O que Jesus ensinou sobre o reino de Deus
O Reino de Deus é Deus governando — e Jesus disse que ele chegou
Quando Jesus falava do Reino de Deus, não estava falando de um lugar no mapa nem do céu para onde se vai depois da morte. Estava falando de Deus reinando de fato: a vontade de Deus acontecendo na terra, as coisas sendo endireitadas, o Rei de volta ao trono que sempre foi dele. E a novidade que Jesus trouxe — a que fez multidões largarem tudo para ouvi-lo — é que esse governo tinha começado a chegar nele mesmo, naquela hora, e ainda vai se completar quando ele voltar.
O resto do ensino decorre daí. Entra-se nesse Reino dando meia-volta e crendo nele, num novo nascimento que a pessoa não produz sozinha. Ele vale mais do que tudo o que alguém possui. E quem pertence a ele passa a viver com as prioridades trocadas, buscando primeiro o Reino e deixando o resto no lugar de resto.
Foi com isso que Jesus abriu o ministério público, segundo Marcos:
— O tempo é chegado — dizia ele. — O reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam no evangelho!(Marcos 1:15, NVI)
Vale notar o peso dessa frase. Ela é a primeira pregação de Jesus que Marcos registra, e funciona como o título de tudo o que vem depois: as parábolas começam com "o Reino é como…", os milagres são apresentados como sinais do Reino, a oração que ele ensina pede "venha o teu Reino". Nenhuma expressão aparece mais vezes na boca de Jesus nos evangelhos. Se alguém quiser resumir o que Jesus ensinou em duas palavras, "Reino de Deus" é o resumo que ele mesmo escolheu.
O que "Reino de Deus" quer dizer
A palavra grega é basileia, e ela diz primeiro "reinado" — o ato de reinar — e só depois "território". O hebraico malkut, que está por trás dela, funciona do mesmo jeito. Quando o salmista diz que o Senhor reina, não está desenhando fronteiras: está dizendo quem manda.
Israel sabia disso desde sempre. Davi, perto de morrer, ora dizendo que o reino é do Senhor e que ele está acima de tudo. Deus nunca deixou de ser rei. O problema é que o mundo não se parece com um mundo onde Deus reina: tem injustiça, doença, morte, impérios pisando em povos pequenos.
Por isso os profetas falaram de um dia em que o governo de Deus seria visível. Daniel viu, no sonho de Nabucodonosor, uma pedra que esmagava os impérios da terra e crescia até virar uma montanha — um reino que Deus levantaria e que jamais seria destruído. No tempo de Jesus, esse era o sonho de todo judeu devoto: Deus intervindo, Roma indo embora, o Messias no trono de Davi.
Jesus pegou essa expressão carregada de expectativa e a usou. Mas corrigiu o desenho que as pessoas tinham dela. Diante de Pilatos, um governador romano que só entendia reino como poder armado, ele explicou:
Jesus disse:
— O meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu reino não é daqui.(João 18:36, NVI)
Olha o que ele não disse. Não disse que o Reino não tem nada a ver com este mundo — ele estava ali, de pé, dentro do mundo, sendo julgado por causa desse Reino. Disse que o Reino não vem daqui: não nasce de exército, não se sustenta com espada, não funciona pela lógica de Pilatos. Se funcionasse, os discípulos estariam lutando. O Reino de Deus é real, está no mundo, mas a fonte do poder dele é outra.
"Reino de Deus" ou "Reino dos Céus"? Por que Mateus usa outro nome
Quem lê os evangelhos em sequência percebe uma coisa: Marcos e Lucas sempre escrevem "Reino de Deus"; Mateus prefere "Reino dos Céus", umas trinta vezes. Alguns leitores concluem que são duas coisas diferentes — um reino terreno e outro celestial. O texto não sustenta isso.
A explicação mais simples é a cultural. Mateus escreve para leitores judeus, e judeus devotos evitavam pronunciar o nome de Deus à toa. "Céu" era um substituto respeitoso, como quando dizemos "o Alto" ou "lá de cima". O filho pródigo, na parábola, diz ao pai que pecou contra o céu — ele não pecou contra as nuvens; pecou contra Deus.
O próprio Mateus confirma que as duas expressões são sinônimas. Depois que o jovem rico vai embora triste, Jesus diz que é difícil um rico entrar no Reino dos Céus e, na frase seguinte, que é mais fácil um camelo passar pela agulha do que um rico entrar no Reino de Deus — as duas lado a lado, no mesmo fôlego. Se Mateus quisesse distinguir, não as usaria assim.
Há quem veja uma nuance: "Reino dos Céus" realçaria a origem do Reino, que vem de cima e não de baixo. É uma leitura possível e não contradiz o resto. O que não dá para fazer é construir duas doutrinas separadas sobre uma diferença de vocabulário.
O Reino já chegou ou ainda vai chegar?
Essa é a pergunta que mais confunde, e Jesus respondeu as duas coisas — de propósito.
Primeiro, o já. Quando acusaram Jesus de expulsar demônios por poder do diabo, ele respondeu que, se era pelo poder de Deus que ele os expulsava, então o Reino de Deus já havia chegado a eles. Cada cego que via, cada leproso limpo, cada demônio expulso era um pedaço do governo de Deus invadindo um território que estava ocupado. O Reino não era uma promessa para depois: estava acontecendo na frente deles.
Os fariseus, acostumados a esperar sinais no céu, perguntaram quando o Reino viria. A resposta de Jesus desmontou a pergunta. Ele disse que o Reino não chega com aparato visível, não dá para apontar e dizer "olha ali", e completou:
Tampouco se dirá: "Aqui está ele!" ou "Lá está!". Porque o reino de Deus está entre vocês.(Lucas 17:21, NVI)
Aqui vale uma nota de tradução, porque ela muda a leitura. A expressão grega entos hymōn pode ser "dentro de vocês" — e é assim que a ACF traduz, "está dentro de vós" — ou "entre vocês", "no meio de vocês", como trazem a NVI e a NAA. O detalhe que pesa é a plateia: Jesus está falando com fariseus que o rejeitavam. Dificilmente estaria dizendo que o Reino morava no coração deles. O sentido mais provável é que o Reino estava ali, no meio deles, na pessoa de Jesus — e eles não estavam vendo. A tradução "dentro" não está errada em si, e muitos cristãos a leem como uma verdade sobre o Reino operando no interior de quem crê. Mas, nesse versículo, o contexto aponta para "entre".
Agora, o ainda não. O mesmo Jesus ensinou os discípulos a pedir venha o teu Reino — não se pede que venha algo que já veio por inteiro. Na última ceia, disse que não beberia do vinho até que o Reino de Deus venha. E descreveu o dia do julgamento, em que o Rei dirá aos seus que recebam como herança o Reino preparado desde a criação. Há um Reino que ainda não se cumpriu, com dia marcado que só o Pai conhece.
Como juntar as duas pontas? A teologia evangélica, com George Eldon Ladd como nome mais lembrado, chama isso de "já e ainda não". O Reino foi inaugurado na vinda de Jesus e será consumado na volta dele. É como a madrugada: já é dia — a escuridão foi quebrada, dá para enxergar, o sono acabou —, mas o sol ainda não está a pino. Quem vive hoje vive no meio dessa manhã.
Isso explica uma experiência que todo cristão conhece: Deus age de verdade, e a dor continua existindo. Não é contradição. É o Reino presente num mundo que ainda não foi todo tomado por ele.
Como se entra no Reino
Jesus nunca descreveu o Reino como clube de pessoas que já estavam prontas. Descreveu como algo em que se entra — e disse como.
A primeira resposta está no versículo-âncora: arrepender-se e crer. Arrepender, no grego metanoia, é mudar de mente e de direção — não é só sentir remorso, é dar meia-volta. Quem estava indo para um lado passa a ir para outro. E crer no evangelho é confiar na notícia que Jesus trouxe: que o Rei chegou e que ele é o Rei. As duas coisas vão juntas. Não dá para dar meia-volta sem ter para onde ir, e não dá para confiar em Jesus sem largar o que estava no lugar dele.
A segunda resposta foi dada a um homem religioso, culto e respeitado — Nicodemos, que veio à noite fazer perguntas:
Em resposta, Jesus declarou:
— Em verdade lhe digo que ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.(João 3:3, NVI)
Repare na escolha da imagem. Ninguém nasce por esforço próprio; nascer é algo que acontece com a pessoa. Jesus está dizendo a um homem que tinha feito tudo certo que o problema dele não era falta de empenho — era precisar de uma vida que ele não tinha como gerar. João explica isso no começo do evangelho: quem recebe a Cristo nasce de Deus, não de vontade humana. A entrada no Reino é dom antes de ser decisão.
A terceira resposta Jesus deu quando os discípulos tentaram afastar crianças dele. Ele mandou deixá-las vir, porque o Reino pertence aos que são como elas. Criança não negocia entrada, não apresenta currículo: recebe. É a mesma lógica do novo nascimento, vista de outro ângulo.
Agora o caso difícil, porque ele existe. O jovem rico, poucos versículos depois, quis entrar e não entrou — não porque Jesus o rejeitou, mas porque ele não largou o que tinha. E no Sermão do Monte Jesus avisa que dizer "Senhor, Senhor" não basta; entra quem faz a vontade do Pai. Isso contradiz a entrada como dom? Não. A leitura evangélica histórica entende assim: a fé que recebe o Reino é uma fé que muda a direção da vida — se não mudou nada, não era fé, era uma frase. A obediência não compra a entrada; ela mostra que a entrada aconteceu.
Convém dizer que essa é uma leitura de tradição. A tradição católica, por exemplo, lê a água e o Espírito de João 3:5 ligando o novo nascimento ao batismo de forma mais direta do que a maioria dos evangélicos faz. Em todas as tradições cristãs, porém, a porta é a mesma: Cristo, recebido com fé e arrependimento.
Quanto vale o Reino: o que as parábolas ensinam
Jesus ensinou sobre o Reino principalmente contando histórias. Mateus 13 reúne sete delas em sequência, quase todas abrindo com "o Reino dos Céus é como…". Ele fazia isso porque parábola não entrega a conclusão pronta: obriga quem ouve a pensar, e quem pensa não esquece.
A pergunta sobre o valor do Reino ele respondeu com um comerciante:
— O reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.(Mateus 13:45,46, NVI)
O homem não vende tudo por obrigação nem por tristeza. Ele achou algo que valia mais que o conjunto do que possuía, e a venda é consequência óbvia. A parábola vizinha, do tesouro escondido no campo, acrescenta a palavra que falta: o homem vai e vende tudo cheio de alegria. É isso que Jesus quer que se entenda sobre o custo do Reino. Ele custa tudo — e quem viu o que ele é não sente que perdeu nada.
Outra parábola responde a uma objeção prática: se o Reino chegou, por que é tão pequeno e tão escondido?
Jesus contou-lhes ainda outra parábola:
— O reino dos céus é como o fermento que uma mulher pegou e misturou com três satos de farinha, e toda a massa ficou fermentada.(Mateus 13:33, NVI)
Três medidas de farinha são uns quarenta litros — massa para alimentar muita gente. O fermento é uma porção mínima, desaparece dentro dela, e ninguém vê o que está acontecendo. Até que a massa inteira muda. A semente de mostarda diz o mesmo de outro jeito: começa quase invisível, termina abrigando pássaros. O Reino não chega com barulho; chega como fermento e semente, e cresce.
E a parábola do joio responde à pergunta mais dolorida: por que o mal continua existindo onde Deus reina? Jesus diz que trigo e joio crescem juntos até a colheita, e que arrancar antes da hora destruiria o trigo. É o "ainda não" contado em forma de história: a separação virá, mas no tempo do dono do campo.
Como vive quem pertence ao Reino
Se o Reino é Deus governando, pertencer a ele é viver sob esse governo agora — antes de ele ser visível para todo mundo. O Sermão do Monte, em Mateus 5 a 7, é a descrição mais longa que Jesus deu dessa vida, e ele abre dizendo que o Reino pertence aos pobres de espírito, aos que choram, aos mansos, aos perseguidos. É uma lista de gente que, pelos critérios de Roma, não valia nada. Pelos critérios do Reino, é quem está na frente.
No meio do mesmo sermão, Jesus dá a frase que organiza o resto:
Busquem, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.(Mateus 6:33, NVI)
O contexto é ansiedade: o que vamos comer, o que vamos vestir, o que vai ser de nós. Jesus não diz que essas coisas não importam — diz que elas não ficam em primeiro lugar. "Buscar o Reino" é querer que Deus governe, começando pela própria vida; "a sua justiça" é querer que as coisas fiquem certas do jeito que ele acha certo. Quem organiza a vida assim não fica isento de problema, mas para de carregar o mundo nas costas, porque o mundo tem Rei.
Essa vida tem três movimentos que aparecem ao longo do ensino de Jesus. Ela ora pelo Reino — "venha o teu Reino" é pedido para o dia a dia, não só para o fim dos tempos. Ela obedece ao Rei — fazendo a vontade do Pai, como ele disse em Mateus 7. E ela serve as pessoas que o Rei chama de irmãos: no julgamento final, o que ele cobra de quem herda o Reino é comida dada, doente visitado, preso procurado. O Reino que não é deste mundo se mostra neste mundo assim.
Jesus abriu tudo isso com uma frase curta na beira de um lago da Galileia: o tempo é chegado, o Reino de Deus está próximo, arrependam-se e creiam. Dois mil anos depois, a frase não envelheceu, porque o Reino ainda está no meio da manhã — já chegou, e ainda vem. Quem quiser ver como Jesus mesmo o descrevia, parábola por parábola, leia Mateus 13 completo.
O Reino de Deus é a igreja?
Não exatamente. A igreja é a comunidade das pessoas que já entraram no Reino e vivem sob o governo de Cristo, mas o Reino é maior que ela: é o próprio governo de Deus, que um dia abrangerá toda a criação. Pode-se dizer que a igreja é testemunha e sinal do Reino, não o Reino inteiro. Confundir as duas coisas leva a achar que, onde a igreja falha, o Reino falhou.
O Reino de Deus é o mesmo que o céu?
Estão ligados, mas não são sinônimos. Jesus fala do Reino como algo que já está entre nós e que ainda virá por completo; o céu, no sentido de morada final, é parte dessa consumação futura. A Bíblia termina não com pessoas subindo, mas com Deus descendo para habitar com a humanidade numa nova terra, em Apocalipse 21 — é ali que o Reino se completa.
Quantas vezes Jesus falou do Reino de Deus?
A expressão "Reino de Deus" ou "Reino dos Céus" aparece mais de cem vezes nos evangelhos, quase sempre na boca de Jesus. Mateus traz "Reino dos Céus" cerca de trinta vezes e "Reino de Deus" algumas vezes; Marcos e Lucas usam só "Reino de Deus". É o tema mais frequente de todo o ensino dele.
Quando o Reino de Deus vai chegar completamente?
Jesus não deu data. Disse que o dia e a hora só o Pai conhece (Mateus 24:36) e, quando os discípulos perguntaram se era a hora de restaurar o reino a Israel, respondeu que não cabia a eles saber os tempos, mas ser testemunhas (Atos 1:6-8). O Reino se completa na volta de Cristo; até lá, a ordem é viver e anunciar o que já chegou.
Qual a diferença entre Reino de Deus e Reino de Cristo?
Na prática, nenhuma: Jesus é o Rei por meio de quem Deus reina. Paulo chega a falar do "Reino de Cristo e de Deus" numa só expressão (Efésios 5:5) e descreve o momento em que Cristo entrega o Reino ao Pai, depois de vencer todo inimigo (1 Coríntios 15:24). São o mesmo Reino visto em etapas: Cristo reinando agora, o Pai reinando sobre tudo no fim.
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