Oração e paz na espera burocrática da adoção
A oração
Antes de rezar, respira uma vez devagar. A fila não anda mais depressa se você prender o ar. As palavras abaixo foram escritas por alguém sentado no meio de ruínas, e são elas que vão sustentar a oração que vem em seguida.
Pai, estamos na fila. Os papéis estão entregues, o cadastro está feito, e o telefone não toca.
Tu sabes o nome da criança que ainda não conhecemos; nós não. Guarda-a onde ela estiver hoje — que ela coma, durma e não esteja só. Dá paciência a quem cuida dela, e discernimento a quem decide por ela e por nós.
Tira de nós o medo que conta os dias como se fossem dias perdidos. Ensina-nos a esperar em silêncio, como quem já te chamou de Pai e foi ouvido.
O que não está nas nossas mãos, deixamos nas tuas. Amém.
(Lamentações 3:25-26; Romanos 8:15)
Se quiser parar aqui, pare. A oração é inteira. O que segue é para quem quer ficar mais um pouco com ela.
Quem escreveu "é bom esperar em silêncio" não estava confortável
É fácil ler Lamentações 3:26 como frase de quadro na parede. Mas o livro inteiro é um lamento sobre Jerusalém destruída — muros caídos, templo queimado, gente levada embora. A tradição atribui o texto a Jeremias, e seja ele ou não o autor, quem escreve está sentado onde antes havia uma cidade.
É desse lugar que ele diz que o Senhor é bom para quem espera. Não de uma sala de estar, não depois de tudo ter dado certo. Do meio do entulho.
Isso muda o peso da frase. A espera que ele chama de boa não é a espera de quem tem o resultado garantido. É a espera de quem não tem mais nada para fazer senão esperar, e descobre, ali, que ainda pode esperar em alguém.
Vocês conhecem um pouco disso. A adoção tem uma hora em que a parte que depende de vocês acaba: a entrevista aconteceu, o curso foi feito, o relatório foi assinado. E depois vem o tempo em que nada depende de vocês. Esse tempo é o assunto desta oração.
Dois silêncios que não são iguais
Há o silêncio do processo. O e-mail sem resposta, a fila que muda de posição sem explicação, a técnica que "vai ligar" e não liga. Esse silêncio é duro porque não tem rosto. Ninguém disse não; só ninguém disse nada.
E há o silêncio de que Lamentações fala — esperar "em silêncio" pela salvação do Senhor. Esse também não tem resposta imediata. Mas tem rosto.
A pergunta que vale fazer, numa noite dessas, é: em qual dos dois silêncios você está passando o dia? Porque o primeiro só produz mais silêncio. O segundo, com o tempo, vira conversa.
Repare como a oração acima não pede que o processo ande. Pede outra coisa: que o medo pare de contar os dias como perdidos. É um pedido menor e, ao mesmo tempo, mais fundo. O processo vocês não controlam. O que vocês fazem com as horas, sim — e nem isso precisa ser feito sozinhos.
O tempo de espera não precisa render
Existe uma tentação, na espera da adoção, de transformar tudo em preparação útil. Ler mais um livro. Montar o quarto. Fazer mais um curso. Nada disso é errado. Mas repare se, por baixo, não está a ideia de que o tempo só vale se produzir algo.
A tradição contemplativa cristã diz o contrário com muita calma: o tempo de espera vale por si. Como a água parada num tanque, que não está fazendo nada e, ainda assim, está decantando. O que estava turvo vai assentando no fundo. Só se vê isso depois.
Então a pergunta não é "o que fazer com esse tempo", mas "o que esse tempo está fazendo em vocês". Que medo está aparecendo que antes não tinha nome? Que ideia de família está sendo desmontada e refeita? Que paciência está sendo pedida de vocês dois — e um do outro?
Não é preciso responder agora. Basta notar. Notar já é oração.
"Aba, Pai": vocês também são adotados
A segunda passagem que ecoa na oração vem de Paulo, escrevendo aos cristãos de Roma.
Paulo não está falando de adoção de crianças — está usando uma imagem. No direito romano, o filho adotado recebia o nome, a herança e o lugar na família como quem nasceu nela. Paulo pega essa imagem para dizer o que acontece com quem recebe o Espírito: deixa de se relacionar com Deus pelo medo e passa a chamá-lo de Pai. "Aba" é a palavra aramaica íntima, de dentro de casa.
Mas quem espera na fila da adoção lê esse versículo e sente algo que outros leitores talvez não sintam. Vocês estão prestes a fazer, numa escala pequena e humana, o que o texto diz que Deus fez com vocês. E antes de serem pais de alguém, já foram filhos recebidos.
Isso não resolve a burocracia. Mas muda quem está esperando. O "espírito de escravidão para o medo" é exatamente o que a espera longa tenta instalar: a sensação de que vocês são reféns de um despacho. O que Paulo oferece não é a promessa de que o despacho sai amanhã, e sim um lugar onde ficar enquanto ele não sai — o lugar de quem pode dizer "Pai" e ser ouvido.
Rezar por uma criança que ainda não tem rosto
Uma das coisas mais estranhas dessa espera é saber que o filho existe. Não é um projeto; é alguém. Hoje, em algum lugar, essa criança acordou, comeu ou não comeu, dormiu com alguém por perto ou sem ninguém. Vocês não sabem onde. Deus sabe.
Isso dá à oração um endereço concreto, mesmo sem nome. É possível pedir pelo café da manhã dela. Pelo educador que a levanta da cama no acolhimento. Pelo irmão de que ela talvez não queira se separar. Pela história que ela já carrega e que vocês ainda não ouviram.
E dá para rezar por quem está no meio do caminho: a equipe técnica que faz os estudos, o juiz ou juíza que assina, a família de origem, cuja dor também é real. A oração acima pede discernimento "a quem decide por ela e por nós". Não é figura de linguagem. São pessoas, com mesas cheias, decidindo coisas pesadas.
Se for rezar ao longo do dia, reze curto. "Pai, guarda ela hoje." Depois, silêncio. A oração não precisa de muitas palavras para chegar; precisa de alguém que volte a ela.
Quando a espera não termina como vocês queriam
Esta é a parte difícil, e a oração não a esconde. Alguns processos levam anos. Alguns perfis demoram tanto que a habilitação vence e precisa ser renovada. Alguns casais, no caminho, descobrem que o que estavam dispostos a receber mudou. E há processos que não terminam com uma criança em casa.
Lamentações não promete que Jerusalém será reconstruída na semana seguinte. O que o texto diz é que é bom esperar "pela salvação do Senhor" — não pela coisa específica que a pessoa pediu. É uma diferença incômoda. Mas é honesta, e a oração cristã madura é feita dessa honestidade.
Por isso a oração acima termina com uma entrega, não com uma certeza. "O que não está nas nossas mãos, deixamos nas tuas." É a frase mais difícil de dizer e, talvez, a única que de fato alivia. Não porque garanta o resultado, mas porque tira dos ombros o que nunca esteve lá para vocês carregarem.
Se essa frase ainda não sai inteira, não a force. Deixe que ela amadureça como o resto. Hoje, talvez, dá para dizer só a primeira metade.
Voltar ao versículo
No fim do dia, quando o telefone continuar em silêncio, vale voltar às palavras de Lamentações 3:25-26 e ler devagar, uma vez só. Quem as escreveu também não sabia quando a espera acabaria.
E depois, antes de dormir, uma respiração longa. O silêncio que vem em seguida não é vazio. É onde a conversa continua.
Como lidar com a ansiedade quando o processo de adoção não anda?
A ansiedade da espera costuma vir do silêncio sem rosto — ninguém diz não, mas ninguém diz nada. A oração não acelera o processo, mas dá ao silêncio um endereço: em vez de esperar "a fila", você espera diante de alguém. Rezar curto e várias vezes ao dia ("Pai, guarda ela hoje") ajuda mais do que uma oração longa feita uma vez. Se a ansiedade estiver tirando o sono ou a saúde, conversar com um profissional não é falta de fé; é cuidado.
Como orar por uma criança que ainda não conhecemos?
Rezando pelo que ela certamente está vivendo hoje, mesmo sem saber onde: que coma, que dorme com alguém por perto, que seja tratada com paciência. Dá para pedir também pelos educadores, pela família de origem e pela equipe que acompanha o caso. A criança já existe e já tem uma história; a oração começa por reconhecer isso.
É errado "preparar o quarto" antes de a adoção sair?
Não há nada na Bíblia contra se preparar. O risco não está no quarto, mas em transformar toda a espera em tarefa, como se o tempo só valesse se produzisse algo. Lamentações 3:26 fala de esperar em silêncio — um tempo que não rende nada visível e, ainda assim, trabalha por dentro. Preparar a casa e preparar o coração podem andar juntos, desde que o segundo não fique esquecido.
O que a Bíblia diz sobre adoção?
A Bíblia não tem um manual sobre adoção de crianças, mas a imagem está no centro da fé cristã: Paulo diz que os cristãos receberam "o Espírito de adoção" e por isso chamam Deus de Pai (Romanos 8:15; ver também Gálatas 4:5 e Efésios 1:5). Há também histórias de crianças criadas por quem não as gerou, como Moisés na casa de Faraó (Êxodo 2:10) e Ester criada por Mardoqueu (Ester 2:7). Quem adota repete, em escala humana, algo que o próprio Deus fez primeiro.
E se o processo de adoção não der certo?
A Bíblia não promete que todo pedido será atendido do jeito que foi feito. Lamentações 3:26 fala de esperar "pela salvação do Senhor", não pelo resultado específico. Isso não torna a dor menor, mas permite que ela seja levada a Deus sem fingimento. A entrega da oração — "o que não está nas nossas mãos, deixamos nas tuas" — vale também para o caso de a resposta ser diferente da esperada.
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