Oração pela família e pelos filhos: paz para o lar
Antes da oração, para um instante. Deixa os ombros descerem. O que segue é uma oração pela família e pelos filhos, curta o bastante para ser rezada inteira, e por dentro dela corre uma promessa antiga: a de que Deus mesmo ensina os filhos e dá paz a eles. Onde a oração diz "cada um", diz os nomes.
Todos os seus filhos serão ensinados pelo Senhor,
e grande será a paz das suas crianças.(Isaías 54:13, NVI)
Oração pela família e pelos filhos
Senhor, este é o meu lar e estes são os meus filhos. Hoje tem cansaço na minha voz, tem palavra que eu queria desdizer, tem medo do que eu não alcanço quando eles saem pela porta. Eu te entrego cada um, pelo nome. Ensina tu o que eu não sei ensinar. Dá a eles uma paz que não dependa do meu humor nem da conta no fim do mês. Guarda esta casa, de dia e de noite. O que eu plantei torto, endireita; o que eu não plantei, planta tu. Agora eu fico em silêncio. Eles são teus. Amém.
Fica um minuto no silêncio depois do Amém. Não é intervalo antes de continuar lendo. É a parte da oração em que quem fala é Deus, e quem escuta é você.
De onde vem esta promessa
A frase que a oração ecoa está em Isaías 54, e ela não foi dita a uma família tranquila numa tarde de domingo. Foi dita a uma cidade em ruínas.
Isaías fala a Jerusalém, e fala dela como se fosse uma mulher. Uma mulher que ficou só: sem filhos, abandonada, com as paredes da casa caídas. É a Jerusalém do exílio, a cidade que os babilônios tomaram, com o povo levado para longe e os muros no chão. O capítulo começa pedindo a essa mulher que cante. Que alargue a tenda, que estique as cordas, porque vai precisar de espaço para gente que ainda não existe.
Deus então promete reconstruir. Não com tijolo comum: com pedras preciosas nos alicerces, com safira, com rubi nas ameias. E no meio dessa promessa de reconstrução vem o versículo 13: os filhos dessa cidade serão ensinados pelo Senhor, e grande será a paz deles. Você pode ler a sequência inteira em Isaías 54, com esses versículos destacados.
Vale notar, para não ler no texto mais do que ele diz: os "filhos" aqui são, no sentido original, os habitantes da cidade restaurada, o povo que voltaria do exílio. É uma promessa para o povo de Deus, não um contrato assinado para cada família em particular. E ainda assim é por isso que ela serve a quem reza hoje: foi dada no lugar da ruína, para quem já não tinha forças. A mulher de Isaías 54 não é a mãe que deu conta. É a que não deu, e a quem Deus fala primeiro.
Repara no que a promessa pede dela: nada. Ela não é mandada ensinar melhor, vigiar mais, errar menos. O verbo está do lado de Deus.
O que significa "ensinados pelo Senhor"
Séculos depois, Jesus pega essa mesma frase e a leva para outro lugar.
Está escrito nos Profetas: "Todos serão ensinados por Deus". Todos os que ouvem o Pai e dele aprendem vêm a mim.(Κατα Ιωαννην 6:45, NVI)
É na sinagoga de Cafarnaum, no meio de uma conversa dura sobre o pão da vida. A multidão quer sinais e não entende quem ele é, e Jesus cita "os Profetas": todos serão ensinados por Deus. E emenda: quem ouve o Pai e aprende dele, vem a mim.
Isso muda o que "ensinar" quer dizer. Na boca de Jesus, ser ensinado por Deus não é receber informação, é ser atraído. É aquele movimento interior, que ninguém força de fora, pelo qual uma pessoa passa a querer Deus. Um pai pode ensinar um filho a ler, a dizer obrigado, a decorar um salmo. Não pode colocar fé dentro dele. Esse é o pedaço que não cabe nas mãos de nenhum pai ou mãe, e é exatamente esse pedaço que a promessa diz que pertence a Deus.
Uma leitura cristã antiga, que vale a pena guardar, é esta: a paz prometida aos filhos em Isaías 54 e o ser atraído de João 6 são a mesma coisa vista de dois lados. Quem é ensinado por Deus, de dentro, encontra paz, porque deixa de precisar sustentar o mundo sozinho. E a paz de uma casa não começa quando todos os problemas acabam. Começa quando alguém dentro dela para de carregar o que não é seu.
Isso não é garantia de filho que nunca erra, nem de lar sem briga. A Bíblia não promete isso, e a oração acima não pede isso. Ela pede o que o texto oferece: que Deus ensine onde não alcançamos, e que a paz deles não dependa de nós.
Quando o cansaço é maior que a oração
Tem noite em que a oração não sai. O corpo está no chão, a cabeça cheia de lista, e a culpa de não conseguir orar vira mais um peso em cima dos outros. Se este é o seu caso agora, uma pergunta antes de qualquer conselho: o que você está carregando hoje que não é seu para carregar?
A tradição contemplativa cristã tem uma resposta simples para o cansaço: encurta. Uma frase basta. Os monges antigos rezavam uma linha só, repetida, no ritmo da respiração. Você pode fazer o mesmo com a promessa de Isaías. Inspira: "Ensina tu". Expira: "o que eu não sei". Inspira: "e dá a eles". Expira: "a tua paz". Três ou quatro vezes, com a mão na porta do quarto onde eles dormem, ou no volante antes de buscar na escola.
Não é oração menor. Henri Nouwen dizia que a oração começa onde as palavras acabam, e que o silêncio diante de Deus já é diálogo, não ausência dele. Quando você não consegue formular o pedido, o cansaço mesmo é o pedido. Deus lê o que não foi dito.
Uma imagem para levar: a água não precisa saber para onde vai. Ela desce. A oração do cansado é assim, desce para Deus pelo caminho que encontrar, sem precisar de forma bonita.
O filho que já cresceu e está longe
O caso mais difícil não é o bebê que não dorme. É o filho de trinta anos que não liga, que riu da fé que você tentou passar, ou que está vivendo de um jeito que te tira o sono. Como rezar por quem já não aceita ser ensinado por você?
Aqui a promessa de Isaías 54 pesa de um jeito diferente. "Ensinados pelo Senhor" quer dizer, entre outras coisas, que a sua parte acabou e a de Deus não. O ensino que você podia dar, já deu, torto ou direito. O que resta, só ele faz, e faz sem precisar da sua presença na sala. Isso é duro de aceitar e, ao mesmo tempo, é o único alívio honesto.
O pai da parábola em Lucas 15 não saiu correndo atrás do filho que foi embora. Ficou. Ficou olhando a estrada. A oração pelo filho distante é esse ficar, e dá para fazer dela um hábito pequeno: um lugar fixo, um horário, o nome dito em voz baixa, e a mesma frase de sempre. "O que eu não plantei, planta tu." Sem roteiro de volta, sem prazo, sem exigir de Deus a cena da reconciliação. Só o pedido, repetido, e o silêncio depois.
E uma pergunta para levar à oração: o que, no seu filho, você consegue entregar hoje, mesmo sem saber o fim?
Como fazer da oração um hábito, não só um socorro
A maior parte das orações pelos filhos nasce na crise: febre alta, nota ruim, a notícia que ninguém queria. Não há nada de errado nisso. Mas uma casa que só reza quando a parede cai não aprende o que a mulher de Isaías aprendeu: que a paz chega antes da reconstrução terminar.
O hábito se faz com três coisas pequenas. A primeira é a hora. A mesma, todo dia: ao acordar, antes de o barulho começar, ou à noite, quando a casa aquieta. A hora fixa é a tenda que você alarga antes de ter com que a encher. A segunda é o tamanho: curta. Uma oração de duas linhas que você reza todo dia vale mais do que uma longa que só sai uma vez por mês. A terceira é o nome. Não "meus filhos", mas um por um. Cada nome é uma pessoa inteira sendo entregue, e isso leva um segundo a mais que vale a pena.
Se as crianças são pequenas, deixa que rezem com você. Deuteronômio 6 pede aos pais que falem das palavras de Deus com os filhos "quando estiverem sentados em casa e quando andarem pelo caminho", e isso é menos aula e mais presença: a oração de dois minutos antes de dormir, repetida mil vezes, é o que fica. Você pode ler o trecho em Deuteronômio 6.
Não se assuste com a repetição. Os monges rezam os mesmos salmos há mil e quinhentos anos e não acham que estão sendo pouco criativos. A repetição é o sulco por onde a água passa. No começo você reza a oração. Com o tempo, a oração reza você, e aparece sozinha na cabeça no meio do dia, quando um deles liga ou quando a porta bate.
Se de tudo o que leu só uma frase ficar, que seja esta, à noite, com a mão na porta do quarto deles:
Senhor, eles são teus. Amém.
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