Quem foram as mulheres pioneiras da Assembleia de Deus?
Quando folheamos os livros de história que narram as origens do pentecostalismo no Brasil, alguns nomes saltam aos olhos imediatamente. Aprendemos sobre a coragem e o desprendimento dos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, que desembarcaram em Belém do Pará em 1910, dando início àquela que se tornaria a maior denominação evangélica do país. No entanto, por trás das grandes narrativas oficiais, existe um exército de pioneiras que doaram suas vidas, talentos e saúde para erguer as bases dessa obra, mas cujos nomes muitas vezes foram relegados às notas de rodapé ou ao esquecimento.
As mulheres da Assembleia de Deus não foram meras espectadoras ou acompanhantes de seus maridos. Elas foram evangelistas, tradutoras, musicistas, teólogas práticas e fundadoras de trabalhos sociais profundos. Em uma época em que o papel feminino na sociedade era extremamente restrito, essas mulheres romperam barreiras geográficas e culturais para consolidar o movimento pentecostal. Conhecer a trajetória dessas heroínas da fé é um ato de justiça histórica e uma fonte de profunda inspiração para a igreja contemporânea.
Neste estudo bíblico e histórico, vamos resgatar a trajetória dessas pioneiras e analisar o fundamento das Escrituras que valida o protagonismo feminino na expansão do Reino de Deus.
O contexto social e eclesiástico do início do século XX
Para dimensionar o tamanho da coragem dessas mulheres, precisamos entender o Brasil das décadas de 1910 e 1920. O país ainda guardava marcas profundas de uma sociedade patriarcal e agrária. O analfabetismo feminino era altíssimo, e as mulheres não tinham direito ao voto ou à autonomia civil plena. No campo religioso, o cenário não era diferente: o espaço público e de liderança era um território estritamente masculino.
Quando o avivamento pentecostal explodiu no norte do país, ele trouxe consigo uma quebra de paradigmas. O Espírito Santo era derramado sobre filhos e filhas sem distinção. No entanto, à medida que o movimento crescia e se institucionalizava, a estrutura eclesiástica tendeu a formalizar os papéis, e a contribuição direta das mulheres muitas vezes perdeu visibilidade nos registros oficiais de liderança. Mesmo diante de perseguições ferrenhas, apedrejamentos nas ruas, malária e escassez financeira, elas não recuaram.
As pioneiras e o fundamento bíblico do serviço feminino
A história da Assembleia de Deus é indissociável da ação dessas mulheres. Vamos conhecer algumas das principais pioneiras e os textos bíblicos que iluminam o serviço que elas prestaram:
1. Celina de Albuquerque: A primeira pentecostal
A história do pentecostalismo brasileiro começa, de fato, com uma mulher. Na madrugada de 18 de junho de 1911, na cidade de Belém, Celina de Albuquerque foi a primeira pessoa a receber o batismo no Espírito Santo em solo brasileiro, seguida logo depois por Maria de Nazaré.
Esse evento evoca diretamente o cumprimento da profecia de Joel 2:28-29, citada pelo apóstolo Pedro no dia de Pentecostes:
Guds Ande utgjuten
Efter detta [Guds välsignelse över landet Israel och befrielsen från det norra riket, se vers 18-27] ska jag utgjuta min Ande över allt kött [över alla människor utan hänsyn till ålder, kön eller ställning]:
Era söner och döttrar ska profetera (tala inspirerat av Gud).
Era gamla män ska ha drömmar.
Era unga män ska se profetiska syner.
Även över tjänare och tjänarinnor ska jag i de dagarna utgjuta min Ande.
[Denna profetia började uppfyllas i Apg 2:16-21, och kommer helt att uppfyllas då Jesus regerar i tusenårsriket.]
O mover de Deus no Brasil não começou pelo topo da estrutura clerical, mas pela oração de uma mulher no ambiente doméstico.
2. Frida Vingren: Teóloga, musicista e líder
Esposa de Gunnar Vingren, Frida era uma mulher extraordinariamente culta. Formada em enfermagem na Suécia, ela dominava a música, escrevia artigos teológicos densos para o jornal Boa Semente e foi responsável por traduzir e compor diversos hinos da Harpa Cristã (como os emblemáticos hinos 126 e 175). Quando Gunnar adoeceu gravemente, foi Frida quem assumiu temporariamente a direção dos cultos e a redação do jornal da igreja no Rio de Janeiro.
O ministério de Frida reflete o padrão de Romanos 16:1-2, onde Paulo saúda e recomenda Febe:
Hälsningar till Rom
Ta emot syster Febe med öppna armar
Nu vill jag introducera (lägga ett gott ord för) vår syster Febe [som betyder "lysande, strålande"], som är en församlingstjänare (diakon) i Kenkrea [här i östra hamnen i Korint]. Ta emot henne i Herren på ett sätt som är värdigt de heliga (Guds folk). Hjälp (stå bakom, bistå) henne i hennes uppgift (uppdrag), för hon har själv varit en hjälp för många och även för mig.
[Det är mycket troligt att det var Febe som tog med sig Paulus brev från Korint till Rom. Det grekiska ordet "hjälp" beskriver någon som går före, som beskyddar, en inflytelserik person som ger av sitt överflöd.]
[I följande lista med personliga hälsningar omnämns 26 personer vid namn, plus två till utan namn, Rufus mor och Nereus syster. Totalt alltså 28 personer, det största antalet i något av Paulus brev. Anmärkningsvärt är att 9 av dem är kvinnor, vilket visar på hur högt Paulus värdesätter kvinnans tjänst i församlingen.
Dessa hälsningar ger en inblick i den tidiga kyrkan. I den romerska församlingen fanns några som varit kristna längre än Paulus, se vers 7. Man möttes i husförsamlingar. En nämns i vers 5, men troligt är att brevet syftar på fyra till, se vers 10-11 och vers 14-15. Många var slavar, medan andra kom från de övre samhällsskikten, som de från Aristobulus och Narcissus familjer, se vers 10 och 11. Ett annat exempel kan vara Pomponia, hustru till den general som ledde det romerska anfallet mot Britannia 43 e.Kr. Enligt den romerska historikern Tacitus ställdes hon inför rätta omkring 57 e.Kr., ungefär samtidigt som Romarbrevet skrevs. Anklagelserna gällde att hon hade anammat en "utländsk vidskepelse", troligen kristendomen, men hon frikändes.
När brevet skrivs har det gått omkring 25 år sedan pingstdagen och många troende bodde i rikets huvudstad Rom. Flera av dessa personer hade Paulus förmodligen träffat i Jerusalem eller under sina resor.]
Assim como Febe e tantas outras cooperadoras do Novo Testamento, Frida exerceu uma liderança orgânica e intelectual indispensável para a saúde da igreja primitiva brasileira.
3. Ruth Doris Lemos: A voz da infância e da educação
Ruth Doris Lemos foi uma das mentes brilhantes por trás da estruturação da Escola Bíblica Dominical (EBD) e do trabalho com crianças e adolescentes na denominação. Ela compreendeu que a sustentabilidade de uma igreja a longo prazo dependia da base educacional de suas crianças. Ela escreveu materiais didáticos, treinou professoras e viajou pelo Brasil estruturando o ensino bíblico.
Essa dedicação encontra eco na exortação de Paulo a Timóteo, lembrando da transmissão geracional da fé através de duas mulheres:
Jag har blivit påmind om din uppriktiga (äkta, oförfalskade) tro,
som först fanns i din mormor Lois, din mor Eunike,
och som jag är helt övertygad om finns även i dig.
[Timoteus mor var en judinna som blivit kristen, hans far var däremot grek och uppenbarligen inte troende, se Apg 16:1.]
[Vers 6-14 formar en kiasm. Den yttre ramen handlar om Guds gåva, den helige Ande, och ordet kärlek, se vers 6-7 och 13-14. Vers 8a och 12b handlar om att "inte skämmas". Vers 8b och 12 om "lidande". Vers 9 använder ordet "frälst" och i vers 10 återkommer "frälsare". Centralt i vers 9b finns evangeliets kärna: frälsning inte på grund av gärningar utan genom nåd!]
4. O Círculo de Oração: A força motriz da igreja
Impossível falar das mulheres assembleianas sem mencionar Albertina Bezerra Barreto. Em 1940, na cidade de Recife, ela deu início ao "Círculo de Oração", um movimento de intercessão liderado por mulheres que se espalhou por absolutamente todos os templos da denominação no mundo. O Círculo de Oração tornou-se a coluna vertebral espiritual e financeira de muitas congregações, sustentando missões e sustentando milagres através do clamor diário.
Conclusão e aplicação para a igreja de hoje
Resgatar a memória das mulheres pioneiras das Assembleias de Deus não é apenas um exercício de saudosismo, mas uma necessidade de alinhamento espiritual. Elas provaram que o chamado de Deus não é determinado por gênero, mas pela disposição de um coração quebrantado e cheio do Espírito Santo. Se a igreja evangélica cresceu e se ramificou pelo território nacional, foi porque essas mulheres carregaram o tijolo e o cimento espirituais nos bastidores.
Para a nossa vida prática hoje, a história dessas pioneiras nos deixa lições urgentes:
Não enterre os seus talentos por causa de pressões culturais: Frida Vingren usou sua escrita, sua música e sua voz mesmo quando o ambiente não lhe era favorável. Identifique os dons que o Espírito Santo colocou em você e coloque-os a serviço do Reino, sabendo que é a Deus que você serve.
Valorize o ministério dos bastidores: O Círculo de Oração transformou a realidade espiritual do Brasil sem precisar de holofotes ou palcos iluminados. O trabalho de ensino infantil de Ruth Doris moldou o caráter de milhões de crentes. O verdadeiro sucesso no Reino de Deus é medido pela fidelidade naquilo que nos foi confiado.
Preserve e conte a história completa: É papel da liderança e dos membros da igreja atual garantir que as novas gerações conheçam os nomes de Celina, Frida, Albertina, Ruth e tantas outras. Que a nossa gratidão se estenda a todos aqueles, homens e mulheres, que abriram o caminho a duras penas para que hoje pudéssemos cultuar ao Senhor em liberdade.