Por que Jesus nasceu em Belém? A história e a profecia
Por que Belém, se a família de Jesus morava em Nazaré
Jesus nasceu em Belém porque José e Maria viajaram para lá a fim de se registrar num recenseamento ordenado pelo imperador romano, e Belém era a cidade de origem da família de José, descendente do rei Davi. Enquanto estavam ali, Maria deu à luz. É isso que Lucas 2 conta, em meia dúzia de versículos.
Mas por trás da viagem há algo mais antigo. Uns setecentos anos antes, o profeta Miqueias havia escrito que o governante prometido a Israel sairia justamente de Belém, a mesma cidade pequena onde Davi nasceu. Quando Jesus nasce lá, um decreto de César e uma profecia de Judá se encontram no mesmo lugar, sem que o imperador tivesse a menor ideia disso.
O apelido "Jesus de Nazaré" vem do que aconteceu depois: a família voltou para a Galileia, e foi em Nazaré que Jesus cresceu e viveu até os trinta anos. Belém é a cidade onde ele nasceu; Nazaré, a cidade de onde ele veio. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e cada uma cumpre uma parte da história.
A profecia de Miqueias sobre Belém-Efrata
Miqueias profetizou no século VIII a.C., numa época em que o reino de Judá vivia sob a ameaça da Assíria e tinha reis fracos no trono de Davi. No meio de anúncios de juízo, ele diz de onde viria o rei que faria diferente:
"E você, Belém-Efrata,
que é pequena demais para figurar
como grupo de milhares de Judá,
de você me sairá aquele
que há de reinar em Israel,
e cujas origens são
desde os tempos antigos,
desde os dias da eternidade."(Miquéias 5:2, NAA)
Repare em três detalhes do texto.
Primeiro, o nome completo: Belém-Efrata. Havia duas Beléns em Israel. Uma ficava na Galileia, no território da tribo de Zebulom, e aparece em Josué 19:15. A outra ficava em Judá, a uns dez quilômetros ao sul de Jerusalém, e era chamada de Efrata ou Belém de Judá para não haver confusão. Miqueias não deixa dúvida: é a Belém do sul, a de Davi.
Segundo, o tamanho. "Pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá" quer dizer que Belém era tão pequena que nem rendia uma unidade militar própria no censo das tribos. O profeta escolhe de propósito o lugar insignificante para dizer que dali sairia o grande rei. Esse padrão se repete na Bíblia inteira: Deus levanta o importante a partir do que ninguém olha.
Terceiro, a última linha. A NAA e a ACF traduzem "cujas origens são desde os dias da eternidade"; a NVI prefere "no passado distante, em tempos antigos". A diferença importa. Uma leitura, comum na teologia evangélica histórica, entende que o texto aponta para a existência eterna do Messias, antes do nascimento em Belém. Outra leitura entende que fala da antiguidade da linhagem: o novo rei viria de uma casa que remonta a Davi, séculos antes de Miqueias. As duas são defensáveis a partir do hebraico, e as duas cabem em Jesus.
Belém era a cidade de Davi
Para entender por que Miqueias apontou Belém, e não Jerusalém, a capital, é preciso lembrar quem nasceu lá.
Belém era a terra de Boaz e Rute, e a história deles termina com uma genealogia que chega até Davi (Rute 4:17-22). Foi em Belém que o profeta Samuel ungiu o filho mais novo de Jessé como futuro rei de Israel, enquanto ele cuidava das ovelhas da família (1 Samuel 16). Quando a Bíblia quer identificar Davi, ela diz "o efrateu de Belém de Judá" (1 Samuel 17:12). A cidade e o rei andavam juntos no imaginário de Israel.
E a Davi, Deus fez uma promessa que mudou a esperança do povo para sempre. Em 2 Samuel 7, o Senhor diz que levantaria um descendente de Davi e firmaria o trono dele para sempre. Os reis que vieram depois morreram, o reino foi dividido, Jerusalém caiu diante da Babilônia. A promessa, porém, continuou viva na boca dos profetas.
"Dias virão", declara o Senhor,
"em que levantarei para Davi um Renovo justo,
um Rei que reinará com sabedoria
e fará o que é justo e direito na terra.(Jeremias 23:5, NVI)
"Renovo" é a imagem de um broto que nasce de um tronco cortado. A casa de Davi parecia uma árvore derrubada, mas dela sairia um ramo novo, um rei justo. Isaías usa a mesma figura em Isaías 11:1, falando de "um ramo do tronco de Jessé". Os judeus do tempo de Jesus esperavam, portanto, um Messias filho de Davi, e não era absurdo imaginar que ele viesse da cidade de Davi.
É aqui que a linhagem de José entra. Mateus 1 e Lucas 3 trazem genealogias de Jesus, e as duas passam por Davi. José era "da casa e da família de Davi", nas palavras de Lucas, e Jesus, como filho legal de José, herda esse direito à linhagem. Muitos intérpretes cristãos entendem que a genealogia de Lucas segue a linha de Maria, o que faria Jesus descendente de Davi também pelo sangue; o texto não afirma isso explicitamente, então vale tratar como interpretação, não como dado. O que a Bíblia afirma sem rodeio é que Jesus é "da descendência de Davi" (Romanos 1:3).
O recenseamento de César Augusto
Agora o lado humano da história. Lucas 2 começa com um decreto do imperador: todo o mundo romano deveria se registrar. Lucas situa o episódio no primeiro censo feito quando Quirino governava a Síria, e é por causa dele que a família sai de casa:
Assim, José, que pertencia à casa e à linhagem de Davi, subiu de Nazaré, cidade da Galileia, à Judeia. Ele foi a Belém, cidade de Davi,(Lukku 2:4, NVI)
José não foi a Belém por devoção nem por saber de Miqueias. Foi porque precisava se registrar, e Belém era a cidade da sua família. Os censos romanos normalmente registravam a pessoa onde ela morava ou tinha propriedade; é possível que José ainda tivesse algum vínculo de terra ou de clã em Belém, ou que na Judeia o registro seguisse a organização tribal antiga dos judeus. A Bíblia não explica o motivo exato, só diz que ele era da casa de Davi e por isso foi para lá.
A viagem era de uns 150 quilômetros, de Nazaré, na Galileia, até Belém, na Judeia, com Maria no fim da gravidez. Levava quatro ou cinco dias a pé. Lucas conta o resto de forma seca: enquanto estavam lá, "chegou o tempo de ela dar à luz", e o menino foi deitado numa manjedoura porque não havia lugar na hospedaria (Lucas 2).
Vale notar o contraste. Augusto emitiu um decreto para contar os súditos e cobrar impostos, e sem saber colocou em movimento a família que levaria o Messias à cidade certa. A Bíblia mostra isso com frequência: governantes decidem por razões próprias, e Deus usa as decisões deles para cumprir o que já havia dito. Provérbios 21:1 fala do coração do rei nas mãos do Senhor.
Historiadores debatem a data desse censo, porque o único censo de Quirino que as fontes romanas registram aconteceu em 6 d.C., alguns anos depois da morte de Herodes, que ainda estava vivo quando Jesus nasceu. Há várias propostas de solução: um censo anterior não documentado fora da Bíblia, uma tradução diferente da frase de Lucas ("antes de Quirino governar"), ou um primeiro mandato de Quirino na região. O debate é legítimo e não está encerrado. O que ninguém discute é que Lucas afirma o nascimento em Belém e o liga a um registro imperial.
Como os sábios de Jerusalém sabiam que seria em Belém
Mateus conta o nascimento por outro ângulo, e nele a profecia aparece na boca de quem não tinha nenhum interesse em Jesus. Magos vindos do Oriente chegam a Jerusalém perguntando onde está o rei dos judeus que nasceu. Herodes, assustado, convoca os sacerdotes e os mestres da lei e pergunta onde o Cristo deveria nascer.
Eles responderam:
— Em Belém da Judeia, pois assim escreveu o profeta:
"Mas você, Belém, da terra de Judá,
de forma alguma é a menor entre as principais cidades de Judá;
pois de você virá o governante
que pastoreará o meu povo Israel".(Mateus 2:5,6, NVI)
A resposta sai sem hesitação. Para os líderes religiosos, não havia dúvida: o Messias viria de Belém, e a base era Miqueias. Isso mostra que a leitura de Miqueias 5:2 como profecia messiânica não é invenção cristã posterior. Era a leitura dos próprios estudiosos judeus antes de Jesus ser conhecido.
Olha um detalhe interessante na citação. Mateus não copia Miqueias palavra por palavra. Ele diz "de forma alguma é a menor", onde Miqueias diz "pequena", e termina com "pastoreará o meu povo Israel", frase que vem de 2 Samuel 5:2, as palavras ditas a Davi quando ele foi feito rei. Mateus costura as duas passagens de propósito: o que nasce em Belém é o pastor-rei prometido a Davi. Esse modo de citar, combinando textos, era comum entre os judeus da época e não tinha nada de desonesto; era um jeito de explicar o texto enquanto se cita.
E há uma ironia dolorosa na cena. Os mestres sabiam o endereço, mas não foram até lá. Quem foi adorar o menino foram estrangeiros que vieram de longe e pastores que estavam no campo. Saber onde a profecia se cumpriu e ir até ela são coisas diferentes.
Por que então "Jesus de Nazaré"
Se Jesus nasceu em Belém, por que a Bíblia inteira o chama de Jesus de Nazaré, e nunca de Jesus de Belém?
Porque a família não ficou. Mateus conta que, depois da visita dos magos, José fugiu com Maria e o menino para o Egito, por causa de Herodes, e só voltou após a morte do rei. Com medo do filho de Herodes que governava a Judeia, foi morar na Galileia:
e foi viver em uma cidade chamada Nazaré. Assim, cumpriu-se o que fora dito pelos profetas: "Ele será chamado Nazareno".(Mateus 2:23, NVI)
Lucas, por sua vez, diz que depois dos ritos no templo a família voltou para Nazaré (Lucas 2:39), sem mencionar o Egito. Os dois relatos não se contradizem; cada um conta a parte que serve ao seu propósito, e Lucas resume o percurso. Em ambos, o destino final é o mesmo: Nazaré.
Nazaré era uma aldeia da Galileia, no território que havia pertencido a Zebulom, longe do centro religioso de Jerusalém e sem nenhum prestígio. Não aparece no Antigo Testamento. Foi ali que Jesus passou a infância, aprendeu o ofício de José, frequentou a sinagoga, cresceu. Quando começou a pregar, as pessoas o identificavam pelo lugar de onde vinha, como se fazia com qualquer um. Daí "Jesus de Nazaré", "o Nazareno".
Esse apelido criou um problema real na época. Muita gente sabia da profecia de Miqueias e rejeitava Jesus justamente porque ele era da Galileia:
Outros disseram:
— Ele é o Cristo.
Ainda outros perguntaram:
— Como pode o Cristo vir da Galileia? A Escritura não diz que o Cristo virá da descendência de Davi, da cidade de Belém, de onde era Davi?(João 7:41,42, NVI)
A multidão em João 7 estava certa sobre a profecia e errada sobre o fato. Jesus tinha nascido em Belém; só não tinha crescido lá. Quem julgou pelo apelido não se deu ao trabalho de perguntar onde ele nasceu. Para Mateus e Lucas, contar o nascimento em Belém com detalhes era também responder a essa objeção que circulava.
Quanto à frase "o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno", não existe nenhum versículo no Antigo Testamento com essas palavras. Mateus fala em "profetas", no plural, sugerindo que resume um tema e não cita um texto. Duas explicações são comuns: um jogo com a palavra hebraica netser, "ramo", de Isaías 11:1, ligando Nazaré ao Renovo de Davi; ou a ideia de que o Messias seria desprezado, e vir de Nazaré era motivo de desprezo (João 1:46). Qualquer que seja a explicação, o ponto de Mateus é o mesmo: até a cidade da infância de Jesus entra no plano.
Belém e Nazaré, as duas pontas da mesma história
Belém diz quem Jesus é: o filho de Davi, o rei prometido, nascido na cidade do rei exatamente como Miqueias disse. Nazaré diz como ele veio: de um lugar sem importância, numa família comum, de um jeito que fazia as pessoas duvidarem. Quem lê os evangelhos descobre que as duas coisas não competem; é o mesmo Jesus que cumpre a profecia e que ninguém esperava daquele jeito.
Miqueias escreveu que da pequena Belém-Efrata sairia "aquele que há de reinar em Israel". Setecentos anos depois, um censo romano levou um carpinteiro e sua esposa até lá no momento exato. Leia o capítulo inteiro de Lucas 2, e depois volte a Miqueias 5 para ver o que o profeta diz que esse rei faria pelo seu povo.
Jesus nasceu mesmo em Belém ou em Nazaré?
Em Belém, segundo os dois evangelhos que contam o nascimento (Mateus 2:1 e Lucas 2:4-7). Nazaré foi a cidade onde ele cresceu, depois que a família voltou da Judeia. "Jesus de Nazaré" indica de onde ele veio, não onde nasceu.
O que significa o nome Belém?
Em hebraico, Bet-Lechem quer dizer "casa do pão". Efrata, o outro nome da cidade, está ligado à ideia de fertilidade. Muitos cristãos veem um significado no fato de Jesus, que se chamou "o pão da vida" em João 6:35, ter nascido na "casa do pão", mas isso é uma reflexão devocional, não algo que a Bíblia afirme.
Quantos anos antes de Jesus Miqueias fez a profecia?
Miqueias profetizou por volta de 740 a 700 a.C., no tempo dos reis Jotão, Acaz e Ezequias de Judá. Isso dá cerca de setecentos anos entre a profecia e o nascimento de Jesus.
Por que Maria foi junto, se o censo era de José?
A Bíblia não explica. Algumas possibilidades: mulheres também podiam ser registradas em certos censos; José não quis deixá-la sozinha em Nazaré, grávida e sob comentários; ou os dois já pretendiam se estabelecer em Belém por um tempo. Lucas só diz que foram juntos e que ela estava grávida.
Os magos encontraram Jesus na manjedoura?
Provavelmente não. Mateus 2:11 diz que entraram numa casa, e a reação de Herodes de matar os meninos de até dois anos (Mateus 2:16) sugere que algum tempo havia passado desde o nascimento. Os pastores de Lucas 2 chegaram na noite do nascimento; os magos de Mateus 2, mais tarde.
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