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O que é ser um líder cristão: o modelo de Jesus

Por Bíblia Online  - 
Homem barbudo de terno preto ergue os óculos e olha papéis sobre uma mesa.

O que é ser um líder cristão

Ser um líder cristão é usar a influência que se tem — num cargo da igreja, numa família, numa equipe de trabalho — para servir as pessoas do jeito que Jesus serviu. Não é um estilo de liderança entre outros. É a inversão do que o mundo chama de liderar, e quem fez essa inversão foi o próprio Jesus, numa conversa tensa com os doze.

A cena está em Marcos 10. Tiago e João chegam e pedem os dois lugares de honra no Reino: à direita e à esquerda de Jesus. Os outros dez ficam indignados — não porque o pedido fosse absurdo, mas porque queriam as mesmas cadeiras. Jesus então chama o grupo e aponta para os governantes dos gentios: eles "dominam" sobre o povo, e os grandes "exercem autoridade" sobre ele. E diz: entre vocês não será assim.

Contudo, não é assim que ocorre entre vós. Ao contrário, quem desejar tornar-se importante entre vós deverá ser servo; e quem ambicionar ser o primeiro entre vós que se disponha a ser o escravo de todos.(Marcos 10:43,44)

Olha o que Jesus não faz: ele não manda os discípulos pararem de querer ser grandes. Ele muda o caminho até lá. Quem quer ser grande, serve; quem quer ser o primeiro, vira escravo de todos. No grego, o "servo" do versículo 43 é diákonos, quem serve à mesa; no 44 é doúlos, o escravo. A escala desce, não sobe.

E então vem a razão de tudo. Jesus não aponta para um princípio; aponta para si mesmo:

Porquanto, nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos".

"Filho do Homem" é o título que Daniel usa para aquele a quem Deus entrega domínio eterno (Daniel 7:13-14). Jesus pega o título mais alto que existe e o cola na palavra "servir". Liderança cristã é isso: a partir do alto, para baixo, em direção às pessoas — e não a partir de baixo, tentando subir em cima delas.

Paulo pede exatamente isso aos filipenses em Filipenses 2:3-4 — nada por rivalidade ou vanglória, considerar os outros superiores a si mesmo — e logo em seguida diz de onde tirou a ideia: de Cristo, que "tomou a forma de servo" (Filipenses 2:5-8). Humildade, no Novo Testamento, não é uma virtude solta. É imitação.

O que Jesus fez, não só disse: o lava-pés

Em Marcos 10 Jesus explica. Em João 13 ele demonstra. É a noite da última ceia. Lavar os pés dos convidados era tarefa do escravo mais baixo da casa — e naquela noite ninguém tinha feito isso. Então Jesus se levanta da mesa, tira o manto, amarra uma toalha na cintura, pega a bacia e começa a lavar os pés dos discípulos, um por um. Pedro protesta. Judas está à mesa, e Jesus sabe o que ele vai fazer (João 13:2-11).

Homem ajoelhado lava os pés de outro sentado, em sala de pedra com homens à mesa.

Quando termina, ele volta ao lugar e explica o que acabou de fazer:

Dessa maneira, se de vós Eu Sou Senhor e Mestre e ainda assim vos lavei os pés, igualmente vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos um exemplo para que, como Eu vos fiz, também vós o façais.(João 13:14,15)

Vale notar um detalhe: Jesus não nega o título. Ele diz "eu, Senhor e Mestre". Ele é o Senhor — e é justamente por isso que o gesto pesa. Não é um igual ajudando outro igual; é quem tem toda a autoridade escolhendo a bacia. E o versículo 15 dá o nome disso: "exemplo", hypódeigma, um modelo para ser copiado. Jesus não pediu admiração. Pediu repetição.

Também não fez distinção. Lavou os pés de Pedro, que ia negá-lo, e os de Judas, que ia traí-lo. O líder cristão serve inclusive quem não vai retribuir — e isso não é ingenuidade, porque Jesus sabia exatamente de quem eram aqueles pés.

Pastor, não dono

A outra imagem que Jesus escolhe para si é a do pastor. Em João 10 ele descreve o que um pastor faz: entra pela porta, chama cada ovelha pelo nome, vai à frente e elas o seguem porque conhecem sua voz (João 10:3-4). E então diz o que separa o pastor de verdade de quem só está no cargo:

Eu Sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas.(João 10:11)

O contraste é com o "mercenário" dos versículos 12 e 13: o empregado que foge quando o lobo aparece, porque as ovelhas não são dele e ele não se importa. A diferença não está na habilidade. Os dois sabem conduzir um rebanho. A diferença está no que cada um faz quando servir custa caro.

Pedro, que viu tudo isso de perto, passa a lição adiante quando escreve aos líderes das igrejas:

pastoreai o rebanho de Deus que está sob vosso cuidado, não por constrangimento, mas voluntariamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como ditadores daqueles que vos foram confiados, antes, tornando-vos exemplos do rebanho.(1 Pedro 5:2,3)

Aqui tem uma coisa que a tradução esconde. "Não como dominadores" usa, no grego, o mesmo verbo que Jesus usou em Marcos 10:42 para os governantes gentios: katakyrieúo. Pedro está dizendo, com a palavra exata do Mestre: não liderem a igreja como César lidera o império. O rebanho é "de Deus" — o pastor cuida de algo que não é dele, e vai prestar contas ao "Sumo Pastor" quando ele aparecer (1 Pedro 5:4).

Servir não é abrir mão da autoridade

A objeção óbvia: então o líder cristão não decide nada, não corrige ninguém, só obedece ao grupo? Não é isso que o próprio Jesus mostra. O mesmo Jesus da bacia virou as mesas no templo, chamou Pedro de "Satanás" quando ele tentou desviá-lo da cruz (Mateus 16:23) e disse "eu vos dei o exemplo" com toda a autoridade de quem pode dar ordens.

O Novo Testamento também não desfaz a autoridade dos líderes da igreja. Hebreus pede que os cristãos obedeçam aos que os guiam, porque eles "velam por vossas almas" e vão dar conta disso (Hebreus 13:17). Paulo manda Timóteo repreender e corrigir (2 Timóteo 4:2). Autoridade existe. O que muda é para quem ela trabalha.

A medida é simples de enunciar e difícil de viver: a autoridade do líder cristão existe para o bem de quem é liderado, não para o conforto de quem lidera. Decidir, corrigir e dizer "não" fazem parte do serviço quando protegem o rebanho. Deixam de ser serviço quando protegem a posição.

E a recompensa? Tiago e João queriam a deles visível, em cadeiras. Jesus respondeu que esses lugares são Deus quem dá (Marcos 10:40). É a mesma lógica de Hebreus 11:6: quem se aproxima de Deus crê que ele recompensa os que o buscam. O líder que serve sem plateia não está trabalhando de graça. Está trabalhando para quem vê.

Quem pode liderar na igreja: 1 Timóteo 3 e Tito 1

Quando a pergunta sai do princípio e vai para a prática — quem pode ser presbítero, pastor, diácono —, a Bíblia dá duas listas, escritas por Paulo a dois discípulos que estavam organizando igrejas: 1 Timóteo 3:1-13 e Tito 1:5-9. Reunindo as duas, o líder precisa ser:

  • irrepreensível, com boa reputação inclusive entre quem não é da igreja;

  • fiel no casamento ("marido de uma só mulher") e com a própria casa em ordem;

  • sóbrio, moderado, hospitaleiro, amigo do bem;

  • não violento, não briguento, não dado à bebida, não apegado a dinheiro;

  • apto a ensinar e firme na doutrina, capaz de responder a quem a contradiz;

  • não recém-convertido, para não cair pela soberba;

  • já provado antes de assumir o cargo (1 Timóteo 3:10).

Repare no que a lista quase não tem: competência. "Apto para ensinar" é praticamente o único item técnico. O resto é caráter — como a pessoa trata a esposa, os filhos, o dinheiro, a bebida, o adversário. Paulo não está contratando um gestor; está reconhecendo alguém cuja vida já aguenta ser vista de perto. É Provérbios 10:9 aplicado ao púlpito: quem anda em integridade anda seguro, e caminho torto cedo ou tarde aparece.

Uma honestidade necessária: as igrejas cristãs leem essas listas com diferenças. Igrejas de tradição presbiteriana, episcopal e congregacional organizam presbíteros, bispos e diáconos de modos distintos; há leitura diferente sobre o que "marido de uma só mulher" implica para divorciados e solteiros; e há divergência sobre o acesso de mulheres a esses cargos (mais abaixo, nas perguntas). O que nenhuma tradição histórica dispensa é o núcleo: caráter provado antes de posição ocupada.

Como alguém se torna líder cristão

Não se autoproclamando. Esse é o padrão mais claro do Novo Testamento. Quando a igreja de Jerusalém precisou de líderes para cuidar da distribuição aos necessitados, os apóstolos disseram à comunidade: escolham entre vocês sete homens "de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria" (Atos 6:3). Quando Paulo e Barnabé fundavam igrejas, constituíam presbíteros nelas, com oração e jejum (Atos 14:23).

O caminho tem, portanto, três lados que andam juntos. Deus chama e dá o dom. A pessoa se mostra fiel no que já tem nas mãos — é o "sejam primeiro provados" de 1 Timóteo 3:10. E a comunidade reconhece e confirma. Quando falta um dos três, costuma dar problema: quem se chama sozinho vira dono; quem é empurrado sem chamado desaba; quem tem chamado mas pula a prova cai pela soberba, como Paulo avisou.

Isso quer dizer que desejar liderar é errado? Não. Paulo diz que quem aspira ao episcopado "deseja excelente obra" (1 Timóteo 3:1), e Jesus, em Marcos 10, não condenou o desejo de ser grande — redirecionou-o. O problema nunca foi querer servir mais. Foi querer a cadeira sem a bacia.

E para quem já está liderando e não sabe o que fazer com uma decisão difícil, a instrução de Tiago 1:5 é direta: quem tem falta de sabedoria, peça a Deus, que dá sem reprovar. Um líder cristão não precisa fingir que sabe. Precisa saber a quem pedir. Timóteo era jovem e inseguro, e Paulo não mandou que ele parecesse mais velho — mandou que fosse exemplo (1 Timóteo 4:12).

Liderar fora da igreja: trabalho, família, qualquer autoridade

O modelo de Jesus não foi dado para o púlpito. Em Marcos 10 ele compara os discípulos com governantes políticos; em Lucas 22 a mesma lição vem com os "reis dos gentios" que gostam de ser chamados benfeitores, e Jesus conclui: "eu estou entre vós como aquele que serve" (Lucas 22:25-27). A referência é poder secular. É exatamente lá que ele diz "não sereis assim".

Paulo leva isso para a autoridade mais dura do mundo antigo, a do senhor sobre o escravo: deixem as ameaças, "sabendo que também o Senhor deles e vosso está no céu, e que para com ele não há acepção de pessoas" (Efésios 6:9). Quem tem gente abaixo de si tem Alguém acima. O chefe cristão, o pai cristão, o professor cristão lideram sabendo que a autoridade é emprestada e será cobrada.

Na prática isso muda três coisas. O motivo: a posição existe para o bem de quem está sob ela, não para o prestígio de quem a ocupa. O trato: as pessoas não são meio para um resultado, são o rebanho que o pastor conhece pelo nome. E o teto: há ordens que um líder cristão não dá e atalhos que não toma, porque "trabalha como para o Senhor" (Colossenses 3:23) e não só para a planilha.

Tudo isso volta ao mesmo ponto de partida: "o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida" (Marcos 10:45). Quem quiser entender liderança cristã inteira, leia a conversa completa, do pedido de Tiago e João até a resposta final, em Marcos 10:35-45.

Líder cristão precisa ter cargo na igreja?

Não. A Bíblia trata como liderança qualquer influência exercida sobre pessoas — pais sobre filhos, patrões sobre empregados, mais velhos sobre mais novos. Os cargos de presbítero e diácono têm requisitos próprios em 1 Timóteo 3 e Tito 1, mas o modelo de Jesus em Marcos 10:45 vale para todo cristão que tem alguém sob sua responsabilidade.

Qual é a diferença entre liderar e pastorear?

Liderar é conduzir pessoas a um objetivo; pastorear é cuidar delas no caminho. Jesus junta as duas coisas em João 10: o pastor vai à frente (lidera) e conhece cada ovelha pelo nome (cuida). No Novo Testamento, "pastor", "presbítero" e "bispo" aparecem como funções próximas ou sobrepostas — em Atos 20:17 e 20:28 Paulo usa os três termos para o mesmo grupo. As igrejas organizam esses ofícios de formas diferentes.

Mulheres podem ser líderes cristãs?

Há duas leituras entre cristãos evangélicos, ambas baseadas na Bíblia. A visão complementarista entende que 1 Timóteo 2:12 e 1 Timóteo 3:2 reservam o ofício de presbítero e pastor aos homens, mantendo aberta às mulheres a liderança em outras áreas. A visão igualitária entende que esses textos tratam de situações locais e aponta para Débora (Juízes 4), Priscila (Atos 18:26), Febe (Romanos 16:1) e Júnia (Romanos 16:7) como mulheres em liderança reconhecida. As duas correntes concordam que toda liderança, de homem ou de mulher, segue o padrão de serviço de Jesus.

Liderança é um dom espiritual?

Sim. Paulo lista "o que preside" entre os dons em Romanos 12:8 e "governos" em 1 Coríntios 12:28. Isso quer dizer que liderar não é só técnica aprendida: é capacitação dada por Deus para o bem do corpo. Como todo dom, ele é confirmado pela comunidade e cresce com o exercício fiel.

O que fazer quando um líder cristão cai em pecado?

Paulo dá o procedimento em 1 Timóteo 5:19-20: a acusação precisa de duas ou três testemunhas, e o pecado comprovado deve ser repreendido abertamente, porque a posição aumenta o alcance do dano. Ao mesmo tempo, Gálatas 6:1 pede que a correção seja feita "com espírito de mansidão", buscando restauração. Encobrir por causa do cargo e destruir por causa do cargo são os dois erros a evitar.

Vanessa MartinsMarlene Matos
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