Oração para pedir força ao atravessar uma espera sem prazo
A oração de quem espera sem prazo
Antes de ler, respira uma vez, devagar. A oração abaixo é curta de propósito: cabe numa respiração longa e pode ser repetida quantas vezes a noite pedir. Ela nasce do Salmo 40, a canção de alguém que esperou sem saber até quando — e que, do outro lado da espera, ainda tinha pedidos para fazer.
Senhor, eu estou esperando e não sei até quando. Já contei os dias, já parei de contar. Estou sem forças, de tanto não ter o controle disto.
Inclina-te para mim, como fizeste com quem te esperou antes de mim, e ouve este clamor que às vezes nem vira palavra.
Dá-me força para o dia de hoje, só para hoje. Guarda-me da pressa que inventa atalho e do olhar que mede a minha vida pela dos outros. Firma os meus passos onde o chão parece mole.
Abre os meus olhos para o que já tenho, enquanto não chega o que eu peço.
O prazo eu não sei. Entrego-o a ti, que sabes. Amém.
Se for rezar só uma linha, reze esta: Dá-me força para o dia de hoje, só para hoje. Depois, fica em silêncio um pouco. O silêncio também é parte da oração.
O que o salmista estava esperando
O Salmo 40 é atribuído a Davi, e começa de um jeito que, lido depressa, parece fácil: esperei, e ele me ouviu. Mas repara no verbo. No hebraico, a frase "esperei com paciência" é um verbo repetido duas vezes — algo como "esperando, esperei". A língua faz isso quando quer dizer que a ação foi intensa, longa, inteira. Não foi uma espera de quem olha o relógio. Foi uma espera que ocupou a pessoa toda.
E de onde ele esperava? Os versículos seguintes dizem.
Um lago horrível, um charco de lodo. Quem já pisou em lama de rio sabe a sensação: o pé afunda, e quanto mais força se faz, mais se afunda. Não há onde apoiar. É uma imagem muito exata de certas esperas — a do diagnóstico que não vem, do emprego que não aparece, do filho que não volta, da porta que não abre nem fecha. Você se mexe e não sai do lugar.
O salmista não diz quanto tempo passou no lodo. Também não diz o que fez para sair. Diz só que foi tirado, que os pés foram postos sobre a rocha, e que depois disso havia na boca um cântico novo. A ordem importa: primeiro a espera inteira, depois a rocha, depois a canção. Ninguém canta de dentro do charco. Mas quem está no charco pode esperar — e esperar, no salmo, já é uma forma de confiar.
O silêncio de Deus não é o fim da conversa
A pergunta que mais pesa numa espera longa raramente é "quando?". É outra, mais funda: ele está ouvindo? Os dias passam iguais, a oração parece bater no teto e voltar. É natural começar a achar que o silêncio é ausência.
O Salmo 40 oferece uma pista curiosa sobre isso, e ela está no fim, não no começo. Depois de contar que foi ouvido e tirado do lodo, o salmista chega ao último versículo ainda pedindo.
"Não te detenhas" — ou "não te demores", dependendo da versão que você lê. É a mesma voz que abriu o salmo dizendo "ele me ouviu". A pessoa que já experimentou a resposta de Deus continua, no mesmo poema, pedindo que ele não demore. Isso diz algo que talvez você precise ouvir: a espera não acabou para ele de uma vez. Houve uma rocha, e depois houve outro lodo. E ele continuou falando com Deus nos dois lugares.
O silêncio de Deus, nesse sentido, não é o fim da conversa. É um lado dela. Lamentações 3:26 chega a chamar de bom esperar em silêncio pela salvação do Senhor — não porque o silêncio seja agradável, mas porque é nele que a gente para de preencher o espaço e deixa Deus ser Deus. A tradição contemplativa cristã, de Bento de Núrsia a Henri Nouwen, aprendeu a chamar isso de escuta. Escutar não é ouvir uma resposta. É ficar voltado para quem pode responder, mesmo quando ainda não respondeu.
Vale fazer a pergunta devagar, sem pressa de responder: na sua espera, o que você tem feito com o silêncio? Enchido, ou habitado?
A pressa inventa atalhos, e a comparação rouba o chão
Quando a espera se estende, aparecem dois visitantes. O primeiro é a pressa. Ela sussurra que você já esperou demais, que está na hora de forçar a porta, que qualquer movimento é melhor do que nenhum.
A Bíblia conhece esse visitante. Em 1 Samuel 13, o rei Saul espera sete dias por Samuel, como lhe fora dito. O prazo vence, Samuel não aparece, o exército começa a debandar, e Saul oferece ele mesmo o sacrifício que não lhe cabia oferecer. Samuel chega logo depois — e o que Saul fez por pressa lhe custou mais do que a espera teria custado. O texto não condena a angústia de Saul; condena o atalho. Há uma diferença entre agir e forçar, e a pressa quase sempre apaga essa diferença.
O segundo visitante é a comparação. Ele chega pelo telefone, pela conversa na família, pela notícia de que alguém conseguiu o que você ainda espera. E a pergunta que ele traz é venenosa porque parece razoável: por que para ela sim e para mim não?
O Salmo 40 não responde a essa pergunta. Mas repara que o salmista, do lodo à rocha, só olha para dois lugares: para a própria situação e para Deus. Em nenhum verso ele mede o seu charco pelo chão firme do vizinho. Talvez porque saiba que a comparação é um lodo a mais — quanto mais se olha para o lado, mais se afunda. Firmar os passos, no salmo, é obra de Deus; mas manter o olhar no lugar certo é parte que cabe a quem espera.
Por isso a oração acima pede duas coisas distintas: guarda-me da pressa que inventa atalho e do olhar que mede a minha vida pela dos outros. São tentações diferentes, e ambas ficam mais fortes quando o prazo não existe.
Gratidão pelas coisas pequenas enquanto a grande não chega
Há uma frase que costuma ferir quem está numa espera longa: "seja grato pelo que você tem". Dita de fora, soa como quem pede para você fingir que a falta não dói. Não é disso que o salmo fala.
O salmista não diz que esqueceu o lodo. Diz que, olhando para trás, encontra mais maravilhas do que consegue contar. É uma gratidão que coexiste com a falta — e que, aliás, está no mesmo poema em que ele ainda pede "não te demores". Agradecer e esperar não são etapas sucessivas. Acontecem ao mesmo tempo, na mesma pessoa.
Uma prática antiga ajuda aqui, e é simples. No fim do dia, antes de dormir, em vez de perguntar "o que faltou hoje?", pergunte "o que foi dado hoje?". Não as coisas grandes — essas você já sabe que faltam. As pequenas: a refeição que houve, a conversa que aconteceu, o ar que entrou e saiu dos pulmões sem que você precisasse pedir. Nomeie três. Depois, silêncio.
Isso não encurta a espera. Mas muda o lugar de onde você espera. Quem só olha para o que falta espera do fundo do charco. Quem também nomeia o que há espera com um pé, ao menos um, apoiado em algo firme. O salmo chama isso de cântico novo, e a palavra "novo" é precisa: não é a canção antiga, de antes do lodo. É outra, que só quem passou pelo lodo sabe cantar.
Como rezar esta oração nos dias que se repetem
Esperas sem prazo têm uma crueldade própria: os dias ficam iguais. A oração que se reza na segunda é a mesma da quinta, e a resposta é o mesmo silêncio. Alguns conselhos de quem pratica a oração pausada, para quando a repetição começar a pesar.
Reze devagar. A oração acima tem pouco mais de cem palavras; dá para dizê-la em um minuto, mas não é essa a ideia. Deixe um espaço entre as frases. A frase "só para hoje" merece uma pausa depois, porque ela é a mais difícil de acreditar.
Não force sentimento. Haverá dias em que você vai rezar "abre os meus olhos para o que já tenho" sem sentir gratidão nenhuma. Reze mesmo assim. O salmista também rezou do lodo, e lodo não é lugar de sentir muita coisa além de peso. A oração não depende do que você sente ao dizê-la.
Volte ao salmo quando as palavras acabarem. A oração ecoa o Salmo 40, mas o salmo inteiro é mais largo do que ela — tem o lodo, a rocha, o cântico, o pedido final. Em dias em que nem a oração sair, ler o salmo devagar pode ser a oração. Deixar que as palavras de outro, que esperou antes, digam o que você não consegue.
O salmo termina no versículo 17, com um pedido ainda aberto: não te demores. É um fim honesto. Ele não finge que tudo se resolveu, e nem por isso deixa de chamar Deus de auxílio e libertador. Talvez seja esse o lugar onde você está hoje — entre o que já foi dado e o que ainda não chegou. O salmo cabe inteiro nesse lugar. Leia o Salmo 40 completo, sem pressa.
Esperar com paciência significa não fazer nada?
Não. No Salmo 40, o verbo "esperar" é o mesmo usado para quem aguarda com atenção, de olhos voltados para alguém — não quem cruza os braços. A diferença bíblica não é entre agir e parar, mas entre agir no que lhe cabe e forçar o que não lhe cabe. Saul, em 1 Samuel 13, agiu fora do que lhe cabia por não suportar a demora; é esse o atalho que a Escritura adverte.
É pecado sentir ansiedade durante uma espera longa?
A Bíblia não trata a angústia como pecado; trata-a como realidade humana e a leva a Deus. O próprio Salmo 40 termina com um pedido aflito, "não te demores", na boca de alguém que já havia sido ouvido. O que a Escritura orienta é o destino da ansiedade — levá-la a Deus em oração, como em Filipenses 4:6 — e não a ausência dela. Quando a ansiedade toma o corpo e o sono por muito tempo, buscar ajuda de um profissional é prudência, não falta de fé.
E se a espera não acabar do jeito que eu pedi?
O Salmo 40 conta uma espera que terminou em livramento, mas a Bíblia também guarda esperas que terminaram de outro modo, e pessoas que morreram sem ver o que aguardavam, como lembra Hebreus 11:13. A oração cristã pede com honestidade e entrega o prazo e o desfecho a Deus; é por isso que a oração acima termina em "entrego-o a ti, que sabes", e não numa garantia. A fé não é a certeza de um resultado, mas a confiança em quem segura o resultado.
Posso repetir a mesma oração todos os dias?
Pode, e a tradição cristã sempre fez isso — os salmos foram rezados por séculos, todos os dias, pelas mesmas pessoas. Repetir não gasta a oração; muitas vezes a aprofunda, porque palavras ditas de novo vão perdendo a pressa e ganhando silêncio em volta. Se um dia a oração parecer vazia, reze mais devagar, ou leia o Salmo 40 no lugar dela.
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