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Quem sou eu em Cristo: identidade e nova criação

Por Bíblia Online  - 
Pessoa segura uma Bíblia aberta com uma cruz de madeira, diante do pôr do sol.

Quem sou eu em Cristo

Em Cristo, você é uma nova criação: filho de Deus, perdoado, declarado justo, parte de um povo com missão e guiado pelo Espírito. Nenhuma dessas coisas depende do que você fez ou deixou de fazer — todas dependem do que Jesus fez, e é por isso que a Bíblia as chama de identidade, não de conquista.

Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas antigas já passaram, eis que tudo se fez novo!

Vale olhar a frase com calma. "Em Cristo" é a expressão favorita de Paulo — ela aparece dezenas de vezes nas cartas dele, e sempre com a mesma lógica: o que é verdade sobre Jesus passa a ser verdade sobre quem está unido a ele pela fé. É uma linguagem de união, quase de endereço. Antes a pessoa estava "em Adão", herdando o que Adão deixou; agora está em Cristo, herdando o que Cristo conquistou.

E o contexto ajuda. No versículo anterior, 2 Coríntios 5:16, Paulo diz que já não avalia ninguém "segundo a carne" — pelo currículo, pela aparência, pela reputação. A nova criação do versículo 17 é a razão disso: se Deus recomeçou a história de alguém, o velho rótulo perdeu validade. É esse o ponto de partida para tudo o que vem abaixo.

Filho de Deus, não visitante

A primeira coisa que a Bíblia diz sobre quem está em Cristo é que ele é filho. Não funcionário, não convidado tolerado — filho.

Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, ou seja, aos que crêem no seu Nome;(João 1:12)

A palavra que João usa para "poder" ou "direito" é exousia, no grego: autoridade legal, aquilo que alguém tem direito de reivindicar. João 1:12 não está dizendo que a pessoa pode tentar virar filha de Deus se se comportar bem. Está dizendo que, ao receber Cristo, ela já tem esse direito garantido. E repare na condição: "receber" e "crer" — não "merecer".

Porquanto, todos vós sois filhos de Deus por meio da fé que tendes em Cristo Jesus,(Gálatas 3:26)

Paulo diz a mesma coisa em Gálatas 3:26, mas num contexto que torna a frase ainda mais forte. A carta inteira discute se os cristãos não judeus precisavam cumprir a lei de Moisés para serem aceitos. A resposta de Paulo é que a lei funcionou como tutor até Cristo chegar; agora, todos — judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, como ele completa em Gálatas 3:28 — são filhos pelo mesmo caminho: a fé. Filiação, portanto, não é um privilégio de quem nasceu na família certa ou acumulou pontos. É o lugar de todo aquele que crê.

Nova criação que ainda está sendo vestida

Aqui aparece a objeção óbvia: se sou nova criação, por que continuo errando como antes? A Bíblia não esconde essa tensão — ela a explica.

Quanto à antiga maneira de viver, fostes instruídos a vos despirdes do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a vos revestirdes do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da Verdade.(Efésios 4:22,24)

Em Efésios 4:22-24, Paulo usa a imagem de trocar de roupa: despir o "velho homem" e vestir o "novo". Os verbos gregos (apothesthai, tirar; endysasthai, vestir) são os mesmos que se usariam para uma túnica. A roupa nova já existe — foi "criada segundo Deus", diz o texto. Mas vesti-la é um ato repetido, diário, e no versículo 23, entre os dois que estão exibidos, Paulo coloca o que faz a ligação: a renovação da mente.

Olha a distinção que isso cria. A identidade é posição: você já é nova criação, e isso não oscila. O caráter é processo: vai sendo vestido aos poucos, com tropeços. Confundir as duas coisas gera dois erros — achar que a nova vida é só sentimento, ou achar que ela depende de uma perfeição que você não alcança. O texto diz outra coisa: a nova natureza já é sua; o que falta é vesti-la todo dia.

Perdoado: a dívida foi paga

Quem está em Cristo tem o passado tratado, não varrido para baixo do tapete.

Nele, temos a redenção, o perdão dos nossos pecados pelo seu sangue, segundo as riquezas da graça de Deus,(Efésios 1:7)

Efésios 1:7 fala de "redenção" — no grego, apolytrōsis, a palavra usada para o resgate que comprava a liberdade de um escravo. É linguagem de preço pago. O perdão cristão não é Deus fingindo que nada aconteceu; é Deus assumindo o custo do que aconteceu, "pelo seu sangue", e fazendo isso "segundo as riquezas da sua graça" — ou seja, sem medir a quantia.

Portanto, agora não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus.(Romanos 8:1)

Romanos 8:1 tira a conclusão prática. O "portanto" com que o versículo começa vem logo depois de Romanos 7, onde Paulo descreve, em primeira pessoa, a luta de quem quer fazer o bem e se vê fazendo o mal. É depois dessa confissão — não antes — que ele declara: nenhuma condenação. A culpa pode continuar acusando por dentro, mas o tribunal já se pronunciou, e a sentença foi absolvição.

Justificado: mais do que perdoado

Perdão e justificação são parentes, mas não são a mesma coisa, e a diferença importa para a pergunta "quem sou eu".

sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.(Romanos 3:24)

Perdoar é cancelar uma dívida: a pessoa sai do vermelho e fica no zero. Justificar vai além: é Deus declarar a pessoa justa, no positivo, como se ela tivesse a conta cheia. Romanos 3:24 diz que isso acontece "gratuitamente" — dōrean, de presente — e "pela redenção que há em Cristo Jesus". A justiça creditada é a de Cristo; o pecador recebe o que não produziu.

Vale ser honesto sobre a premissa aqui. A leitura de que a justificação é uma declaração judicial de Deus, baseada na justiça de Cristo recebida pela fé, é a da teologia evangélica histórica, herdada da Reforma. A tradição católica entende a justificação como um processo que inclui a transformação interior da pessoa. As duas concordam que a base é a graça e que Cristo é a fonte; divergem em como e quando Deus declara alguém justo. Para a pergunta deste artigo, o ponto comum já diz muito: o cristão não constrói a própria justiça — ele a recebe.

Parte de um povo com missão

Identidade em Cristo não é só sobre o indivíduo. A Bíblia quase sempre fala dela no plural.

Porém, vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo propósito é proclamar as grandezas daquele que vos convocou das trevas para sua maravilhosa luz.(1 Pedro 2:9)

Em 1 Pedro 2:9, cada um dos quatro títulos — geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido — foi tirado do que Deus disse a Israel no Sinai, em Êxodo 19:5-6. Pedro pega o vocabulário da antiga aliança e aplica à igreja, formada agora de judeus e gentios. E no versículo seguinte, 1 Pedro 2:10, ele lembra de onde esse povo veio: "vós, que antes não éreis povo".

A frase final do versículo diz para que serve tudo isso: "para que anuncieis as virtudes" de quem chamou. Identidade, na Bíblia, vem com tarefa. Saber quem você é diante de Deus muda como você trabalha, como trata quem o ofendeu, o que coloca em primeiro lugar — porque agora você representa alguém.

Como viver essa identidade no dia a dia

A Bíblia não trata a identidade em Cristo como um dado que basta saber. Ela aponta hábitos que a mantêm viva, e três deles aparecem com clareza nos textos.

O primeiro é permanecer. Em João 15:4, Jesus usa a imagem da videira: o ramo não produz nada sozinho, e não produz nada por esforço — produz por estar ligado ao tronco. A vida nova não é algo que a pessoa gera; é algo que ela recebe enquanto está conectada.

O segundo é renovar a mente. Romanos 12:2 manda não se conformar ao padrão deste mundo, mas ser transformado pela renovação do entendimento. É o mesmo verbo de Efésios 4:23. Na prática: o mundo repete todo dia quem você supostamente é — pelo desempenho, pela aparência, pelo que você tem. A Escritura precisa repetir, com a mesma frequência, quem você é em Cristo.

O terceiro é andar com o Espírito. A certeza de ser filho não vem de um sentimento, e sim de uma presença.

Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.(Romanos 8:14, NAA)

Na Nova Almeida Atualizada, Romanos 8:14 liga as duas coisas numa frase só: ser guiado pelo Espírito e ser filho de Deus. Não é que a pessoa prove a filiação sendo guiada; é que a filiação se manifesta assim — alguém de fora, o Espírito, conduzindo quem já é da casa. Nos versículos seguintes, Romanos 8:15-16, Paulo diz que é esse mesmo Espírito que nos faz clamar "Pai" e que testifica com o nosso espírito que somos filhos.

Por isso a resposta para "quem sou eu em Cristo" não muda com o dia ruim. Ela foi dada antes de você perguntar, em 2 Coríntios 5:17: se alguém está em Cristo, é nova criação. Leia 2 Coríntios 5 inteiro — o versículo ganha ainda mais peso quando se vê o que vem antes e depois dele.

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