Quarta-feira de Cinzas e Quaresma: o significado
O que significam a Quarta-feira de Cinzas e a Quaresma
A Quarta-feira de Cinzas é o dia que abre a Quaresma: um período de quarenta dias de oração, jejum e conversão que prepara o cristão para a Páscoa. Nesse dia, quem vai à igreja recebe na testa uma cruz feita de cinza, enquanto ouve uma de duas frases: "Convertei-vos e crede no Evangelho", que vem de Marcos 1:15, ou "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás", que vem de Gênesis 3:19.
Essa segunda frase é a chave de tudo. Ela é a sentença que Deus pronuncia sobre Adão depois da queda:
Com o suor do seu rosto,
você comerá o seu pão,
até que volte à terra,
visto que dela foi tirado;
porque você é pó
e ao pó voltará".(Första Moseboken 3:19, NVI)
A cinza na testa, portanto, não é enfeite religioso. É um lembrete público e incômodo de duas coisas que a pessoa prefere esquecer: que vai morrer, e que precisa de perdão. A Quaresma inteira nasce daí. Durante quarenta dias, o cristão olha para a própria vida com honestidade, abre mão de alguma coisa, reza mais, dá mais — não para comprar o favor de Deus, mas para chegar à Páscoa com o coração desocupado o bastante para receber a notícia de que Cristo venceu exatamente aquilo que a cinza anuncia.
No Brasil, a data é fácil de localizar: é o dia seguinte ao Carnaval. A Quaresma começa ali e vai até a Semana Santa, terminando na tarde da Quinta-feira Santa, quando começa o Tríduo Pascal — a Sexta-feira da Paixão, o Sábado Santo e o Domingo da Ressurreição. Como a Páscoa muda de data todo ano, a Quarta-feira de Cinzas também muda: ela cai sempre quarenta e seis dias antes do Domingo de Páscoa, entre o início de fevereiro e o começo de março.
De onde vêm as cinzas
As cinzas da Quarta-feira de Cinzas vêm dos ramos do Domingo de Ramos do ano anterior. Aquelas palmas que as pessoas levantaram para lembrar a entrada de Jesus em Jerusalém são guardadas, secam ao longo do ano e, dias antes da Quaresma, são queimadas. O pó resultante é peneirado, às vezes misturado com um pouco de água benta, e é esse pó que o padre usa para traçar a cruz.
Há um sentido bonito nisso. Os ramos foram sinal de festa — "Hosana ao Filho de Davi" — e viram cinza. A mesma multidão que recebeu Jesus com palmas pediu a crucificação dele poucos dias depois. A cinza carrega essa memória: o louvor fácil não dura; o que dura é a conversão.
Mas a cinza não foi inventada pela Igreja. Na Bíblia, cobrir-se de cinza é a linguagem corporal do arrependimento e do luto. Jó, depois de ouvir Deus falar, diz que se arrepende "no pó e na cinza" (Jó 42:6). Daniel, no exílio, busca o Senhor pelo pecado da nação "em jejum, pano de saco e cinza" (Daniel 9:3). E o caso mais impressionante é o de Nínive: uma cidade pagã inteira, do rei ao gado, que se converte depois de ouvir Jonas.
Quando as notícias chegaram ao rei de Nínive, ele se levantou do trono, tirou o manto real, vestiu-se com pano de saco e sentou-se sobre cinzas.(Jona 3:6, NVI)
Vale notar o que acontece nesse versículo: o homem mais poderoso da cidade desce do trono, tira o manto e senta no chão, na cinza. Não é teatro. É alguém dizendo com o corpo "eu não tenho como me defender diante de Deus". E a resposta de Deus a Nínive foi misericórdia.
É esse gesto que a Quarta-feira de Cinzas recupera. Quando a pessoa recebe a cruz na testa, ela está, de certa forma, fazendo o que o rei de Nínive fez — admitindo que é pó e que precisa de perdão.
Por que a Quaresma dura quarenta dias
Os quarenta dias imitam o tempo que Jesus passou jejuando no deserto antes de começar a pregar. Logo depois do batismo, Ele é levado pelo Espírito ao deserto, fica quarenta dias sem comer e enfrenta as tentações do diabo (Mateus 4:1-2). A Quaresma é o cristão acompanhando Jesus nesse deserto.
Mas o número quarenta já era carregado de sentido muito antes. Na Bíblia, ele aparece quase sempre ligado a prova, preparação e purificação:
Moisés ficou quarenta dias no Sinai, em jejum, antes de receber a Lei (Êxodo 34:28).
Israel vagou quarenta anos no deserto antes de entrar na terra prometida (Números 14:33-34).
Elias caminhou quarenta dias até o monte Horebe (1 Reis 19:8).
Nínive recebeu quarenta dias de prazo para se converter (Jonas 3:4).
O padrão é claro: quarenta é o tempo de atravessar algo difícil para sair diferente do outro lado. Não é um número mágico; é uma linguagem que a Bíblia usa, e a Igreja a tomou emprestada.
Agora, uma dúvida que muita gente tem: se você contar no calendário da Quarta-feira de Cinzas até o Sábado Santo, dá quarenta e seis dias, não quarenta. A explicação é que os domingos não entram na conta. Domingo é o dia da Ressurreição, e desde os primeiros séculos os cristãos não jejuavam nesse dia. Tirando os seis domingos, sobram quarenta dias de penitência. Por isso a Quarta-feira de Cinzas cai sempre quarenta e seis dias antes da Páscoa.
Quando a Igreja começou a celebrar a Quaresma
A Quaresma é antiga, mas não nasceu pronta. Nos primeiros séculos, os cristãos já se preparavam para a Páscoa com um jejum de alguns dias — às vezes dois, às vezes uma semana. O Concílio de Niceia, em 325, já menciona um período de "quarenta dias" antes da Páscoa como coisa conhecida, o que indica que a prática estava consolidada no século IV. Era também o tempo em que os catecúmenos, os adultos que iam ser batizados na noite de Páscoa, passavam pela preparação final.
A cinza entrou mais tarde. Nos séculos VII e VIII, quem tinha cometido pecados graves e precisava de penitência pública recebia cinzas no começo da Quaresma e era afastado da comunhão até a Quinta-feira Santa. Com o tempo, os outros fiéis começaram a pedir a cinza também, por solidariedade e por reconhecer que ninguém está isento de pecado. Por volta do século X o gesto já era comum, e em 1091, no Concílio de Benevento, o papa Urbano II recomendou que todos os fiéis recebessem as cinzas na quarta-feira que abre a Quaresma. O nome "Quarta-feira de Cinzas" — em latim, dies cinerum — vem daí.
Isso é importante para entender uma coisa: a Quaresma não é um mandamento bíblico, no sentido de que nenhum versículo diz "guardai quarenta dias antes da Páscoa". Ela é uma tradição da Igreja construída sobre práticas que a Bíblia ensina — jejum, arrependimento, oração — e sobre um tempo que a Bíblia carrega de sentido. Quem a observa está fazendo algo bíblico de um jeito que a tradição organizou.
Como o jejum e a penitência devem ser feitos
Aqui a Bíblia é direta, e vale ler com atenção, porque é fácil errar o alvo. O Evangelho que a Igreja lê na Quarta-feira de Cinzas é justamente a parte do Sermão do Monte em que Jesus fala sobre o jejum:
— Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua plena recompensa. No entanto, quando você jejuar, unja a cabeça e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.(Matteusevangeliet 6:16-18, NVI)
Olha a ironia: no dia em que o cristão sai da igreja com uma cruz de cinza visível na testa, o Evangelho lido é o que manda não exibir o jejum. Isso não é contradição — é um aviso embutido na própria liturgia. A cinza é um sinal de que a pessoa precisa de conversão, não de que ela é piedosa. Se vira motivo de orgulho, perdeu a razão de existir.
E vale notar o contexto: Mateus 6 trata, nessa ordem, da esmola (versículos 1 a 4), da oração (5 a 15) e do jejum (16 a 18). São exatamente as três práticas que a Igreja propõe para a Quaresma. Jesus não inventou nenhuma delas — eram práticas judaicas antigas — mas em cada uma repete a mesma correção: faça diante do Pai, não diante das pessoas.
O Antigo Testamento diz a mesma coisa de outro jeito. A primeira leitura da Quarta-feira de Cinzas é do profeta Joel, e ela contém a frase que resume a Quaresma inteira:
Rasguem o coração,
não as vestes.
Voltem-se para o Senhor, o seu Deus,
pois ele é misericordioso e compassivo,
tardio em irar-se e cheio de amor leal;
arrepende-se e não envia a desgraça.(Joel 2:13, NVI)
"Rasguem o coração, e não as vestes." Rasgar a roupa era, como a cinza, o gesto externo do luto. Joel não proíbe o gesto — ele mesmo convoca o povo a jejuar no versículo anterior. O que ele diz é que o gesto sem o coração não vale nada. E repare no motivo que ele dá para a pessoa voltar: não é medo, é o caráter de Deus — "misericordioso e compassivo, muito paciente e cheio de amor". A penitência bíblica não é a pessoa se castigando para amansar um Deus bravo. É a pessoa voltando para alguém que já quer perdoar.
Isaías vai ainda mais longe e diz qual é o jejum que Deus quer: soltar os oprimidos, dividir o pão com o faminto, abrigar quem não tem casa (Isaías 58:6-7). Por isso jejum e esmola andam juntos na Quaresma: o que você deixa de gastar consigo vai para quem precisa.
Na prática católica, as regras são mais leves do que muita gente imagina. A Igreja pede jejum e abstinência de carne em dois dias apenas: a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. Jejum, nesse caso, significa uma refeição completa no dia, com duas refeições leves permitidas, para quem tem entre 18 e 59 anos e saúde para isso. Nas outras sextas-feiras da Quaresma pede-se abstinência de carne, que no Brasil pode ser substituída por outra forma de penitência ou obra de caridade. Doentes, grávidas, idosos e crianças estão dispensados. O "sacrifício quaresmal" — deixar o doce, a rede social, a bebida — é devoção pessoal, não obrigação.
O que vale lembrar, com Joel e com Jesus, é que nada disso tem valor se ficar na superfície. Deixar o chocolate por quarenta dias e continuar guardando rancor do irmão não é Quaresma; é dieta.
Como católicos e protestantes encaram a data
A Quarta-feira de Cinzas e a Quaresma são tradição católica, mas não são exclusivas dela. E a divergência entre cristãos sobre o assunto é legítima e antiga.
Na Igreja Católica, a Quaresma muda a cara da liturgia: o roxo substitui as outras cores, não se canta o Glória nem o Aleluia, os altares ficam sem flores. Às sextas-feiras muitas paróquias rezam a Via-Sacra. No Brasil, a Conferência dos Bispos lança todo ano, na Quarta-feira de Cinzas, a Campanha da Fraternidade, que escolhe um tema social — saúde, moradia, violência, meio ambiente — para a reflexão e a coleta da Quaresma.
As Igrejas Ortodoxas também guardam a Grande Quaresma, com um jejum bem mais rigoroso que o católico, mas sem cinzas: o período começa na "Segunda-feira Limpa", e o calendário da Páscoa deles costuma ser diferente.
Entre os protestantes, o quadro varia. Anglicanos e luteranos mantiveram a Quarta-feira de Cinzas e a Quaresma desde a Reforma, incluindo a imposição das cinzas. Metodistas e presbiterianos de tradição mais litúrgica também costumam observar o tempo quaresmal. Já batistas, pentecostais e boa parte das igrejas evangélicas brasileiras não observam a data. A razão, do ponto de vista deles, é de princípio: a Reforma defendeu que a Igreja não deve impor aos fiéis práticas que a Bíblia não ordena, e a Quaresma, como vimos, não é ordenada na Escritura. Muitas dessas igrejas, por outro lado, convocam períodos de jejum coletivo em outras datas — vinte e um dias, por exemplo — com propósito parecido.
O próprio Paulo já enfrentou uma discussão desse tipo, quando cristãos em Roma discordavam sobre guardar ou não certos dias:
Há quem faça diferença entre um dia e outro, enquanto outro acha que todos os dias são iguais. Cada qual siga a sua convicção.
Quem distingue o dia, faz isso em honra do Senhor.…(Romarbrevet 14:5,6a, PASTORAL)
A orientação de Paulo não é "todo mundo tem que fazer igual", nem "cada um faz o que quer". É: quem guarda o dia, guarde em honra do Senhor; quem não guarda, não despreze quem guarda. O critério é a consciência diante de Deus. Uma leitura evangélica histórica tende a tirar daí que a Quaresma é liberdade, não dever; uma leitura católica tende a ver nela uma disciplina legítima da Igreja, que tem autoridade para organizar o ano. As duas concordam no essencial: ninguém é salvo por jejuar quarenta dias, e ninguém é condenado por não jejuar.
O que a cinza quer que você ouça
A Quaresma termina onde começou a apontar: na Páscoa. Quarenta dias depois da cinza, o cristão ouve que o túmulo está vazio. A sentença de Gênesis 3:19 — "ao pó voltarás" — continua verdadeira para todo ser humano, mas deixa de ser a última palavra. É por isso que a Quarta-feira de Cinzas, apesar da cara séria, não é um dia triste. É um dia honesto. Ele diz a verdade sobre a pessoa para que a Páscoa possa dizer a verdade sobre Deus.
Se você quiser entender o espírito da Quaresma inteira em um só capítulo, leia Joel 2 completo: o chamado ao jejum, o coração rasgado e, no fim, um Deus que "talvez volte atrás e tenha compaixão".
Quarta-feira de Cinzas é feriado?
No Brasil, não é feriado nacional. Em muitos lugares há ponto facultativo até o meio-dia ou até as catorze horas, por conta do fim do Carnaval, mas isso depende de cada órgão e empresa. Em Portugal e nos países africanos de língua portuguesa também não é feriado civil.
Pode comer carne na Quarta-feira de Cinzas?
Na prática católica, não. A Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa são os dois dias do ano em que a Igreja pede jejum e abstinência de carne juntos, para quem tem entre 18 e 59 anos e saúde para isso. Peixe e frutos do mar são permitidos. Doentes, grávidas, idosos e crianças estão dispensados.
Quem não é católico pode receber as cinzas?
Pode. A imposição das cinzas não é sacramento e não exige estar em comunhão com a Igreja Católica; é um sinal de arrependimento aberto a qualquer pessoa que queira recebê-lo. Muitas igrejas anglicanas e luteranas também oferecem as cinzas nesse dia.
Qual é a diferença entre Quaresma e Semana Santa?
A Semana Santa é a última semana da Quaresma, do Domingo de Ramos ao Sábado Santo. A Quaresma propriamente dita termina na tarde da Quinta-feira Santa; dali em diante começa o Tríduo Pascal — Sexta-feira da Paixão, Sábado Santo e Domingo de Páscoa — que é o coração do ano litúrgico.
A Quaresma está na Bíblia?
Não como mandamento. Nenhum versículo ordena guardar quarenta dias antes da Páscoa. O que está na Bíblia são os elementos que a Quaresma reúne: o jejum de quarenta dias de Jesus no deserto (Mateus 4:1-2), a cinza como sinal de arrependimento (Jonas 3:6, Daniel 9:3) e o ensino de Jesus sobre jejum, oração e esmola (Mateus 6:1-18). A organização desses elementos em um tempo litúrgico é obra da tradição da Igreja, consolidada por volta do século IV.
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