Pular para o conteúdo
Publicidade

O significado do incenso na história do natal

Por Bíblia Online  - 
Hastes de lavanda seca com pontas em brasa soltam fumaça sobre uma pedra lisa cinzenta.

O que o incenso quer dizer na história do Natal

O incenso que os magos puseram diante de Jesus era uma resina — gotas endurecidas da seiva de uma árvore do sul da Arábia — que, queimada, soltava uma fumaça perfumada e era usada no culto a Deus. Mateus conta o presente e não explica o sentido; a tradição cristã, desde o século II, leu assim: o ouro honra um rei, o incenso honra a Deus, a mirra aponta para a morte. Nessa leitura, o incenso é o presente que diz "este menino é digno de adoração".

Isso é interpretação, não texto. Mas é uma interpretação que a própria Bíblia alimenta: no Antigo Testamento o incenso subia do altar diante de Deus e virou imagem da oração; em Isaías, ouro e incenso são o que as nações trazem de longe para Jerusalém; no Apocalipse, incenso é oração dos santos. É por esse caminho que o presente dos magos ganhou o significado que hoje a gente lembra no Natal.

Ao entrarem na casa, encontraram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se o adoraram. Então abriram seus tesouros e lhe ofertaram presentes: ouro, incenso e mirra.

O que Mateus realmente diz sobre os presentes

Vale começar pelo que está escrito, porque a história cresceu muito na memória popular. Mateus não diz quantos eram os magos, não diz que eram reis e não dá nome a nenhum deles. Diz que eram "magos" — a palavra grega magoi indica sábios do oriente, provavelmente astrólogos ligados a cortes da Pérsia ou da Mesopotâmia — e que vieram guiados por uma estrela perguntando pelo "rei dos judeus" que tinha nascido.

Chegando à casa, eles se prostram. O verbo grego, proskyneō, é o mesmo que o Novo Testamento usa para adoração a Deus — mas também era o gesto diante de reis, então o verbo sozinho não decide a questão. Depois abrem os tesouros e entregam ouro, incenso e mirra. E acaba aí: Mateus não para para dizer o que cada presente significa. Quem quiser ler a cena inteira, ela está em Mateus 2:1-12.

Olha, isso importa. Toda vez que alguém diz "o incenso simboliza a divindade", está dizendo algo que a igreja concluiu lendo Mateus junto com o resto da Bíblia — não algo que Mateus escreveu. A conclusão pode ser boa (e eu acho que é), mas o leitor precisa saber de onde ela vem.

Homem ajoelhado segura um pote de barro diante de mulher com criança no colo, em casa simples.

O que era o incenso que os magos trouxeram

A palavra que Mateus usa é libanos, a mesma raiz do hebraico lebonah: o olíbano. Ele vem da casca de árvores do gênero Boswellia, que crescem no sul da Arábia (a região de Sabá, o atual Iêmen e Omã) e no leste da África. Faz-se um corte no tronco, a seiva escorre, endurece em "lágrimas" claras, e essas lágrimas eram colhidas, transportadas em caravanas de camelo e vendidas a preço alto por todo o mundo antigo.

Não era um produto religioso por natureza. O incenso era perfume de casa, de banquete, de funeral. O que o tornava sagrado era o uso: queimado diante de Deus, no templo, ele passava a dizer algo. E era um presente de gente rica para gente importante — a rainha de Sabá trouxe a Salomão "ouro em grande quantidade, especiarias e pedras preciosas" (1 Reis 10:2, 10). Ouro, incenso e mirra eram, antes de qualquer simbolismo, o que se levava a um rei.

O incenso no culto do Antigo Testamento

No tabernáculo, e depois no templo, o incenso tinha um lugar fixo: um altar pequeno, de ouro, logo diante do véu que separava o Lugar Santíssimo. Todo dia, de manhã e à tarde, o sacerdote queimava ali uma mistura específica. A receita está em Êxodo 30:34-38: estoraque, ônica, gálbano e incenso puro, em partes iguais, moídos e salgados. E vem uma ordem dura: ninguém podia fazer aquela mistura para uso próprio. Quem fizesse seria cortado do povo.

Repare na precisão: o que era restrito ao culto não era o incenso em geral, era aquela mistura. Dizer que o incenso era "usado exclusivamente no culto a Deus" passa do ponto. O que é verdade é que a fumaça subindo diante de Deus, duas vezes por dia, virou uma imagem que Israel inteiro conhecia — e Davi a transformou em oração:

Que minha oração seja como incenso

diante de ti;

minhas mãos erguidas,

oferenda vespertina!(Salmos 141:2)

O que sobe do altar e o que sobe da boca de quem ora são a mesma coisa aos olhos de Deus. Essa é a ponte que faz o incenso virar símbolo de oração e, mais adiante, de adoração.

Ouro e incenso vindos de longe: Isaías 60:6

Agora o texto que, na minha leitura, mais pesa para entender o presente dos magos. Isaías 60 descreve Jerusalém restaurada, com a glória do Senhor sobre ela, e as nações caminhando para a luz dela. No meio da cena, chegam as caravanas:

Manadas de camelos cobrirão

as tuas terras,

camelos novos de Midiã e de Efá.

Também virão todos os de Sabá

transportando ouro e incenso

e proclamando o louvor de Yahweh.(Isaías 60:6)

Camelos de Midiã e Efá, gente de Sabá — exatamente as rotas de onde vinha o olíbano — trazendo ouro e incenso e proclamando os louvores do Senhor. O Salmo 72 faz coisa parecida: reis de Sabá e Sebá trazendo presentes ao rei de Israel, todas as nações o servindo (Salmo 72:10-11, 15).

Mateus não cita Isaías 60 — ele cita Miqueias para Belém e Oseias para o Egito, mas não esse texto. Ainda assim, quando a igreja leu os dois lado a lado, viu o quadro: estrangeiros vindo de longe, com ouro e incenso, para louvar o rei de Israel. Na leitura evangélica histórica, que é a minha, isso é cumprimento: o que Isaías viu de longe começa a acontecer numa casa em Belém. Outros leitores preferem falar em eco ou alusão, sem a palavra "cumprimento". Nos dois casos, a ligação não é invenção: está na escolha dos presentes.

Por que a tradição ligou o incenso à divindade de Jesus

A leitura "ouro para o rei, incenso para Deus, mirra para o que vai morrer" aparece já em Irineu de Lyon, no século II, e foi repetida por Orígenes e por boa parte dos Pais da Igreja. O raciocínio é simples e segue a Bíblia que eles tinham: ouro é tributo de rei; incenso é o que se queima diante de Deus no templo; mirra é o que se usa para embalsamar — e Mateus 2 fala de um rei, João 19 conta que Jesus foi sepultado com mirra e aloés.

Há outra leitura, menos devocional e igualmente honesta: os três eram simplesmente os presentes que gente abastada dava a um rei recém-nascido, como a rainha de Sabá fez com Salomão, e Mateus os lista para mostrar quem aqueles homens achavam que o menino era. Nessa leitura, o incenso não "simboliza" nada por si; o que fala é o gesto todo.

As duas não brigam tanto quanto parece. Mesmo na segunda, o ponto de Mateus é que estrangeiros reconheceram no filho de uma família pobre o rei que Israel esperava — e se prostraram. A primeira só dá um passo a mais e pergunta: que rei recebe o que se queima diante de Deus? Para quem crê que Jesus é Deus encarnado, o passo é natural. Mas é um passo nosso, não de Mateus.

O incenso como oração no Novo Testamento

A ligação entre incenso e oração não ficou nos Salmos. Lucas abre o evangelho com Zacarias, sacerdote, entrando no templo para queimar o incenso enquanto "todo o povo estava orando do lado de fora" (Lucas 1:9-10). Dentro sobe a fumaça, fora sobem as orações — e ali um anjo anuncia o nascimento de João Batista. É a mesma cena do altar, agora na porta da história do Natal.

No fim da Bíblia, a imagem se completa. Diante do trono, os anciãos seguram taças de ouro cheias de incenso, e João explica o que é:

E assim que o recebeu, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro. Cada um deles tinha uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos;(Apocalipse 5:8)

Mais adiante, em Apocalipse 8:3-4, um anjo oferece incenso com as orações dos santos, e a fumaça sobe diante de Deus. O ciclo fecha: o que Davi disse em figura, o Apocalipse mostra em visão. Incenso é oração chegando a Deus.

Isso dá ao presente dos magos um peso a mais. Se incenso é oração, o que eles puseram diante do menino foi, de certo modo, o símbolo do que o povo levava a Deus no templo — entregue agora a uma criança no colo da mãe.

Por que isso ainda importa no Natal

Porque o incenso responde a uma pergunta que o Natal faz todo ano: quem é esse menino? Não um bebê bonito para enfeitar a casa, não só um grande professor, não só o herói de uma história antiga. Os magos vieram de longe, gastaram caro, se prostraram e deixaram o que se queimava diante de Deus. O presente dizia o que eles talvez não soubessem dizer em palavras.

E dizia outra coisa: quem trouxe o incenso não era de Israel. Eram pagãos do oriente, exatamente a gente que Isaías viu chegando com camelos e ouro. O Natal, já na segunda página de Mateus, é uma porta aberta para quem estava de fora.

Depois que os magos abriram os tesouros, Mateus não diz o que Maria fez com o incenso. Ele só registra que, diante daquela criança, homens que não eram do povo de Deus se ajoelharam e ofereceram ouro, incenso e mirra. Leia Mateus 2:1-12 inteiro, e repare como a cena termina: eles voltam por outro caminho, e Herodes fica para trás.

Eram três reis magos?

A Bíblia não diz quantos eram nem que eram reis. O número três veio da quantidade de presentes; os nomes Belchior, Gaspar e Baltazar aparecem em tradições a partir do século VI. Mateus 2 fala apenas de "magos do oriente", sábios provavelmente ligados a cortes da Pérsia ou da Babilônia.

Qual a diferença entre incenso e mirra?

Os dois são resinas de árvores da Arábia e da África, mas de plantas diferentes e com usos diferentes. O incenso (olíbano, da Boswellia) era queimado como perfume e no culto; a mirra (da Commiphora) era mais amarga, usada como óleo perfumado, remédio e para embalsamar corpos — João 19:39 conta que Jesus foi sepultado com mirra e aloés. Por isso a tradição ligou a mirra à morte de Jesus e o incenso à sua divindade.

Os magos sabiam o que os presentes significavam?

Provavelmente não no sentido que a igreja deu depois. Eles trouxeram o que se levava a um rei importante, como a rainha de Sabá fez com Salomão em 1 Reis 10. O significado "ouro para o rei, incenso para Deus, mirra para a morte" é leitura cristã posterior, a partir de Irineu no século II, feita à luz de toda a Bíblia.

Mateus cita Isaías 60 ao falar dos presentes?

Não. Mateus cita Miqueias 5:2 sobre Belém e Oseias 11:1 sobre o Egito, mas não Isaías 60. A ligação entre "ouro e incenso vindos de Sabá" em Isaías 60:6 e os presentes dos magos foi feita pelos leitores cristãos, que viram ali as nações chegando com seus tesouros ao rei de Israel.

Por que algumas igrejas usam incenso no culto e outras não?

Igrejas católicas, ortodoxas e algumas anglicanas e luteranas mantêm o incenso como continuidade do culto do templo e como sinal da oração que sobe, com base em textos como Salmo 141:2 e Apocalipse 5:8. A maior parte das igrejas evangélicas entende que o culto do templo foi cumprido em Cristo e que a imagem permanece sem a prática. As duas posições estão dentro da fé cristã; o Novo Testamento não ordena nem proíbe o uso.

Seja o primeiro

Este artigo te tocou? Faça uma oração!

+581 estão orando agora.

Junte-se à corrente de oração.