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Purificação na Bíblia: a limpeza e o coração

Redação Bíblia Online Publicado em

O que é purificação na Bíblia

Homem idoso de barba ajoelhado lava as mãos numa fonte de pedra, ao lado de um cordeiro.

Purificação, na Bíblia, é Deus tirando de uma pessoa o que a impede de ficar perto dele. No começo isso era feito com água, sangue de animal e dias de espera, por causa de coisas como uma doença de pele ou o contato com um morto. No fim, é o sangue de Cristo e a Palavra limpando o lugar onde a sujeira de verdade começa: o coração.

O ritual externo nunca foi o ponto final — era um retrato, repetido todo ano, de uma limpeza que o povo precisava e não conseguia fazer sozinho. Quem entendeu isso melhor do que ninguém foi um rei com sangue nas mãos:

Cria em mim, ó Deus,

um coração puro

e renova dentro de mim

um espírito inabalável.

Repare no verbo. Davi não pede "lava" nem "conserta"; pede "cria". Em hebraico é bara, a mesma palavra de Gênesis 1.1, quando Deus cria do nada. Purificação do coração, para a Bíblia, não é reforma de hábito. É Deus fazendo algo novo onde só havia estrago.

Este artigo faz parte de Estudos Bíblicos Doutrinas e Teologia

O que era "impuro" na lei de Moisés

No Antigo Testamento, "puro" (tahor) e "impuro" (tamê) não eram sinônimos de "bom" e "mau". Eram estados. Uma pessoa impura não estava necessariamente em pecado — estava, por um tempo, inapta a entrar no santuário. Ensinar o povo a distinguir uma coisa da outra era tarefa do sacerdote (Levítico 10).

Os capítulos 11 a 15 de Levítico listam as fontes de impureza. As mais comuns:

  • Alimentos. Certos animais tornavam impuro quem os comia ou tocava seus cadáveres (Levítico 11).

  • Parto. A mulher ficava quarenta dias afastada do santuário após dar à luz um menino, oitenta no caso de uma menina, e no fim levava um cordeiro e uma pomba — ou, se fosse pobre, duas pombas (Levítico 12).

  • Doenças de pele. A pessoa ficava isolada fora do acampamento e, quando curada, passava por um ritual com duas aves, cedro, carmesim e hissopo antes dos sacrifícios (Levítico 14).

  • Fluxos do corpo. Menstruação e secreções tornavam impuros a pessoa, a cama, o assento, quem os tocasse (Levítico 15).

  • Contato com um morto. O caso mais grave: sete dias de impureza e aspersão, no terceiro e no sétimo dia, com a "água da purificação" — água corrente misturada às cinzas de uma novilha vermelha queimada fora do acampamento (Números 19).

Olha o que esses casos têm em comum: nascimento, doença, sangue, morte. São as fronteiras da vida humana, onde a fragilidade aparece. A lei ensinava, com o corpo, que a presença de um Deus vivo e santo não combina com nada que cheire a morte — e que ninguém atravessa a vida sem ser tocado por isso.

A purificação de Maria em Lucas 2

É essa lei que explica uma cena do Natal que muita gente lê sem reparar. Quarenta dias depois do nascimento de Jesus, Maria e José sobem ao templo "quando se completaram os dias da purificação" e levam duas aves (Lucas 2). É Levítico 12 ao pé da letra, inclusive a oferta dos pobres.

Homem entrega uma cesta a um senhor, ao lado de mulher com bebê, em pátio de pedra.

Isso não significa que o nascimento de Jesus fosse sujo. Significa que a família de Jesus viveu debaixo da lei como qualquer outra. O Filho de Deus nasceu dentro desse sistema para, mais tarde, dizer o que o sistema apontava desde sempre.

O que Jesus mudou: a impureza sai de dentro

Com o tempo, a tradição dos fariseus acrescentou à lei lavagens que não estavam lá — das mãos, dos copos, dos utensílios. Em Marcos 7, eles reclamam que os discípulos comem sem lavar as mãos do jeito prescrito (Marcos 7). Jesus responde virando a pergunta ao contrário:

E continuou:

— O que sai do homem é o que contamina o homem. Pois do coração dos homens saem os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem impuro.…(Márükosu 7:20-23a, NVI)

Leia a lista devagar. Não há ali nenhum animal proibido, nenhum cadáver, nenhuma doença. Há adultério, roubo, inveja, arrogância. Jesus pega a palavra "impuro", que durante séculos descreveu um estado do corpo, e a aplica ao que uma pessoa pensa e deseja.

Os profetas já tinham preparado esse terreno. Isaías abre o livro com Deus cansado dos sacrifícios de um povo que oprimia os pobres, e a ordem que ele dá usa o vocabulário do templo para falar de ética:

Lavem-se e purifiquem-se!

Tirem da minha presença

a maldade dos seus atos;

parem de fazer o mal!(Isaíasi 1:16, NAA)

"Lavem-se" aqui não é tomar banho; é parar de fazer o mal. Jesus está na trilha de Isaías — mas vai dar um passo que Isaías não podia dar: oferecer o meio de essa lavagem acontecer.

Quem purifica: o sangue de Cristo

Se a sujeira está no coração, quem limpa um coração? Nenhum sacerdote conseguia. A carta aos Hebreus é o livro que mais trabalha esse problema, e ela começa pelo fim da história:

…Depois de ter realizado a purificação dos pecados, ele se assentou à direita da Majestade nas alturas,(Ebüréu 1:3b, NVI)

Ele se assentou. No tabernáculo não havia cadeira, porque o trabalho do sacerdote nunca terminava. Quando Hebreus diz que Jesus fez a purificação dos pecados e sentou, está dizendo que o serviço acabou.

Mais adiante, a carta compara a água da purificação de Números 19 com o que Jesus fez: as cinzas da novilha purificavam o corpo de quem tocou um morto (Hebreus 9). E então:

muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!(Ebüréu 9:14, NAA)

A diferença está na palavra "consciência". A água com cinzas chegava até a pele. O sangue de Cristo chega até o lugar onde a culpa mora — o mesmo lugar de onde, em Marcos 7, a impureza saía.

Paulo diz o mesmo a Tito, mas acrescenta para que serve a limpeza:

Ele se entregou por nós a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática do que é bom.(Titu 2:14, NVI)

Purificar "um povo particularmente seu" é linguagem do Êxodo. A purificação não existe para a pessoa ficar limpa e parada. Existe para ela ser de Deus e viver fazendo o bem. Isso aqui é importante: a limpeza é dada, mas ela tem direção.

Davi e a oração de quem precisa ser limpo por dentro

Volte ao Salmo 51. O título do salmo o liga ao pior momento da vida de Davi: adultério com Bate-Seba e o assassinato arranjado de Urias (2 Samuel 11). Confrontado por Natã, ele ora:

Tem misericórdia de mim, ó Deus,

conforme o teu amor leal.

Conforme a tua grande compaixão,

apaga as minhas transgressões.

Lava-me de toda a minha iniquidade

e purifica-me do meu pecado.(Sálumu 51:1,2, NVI)

Três palavras para o que fez — transgressões, iniquidade, pecado — e três para o que precisa: apagar, lavar, purificar. E no versículo 7 ele pede para ser purificado "com hissopo", a planta usada para aspergir a água de Números 19 e no ritual do leproso em Levítico 14 (Salmos 51).

Ou seja: Davi conhecia os rituais e sabia que nenhum deles bastava. A lei não tinha sacrifício para adultério e homicídio premeditado — tinha pena de morte. Por isso o salmo termina dizendo que o que Deus aceita é um coração quebrantado. Mil anos depois, Hebreus vai explicar como esse pedido foi atendido.

Purificação e santificação: qual a diferença

No grego, purificar é katharizo, tirar a sujeira; santificar é hagiazo, separar para Deus. Uma tira o que não devia estar ali; a outra coloca a pessoa onde ela deve estar. Paulo as encadeia numa frase só:

Amados, uma vez que temos essas promessas, purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.(2 Korintuna 7:1, NVI)

Note que aqui quem purifica somos nós — "purifiquemo-nos". Parece contradizer Hebreus, onde é o sangue de Cristo que purifica. Não contradiz. A Bíblia fala de purificação em dois sentidos:

A purificação da culpa é feita de uma vez, por Cristo, e ninguém colabora nela.

A purificação da vida é o trabalho diário de quem já foi limpo: tirar da conduta e da mente o que não combina com quem se tornou. É disso que Paulo e Tiago falam quando usam o imperativo.

Tiago é direto a ponto de incomodar:

Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida, purifiquem o coração.(Santiagu 4:8, NVI)

Mãos e coração: o que você faz e o que você quer. E o alvo é quem tem "a mente dividida" — dipsychos, "de duas almas", a pessoa que quer Deus e quer o pecado ao mesmo tempo.

João acrescenta o motor que faz esse esforço andar sem virar legalismo:

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é. Todo aquele que nele tem essa esperança purifica a si mesmo, assim como ele é puro.(1 Huan 3:2,3, NVI)

Quem purifica a si mesmo, aqui, não faz isso com medo. Faz porque sabe que vai ver a Cristo. É a diferença entre lavar a casa porque alguém vai inspecionar e lavar porque alguém que você ama está chegando.

Como a purificação acontece hoje: pela Palavra

Se não há mais água de cinzas nem sacerdote, por onde a limpeza entra na vida de um cristão? O Novo Testamento aponta dois caminhos. O primeiro é a Palavra.

Na noite antes de morrer, Jesus compara os discípulos a ramos de uma videira que o Pai "poda". Em grego, "podar" ali é kathairei, da mesma família de "limpo" — e, na frase seguinte, ele diz:

A palavra de Jesus faz nos discípulos o que a tesoura faz na videira. Quem lê a Bíblia com honestidade conhece isso: um versículo expõe uma intenção escondida, um capítulo corrige um jeito de pensar.

Paulo diz o mesmo sobre o que Cristo faz pela igreja:

…assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água por meio da palavra,(Éfesuna 5:25b,26, NVI)

Vale dizer que há duas leituras cristãs legítimas aqui: parte da tradição vê nesse "lavar da água" uma referência ao batismo; outra parte, incluindo boa parte da leitura evangélica, entende que a água é figura da própria palavra. Nas duas, o agente é Cristo.

Como a purificação acontece hoje: pela confissão

O segundo caminho é a confissão, e João fala com quem já é cristão e ainda peca — ou seja, com todo cristão:

Gama lumoun anhein wabagariduña lubéi lidan larugounga, ítara kei lídanñein lan larugounga Bungiu, inarüni luagu lídanñadiwa lan aban wámagua, ani chibá lumuti lita Hesukrístu sun wafigoun.(1 Huan 1:7)

"Andar na luz" não é não ter pecado; dois versículos antes, João diz que quem afirma isso está mentindo. Andar na luz é não esconder. E é nesse lugar, diz ele, que o sangue purifica.

Então vem o versículo talvez mais usado da Bíblia na hora de pedir perdão:

gama lumoun anhein wagufesera wafigoun, gayaraabei wemenigidun luagu Bungiu luagu ladügübei lan le richaguabei—feruduna lubéi wafigoun, harumagüda láwame lídangiñe sun wuribani.(1 Huan 1:9)

Olha a estrutura. A nossa parte é confessar. A parte de Deus vem em dupla: perdoar e purificar. Perdão cuida da culpa; purificação cuida da sujeira que a culpa deixou. E Deus faz isso por ser "fiel e justo" — não por pena, mas porque na cruz a conta já foi paga.

Na prática, é isso: a Palavra mostra, a pessoa confessa, Deus limpa. Não há hissopo. Há um caminho aberto que o Salmo 51 só podia antecipar.

O batismo e a purificação

E o batismo? Ele não é uma lavagem com água? A ligação existe. Quando Paulo conta sua conversão, repete o que Ananias lhe disse:

Guentoti, ka uagu badarasaha? Saraba, badiseibá hemenigiñu luagu Wabureme lun lachibuni bifigoun".(Adügaü 22:16)

Pedro, por sua vez, compara o batismo às águas do dilúvio e deixa claro que a água em si não faz o trabalho:

Dúnati ligía, ítara liña hamuga kei lidunarina badisei guentó, le ídangiñebei wanügǘwa lun wasalbarun. Mama lun larumadun úgubu badisei; arufudarügü lumuti luagu harumaaru tan wanigi ligibugiñe Bungiu lau wafiñerun luagu Kristu, luagu giñe sálbaadiwa lan lau lásaarun Kristu lídangiñe óunweni.(1 Féduru 3:21)

Não se trata de tirar a sujeira do corpo, mas de uma consciência diante de Deus — a mesma palavra de Hebreus 9.14.

Aqui os cristãos leem de jeitos diferentes. Tradições sacramentais (católica, ortodoxa, luterana, entre outras) entendem que Deus age de fato por meio do batismo para purificar. A leitura evangélica histórica, adotada neste artigo, entende o batismo como sinal e confissão pública de uma limpeza que acontece pela fé no sangue de Cristo. Nas duas, fica em pé o que Pedro disse: não é a água que purifica, é Cristo.

O pedido de Davi, atendido

Volte uma última vez à oração: «Cria em mim, ó Deus, um coração puro» (Salmos 51.10, NAA). Davi pediu isso sabendo que nenhum ritual da sua época alcançava o lugar que precisava ser limpo. Marcos 7 confirma que o lugar era esse mesmo. Hebreus mostra quem chegou até lá. E João mostra o caminho de todo dia pelo qual essa limpeza continua.

A frase inteira, com o que vem antes e depois dela, está no Salmo 51 completo — vale ler de uma vez, do primeiro verso ao último.

Cristãos precisam seguir as leis de pureza de Levítico?

A leitura cristã histórica entende que não. Jesus declarou que a impureza vem do coração e não dos alimentos (Marcos 7.15-19), e o Novo Testamento trata as leis cerimoniais como sombras cumpridas em Cristo (Colossenses 2.16-17; Hebreus 10.1). O que permanece é o princípio: Deus é santo, e quem se aproxima dele precisa ser purificado.

Qual a diferença entre perdão e purificação?

Em 1 João 1.9 as duas aparecem lado a lado como resposta de Deus à confissão. Perdão é a remoção da culpa: a dívida deixa de ser cobrada. Purificação é a remoção da sujeira que o pecado deixou: a pessoa é restaurada à comunhão.

O batismo purifica dos pecados?

Depende da tradição. Igrejas sacramentais entendem que Deus purifica por meio do batismo; a leitura evangélica histórica o entende como sinal público de uma purificação que acontece pela fé em Cristo. Em todas, vale 1 Pedro 3.21: não é a água em si que limpa, e sim Cristo.

Eduardo Santos
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