Oração de gratidão pelas pequenas bênçãos e livramentos
Redação Bíblia Online Publicado em
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Agradecer pelo que não fez barulho
Esta oração é para o fim de um dia comum — daqueles em que nada de grande aconteceu, e talvez por isso nada pareceu merecer um obrigado. Ela nomeia o que ficou quase invisível: o pão que estava na mesa, o caminho feito sem susto, o perigo que passou ao largo. É curta de propósito, para ser rezada inteira, de uma vez, antes que o ritmo volte.
As palavras dela ecoam Lamentações 3:22-23, escrito por alguém que olhava para uma cidade em ruínas e, ainda assim, contava as misericórdias que não tinham acabado. Elas se renovam, diz o texto, a cada manhã — pequenas, repetidas, quase sempre despercebidas.
Senhor, paro no meio deste dia comum para ver o que passou sem que eu notasse.
Obrigado pelo ar que entra agora no peito, pelo alimento simples que estava na mesa e pelo teto que me abriga neste instante.
Obrigado pelos livramentos que não cheguei a ver: o perigo que não me tocou, o passo guardado no caminho, a calma devolvida no meio da pressa.
As tuas misericórdias não tiveram fim; renovaram-se para mim esta manhã, e eu não percebi. Abre os meus olhos para as de amanhã. Ensina-me a agradecer baixo, pelas coisas pequenas, em vez de esperar só pelos grandes sinais.
O que ficou por fazer, deixo contigo. Amém.
Este artigo faz parte de Orações Gratidão e Louvor
De onde vêm estas palavras
Lamentações não é um livro de dias comuns. Foi escrito depois que Jerusalém caiu diante da Babilônia, por volta de 586 a.C. — o templo queimado, as muralhas abertas, boa parte do povo levada para longe. São cinco poemas de luto, e quem os compôs cuidou de cada letra: quatro deles seguem o alfabeto hebraico, verso a verso, como se a dor precisasse de uma forma para não transbordar.
O capítulo 3 fica no centro do livro, e é o mais longo. Ali a voz muda: já não é a cidade que fala, mas um homem só, na primeira pessoa. Durante vinte versos ele descreve a escuridão, o peso, a oração que parecia não subir. Nada é suavizado. E então, quase sem aviso, ele diz que vai trazer algo à memória — e é isso que lhe dá esperança. O que ele traz são as misericórdias que não acabaram. Logo adiante, no mesmo fôlego, acrescenta: a minha porção é o Senhor (Lamentações 3:24), e, um pouco depois, que é bom esperar em silêncio pela salvação do Senhor (Lamentações 3:26).
Vale parar nisso um instante. As frases mais citadas sobre a fidelidade de Deus nasceram no meio de ruínas, não depois delas. Quem as escreveu não tinha saído do problema. Tinha apenas decidido olhar, dentro do problema, para o que ainda estava de pé.
O que a passagem ensina
A palavra traduzida por "misericórdias" está no plural, e isso importa. Não é uma grande misericórdia, uma só, que se recebe de uma vez. São muitas, miúdas, repetidas — e o texto diz que se renovam a cada manhã. Não a cada milagre, não a cada grande virada. A cada manhã. A medida da fidelidade de Deus, nessa passagem, é a do dia que amanhece de novo.
Isso muda o que se entende por gratidão. Costuma-se esperar um motivo grande para agradecer: a cura, a resposta, a porta que abre. Lamentações sugere outro caminho. A gratidão ali é um ato de memória, antes de ser um sentimento. O poeta não diz que se sentiu grato; diz que trouxe algo à lembrança. Primeiro ele escolhe lembrar; a esperança vem depois, como consequência, não como ponto de partida.
E há ainda o silêncio. Esperar em silêncio, diz o texto, é bom. Não é resignação nem indiferença. É a postura de quem já disse o que precisava dizer — inclusive a queixa — e agora deixa espaço para que a fidelidade de Deus se mostre no próprio ritmo dela. Quem reza para agradecer pelo que não fez barulho está, de certo modo, aprendendo esse silêncio: baixar a voz o bastante para ouvir o que passou despercebido.
Como rezar esta oração hoje
Ela foi pensada para o fim da tarde ou a noite, quando o dia já se fechou e ainda não virou lembrança. Antes de ler, talvez ajude respirar uma ou duas vezes, devagar, e deixar o dia passar pela mente como quem assiste a um rio: o que correu, o que ficou parado, o que seguiu sem ser notado.
Depois, uma pergunta simples pode abrir caminho: o que aconteceu hoje que não precisou acontecer? O trajeto que foi tranquilo. A refeição que estava lá. A conversa que não virou briga. A noite anterior em que o sono veio. São coisas que só aparecem quando alguém para e olha para trás — e é exatamente isso que a oração pede que se faça.
Não é preciso sentir alegria para rezá-la. Lamentações mostra que a gratidão pode vir num dia ruim, não como negação do que doeu, mas como atenção ao que, apesar de tudo, não faltou. Agradecer pelo pequeno não é fingir que o grande está resolvido. É reconhecer que a fidelidade de Deus não espera o grande se resolver para começar a agir.
Quando não há vontade de agradecer
Há dias em que até o pouco parece pouco demais. Nesses dias, o próprio livro de Lamentações dá licença para começar pela queixa — vinte versos dela, antes de qualquer memória boa. Deus não pediu ao poeta que pulasse a dor. Deixou que ele chegasse, pelo caminho dele, até o verso em que a misericórdia aparece.
Então, se a oração acima parecer distante demais, talvez baste uma linha dela: "paro no meio deste dia comum para ver o que passou sem que eu notasse." E depois, silêncio. Às vezes a gratidão não vem na noite em que se procura. Vem na manhã seguinte, renovada, como o texto diz que vem — e aí já é outra oração.
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