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O véu se rasgou: o que significa este sinal

Cortinas vermelhas rasgadas e ornamentadas se abrem diante de colunas

O que significa o véu do templo ter se rasgado

O véu que se rasgou era a cortina que fechava o Santo dos Santos, o cômodo mais interno do templo de Jerusalém — o lugar que representava a presença de Deus na terra e onde ninguém entrava, com uma única exceção por ano. Ele se rasgar no instante em que Jesus morre quer dizer uma coisa: a barreira que separava Deus das pessoas foi removida. O caminho até Deus, antes fechado para quase todo mundo, ficou aberto.

Não é uma leitura que alguém inventou depois. O próprio Novo Testamento explica o sinal, na carta aos Hebreus, e é por ela que a igreja sempre entendeu a cena. Mas antes da explicação, vale ver o que os evangelhos registram.

Und siehe, der Vorhang des Tempels zerriß in zwei Stücke, von oben bis unten; und die Erde erbebte, und die Felsen zerrissen,(Matthäus 27:51)

Mateus coloca o rasgo logo depois do último grito de Jesus. Marcos 15:38 registra o mesmo fato com quase as mesmas palavras, e Lucas 23:45 diz que o véu "se rasgou pelo meio". Três testemunhos, um detalhe em comum: não foi um rasgo qualquer. Foi de cima para baixo, de uma ponta à outra.

Para entender o peso disso, é preciso saber o que aquela cortina fazia ali.

O que era o véu do templo

O véu nasceu antes do templo. Quando Deus deu a Moisés as instruções para o tabernáculo — a tenda de adoração que Israel carregou pelo deserto —, uma delas foi uma cortina interna que dividiria a tenda em dois ambientes.

und hänge den Vorhang auf unter die Klammern; und bringe dorthin, innerhalb des Vorhanges, die Lade des Zeugnisses. Und der Vorhang soll euch eine Scheidung machen zwischen dem Heiligen und dem Allerheiligsten. (2. Mose 26:33)

O texto de Êxodo 26 descreve o material: linho fino torcido, tecido com fios azuis, púrpura e carmesim, com querubins bordados — as figuras angelicais que, desde o Éden, aparecem na Bíblia guardando a entrada da presença de Deus. A cortina pendia de quatro colunas de madeira revestidas de ouro.

Do lado de fora do véu ficava o Lugar Santo, onde os sacerdotes trabalhavam todos os dias: cuidavam do candelabro, trocavam os pães da proposição, queimavam incenso. Do lado de dentro ficava o Lugar Santíssimo, ou Santo dos Santos, com um só objeto: a Arca da Aliança, sobre a qual Deus disse que apareceria.

A palavra hebraica para o véu é parokhet, e ela carrega a ideia de "o que separa". Isso é o que o próprio texto diz que a cortina fazia: separação. Não decoração, não privacidade. Uma fronteira entre o espaço de Deus e o espaço das pessoas.

Quando Salomão construiu o templo em Jerusalém, manteve o véu com os mesmos materiais e os mesmos querubins (2 Crônicas 3:14). O templo foi destruído pelos babilônios, reconstruído sob Zorobabel e depois ampliado e reformado por Herodes — e era esse último, o templo de Herodes, que estava de pé quando Jesus morreu.

O que a Bíblia diz e o que a tradição acrescenta

Aqui é bom separar as fontes. A Bíblia descreve o material e a função do véu, mas não dá as medidas da cortina do templo de Herodes.

Os números que costumam aparecer — cerca de 18 metros de altura por 9 de largura, a espessura de uma mão — vêm da tradição rabínica, registrada na Mishná, que fala em quarenta côvados por vinte e diz que eram necessários muitos sacerdotes para lavar a cortina. Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, descreve o véu do templo de Herodes como uma tapeçaria babilônica bordada em azul, linho, escarlate e púrpura, representando o céu.

Esses dados são plausíveis e ajudam a imaginar a cena, mas não estão na Escritura. O que a Escritura garante é mais importante que o tamanho: a cortina existia para que ninguém passasse.

Quem podia passar pelo véu, e quando

Ninguém. Essa é a resposta curta, e ela só tem uma exceção, cercada de condições.

und Jehova sprach zu Mose: Rede zu deinem Bruder Aaron, daß er nicht zu aller Zeit in das Heiligtum hineingehe innerhalb des Vorhangs, vor den Deckel, der auf der Lade ist, damit er nicht sterbe; denn ich erscheine in der Wolke über dem Deckel.(3. Mose 16:2)

Olha o que está dito ali. Arão era o sumo sacerdote, o homem mais consagrado de todo o povo — e mesmo ele é avisado de que não pode entrar quando quiser, "para que não morra". O resto de Levítico 16 descreve a única ocasião permitida: o Dia da Expiação, o Yom Kippur, uma vez por ano. O sumo sacerdote tomava banho, vestia roupas simples de linho, oferecia um novilho pelos próprios pecados, entrava com um incensário para que a fumaça cobrisse o propiciatório, e só então levava o sangue do sacrifício para aspergir diante da arca, por si e pelo povo.

Homem de túnica branca afasta uma cortina com anjos, levando uma tigela e um incensário.

A carta aos Hebreus resume essa rotina em uma frase, e vale ler porque é ela que depois vai explicar o rasgo:

in die zweite aber einmal des Jahres allein der Hohepriester, nicht ohne Blut, welches er für sich selbst und für die Verirrungen des Volkes darbringt;(Hebräer 9:7)

Pense nas camadas. O povo comum ficava nos pátios. Os sacerdotes entravam no Lugar Santo. Só o sumo sacerdote passava o véu, só um dia por ano, só com sangue — e saía logo. Durante os outros 364 dias, a presença de Deus ficava atrás de uma cortina que nenhum ser humano tocava.

Era isso que o véu ensinava a Israel, dia após dia, por séculos: Deus está aqui, mas você não pode chegar perto. O pecado criou uma distância que nem o melhor dos homens atravessa por conta própria.

Por que o véu se rasgou "de alto a baixo"

Primeiro o texto, depois o que ele sugere.

Mateus e Marcos usam o verbo grego schizō, que significa partir, rachar, rasgar com violência — é o mesmo verbo que Mateus usa, na frase seguinte, para as pedras que se fendem. E os dois dizem a direção: de cima para baixo. A forma verbal é passiva: o véu "foi rasgado". O texto não nomeia quem rasgou.

Essa construção, que estudiosos chamam de "passivo divino", é comum nos evangelhos para indicar uma ação de Deus sem dizer o nome dele. E a direção confirma a leitura: uma cortina que começa a rasgar pelo alto não foi rasgada por mão humana. Se a tradição rabínica estiver certa sobre a altura, nem com escada alguém alcançaria o topo. Mas o argumento não depende da medida; depende da frase. Quem abre de cima para baixo é quem está em cima.

Em outras palavras: Deus abriu a cortina pelo lado de dentro.

Marcos acrescenta uma camada que passa fácil despercebida. Em todo o seu evangelho, ele usa o verbo schizō só duas vezes. A primeira é no batismo de Jesus, quando os céus são "rasgados" e a voz do Pai fala (Marcos 1:10 — a maioria das traduções diz "abertos", mas o grego é o verbo do rasgo). A segunda é aqui, na morte. Marcos emoldura toda a vida de Jesus com dois rasgos: o céu se abre quando ele começa, o véu se abre quando ele termina.

E há um contraste que os leitores da época dificilmente deixariam passar. Poucas horas antes, no julgamento de Jesus, o sumo sacerdote Caifás rasgou as próprias vestes, gesto de indignação e luto (Mateus 26:65). O homem que tinha o direito exclusivo de entrar pelo véu rasga a roupa para condenar Jesus; Deus rasga o véu para abrir o que o sumo sacerdote guardava.

O que o Novo Testamento diz que o véu rasgado significa

A carta aos Hebreus é o único livro do Novo Testamento que para e explica o véu, e ela faz isso em duas etapas.

Primeiro, lê a cortina do Antigo Testamento como uma mensagem em si: . Ou seja, enquanto o tabernáculo e o templo funcionavam com véu, Deus estava dizendo, pelo próprio arranjo do lugar, que o caminho até ele ainda não estava aberto.

Depois, no capítulo seguinte, o autor dá o passo decisivo:

Da wir nun, Brüder, Freimütigkeit haben zum Eintritt in das Heiligtum durch das Blut Jesu, den neuen und lebendigen Weg, welchen er uns eingeweiht hat durch den Vorhang, das ist sein Fleisch,(Hebräer 10:19,20)

Isso aqui é importante. O autor de Hebreus identifica o véu com o corpo de Jesus. Quando a carne de Cristo é rasgada na cruz, o véu também se rasga — não como coincidência, mas como duas faces de um só acontecimento. O corpo quebrado abriu o caminho; a cortina partida mostrou para todo mundo que o caminho estava aberto.

Note os termos que ele escolhe. "Ousadia para entrar no Santuário": o lugar onde só o sumo sacerdote pisava agora é destino dos "irmãos", gente comum. "Pelo sangue de Jesus": continua sendo preciso sangue, como em Levítico 16, só que agora é o sangue do próprio Deus feito homem, oferecido uma vez e não anualmente (Hebreus 10:12). "Novo e vivo caminho": não é um rito que se repete, é uma pessoa que está viva.

Duas leituras que não se excluem

A leitura acima — acesso aberto a Deus por meio de Cristo — é a que a teologia evangélica histórica adota, e é a que o próprio Novo Testamento oferece em Hebreus. Mas há uma segunda leitura, presente em alguns pais da igreja e em muitos estudiosos hoje, e ela merece ser dita.

Para essa leitura, o rasgo é também um sinal de juízo sobre o templo. Jesus já havia anunciado que não ficaria pedra sobre pedra (Marcos 13:2), e isso se cumpriu em 70 d.C., quando os romanos destruíram tudo. O véu rasgado na morte de Jesus seria o primeiro aviso: o sistema de sacrifícios chegou ao fim porque o sacrifício definitivo foi feito.

As duas leituras cabem juntas. Se o caminho está aberto, a cortina perdeu a função. Se o sacrifício perfeito foi oferecido, o templo que oferecia sacrifícios imperfeitos cumpriu seu papel. É a mesma verdade vista de dois lados: um fala do que se abriu, o outro do que se encerrou.

Qual véu se rasgou: havia mais de um

Pergunta justa, porque o templo tinha duas cortinas. Uma ficava na entrada do Lugar Santo, separando-o do pátio dos sacerdotes; a outra, mais interna, fechava o Santo dos Santos. Hebreus chama essa segunda de "o segundo véu" (Hebreus 9:3), e Josefo também descreve as duas.

Os evangelhos dizem apenas "o véu do templo", sem especificar. Mas a palavra grega que usam para templo nesse trecho é naos, que designa o edifício do santuário em si, não o complexo todo com seus pátios. E a interpretação de Hebreus 10:19-20 só faz sentido se o véu rasgado for o que fechava o Santo dos Santos, porque é dele que se fala quando se fala de "entrar no Santuário". Por isso a leitura tradicional, com boa razão, entende que foi a cortina interna — a que ninguém via de fora.

Isso levanta uma pergunta prática: se a cortina estava escondida dentro do templo, quem viu o rasgo? Os evangelhos não dizem. É razoável supor que sacerdotes de serviço viram e que a notícia se espalhou — Atos registra que, pouco tempo depois, "grande parte dos sacerdotes" aderiu à fé em Jesus (Atos 6:7), e alguns comentaristas ligam uma coisa à outra. Mas isso é dedução, não texto.

O que muda na adoração e na relação com Deus hoje

Tudo o que o véu dizia — "não chegue perto" — foi invertido. É isso que Hebreus conclui logo depois de explicar o sinal:

Laßt uns nun mit Freimütigkeit hinzutreten zu dem Thron der Gnade, auf daß wir Barmherzigkeit empfangen und Gnade finden zur rechtzeitigen Hülfe.(Hebräer 4:16)

A palavra traduzida por "confiança" é parrēsia, e no grego ela descreve a liberdade de falar abertamente, sem medo, como quem tem direito de estar ali. É o oposto exato do que Arão sentia ao passar o véu "para que não morra".

Na prática, isso muda quatro coisas.

Ninguém precisa de intermediário humano. No templo, o povo dependia do sacerdote, e o sacerdote dependia do sumo sacerdote. Agora há "um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo" (1 Timóteo 2:5). Orar é falar diretamente com Deus, e qualquer cristão pode fazer isso onde estiver.

Todo cristão é sacerdote. Pedro chama a igreja de "sacerdócio real" (1 Pedro 2:9). O que era privilégio de uma família de Israel virou condição de todo aquele que crê. Não existe cristão de segunda categoria, fora do véu.

A adoração não está presa a um lugar. Jesus já havia dito à mulher samaritana que chegaria a hora em que adorar não dependeria de Jerusalém nem de monte nenhum, mas de espírito e verdade (João 4:21-24). O véu rasgado torna isso visível: a presença de Deus não mora mais atrás de uma cortina num prédio.

Não há mais sacrifício a repetir. O sumo sacerdote voltava todo ano porque o sangue de animais não resolvia o problema de vez. O sacrifício de Cristo foi feito uma só vez. Quem tenta "pagar" o acesso a Deus com esforço, culpa ou ritual está tentando costurar de volta uma cortina que Deus rasgou.

Vale uma ressalva, porque a frase "acesso livre" pode ser mal entendida. Hebreus não diz que Deus ficou menos santo ou que se pode chegar de qualquer jeito. O mesmo livro fala em servir a Deus "com reverência e piedade" (Hebreus 12:28). O que mudou não foi a santidade de Deus; foi a base do acesso. Antes, a distância protegia o pecador da santidade. Agora, o sangue de Cristo o cobre — e por isso ele pode chegar perto.

Por isso, cada vez que um cristão fecha os olhos e fala com Deus sem cerimônia de templo, sem sacerdote, sem data marcada, ele está passando por onde o véu ficava. Mateus registrou o momento em que isso se tornou possível, em uma frase curta no meio da pior tarde da história: "o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo". Leia Mateus 27 inteiro para ver o rasgo no lugar dele — entre o grito da cruz e o espanto do centurião.

O rasgamento do véu está registrado fora da Bíblia?

Não. Os três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) são as únicas fontes antigas que mencionam o rasgo. Flávio Josefo descreve o véu em detalhe, mas não fala do episódio, e a literatura rabínica registra sinais estranhos no templo nas décadas anteriores à destruição sem mencionar a cortina rasgada. Isso não enfraquece o relato — a cortina ficava num lugar que só sacerdotes viam —, mas é honesto dizer que o testemunho é o dos evangelhos.

Por que Lucas coloca o véu rasgando antes da morte de Jesus?

Em Lucas 23:45, o véu se rasga antes do último clamor de Jesus; em Mateus e Marcos, depois. Lucas costuma agrupar os sinais (as trevas e o véu) e depois narrar a morte, enquanto Mateus e Marcos seguem a ordem dos acontecimentos. Os três concordam no essencial: o véu se rasgou na hora da morte de Jesus, e isso está ligado a ela.

O véu se rasgou de verdade ou é só um símbolo?

Os evangelhos narram o rasgo como fato, no mesmo nível das trevas e do terremoto, e a teologia evangélica histórica o lê assim: um acontecimento real que também carrega significado. Alguns estudiosos tratam o episódio apenas como linguagem simbólica, mas essa posição não vem do texto, que o descreve como evento físico.

Qual é a diferença entre o Lugar Santo e o Santo dos Santos?

O Lugar Santo era a primeira sala do santuário, com o candelabro, a mesa dos pães e o altar de incenso; os sacerdotes entravam ali todos os dias para o serviço. O Santo dos Santos (ou Lugar Santíssimo) era a sala interna, atrás do véu, com a Arca da Aliança, onde Deus disse que apareceria; só o sumo sacerdote entrava, uma vez por ano, no Dia da Expiação (Levítico 16).

O que aconteceu com o véu depois disso?

A Bíblia não diz se ele foi substituído. O templo continuou funcionando por cerca de quarenta anos, até ser destruído pelos romanos em 70 d.C., e é provável que os sacerdotes tenham trocado a cortina — a Mishná menciona que havia véus de reserva. Para o cristão, porém, o ponto não é o pano: Hebreus 10:19-20 diz que o caminho aberto por Jesus é permanente, e nenhuma cortina nova o fecha de volta.

Enezita JoseDarlison Almeida
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