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Uma só carne: o significado bíblico em Gênesis 2

Redação Bíblia Online Publicado em

O que significa "uma só carne"

Homem e mulher cobertos por folhas conversam entre árvores frutíferas e samambaias.

"Uma só carne" é o jeito que a Bíblia descreve o que acontece quando um homem e uma mulher se casam: dois que eram de famílias diferentes passam a ser uma família nova, um só corpo, uma só vida compartilhada — diante de Deus, não só diante das pessoas. A expressão nasce em Gênesis 2:24, e tudo o que o resto da Bíblia diz sobre casamento volta a ela.

Olha a cena de onde ela sai. Deus forma a mulher a partir do homem, leva-a até ele, e a primeira coisa que o homem diz é que ela é «osso dos meus ossos e carne da minha carne» (Gênesis 2:23, NVI). O narrador então tira a conclusão: por isso o homem deixa pai e mãe, se une à sua mulher, e os dois se tornam uma só carne.

Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão.

E disse Adão:

Esta é agora osso dos meus ossos,

e carne da minha carne;

esta será chamada mulher,

porquanto do homem foi tomada.

Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.

Vale notar que o texto não dá uma definição de casamento. Ele conta uma história e, no fim, diz "por isso": o casamento refaz, de certo modo, aquela primeira cena — a mulher que foi tirada do homem volta a ser uma coisa só com ele. Não é só sexo, nem uma "fusão de almas" abstrata. É algo concreto: duas pessoas que passam a pertencer à mesma família, ao mesmo corpo, à mesma vida — e o encontro sexual é o lugar onde isso fica visível.

Este artigo faz parte de Vida Cristã Casamento

Antes do casamento, a solidão: o contexto de Gênesis 2

Alguns versículos antes, no meio de um mundo que Deus acabou de chamar de bom, há algo que não é bom.

E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.(Gênesis 2:18)

A expressão em hebraico é ezer kenegdo. Ezer é "ajuda", "socorro" — a mesma palavra que os Salmos usam para Deus. Kenegdo quer dizer "correspondente a ele", "à altura dele". A ACF traduz por «ajudadora idônea» (Gênesis 2:18, ACF); a NVI por «aliada que lhe seja semelhante» (Gênesis 2:18, NVI). As duas dizem a mesma coisa: alguém que corresponde, que não é cópia nem subordinada, mas par. A mulher não é posse do homem; ela é a resposta a uma falta que Deus mesmo apontou. Quando os dois se tornam uma só carne, essa lacuna se fecha.

E há um detalhe anterior, em Gênesis 1:

E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.(Gênesis 1:27)

Homem e mulher, os dois, à imagem de Deus. Antes de qualquer diferença de papel, o texto afirma uma igualdade de origem e dignidade — e Jesus vai citar justamente este versículo quando falar de casamento.

O que "carne" quer dizer no hebraico

A palavra hebraica é basar. Significa o corpo físico, mas no Antigo Testamento tem um uso que o português perdeu: basar também é "parentesco", "gente do meu sangue".

Dois exemplos deixam isso claro. Quando Jacó chega à casa de Labão, o tio o recebe dizendo que ele é «meu osso e minha carne» (Gênesis 29:14). E quando as tribos de Israel vão a Davi em Hebrom para fazê-lo rei, lembram que são «teus ossos e tua carne» (2 Samuel 5:1). Em nenhum dos casos falam de corpo. Falam de família.

"Osso dos meus ossos e carne da minha carne", em Gênesis 2:23, é exatamente essa fórmula de parentesco. E Gênesis 2:24 conclui que o casamento recria isso: dois que não tinham laço de sangue passam a ter um laço tão forte quanto o de sangue — mais forte, porque é por ele que o homem deixa pai e mãe. Não é metáfora para romance; é uma mudança de parentesco.

Deixar, unir-se, tornar-se: os três verbos de Gênesis 2:24

O versículo tem três movimentos, e a ordem ensina.

O primeiro é deixar. Em hebraico, azab — verbo forte, o mesmo usado para "abandonar". Numa cultura em que o filho normalmente ficava na terra do pai, isso era mais radical do que parece hoje. O texto não manda cortar relações com os pais, mas a lealdade primeira muda de lugar.

O segundo é unir-se, ou "apegar-se" (ACF). O verbo é dabaq: colar, aderir. É a palavra que Deuteronômio usa para a relação de Israel com Deus — «a ele te apegarás» (Deuteronômio 10:20) — e a que descreve Rute recusando-se a largar Noemi (Rute 1:14). É lealdade que se escolhe e se mantém.

O terceiro é tornar-se uma só carne. É resultado, não ponto de partida: primeiro se deixa, depois se apega, e disso resulta a unidade que vai se tornando ao longo do casamento.

O que Jesus fez com esse versículo

Os fariseus perguntam a Jesus se é lícito ao homem se divorciar por qualquer motivo. Esperavam uma opinião sobre a lei; ele volta à criação.

Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez,

E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e serão os dois em uma carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.(Mateus 19:4-6)

Ele cita Gênesis 1:27 e Gênesis 2:24, e tira uma conclusão que não está escrita em Gênesis, mas segue dela: se os dois são uma só carne, quem os uniu foi Deus. O casamento tem um terceiro envolvido, e é ele quem "ajunta". Por isso a separação não é só quebra de contrato — é desfazer o que Deus fez.

Marcos traz a mesma conversa:

Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea. Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á a sua mulher, E serão os dois uma carne; e assim já não serão dois, mas uma carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.(Marcos 10:6-9)

"Já não são dois, mas uma só carne": a aritmética mudou. Isso não apaga a individualidade de cada cônjuge, mas a unidade do casal passa a ser a realidade a ser protegida, e a vontade de um dos dois não basta para desfazê-la. Jesus também explica por que a lei de Moisés permitia o divórcio: pela dureza do coração, não porque esse fosse o plano (Mateus 19:7-9).

Paulo: o casamento como figura de Cristo e da Igreja

Em Efésios, Paulo diz que Gênesis 2:24, além de falar do casamento, falava de Cristo.

Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja. Assim também vós, cada um em particular, ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido.(Efésios 5:28-33)

Se marido e mulher são uma só carne, o marido que ama a esposa está amando o próprio corpo — e ninguém odeia o próprio corpo. Daí a ordem: amar a esposa como a si mesmo é tratar o bem dela como se fosse o seu, porque é.

E aí vem o "grande mistério": a união de dois em um só corpo é retrato de algo maior, porque Cristo e a Igreja também são um só corpo. Mistério, no sentido bíblico, é algo escondido que agora foi revelado — Deus desenhou o casamento, desde o jardim, para apontar para essa união. Na leitura evangélica histórica, o casamento não é um sacramento que confere graça — nisso ela difere da tradição católica. Mas ela leva Efésios 5 a sério: a fidelidade de um casal diz algo sobre o evangelho para quem está olhando.

É só sexo? O que 1 Coríntios 6 acrescenta

A dimensão física está no texto também — e Paulo a deixa clara ao repreender cristãos de Corinto que frequentavam prostitutas.

Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? Não, por certo. Ou não sabeis que o que se ajunta com a meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque diz, serão dois uma só carne. Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito.(1 Coríntios 6:15-17)

Paulo cita Gênesis 2:24 para dizer que quem se une sexualmente a uma prostituta "é um corpo com ela". A união sexual, por si só, produz algo real — por isso é tão grave fora do lugar certo. Ele não diz que dormir com alguém equivale a casar; a aliança e o compromisso público não estão ali. Mas o corpo não é neutro: o ato sexual participa daquilo que "uma só carne" significa. Sexo não é tudo o que a expressão quer dizer, nem é um detalhe à parte — é a expressão corporal de uma união que é também familiar e espiritual.

Provérbios fala disso de um jeito mais alegre:

Seja bendito o teu manancial,

e alegra-te com a mulher

da tua mocidade.

Como cerva amorosa,

e gazela graciosa,

os seus seios te saciem todo o tempo;

e pelo seu amor sejas

atraído perpetuamente.

E por que, filho meu,

te deixarias atrair por outra mulher,

e te abraçarias ao peito de uma estranha?(Provérbios 5:18-20)

O pai aconselha o filho a se embriagar com o amor da própria esposa. A exclusividade aqui não é restrição, mas o lugar onde o prazer é seguro. O trecho inteiro, em Provérbios 5:15-20, desenvolve a imagem da água da própria cisterna.

Uma só carne e a fidelidade: o que Malaquias diz

Malaquias escreve num tempo em que homens de Judá abandonavam as esposas da juventude — e vai buscar o argumento em Gênesis 2.

E não fez ele somente um, ainda que lhe sobrava o espírito? E por que somente um? Ele buscava uma descendência para Deus. Portanto guardai-vos em vosso espírito, e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade.(Malaquias 2:15)

O versículo é difícil no hebraico, mas o fio é claro: Deus "fez um" e esperava disso uma descendência que lhe pertencesse. Quem é infiel à mulher da sua mocidade está desfazendo o que Deus fez. No versículo anterior, Malaquias a chama de «a mulher da tua aliança» (Malaquias 2:14) — berit, a mesma palavra da aliança de Deus com Israel. E no versículo 16 Deus diz que odeia o repúdio — na NVI, «o divórcio» (Malaquias 2:16, NVI). Não porque odeie pessoas divorciadas, mas porque romper o que ele uniu é violência contra algo que ele valoriza.

Uma só carne, divórcio e novo casamento

Quem busca "uma só carne" muitas vezes está perguntando se a união pode ser desfeita. Aqui é preciso ser honesto sobre o que a Bíblia diz e sobre onde cristãos sinceros leem diferente.

O que está escrito: Jesus admite uma exceção — a imoralidade sexual, porneia — e diz que quem se divorcia por outro motivo e casa de novo comete adultério (Mateus 19:9). Paulo diz que, se o cônjuge descrente abandona o cristão, este não está preso (1 Coríntios 7:12-16).

Onde as leituras se dividem: a maior parte da tradição evangélica histórica — a Confissão de Westminster é o exemplo mais conhecido — entende que infidelidade sexual e abandono por um descrente são motivos legítimos para divórcio e novo casamento. A tradição católica, e parte das igrejas evangélicas, entende que a aliança permanece enquanto os dois viverem. Outras correntes ampliam as exceções para incluir abuso e abandono em geral.

Nenhuma trata o divórcio como neutro, e nenhuma nega que "uma só carne" é o padrão. A diferença está em como lidar quando o padrão foi rompido. Quem está nessa situação precisa de um pastor que conheça a história toda, não de um artigo.

Como "uma só carne" funciona no dia a dia

Paulo escreve a frase abaixo para a igreja, mas ela vale com força maior para dois que são uma só carne:

Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros.(Efésios 4:25)

A razão para não mentir é que "somos membros do mesmo corpo". No casamento, mentira — inclusive a omissão confortável — é divisão dentro de algo que deveria ser um.

Deixar pai e mãe também vira prática: decisão importante se toma com o cônjuge antes de consultar os pais; dinheiro é do casal; quando a família de origem critica o cônjuge, a lealdade é com o cônjuge. Nada disso é frieza com os pais; é a nova família ter seu próprio centro.

E o que mantém dois pecadores unidos por décadas?

E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição. E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos.(Colossenses 3:14,15)

O amor como o que amarra tudo; a paz de Cristo como árbitro quando os dois discordam. É a descrição de um casal que, quando briga, tem uma instância acima dos dois a quem recorrer.

O versículo de onde tudo vem

Jesus citou. Paulo citou duas vezes. Malaquias se apoiou nele. Em cada caso, Gênesis 2:24 foi lido como a palavra definitiva sobre o que o casamento é: deixar, unir-se, tornar-se uma só carne — por obra de Deus, que ajunta os dois.

Quem quiser entender a expressão até o fim deve ler a cena completa, do homem só até a mulher que lhe é trazida, em Gênesis 2.

"Uma só carne" acontece no casamento ou na relação sexual?

Nas duas coisas. Em Gênesis 2:24 ela é resultado de deixar pai e mãe e unir-se — uma aliança. Em 1 Coríntios 6:16 Paulo a usa para a união sexual. A aliança constitui a união e o sexo a expressa; sexo sozinho não cria casamento, mas tampouco é ato sem consequência.

Por que o texto diz que o homem deixa pai e mãe, e não a mulher?

No mundo de Gênesis, era a mulher que saía da casa dos pais. O texto inverte a expectativa, o que sugere que "deixar" não é mudança de endereço, mas de lealdade — e Jesus e Paulo aplicam o princípio aos dois cônjuges.

Casal que vive junto sem casar é uma só carne?

A Bíblia não conhece a categoria moderna de "união estável". O que ela mostra é que "uma só carne" envolve compromisso reconhecido pela comunidade, lealdade exclusiva e união dos corpos. Uma relação que tem só a terceira tem parte do que o texto descreve, não o todo.

Quem se divorciou ainda é "uma só carne" com o ex-cônjuge?

Depende da leitura. Quem entende o casamento como indissolúvel diz que sim. A maior parte da tradição evangélica histórica entende que o divórcio, nos casos que Jesus e Paulo admitem (Mateus 19:9; 1 Coríntios 7:15), rompe a união e a pessoa fica livre. As duas concordam que a ruptura é grave.

Casal que não pode ter filhos é menos "uma só carne"?

Não. Gênesis 2:24 não menciona filhos; a razão dada para a união é a solidão (Gênesis 2:18). Malaquias 2:15 fala de descendência como algo que Deus deseja da união, mas não a condiciona a isso. Isaque e Rebeca ficaram vinte anos sem filhos e eram marido e mulher o tempo todo.

Luis Carlos De Souza
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