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Os 3 reis magos na Bíblia: o que diz o texto de Mateus?

Três homens de costas, com coroas e mantos ornamentados, carregam bolsas sob um céu estrelado.

A Bíblia não diz que eram três, nem que eram reis

Mateus, o único evangelista que conta a história, chama esses homens de "magos vindos do Oriente" — e é só isso que ele diz sobre eles. Não dá número, não dá nome, não os chama de reis. O "três" é dedução antiga a partir dos três presentes (ouro, incenso e mirra); o "reis" veio depois, quando a igreja ligou a visita a profecias que falam de reis trazendo presentes; e os nomes Belchior, Gaspar e Baltazar só aparecem em textos de uns quinhentos anos mais tarde.

Nada disso é mentira grave. Mas vale saber separar o que está na página do que foi acrescentado pela tradição, porque o que Mateus escreveu é mais surpreendente do que a versão de presépio.

Τοῦ δὲ Ἰησοῦ γεννηθέντος ἐν Βηθλεὲμ τῆς Ἰουδαίας, ἐν ἡμέραις Ἡρῴδου τοῦ βασιλέως, ἰδού, μάγοι ἀπὸ ἀνατολῶν παρεγένοντο εἰς Ἱεροσόλυμα, λέγοντες, Ποῦ ἐστὶν ὁ τεχθεὶς βασιλεὺς τῶν Ἰουδαίων; Εἴδομεν γὰρ αὐτοῦ τὸν ἀστέρα ἐν τῇ ἀνατολῇ, καὶ ἤλθομεν προσκυνῆσαι αὐτῷ.(Κατα Ματθαιον 2:1,2)

Olha o que o texto diz e o que não diz. Diz que eram homens de fora, de uma terra para o leste de Israel. Diz que estudavam o céu e viram uma estrela. Diz que entenderam aquilo como sinal de um rei nascido entre os judeus — e que fizeram uma viagem longa para se prostrar diante dele. Não diz quantos eram, nem de que país, nem como se chamavam.

Quem eram os magos e de onde vieram

A palavra grega é mágoi. No mundo antigo, ela não significava "mágico" nem "feiticeiro" no sentido de circo. Designava uma classe de sábios da Pérsia e da Babilônia: homens que estudavam os astros, interpretavam sonhos e serviam como conselheiros de reis. Eram, grosso modo, o que hoje chamaríamos de astrônomos, astrólogos e eruditos — tudo junto, porque na época essas coisas não eram separadas.

Esse grupo aparece em outro lugar da Bíblia. Em Daniel 2, o rei Nabucodonosor convoca os "magos, astrólogos, encantadores e caldeus" da Babilônia para interpretar um sonho, e no fim do capítulo Daniel, um judeu exilado, é posto como chefe de todos eles. É uma pista interessante: séculos antes de Jesus, houve sábios da Babilônia que tiveram contato direto com a fé de Israel e com suas promessas de um rei vindouro.

"Oriente", para quem morava em Judeia, apontava justamente para lá: a Mesopotâmia, a Pérsia, a Arábia. Mateus não escolhe um país. A leitura mais comum entre os estudiosos é Pérsia ou Babilônia, por causa do uso da palavra mágoi; uma leitura alternativa, baseada nos presentes, sugere a Arábia, de onde vinham o incenso e a mirra. O texto permite as duas e não decide.

O que importa para Mateus não é a nacionalidade. É que eram gentios — gente de fora do povo de Israel — e foram os primeiros a reconhecer o rei dos judeus.

Como a visita aconteceu, passo a passo

Mateus conta a história inteira em doze versículos, e ela tem uma ordem clara.

Os magos chegam a Jerusalém, não a Belém. Faz sentido: se nasceu um rei dos judeus, o lugar óbvio para procurá-lo é a capital, no palácio. Eles perguntam abertamente pela cidade, e a pergunta chega aos ouvidos de Herodes.

Herodes "se perturbou, e toda a Jerusalém com ele". Ele era rei por nomeação de Roma, não por descendência de Davi, e tinha fama de eliminar qualquer ameaça ao trono — inclusive dentro da própria família. Um "rei dos judeus" recém-nascido era, para ele, um problema a resolver.

Então Herodes reúne os sacerdotes e os escribas e pergunta onde o Messias deveria nascer. Eles respondem com a profecia de Miqueias 5:2: em Belém de Judá. Vale notar a ironia que Mateus deixa à mostra: os líderes religiosos sabiam exatamente onde procurar — e ninguém foi. Os estrangeiros foram.

Herodes chama os magos em segredo, pergunta quando a estrela apareceu e os manda a Belém com um pedido falso: "quando o encontrarem, avisem-me, para que eu também vá adorá-lo".

Na saída de Jerusalém, a estrela reaparece e vai adiante deles até parar sobre o lugar onde a criança estava. Mateus diz que eles se alegraram "com grande e intenso júbilo" — a tradução é fraca para o original, que empilha palavras de alegria uma sobre a outra.

Mulher com bebê no colo recebe à porta de casa três homens ajoelhados com baús de moedas.

Eles entram numa casa — não num estábulo. Mateus usa a palavra oikía, casa, e chama Jesus de paidíon, "criança", não de "recém-nascido". Isso sugere que já havia passado algum tempo desde o nascimento; a família tinha se instalado em Belém. Depois, quando Herodes manda matar os meninos de Belém, ele fixa a idade em "dois anos para baixo", calculada pelo tempo que os magos tinham dito sobre a estrela. Os magos provavelmente não estavam na noite do nascimento, junto com os pastores de Lucas. Chegaram semanas ou meses depois.

Dentro da casa, eles se prostram, adoram e abrem os presentes. E aí Deus intervém:

Καὶ χρηματισθέντες κατ᾿ ὄναρ μὴ ἀνακάμψαι πρὸς Ἡρῴδην, δι᾿ ἄλλης ὁδοῦ ἀνεχώρησαν εἰς τὴν χώραν αὐτῶν.(Κατα Ματθαιον 2:12)

Voltam para casa por outro caminho, sem passar por Jerusalém. Herodes, percebendo que foi enganado, ordena o massacre dos meninos de Belém; José, também avisado em sonho, já tinha fugido com Maria e Jesus para o Egito. Essa parte da história está em Mateus 2, logo depois da visita.

O que era a estrela

Mateus não explica a estrela, e isso abre espaço para muita especulação. Vale separar o que o texto permite do que é palpite.

O texto diz três coisas: que os magos a viram no Oriente, que a interpretaram como sinal do nascimento de um rei judeu, e que, na saída de Jerusalém, ela os guiou até o lugar exato. A última parte é a mais difícil de explicar com astronomia comum — um planeta no céu não "para sobre" uma casa.

As explicações se dividem em dois grupos. Alguns estudiosos buscam um fenômeno natural: uma conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes (que ocorreu por volta de 7 a.C.), um cometa registrado por astrônomos chineses, ou uma supernova. Outros entendem que foi um sinal sobrenatural, uma luz que Deus deu especificamente para aqueles homens — e lembram que Mateus a chama de "estrela" porque era assim que eles a descreviam, não porque fosse um astro comum.

A teologia evangélica histórica, da qual escrevo, não fecha a questão. O ponto de Mateus não é a física do sinal, e sim a quem ele apontou. E aqui há um pano de fundo bíblico que os magos talvez conhecessem, por causa de judeus que viviam na Mesopotâmia desde o exílio:

Essa profecia de Balaão — um vidente estrangeiro, do lado do Eufrates — era lida há séculos como promessa de um rei para Israel. Que outros estrangeiros do mesmo lado do mundo tenham visto uma estrela e entendido "nasceu um rei em Israel" é exatamente o tipo de ligação que Mateus gosta de fazer sem precisar explicar.

O significado do ouro, do incenso e da mirra

Este é o versículo que todo mundo lembra, e ele é o centro da passagem:

Καὶ ἐλθόντες εἰς τὴν οἰκίαν, εὗρον τὸ παιδίον μετὰ Μαρίας τῆς μητρὸς αὐτοῦ, καὶ πεσόντες προσεκύνησαν αὐτῷ, καὶ ἀνοίξαντες τοὺς θησαυροὺς αὐτῶν προσήνεγκαν αὐτῷ δῶρα, χρυσὸν καὶ λίβανον καὶ σμύρναν.(Κατα Ματθαιον 2:11)

Primeiro, o que esses três eram na época — porque a leitura simbólica só faz sentido depois do significado literal.

Ouro era ouro: o metal mais valioso, presente digno de rei, e também o que uma família pobre com uma criança pequena mais precisaria para uma fuga repentina para o Egito.

Incenso (em grego líbanos, o olíbano) era uma resina perfumada extraída de árvores do sul da Arábia. Era caríssimo e tinha uso principalmente religioso — queimado em templos, inclusive no Templo de Jerusalém, onde entrava na composição do incenso sagrado (Êxodo 30:34).

Mirra era outra resina aromática da mesma região, amarga, usada como perfume, como remédio e, sobretudo, no preparo dos corpos para o sepultamento.

Agora a leitura tradicional. Desde os primeiros séculos, a igreja viu nos três presentes um retrato de quem Jesus é: o ouro reconhece o rei; o incenso, que se oferece a Deus, reconhece a divindade; a mirra, que se usa nos mortos, antecipa a cruz. Essa leitura ganhou peso porque a mirra de fato volta no fim da história: Jesus recusa vinho com mirra na cruz (Marcos 15:23) e seu corpo é preparado com mirra e aloés (João 19:39).

Isso aqui é importante: essa interpretação é bonita e coerente com o restante do evangelho, mas é interpretação. Mateus não explica os presentes. O que ele registra é que homens de fora trouxeram ao menino os bens mais preciosos do mundo deles e se prostraram. Se os presentes "significam" algo no texto, é isto: tratamento de rei dado por quem não tinha obrigação nenhuma de dá-lo.

De onde veio a ideia de que eram reis

A resposta está em duas passagens do Antigo Testamento que a igreja antiga leu olhando para a visita dos magos.

Isaías 60 descreve as nações vindo à luz de Jerusalém, com camelos de Midiã e Efá e gente de Sabá trazendo ouro e incenso. O Salmo 72 pede que reis de terras distantes se curvem diante do rei de Israel e lhe tragam presentes. Quando cristãos dos primeiros séculos leram Mateus 2 com essas passagens na memória, a conclusão veio quase sozinha: ouro e incenso, de terras distantes, trazidos a um rei de Israel — logo, os magos eram esses "reis".

Tertuliano, por volta do ano 200, escreveu que no Oriente os magos eram tratados "quase como reis". Dali para chamá-los simplesmente de reis foi um passo. Orígenes, pouco depois, fixou o número em três, provavelmente pelos presentes. Os nomes Belchior, Gaspar e Baltazar aparecem pela primeira vez em textos latinos do século VI, e a tradição ainda deu a cada um uma origem (Europa, Ásia, África) para representar os povos do mundo conhecido. A festa que celebra a visita, a Epifania, ficou em 6 de janeiro, por isso a data virou o "Dia de Reis".

Nada disso está em Mateus. Mas vale notar que a tradição não inventou do nada: ela leu o episódio à luz das profecias que o próprio Mateus convida a ler. Que os magos cumprem o espírito de Isaías 60 e do Salmo 72 é uma leitura cristã legítima e antiga; que eles fossem literalmente três monarcas coroados é acréscimo.

Por que Mateus conta essa história

Mateus escreveu seu evangelho em grande parte para leitores judeus, mostrando que Jesus é o Messias prometido. É curioso, então, que ele abra a vida de Jesus com estrangeiros.

Mas é de propósito. Olha o contraste que ele monta: Herodes, o rei dos judeus de fato, quer matar a criança. Os sacerdotes e escribas, que conhecem a profecia de cor, não andam os dez quilômetros até Belém. E uns pagãos do Oriente, guiados por um sinal no céu e por uma fé que não tinha nem Bíblia completa, atravessam o deserto para se ajoelhar.

Esse é o tema que Mateus vai desenvolver até a última página, quando o Jesus ressuscitado manda os discípulos fazerem discípulos "de todas as nações" (Mateus 28:19). Os magos são as primeiras dessas nações. Eles aparecem no começo para dizer: este rei não é só de Israel.

E há uma lição que fica para quem lê hoje. Ter acesso ao texto não é a mesma coisa que ir até ele. Os escribas tinham Miqueias 5 decorado e ficaram em Jerusalém. Os magos tinham um sinal incompleto e foram. Mateus deixa o leitor decidir com qual dos dois grupos se parece.

Quem adorou primeiro

No fim, o que a Bíblia diz sobre os reis magos cabe num versículo: homens de fora entraram numa casa, viram uma criança com a mãe, se prostraram e abriram o que tinham de melhor. Não eram três de forma garantida, não eram reis, e seus nomes se perderam. O que ficou foi o gesto — e Mateus achou que isso bastava.

Leia Mateus 2 completo: a visita, a fuga e o retorno do Egito estão todos ali, em um capítulo só.

Os reis magos estavam no presépio junto com os pastores?

Provavelmente não. Os pastores, em Lucas 2, chegam na noite do nascimento, com a criança na manjedoura. Os magos, em Mateus 2, encontram a família numa casa, e Herodes depois manda matar os meninos de até dois anos com base no que eles disseram sobre a estrela. Isso indica que a visita aconteceu semanas ou meses depois do nascimento. O presépio que junta todo mundo é uma síntese das duas histórias, não uma cena que a Bíblia descreve.

Quantos reis magos eram, segundo a Bíblia?

A Bíblia não diz. Mateus usa só o plural "magos". O número três vem dos três presentes e foi fixado pela tradição a partir do século III. Em algumas igrejas orientais a tradição fala em doze.

De onde vêm os nomes Belchior, Gaspar e Baltazar?

De textos cristãos latinos do século VI, uns quinhentos anos depois de Mateus. A Bíblia não dá nome a nenhum dos magos. Os nomes e a ideia de que cada um vinha de um continente diferente são tradição posterior, não registro bíblico.

Os magos eram astrólogos? A Bíblia não condena a astrologia?

Eram homens que estudavam os astros, sim, e o Antigo Testamento condena consultar os céus para prever o futuro (Deuteronômio 18:10-12, Isaías 47:13). Mateus não comenta isso. O que ele mostra é Deus usando o que aqueles homens sabiam ler — o céu — para levá-los a Jesus, e depois falando com eles diretamente, em sonho. A história não aprova a astrologia; mostra Deus alcançando gente onde ela está.

O que aconteceu com os magos depois?

A Bíblia não conta. Mateus diz apenas que voltaram para sua terra por outro caminho, para evitar Herodes, e não os menciona mais. Tradições posteriores falam em conversão, martírio e relíquias guardadas na catedral de Colônia, na Alemanha, mas nada disso tem base no texto bíblico.

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