Apocalipse usa "lago de fogo" e "segunda morte" (Apocalipse 20:14-15; 21:8) para o mesmo destino final. Como a morte e o Hades são lançados nesse lago, a tradição cristã entende que o lago de fogo de João e a Geena de Jesus descrevem a mesma realidade.

Onde fica o Vale de Hinom hoje?

Continua no mesmo lugar: contorna a Cidade Velha de Jerusalém pelo sul e pelo sudoeste, e encontra o Vale do Cedrom perto do antigo tanque de Siloé. Em árabe é chamado Wadi er-Rababi. Hoje é uma área verde e aberta, por onde é possível caminhar.

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