Todo-Poderoso: o significado do poder ilimitado de Deus
Redação Bíblia Online Publicado em
O que significa Deus ser Todo-Poderoso
Deus ser Todo-Poderoso quer dizer uma coisa simples de enunciar e enorme de absorver: não existe nada que ele queira fazer e não consiga. Ninguém precisa dar permissão a ele, nada o cansa, nenhum obstáculo é obstáculo de verdade. O poder dele não vem de fora dele — e por isso não tem limite vindo de fora dele.
Na Bíblia isso não aparece como tese de filosofia. Aparece como um nome. "Todo-Poderoso" é um dos títulos pelos quais Deus se apresenta — a Abraão, a Jó, a João no Apocalipse. E o versículo que junta tudo numa frase só está logo no começo do último livro da Bíblia.
Alfa e Ômega são a primeira e a última letra do alfabeto grego: Deus está no começo e no fim de tudo o que existe. "Que é, que era e que há de vir": nenhum pedaço do tempo está fora do alcance dele. E então, como conclusão, o nome: o Todo-Poderoso. No grego, Pantokrator — pan, "tudo", e kratos, "domínio, força". Algo como "aquele que segura tudo".
Esse título aparece dez vezes no Novo Testamento: uma em 2 Coríntios 6:18 e nove no Apocalipse. Não é acaso. O livro escrito para igrejas pequenas, perseguidas, olhando para um império que parecia invencível, é justamente o que mais chama Deus de Todo-Poderoso. O nome serve para quem está vendo o poder do outro lado parecer maior.
Muito antes de João, Davi já tinha dito a mesma coisa, numa oração pública no dia em que o povo trouxe ofertas para a construção do templo:
Oo, Yahwe, à sɔ, gɛ à ba ɔkɛma.
À ba gingyebi, ma gebù-dɩrɛ, ma gingyebi-dɩrɛ,
yema gɩnyan-kamasɛ gɛtɛ gɩ̀ sa gatala ma gɛtʋnkwaa fɔ, gì di gɛ aayo.
Oo, Yahwe awɔ n di Egyu-dɩrɛ.
Tɩɩ tɔ̀là aa diyere, yema awɔ n di duyu tɛ gɩnyan-kamasɛ.(1 Ɩya-ɩya 29:11)
Gɩkyɩnyɩn ma gingyebi i ye gɛ aakʋn,
À ba ɔkɛma gɩnyan-kamasɛ gii koro.
À ba giteni ma ɔkɛma
gɛtɛ aa yɛ ɛnɩ ɛɛ bʋn e ye, fɔ e sere ɩkpaa.(1 Ɩya-ɩya 29:12)
Vale notar a lógica: o poder é teu porque tudo é teu. O Todo-Poderoso não venceu um cabo de guerra contra outras forças. É o dono. O poder vem junto com a propriedade, e a propriedade vem de ter feito tudo. Não é força bruta solta no universo; é a autoridade de quem criou o universo.
Este artigo faz parte de Dúvidas e Explicações Significado de Palavras
De onde vem o nome: El Shaddai e Pantokrator
No Antigo Testamento, a expressão que as Bíblias em português traduzem por "Deus Todo-Poderoso" é, em hebraico, El Shaddai. Ela aparece pela primeira vez em Gênesis 17:1, quando Deus se apresenta a Abraão — aos 99 anos, sem o filho prometido — e renova a aliança. Em Êxodo 6:3 Deus mesmo diz que foi por esse nome que os patriarcas o conheceram. No total, Shaddai aparece cerca de 48 vezes, sete delas como El Shaddai, e mais de trinta só no livro de Jó.
Aqui é preciso separar texto de tradição. Que Shaddai seja um nome de Deus, isso está escrito. Que ele signifique "Todo-Poderoso", isso é uma leitura — antiga e respeitável, mas leitura. Ela vem da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, que verteu Shaddai por Pantokrator, e da Vulgata latina, que usou Omnipotens. As Bíblias em português seguiram esse caminho.
A origem da palavra hebraica é discutida até hoje. Alguns estudiosos a ligam a uma palavra acadiana para "montanha" (Deus firme como a rocha); outros, a uma raiz que significa "sobrepujar". Uma tradição rabínica lê "Aquele que basta". A ligação com a palavra para "seio", o Deus que nutre, é popular em pregações, mas minoritária entre os especialistas. Não dá para fechar a questão.
O que dá para fechar é o uso. Toda vez que El Shaddai aparece em Gênesis, a situação é a mesma: uma promessa sem como se cumprir pelos meios humanos. O nome entra onde a possibilidade acabou. Foi isso que levou os tradutores antigos a ouvirem nele "o Todo-Poderoso": mesmo sem saber a etimologia, eles sabiam o que a palavra fazia no texto.
O poder que se vê na criação
Como alguém sabe que Deus é Todo-Poderoso? A Bíblia dá uma resposta que não exige revelação especial: basta olhar em volta.
Paulo diz que o poder eterno de Deus é "invisível", mas "se vê" — pelas coisas criadas. É o raciocínio de quem olha um prédio e conclui que houve um construtor com força e inteligência suficientes. Para Paulo, quem olha o mundo e não chega a essa conclusão não está sendo neutro; está se recusando a ver.
O salmista chega ao mesmo ponto pelo caminho do louvor:
"Insondável" é o que não se consegue medir até o fundo. É isso que "Todo-Poderoso" acrescenta a "poderoso". Muita coisa é poderosa — um rio, um exército, um império. Só uma coisa é poderosa sem fundo.
E dessa grandeza nasce um direito:
O Salmo 24 continua explicando: foi ele que fundou a terra sobre os mares. Isso muda a leitura de tudo o que vem a seguir. Quando Deus age no mundo, não está invadindo território alheio. Está mexendo no que é dele.
"Nada é difícil demais para ti": Jeremias compra um terreno no meio do cerco
A frase mais conhecida sobre o poder de Deus no Antigo Testamento nasceu numa situação absurda. Jerusalém está cercada pelo exército da Babilônia, e o profeta Jeremias está preso no pátio da guarda por ter dito que a cidade ia cair. Nesse cenário, Deus mandou Jeremias comprar um terreno.
Um primo apareceu oferecendo um campo em Anatote. Jeremias pagou dezessete siclos de prata, assinou a escritura diante de testemunhas e mandou guardar o documento num vaso de barro, "para que dure muitos dias". Ele estava comprando um campo que não ia pisar: um ato de fé em forma de contrato. A cena inteira está em Jeremias 32.
Depois de assinar, Jeremias orou:
Repare na ordem: primeiro ele lembra que Deus fez os céus e a terra, depois conclui que nada é difícil demais para ele. Mas a oração termina com uma dúvida mal disfarçada: "tu me disseste: compra o campo... embora a cidade esteja entregue aos caldeus". Ele confessou o poder de Deus e, na mesma oração, perguntou se aquilo fazia sentido. E a resposta de Deus devolve a Jeremias as próprias palavras dele:
Jeremias tinha afirmado; Deus perguntou. É um jeito de dizer: você acredita no que acabou de falar? Então vem a promessa concreta: o povo vai voltar, e campos vão ser comprados e vendidos de novo nessa terra. Setenta anos depois, foi o que aconteceu.
Isso mostra o que "nada é impossível" quer dizer na prática. Não quer dizer que Deus vai impedir o cerco. A cidade caiu. Quer dizer que o cerco não é a última palavra.
Maria e o Getsêmani: o mesmo poder, duas respostas
No Novo Testamento, a frase de Jeremias reaparece na boca de um anjo. Gabriel acaba de anunciar a Maria que ela vai ter um filho, e ela pergunta como, se é virgem. A resposta termina assim:
Um detalhe do grego ajuda. A frase, ao pé da letra, diz que "nenhuma palavra vinda de Deus será impossível" — o termo é rhēma, "coisa dita". O anjo não está dizendo que qualquer coisa imaginável pode acontecer. Está dizendo que o que Deus fala não falha. E logo antes ele deu a Maria uma prova: a prima Isabel, idosa e estéril, já estava grávida (Lucas 1:34-37).
Trinta e poucos anos depois, o filho anunciado a Maria está de joelhos num jardim, à noite, sabendo que vai ser preso em minutos:
Jesus afirma a mesma coisa que Jeremias e Gabriel: "tudo te é possível". E pede que o cálice seja afastado. O cálice não foi afastado.
Muita gente tropeça aqui. Se tudo era possível ao Pai, por que ele não atendeu o próprio Filho? A resposta está na frase seguinte: "não seja o que eu quero, mas o que tu queres". O poder de Deus nunca anda sozinho; anda junto com a vontade dele. Ele pode tudo, mas não faz tudo o que lhe é possível — faz o que decidiu. No Getsêmani, o que ele decidiu foi salvar o mundo por meio daquele cálice, não apesar dele. "Para Deus nada é impossível" é verdade — mas não é um cheque em branco. Jesus pediu, não recebeu o que pediu e, três dias depois, recebeu algo maior.
Um poder que mexe na história e no que está escondido
O poder de Deus na Bíblia não fica só nos milagres de grande porte. Aparece onde as pessoas menos esperam: na ordem social, nos bastidores da política, no que ninguém vê.
Ana era uma mulher estéril, humilhada em casa pela outra esposa do marido. Quando Deus lhe deu Samuel, ela cantou:
Yahwe ɛɛ mɛ bɛkɩ bɛkyɩnyɩn gɛ ɛɛ mɛ bedo beyenpu,
ɛɛ warama bɛkɩ gɛ ɛɛ bʋma bedo mɔ.(1 Samweli 2:7)
Ela não diz só que Deus enriquece e exalta. Diz que ele também empobrece e abaixa. Para quem está por baixo, isso é esperança; para quem está por cima, é aviso. Maria vai retomar o mesmo tema, séculos depois, no Magnificat.
Daniel conheceu outra face desse poder. Nabucodonosor exigiu que os sábios contassem e interpretassem um sonho que ele não revelou, sob pena de morte. Daniel orou, Deus mostrou o sonho, e Daniel louvou assim:
O versículo anterior diz que ele "remove reis e estabelece reis" (Daniel 2:20-23). Poder sobre impérios e poder sobre o que está escondido numa cabeça: para Daniel, são a mesma coisa. Ser Todo-Poderoso inclui não existir segredo.
Há ainda um terceiro título que anda junto com "Todo-Poderoso": "Deus dos Exércitos", Elohim Tsebaot. O Salmo 80 é o lamento de um povo derrotado, e o refrão se repete três vezes, cada vez com um nome mais pesado — "Deus", "Deus dos Exércitos", e por fim:
Quem reza esse salmo está perdendo. E, quanto mais perde, mais alto chama o nome. A derrota é real; o poder de Deus também.
Há algo que Deus não pode fazer?
Essa é a objeção que todo mundo pensa cedo ou tarde. Deus pode criar uma pedra tão pesada que ele mesmo não consiga levantar? Pode mentir?
A própria Bíblia responde que há coisas que Deus não faz — e usa a palavra "impossível". Hebreus diz que "é impossível que Deus minta" (Hebreus 6:18); Paulo escreve que Deus "não pode negar-se a si mesmo" (2 Timóteo 2:13). O texto bíblico mesmo não entende "Todo-Poderoso" como "capaz de qualquer frase que se possa montar".
A leitura que a igreja fez disso ao longo dos séculos — Agostinho, Tomás de Aquino, os reformadores, e é a leitura evangélica histórica que este artigo segue — é que onipotência significa que Deus pode fazer tudo o que quer, e o que ele quer está em harmonia com quem ele é. A "pedra que ele não consegue levantar" não é um limite ao poder; é uma frase sem sentido, como "um círculo quadrado". E mentir não é algo que lhe falta força para fazer; é contrário à natureza dele. Um Deus que pudesse mentir seria menos confiável, não mais poderoso.
Há teólogos que formulam isso de outros modos, e a discussão filosófica é longa. Mas a conclusão prática é a mesma em todas as correntes cristãs: o poder de Deus não é separável do caráter dele. É por isso que Paulo, depois de contar como foi alcançado quando perseguia a igreja, encerra assim:
Isso é uma descrição de poder absoluto, escrita por um homem que tinha acabado de dizer que esse Rei teve misericórdia dele. Na cabeça de Paulo, as duas coisas não competem.
O Todo-Poderoso como esconderijo
Se o poder de Deus fosse só grandeza, a reação natural seria medo. Mas a Bíblia coloca o nome mais forte de Deus ao lado das imagens mais frágeis — sombra, abrigo, asas.
A palavra que a Almeida verte por "Onipotente" e a NVI por "Todo-poderoso" é, no hebraico, Shaddai — o mesmo nome dado a Abraão. O salmista não escolheu um nome qualquer para falar de descanso. Escolheu o nome do poder. É a lógica de uma criança que dorme tranquila porque sabe quem está acordado na casa.
Esse poder inclui conhecer quem se abriga:
Para quem está sendo protegido, saber que o protetor conhece até a palavra que ainda não foi dita é alívio, não ameaça: ele não vai ser pego de surpresa pela sua situação.
Paulo vai um passo além. Esse poder não fica só ao redor da pessoa; é dado a ela:
A instrução não é "sejam fortes" — é "fortaleçam-se no Senhor". A força pertence a ele; o cristão a recebe emprestada.
Nada é mais forte que o amor do Todo-Poderoso
Para que esse poder está voltado? A resposta do Novo Testamento é direta: para manter quem é de Deus junto de Deus.
Paulo lista o que poderia separar alguém do amor de Deus e vai riscando item por item. Repare que a lista inclui "poderes". Nenhum poder é maior que o poder de quem ama. É o Todo-Poderoso virado para dentro da relação.
João diz a mesma coisa com menos palavras:
Ele escreve para cristãos cercados de falsos mestres e pressão social, e não minimiza o que está no mundo; apenas compara tamanhos. A comparação só funciona porque um dos lados é ilimitado.
Ezequiel, falando a um povo exilado e explorado pelos próprios líderes, mostra para onde esse poder aponta:
É uma promessa a Israel disperso, sobre a volta à terra — não uma garantia de chuva ou prosperidade para cada leitor. Mas o padrão vale para todos: quando o Deus que empobrece e enriquece decide usar o poder dele, ele o usa para fazer chover sobre o próprio rebanho. O poder ilimitado tem direção, e a direção é o cuidado.
Volta ao começo, então. "Eu sou o Alfa e o Ômega, o que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso." João ouviu isso exilado em Patmos, escrevendo para igrejas que estavam perdendo gente para a prisão e para a morte. O nome não foi dado a ele para que admirasse o tamanho de Deus. Foi dado para que soubesse quem segura a história que parecia estar nas mãos de Roma. Leia Apocalipse 1 completo e veja como o capítulo inteiro gira em torno disso.
Qual é a diferença entre "onipotente" e "Todo-Poderoso"?
Nenhuma, no significado. "Onipotente" vem do latim omnipotens, a palavra usada pela Vulgata para traduzir Shaddai e Pantokrator; "Todo-Poderoso" é a mesma ideia em português corrente. As Bíblias brasileiras usam as duas formas: a Almeida, por exemplo, escreve "Onipotente" no Salmo 91:1 e "Todo-Poderoso" em Gênesis 17:1, embora o termo hebraico seja o mesmo nos dois lugares.
Em Apocalipse 1, quem está falando: o Pai ou Jesus?
Há duas leituras entre intérpretes cristãos. Muitos entendem que é o Pai, porque "aquele que é, que era e que há de vir" é a descrição usada no versículo 4 para o que está no trono, distinto de Jesus Cristo no versículo 5. Outros veem Jesus falando, porque no mesmo capítulo ele diz "eu sou o primeiro e o último" (versículos 17 e 18) e, em Apocalipse 22:13, "Alfa e Ômega" é aplicado claramente a Cristo. As duas leituras concordam no essencial: o Apocalipse atribui a Jesus títulos que pertencem só a Deus.
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